A Interpretação dos Sonhos

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A Interpretação dos Sonhos, publicado em 1899 com a data 1900, é um livro de Sigmund Freud que aborda, na época da publicação de uma forma inovativa, os processos inconscientes, pré-conscientes e conscientes envolvidos nos sonhos, incluindo sonhar, recordar e relatar o sonho. O livro explica o argumento para postular o novo modelo do inconsciente e desenvolve um método para conseguir acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas de hipnose[1] e com o tratamento da histeria através da técnica de associação livre, isto é, o paciente fala o que lhe ocorre no momento. Essa técnica foi transposta para as associações em relação ao conteúdo do sonho.

Aspectos da obra[editar | editar código-fonte]

O livro marcou a virada entre os séculos XIX e XX, e foi o mais importante estudo psicanalítico de Freud. É nessa obra que apresenta suas ideias inéditas sobre os sonhos — "caminho para o conhecimento do inconsciente" — explicando de onde eles vêm, por que ocorrem, como funcionam. Chamou de "conteúdo manifesto" o que é lembrado de um sonho. Mas é do pensamento do sonho e não do conteúdo manifesto que depreendemos seu sentido. Os sonhos já eram objeto de estudo desde a antiguidade. A pesquisa psicanalítica inovou ao investigar as relações entre conteúdo manifesto e pensamentos oníricos latentes. Os pensamentos do sonho equivalem aos processos inconscientes. O método psicanalítico de interpretação dos sonhos requer, em primeiro lugar, as associações daquele que sonhou. Esse método investiga os processos pelos quais os pensamentos do sonho se transformaram em conteúdos manifestos do sonho.[2] Metaforicamente, podemos dizer que os sonhos abrem uma janela para o inconsciente.

O que Freud observou abalou uma visão centrada na consciência e criou uma nova teoria sobre a natureza humana: o desejo inconsciente, a sexualidade infantil, a metáfora da castração e a retomada de um mito, com o qual elaborou, mais tarde, o conceito decomplexo de Édipo. Nos seis primeiros anos, foram vendidos apenas algumas centenas de exemplares. Seus leitores recuaram e o próprio Freud admitiu que suas ideias "desconcertavam as pessoas". Ainda assim, defendeu o trabalho com sonhos como sendo o "alicerce mais seguro da psicanálise".[1]

Método Freudiano[editar | editar código-fonte]

A Psicanálise é um método de tratamento psíquico e de investigação do inconsciente desenvolvido por Sigmund Freud (1856-1939). Freud iniciou seu trabalho usando o hipnotismo com o objetivo de fazer com que as pacientes reproduzissem as situações traumáticas que estavam na origem de seus sintomas.

Posteriormente, descobriu que os pacientes não precisavam ser hipnotizados e que a recordação sem os recursos da sugestão, ou seja, através da fala em associação livre, era um método mais eficaz para eliminar, alterar ou diminuir os sintomas.

Mais tarde, Freud chegou ao método psicanalítico propriamente dito, e passou a orientar a seus pacientes que falassem sobre qualquer coisa que lhes viessem à mente, mesmo que pudesse parecer sem importância, sem relação com seus problemas, ou que fossem reprováveis. Esta é a "regra fundamental" da psicanálise, que é apresentada a cada paciente e com a qual todo paciente deve colaborar. Freud descobriu que todos esses pensamentos, lembranças, fantasias, tinham relação com os sintomas. Freud acreditou no valor das palavras e propôs aos pacientes a recordação e até mesmo a "construção" como método de tratamento psíquico. Descobriu que o sintoma tem um sentido, ou múltiplos sentidos que foram esquecidos pelo sujeito ou que nunca lhe foram conscientes. Para a psicanálise, os sintomas psíquicos são formas substitutivas de satisfação e estão relacionados à sexualidade infantil reprimida.

Condensação[editar | editar código-fonte]

O conteúdo manifesto é menor do que o conteúdo latente. O contrário nunca acontece. Pode ocorrer de diferentes formas. Com o ocultamento de alguns acontecimentos do sonho latente, permitindo alguns fragmentos do conteúdo latente no sonho manifesto ou combinando vários elementos do conteúdo latente num único elemento do conteúdo manifesto.[3]

Deslocamento[editar | editar código-fonte]

O processo de deslocamento de intensidade psíquica é resultado da ação de uma força psíquica que atuará em dois sentidos: retirando a intensidade de elementos que possuem alto valor psíquico e criando, a partir de elementos com baixo valor psíquico, novos valores que vão penetrar no conteúdo dos sonhos. Juntamente com o processo de condensação, o deslocamento é um dos fatores dominantes que determinam a diferenciação entre o pensamento dos sonhos e o conteúdo dos sonhos. No livro, Freud, ao analisar um de seus sonhos, o "sonho da monografia de botânica", oferece um exemplo desse processo: "o ponto central do sonho era, evidentemente, o elemento "botânica", ao passo que os pensamentos do sonho concerniam às complicações e conflitos que surgem entre colegas por sua obrigações profissionais, e ainda à acusação de que eu tinha o hábito de fazer sacrifícios demais em prol de meus passatempos". O elemento "botânica", por si só, não ocupava um lugar central nos pensamentos dos sonhos (possuía baixo valor psíquico), mas foi sobredeterminado (repetido uma série de vezes), fazendo com que adquirisse novo valor, podendo remeter ao central dos pensamentos dos sonhos: atuou como uma "ponte" que uniu o conteúdo dos sonhos a seus pensamentos.

Influência da teoria freudiana na cultura[editar | editar código-fonte]

Cidadão Kane[editar | editar código-fonte]

Um exemplo dos processos de condensação e deslocamento pode ser observado no clássico do cinema “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles. O filme conta a história de um magnata das comunicações no início do século XX, Charles Fortes Kane. A cena inicial mostra-o em seu leito de morte, sussurrando uma palavra: "Rosebud”. A trama do filme se desenrola com a busca do significado de dessa palavra, tarefa que não é realizada. No entanto, na cena final, o espectador descobre que “Rosebud” é o nome de um trenó que pertencia a Kane em sua infância, como se vê na cena onde ele é levado de sua casa por um tutor. O trenó condensava tudo aquilo que Kane perdera, remetendo à sua infância, a companhia materna, seus casamentos, suas amizades. Como esses elementos, pela sua elevada intensidade psíquica, não podiam ser trabalhados psicologicamente por Kane, o trenó, elemento de baixa intensidade psíquica, simbolizava-os. Ocorreu, assim, o processo de deslocamento de intensidade psíquica.

Surrealismo[editar | editar código-fonte]

O Surrealismo foi um movimento artístico surgido em Paris na década de 1920, fortemente influenciado, entre outras correntes de pensamento, pela psicanálise freudiana. O Manifesto Surrealista, publicado em 1924 pelo escritor francês André Breton, reconhece a importância da obra freudiana, na medida em que ela trouxe o sonho, antes relegado a um segundo plano, para o debate intelectual. Como exemplo, podemos citar o pintor espanhol Salvador Dalí, que, ao ver um caramujo em cima de uma bicicleta perto da casa de Freud quando o conheceu, passou a associar o animal à cabeça humana.

Cinema surrealista[editar | editar código-fonte]

O cinema surrealista “buscava a reprodução da lógica dos sonhos e do funcionamento da mente humana, justamente para conseguir atingir o subconsciente do público”. Assim como nos sonhos, os filmes surrealistas,[4] como “O Cão Andaluz” (1929), de Luis Buñuel, não tem nenhuma linearidade temporal e suas cenas não seguem uma continuidade. Para interpretá-lo, é necessário esmiuçá-lo e não tentar entendê-lo como um todo, assim como não se deve interpretar um sonho levando em conta apenas seu conteúdo manifesto.

Referências

  1. a b Thomas, Donald Michael "Os mistérios do inconsciente: as ideias freudianas iluminam o século que se inicia". Nosso Tempo, Volume I, pgs. 6-12. Editora Klick. São Paulo (1995)
  2. Freud, S. (1900a/1990). A Interpretação dos Sonhos. Sigmund Freud. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, v. IV-V.
  3. FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Capítulo VI "O trabalho do sonho”, Obras Completas, vol. V, Rio de Janeiro, Imago, 1972.
  4. LUCINDA, Tatiana Vieira; ALVARENGA, Nilson Assunção. Um Cão Andaluz: lógica onírica, surrealismo e critica da cultura. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2007/resumos/R0081-1.pdf>. Acesso em: 20. jun. 2011.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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