Al-Muizz ben Badis

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al-Muizz ben Badis
Emir zirida da Ifríquia
Governo
Reinado 10161062
Antecessor Badis ben Mansur
Sucessor Tamim ben al-Muizz
Dinastia Ziridas
Vida
Nome de nascimento شرف الدولة المعز بن باديس ; Šaraf al-Dawla al-Muʿizz ben Bādīs
Nascimento 1008
Morte 1062 (54 anos)
Filhos Tamim ben al-Muizz
Pai Badis ben Mansur

Al-Muʿizz ben Bādīs az-Zīrī (em árabe: شرف الدولة المعز بن باديس; transl.: Šaraf al-Dawla al-Muʿizz ben Bādīs;[nt 1] 10081062) foi o terceiro emir zirida de Ifríquia (aproximadamente a atual Tunísia), que reinou entre 1016 e a sua morte.

Tendo herdado um emirado muito reduzido, enfrentou os seus parentes secessionistas Hamaditas, rompeu a vassalagem em relação ao Califado Fatímida do Cairo, submetendo-se à suserania do Califado Abássida de Bagdade e acabou os seus anos praticamente refugiado em Mahdia, após ter sido derrotado pelos Banu Hilal, que provocaram o desmembramento do reino zirida numa série de pequenos emirados. Além de monarca, ben Badis é creditado como autor de uma obra célebre de química, o “Kitab `umdat al-kuttab wa `uddat dhawi al-albab” ("Corpo dos Escribas").

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos; confrontos com Hammad[editar | editar código-fonte]

Al-Muizz tinha apenas oito anos quando da morte do seu pai, Badis (r. 995–1016), a quem sucedeu. O território sob o domínio dos Ziridas tinha sido bastante reduzido durante o reino do seu pai devido às sucessivas secessões dos Ziridas de Granada, que o fizeram perder os territórios na Andaluzia em 1012, e do tio do seu pai, Hammad, que fundou a sua própria dinastia (Hamadita) no noroeste de África. Quando o jovem al-Muizz se tornou emir, o emirado limitava-se à Ifríquia propriamente dita, conservando-se Cairuão como capital.[1]

Hammad, que já tinha ocupado M'Sila e Achir, a antiga capital zirida, fez o cerco de Bugia. Este cerco foi levantado quando Hammad foi informado de que as tropas de al-Muizz marchavam contra ele. Hammad sofreu uma pesada derrota, que o obrigou a abandonar o seu acampamento e o seu irmão Ibrahim às mãos do adversário. Refugiou-se em Qal'a e conseguiu pôr fim às hostilidades. Em 1017, o filho de Hammad apresentou-se a al-Muizz e pediu-lhe que cessasse a guerra.[2]

Em 1019–1020, Zawi ibn Ziri, que se tinha apoderado de Fez durante o reinado de Badis, foi recebido com honras por al-Muizz.[3]

O tratado concluído entre al-Muizz e Hammad reconhecia a este a posse de M'Sila, Tobna, Zab, Achir e Tahert. A paz efetiva foi selada através de casamentos entre as duas famílias. Hammad morreu em 1028 e foi sucedido pelo seu filho al-Qaid. Em 1040–1041, al-Muizz cercou Qal'a, onde se encontrava al-Qaid, durante dois anos. O cerco acabou por ser levantado, tendo al-Muizz regressado a Mahdia e ficado em paz com o seu rival.[3]

Rutura com o Califado Fatímida e invasões hilalianas[editar | editar código-fonte]

Até então os Ziridas tinham sido vassalos fiéis dos Fatímidas do Egito, mas o facto de estes suseranos não terem prestado qualquer apoio ao seu pai para enfrentar as secessões fez com que al-Muizz mudasse de política, talvez por influência do seu primeiro mestre sunita (os Fatímidas eram xiitas) ou para satisfazer a opinião pública hostil ao xiismo na região de Cairuão. Al-Muizz rompeu com os Fatímidas em 1048 e declarou-se vassalo dos Abássidas. Esta declaração de obediência foi mais um sinal de rutura completa com o Cairo do que uma verdadeira união com Bagdade.[4] O emir zirida proferiu publicamente imprecações contra os rawāfiḍ (ou rafiditas; "desertores"),[nt 2] um termo pejorativo para os xiitas, e deu ordem para que estes fossem mortos. Durante um passeio a cavalo, estando a sua montada prestes a cair, ele evocou Abu Bakr e Omar, o que foi interpretado como uma profissão de fé sunita e a multidão se lançou num massacre dos xiitas, descrito como "hediondo".[5] Entretanto, o califa fatímida al-Mustansir Billah enviou as suas repreensões a al-Muizz, que respondeu lançando dúvidas sobre a origem dos califas fatímidas. Al-Muizz proibiu a menção ao nome de al-Mustansir Billah nas mesquitas e mandou queimar as bandeiras do califa.[5]

Em 1045–1046, al-Qa'im, o califa abássida de Bagdade, tendo recebido a carta de aliança de al-Muizz, enviou a este uma carta de investidura que foi lida na Grande Mesquita de Cairuão, onde foram desfraldados os estandartes negros, símbolo dos abássidas.[6] Esta nova aliança com Bagdade marcou uma evolução da Ifríquia, que se orientalizou mais do que o resto do Norte de África. A corte zirida passou a adotar hábitos de luxo e magnificência digna de potentados orientais. O dote da filha de al-Muizz foi carregado por dez mulas e valia um milhão de dinares. Al-Muizz mandou construir vários palácios em al-Mansuriya, a sede da sua corte junto a Cairuão.[4]

Para se vingar desta rutura, o califa fatímida al-Mustansir Billah deixou que os nómadas árabes Banu Hilal, que lhe causavam problemas no sul do Egito, penetrassem na Ifríquia. Desta forma, desembaraçou-se de um problema ao mesmo tempo que punia um rebelde.[7] Esta invasão hilaliana é descrita pelo historiador tunisino do século XIV ibn Khaldun como destruidora da civilização urbana.[nt 3] Os nómadas árabes penetraram nos territórios ziridas e devastaram as cidades e os campos. Al-Muizz enviou um exército para os combater, mas este foi vencido. Ele próprio foi ao encontro dos invasores, mas foi novamente derrotado perto do monte Hayderan, nas vizinhanças de Gabès.[nt 4] O emir zirida refugiou-se em Cairuão, onde foi cercado pelo inimigo que saqueava a região.[10]

Últimos anos em Mahdia[editar | editar código-fonte]

Em 1057, al-Muizz procurou refúgio em Mahdia, sob a proteção do emir hilaliano do clã dos Banu Riyah, cuja filha ele desposara há pouco. Chegado a Mahdia, ficou hospedado na casa do seu filho Tamim, enquanto os Banu Hilal entravam em Cairuão, que saquearam.[10] Durante esta estadia em Mahdia, as revoltas multiplicaram-se no reino zirida. Em 1059, Sfax entregou o poder a um emir Barghawata. A cidade de Sousse proclamou-se independente e Tunes foi tomada por an-Nasir, neto de Hammad e filho de Bologhine, senhor de Qal'a. O governador de Gabès aliou-se a Munés ibn Yahya, o emir dos Banu Riyah.[11]

Al-Muizz ben Badis morreu em 1062, o mesmo ano que o seu rival hamadida Bologhine. O seu filho Tamim ben al-Muizz sucedeu-lhe como quinto emir zirida.

Trabalhos científicos[editar | editar código-fonte]

Al-Muizz é apontado como tendo sido o autor do célebre “Kitab `umdat al-kuttab wa `uddat dhawi al-albab” ("Corpo dos Escribas").[12] É uma obra dividida em 12 capítulos que versa, entre outros assuntos, sobre a excelência da pena, a preparação de vários tipos de tintas, o fabrico de tintas coloridas, metálicas (incluindo as preparadas a partir de limalha de prata e álcool, escrita secreta, fabrico de papel, goma-arábica e cola.[13] [14] [nt 5]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Šaraf al-Dawla ou Charaf al-Daula significa "honra da dinastia".
  2. Rafiditas: em árabe: رافض, rāfiḍ; plural: روافض, rawāfiḍ; "herético", "desertor"; ou رافضي, rāfiḍī, "sectários".
  3. «O país conquistado pelos Árabes não tardou em cair em ruínas.»[8]
  4. O monte Hayderan é uma colina situada a noroeste de Gabès, na estrada para Cairuão. c.f. Ibn Khaldun.[9]
  5. Trecho baseado no artigo «Al-Mu'izz ibn Badis» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).

Referências

  1. Ibn Khaldun (trad. Cheddadi), p. 621
  2. Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 2, «Règne d'El-Moëzz, fils de Badis». p 18
  3. a b Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 2, «Règne d'El-Moëzz, fils de Badis». p 19
  4. a b Julien 1994, «Les dynasties Çanhajiennes et l'invasion Hilalienne». p. 408
  5. a b Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 2, «Règne d'El-Moëzz, fils de Badis». p 20
  6. Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 1, «Les tribus de Hilal et de Soleim, Arabes de la quatrième race, entrent en Afrique». p 32
  7. Julien 1994, «Les dynasties Çanhajiennes et l'invasion Hilalienne». p. 412
  8. Ibn Khaldun (trad. Cheddadi), p. 412
  9. Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 1, «Table géographique». p. lxxxv
  10. a b Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 2, «Règne d'El-Moëzz, fils de Badis». p 21
  11. Ibn Khaldun (trad. de Slane) vol. 2, «Règne d'El-Moëzz, fils de Badis». p 22
  12. Levey 1962
  13. 7. Chemical Technology (em inglês) MuslimHeritage.com Foundation for Science Technology and Civilization. Visitado em 30 de outubro de 2013.
  14. Al-Hassan, Ahmad Y.. Transfer of Islamic technology to the West. Part III. Technology Transfer in the Chemical Industries (em inglês) www.history-science-technology.com History of Science and Technology in Islam. Visitado em 30 de outubro de 2013.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Ibn Khaldun; Cheddadi, Abdesselam (trad.) (século XIV) (em francês), Le livre des Exemples: Autobiographie, Muqaddima. I, Paris: Gallimard (publicado em 2002), pp. 1559, ISBN 9782070114252 

Leitura complementar[editar | editar código-fonte]

  • Ronart, Stephan; Ronart, Nandy (1972) (em alemão), Lexikon der Arabischen Welt. Ein historisch-politisches Nachschlagewerk, Zurique: Artemis Verlag, ISBN 3-7608-0138-2