Taifalos

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Taifalos (em latim: Taifali, Taifalae ou Theifali) foram um povo de origem germânica ou sármata, documentado pela primeira vez ao norte do Danúbio Inferior em meados do século III. Eles experimentaram uma história agitada e fragmentada, em grande parte associada aos povos góticos, e alternativamente lutando contra ou pelos romanos. No final do século IV, alguns taifalos foram assentados dentro do Império Romano, notadamente na Gália Ocidental, em Poitou. Eles subsequentemente forneceram unidades montadas para o exército romano e continuaram a ser uma fonte significativa de cavalaria para os exércitos merovíngios precoces. Pelo século VI, a região deles na Gália Ocidental adquiriu uma identidade distinta como Tifália.

História[editar | editar código-fonte]

Estabelecimento na Oltênia[editar | editar código-fonte]

Taifalos na Oltênia e o panorama político do Danúbio Inferior no século IV
Soldo de Constantino, o Grande (r. 306–337)

Uma das menções mais antigas aos taifalos coloca-os como seguidores do rei gótico Cniva, quando ele realizou campanha na Dácia e Mésia em 250 e nos anos subsequentes.[1] Eles são às vezes classificados como uma tribo germânica intimamente relacionada aos godos, embora alguns acreditem que eram relacionados aos sármatas não-germânicos, com quem podiam ter emigrado das estepes da Ásia Central.[a] No final do século III, assentaram-se no Danúbio em ambos os lados dos Cárpatos, dividindo o território com os godos, que mantiveram autoridade política sobre todo o território.[2] Na primavera de 291, estabeleceram uma aliança especial com os tervíngios góticos, formando uma confederação tribal que perdurou até 376,[3] e lutaram contra vândalos e gépidas, como relatado nos Panegíricos Latinos;[4] o registro arqueológico do período sugere que a Transilvânia, a região em torno do rio Szamos, estava sob litígio entre os gépidas e os tervíngios e taifalos. Como relatado pelas fontes latinas, mais tardar pelos anos 360, victúfalos, taifalos e tervíngios estiveram em controle da antiga província romana da Dácia.[5]

Em 328, o imperador romano Constantino, o Grande (r. 306–337) conquistou a Oltênia e os taifalos, e provavelmente tomou essa oportunidade para reassentar muitos deles na Frígia, na diocese de Nicolau de Mira. Em 332, ele enviou seu filho Constantino II (r. 317–340) para atacar os tervíngios, que estavam em marcha. Segundo Zósimo,[6] um regimento de 500 cavaleiros taifalos confrontou Constantino II.[7][8] Em torno de 336, os taifalos revoltaram-se contra Constantino e foram suprimidos pelos generais Herpílio, Vírio Nepociano e Urso.[9][10] Por 358, independentes dos godos,[11] tornar-se-iam federados na Oltênia,[12] que permaneceria fora do controle romano.[13] De suas próprias bases oltênicas, ajudaram os romanos em suas campanhas contra os limigantes (358 e 359) e sármatas (358),[14] porém inibiram as campanhas do imperador Valente (r. 364–378) contra os tervíngios em 367 e 368,[13] talvez por ainda estarem militarmente aliados a eles.[15] Em 365, Valente ordenou a construção de torres defensivas na Dácia Ripense, mas se isso era a Oltênia é incerto.[16] A evidência arqueológica indica que não havia assentamentos taifalos a oeste do rio Olt.[3]

Travessia do Danúbio[editar | editar código-fonte]

Soldo do imperador Valente (r. 364–378)

Por meados do século IV, os taifalos aparecem saqueando a Dácia ao lado dos jáziges e carpos. Contudo, a chegada de uma nova ameaça - os hunos - da Ásia Central mudou a configuração política da região: segundo Ambrósio de Milão, "os hunos jogaram-se sobre os alanos, os alanos sobre os godos, e os godos sobre os taifalos e sármatas."[17][18] Por 376, Atanarico (r. 365–376/381), rei dos tervíngios, recusou-se a estender suas edificações defensivas para o território taifaliano[19] e entrou em conflito com eles. Esse rompimento da antiga aliança entre a Tervíngia e a Taifália pode ter algo a ver com desacordos a respeito das táticas de combate contra os hunos e a travessia do Danúbio, já que os taifalos arregimentavam principalmente cavalaria e os tervíngios infantaria.[20] Seja como for, dada as circunstâncias, os hunos conseguiram forçar os taifalos a abandonar a Oltênia e a Muntênia Ocidental.[21][22] No mesmo ano, eles aliaram-se com os grutungos de Farnóbio contra o imperador Valente (r. 364–378) e cruzaram o Danúbio. Eles seriam derrotados em 377 pelas forças do general Frigérido.[23][24][25]

Colonos e letos imperiais[editar | editar código-fonte]

Padrão dos escudos dos cavaleiros taifalos juniores de Honório segundo a Notitia Dignitatum

No rescaldo da derrota nas mãos de Frigérido, os taifalos foram oficialmente reassentados como colonos no norte da Itália (Módena, Parma, Régio) e na Aquitânia;[24] a abandonada Oltênia, por outro lado, foi ocupada pelos hunos ca. 400.[26] Por esta época os taifalos professavam o paganismo e só viriam a converter-se ao catolicismo mais adiante, em meados do século V, por intermédio do evangelismo romano.[27] Segundo Amiano Marcelino, eles praticavam práticas sociais que, segundo o autor, eram libidinosas e obscenas, como a pederastia.[28][b]

Segundo a Notitia Dignitatum do começo do século V, havia uma unidade chamada de cavaleiros taifalos (em latim: equites taifali) criada por Honório (r. 395–423) sob o comando do conde da Britânia.[29] Possivelmente essa unidade pode ter sido enviado para a ilha por Estilicão em 399, e eles podem ter sido os mesmos cavaleiros seniores de Honório (em latim: Equites Honoriani seniores) mencionados cerca da mesma época.[30]

Assim, os cavaleiros taifalos seniores de Honório serviram na Britânia, enquanto os cavaleiros taifalos juniores de Honório serviram na Gália sob o mestre da cavalaria. Os taifalos juniores utilizavam um dragão com uma pérola sobre seus escudos.[30] A Notitia também lista uma unidade chamada condes dos taifalos (Comites Taifali) no Império Bizantino, que foi provavelmente formada no reinado de Teodósio I (r. 378–395).[31]

Presença na Gália franca[editar | editar código-fonte]

Fivela do primeiro tesouro de Coşoveni, século V. Possivelmente taifalo, descoberto em Coşoveni, Oltênia, România
Arreios metálicos do primeiro tesouro de Coşoveni, século V

Segundo a Notitia, havia um prefeito dos povos sármatas e taifalos (em latim: praefectus Sarmatarum et Taifalorum gentilium) sediado em Pictávio, na Gália.[32] Cerca de 476, com a expansão visigótica para os rios Reno e Loire sob o rei Eurico (r. 466–484), os taifalos foram incorporados ao Reino Visigótico.[33] Em 507, eles foram instrumentais na derrota da cavalaria visigótica de Alarico II (r. 485–507) na Batalha de Vouillé contra os invasores francos de Clóvis I (r. 481–511).[34] No século VI, a região dos taifalos passou a chamar-se Tifália ou País Teofálgico (Theofalgicus pagus) e tinha seu próprio duque.[35]

É possível que os letos taifalos que serviram os romanos também serviram como guarnições francas, mas isso não é referido nas fontes primárias.[36] Apesar disso, sabe-se que os letos foram formalmente integrados no exército merovíngios estabelecido por Quildeberto I (r. 511–558).[37] Gregório de Tours, a principal fonte aos taifalos no século VI, diz que um cero duque franco chamado Austrápio oprimiu-os (provavelmente nas proximidades de Tifauges); eles revoltaram-se e o mataram.[38] A última menção aos taifalos como um povo distingo remonta ao ano 565,[27] mas seus remanescentes oltênicos certamente participaram da migração lombarda e invasão da Itália em 568 sob Alboíno.[39]

O taifalo mais famoso foi São Senoque de Tifauges, que fundou uma abadia nas ruínas romanas atualmente localizadas em São-Senoque.[40] A influência dos taifalos e também dos sármatas ao longo dos séculos teria influenciado as artes germânicas,[41] sendo perceptível até ao menos o século IX. Suas fortalezas, principalmente Tifauges e Lusignan, inclusive permaneceram em uso durante o Império Carolíngio.[42] Eles também deixaram sua marca na nomenclatura da região: além de Tifauges, Tafalesca em Corrèze, Tufailes e Tufailu na Aquitânia e Taifáilia na Borgonha. Talvez a cidade de Tafala em Navarra derive seu nome destes povos, mas caso o seja, é incerto se os taifalos foram estabelecidos na Hispânia (talvez para subjugar os bascos) pelos romanos antes de 412 ou pelos visigodos depois disso. A cidade de Taivola no norte da Itália também deriva seu nome deles.[43]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ J. Otto Maenchen-Helfen diz que "não há evidências de que foram germânicos".[21] O. M. Dalton relata-os como "provavelmente de descendência asiática".[44] Herwig Wolfram menciona a hipótese de origem vândala que igualiza os taifalos com os lacringos e considera "taifalos" como um "nome cultual" céltico.[1]
[b] ^ David Greenberg supõe que esta menção na obra de Amiano Marcelino refere-se a práticas de ritualística homossexual entre a classe guerreira dos taifalos.[45]

Referências

  1. a b Wolfram 1990, p. 45.
  2. Wolfram 1990, p. 51.
  3. a b Wolfram 1990, p. 91.
  4. Thompson 1966, p. 9 n2.
  5. Wolfram 1990, p. 57ff.
  6. Zósimo século VI, II.31.3.
  7. Thompson 1966, p. 11 e n3.
  8. Wolfram 1990, p. 61 e n141.
  9. Barnes 1974, p. 226.
  10. Barnes 1975, p. 331-332.
  11. Musset 1975, p. 1975.
  12. Thompson 1966, p. 4.
  13. a b Thompson 1966, p. 13.
  14. Wolfram 1990, p. 63.
  15. Wolfram 1990, p. 67.
  16. Thompson 1966, p. 14 n1.
  17. Ambrósio de Milão século IV, X.10.
  18. Maenchen-Helfen 1973, p. 20.
  19. Wolfram 1990, p. 71.
  20. Wolfram 1990, p. 99.
  21. a b Maenchen-Helfen 1973, p. 26 e n50.
  22. Wolfram 1990, p. 408 n225.
  23. Nort 2007, p. 202.
  24. a b Wolfram 1990, p. 123.
  25. Martindale 1971, p. 324.
  26. Vékony 2000, p. 159.
  27. a b Wolfram 1990, p. 238.
  28. Amiano Marcelino 397, XXXI.IX.V.
  29. Wolfram 1990, p. 478 n562.
  30. a b Nickel 1991, p. 139.
  31. Nischer 1923, p. 51.
  32. Bachrach 1971, p. 12 n30.
  33. Fouracre 2005, p. 167-171.
  34. Bachrach 1971, p. 17.
  35. Bachrach 1971, p. 29 e 38.
  36. Gregório de Tours 1967, I.226.
  37. Gregório de Tours 1967, I.44.
  38. Gregório de Tours 1967, IV.18.
  39. Musset 1975, p. 88.
  40. Gregório de Tours 1967, V.7.
  41. Gregório de Tours 1967, I, 172 n7.
  42. Bachrach 1974, p. 24.
  43. Wolfram 1990, p. 92.
  44. Gregório de Tours 1967, I.172.7.
  45. Greenberg 1988, p. 243.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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