Domiciano (usurpador)

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Domiciano
Usurpador do Império Romano
Governo
Reinado ca. 271
Antecessor Aureliano (no Império Romano)
Vitorino (no Império das Gálias)
Sucessor Aureliano (no Império Romano)
Tétrico I (no Império das Gálias)
Vida
Morte 271

Domiciano (em latim: Domitianus), chamado de Domiciano II, era provavelmente um soldado romano em meados do século III que foi aclamado imperador no norte da Gália no final de 270 ou início de 271 e que cunhou algumas moedas para celebrar sua ascensão. É amplamente aceito que este Domiciano é o mesmo que foi mencionado por duas vezes nas fontes literárias como uma figura importante na política da época, apesar de nelas ele jamais aparecer como um pretendente direto do trono.

Dado que seu reinado teria durado, na melhor das hipóteses, apenas algumas semanas e ele não parece ter conseguido angariar apoio militar e nem político, Domiciano é melhor classificado como um usurpador romano do que um imperador. Seu "golpe" deve ser, entretanto, compreendido à luz da conturbada história do Império das Gálias do que na do Império Romano em si.

Evidências numismáticas[editar | editar código-fonte]

A única evidência para a existência e o reinado de um pretendente ao trono chamado Domiciano deriva de duas moedas. A primeira fazia parte de um tesouro encontra em Les Cléons, na comuna de Haute-Goulaine, na região do Loire da França em 1900. A autenticidade e importância desta moeda em particular tem sido intensamente debatida e ainda em 1992 Domiciano ainda era considerado "na melhor das hipóteses uma figura conjectural"[1] . A outra foi encontrada fundida numa vasilha juntamente com 5 000 outras moedas do período entre 270 e 275 - o que é uma evidência incontestável para a data - na vila de Chalgrove em Oxfordshire, Inglaterra, em 2003. O conjunto todo foi adquirido pelo Museu Ashmoleano em 2004[2] [3] .

O design de ambas é típico das moedas associadas ao chamado Império das Gálias. Elas eram do tipo radiado e trazem a efígie de Domiciano barbado e vestindo uma coroa radiada (ou espetada), uma referência aos raios do sol do deus romano Sol Invicto. A representação não pretende ser realista e é padronizada e estereotipada, com muitas similaridades com as moedas do imperador gálico Vitorino (r. 269–271) e com as primeiras moedas de Tétrico I (r. 271–274), o último deles.

Ambas trazem a mesma legenda, IMP C DOMITIANUS P F AUG, uma forma abreviada de "Imperador César Domiciano Pio Feliz Augusto ("Imperator Caesar Domitianus Pius Felix Augustus"). Uma característica pouco usual é a falta do nome ou prenome de Domiciano, uma vez que as moedas gálicas tipicamente traziam a tria nomina completa do imperador celebrado como parte de sua função propagandística. No reverso, as moedas trazem a imagem da Concórdia e a legenda CONCORDIA MILITVM, uma outra alegação propagandística de que o exército teria se unido sob o comando de Domiciano. Novamente, esta alegação era também típica dos imperadores gálicos.

A similaridade no design das duas moedas sugere que elas teriam sido cunhadas pela casa da moeda (ou casas da moeda) que serviam ao regime local, ou seja, a de Augusta Treveroro (Tréveris), na província da Gália Bélgica, ou Colônia Agripina (Colônia), na Germânia Inferior. Se não, pelo menos elas compartilham uma operada por artesãos que foram fortemente influenciados pelas duas. É certo também que as duas foram cunhadas antes de 274, quando o imperador romano Aureliano acabou com o Império das Gálias.

Fontes literárias[editar | editar código-fonte]

Mundo romano em 271, divido entre o Império das Gálias, no ocidente, o Império de Palmira, no oriente, e o que restava do controle romano no centro. A revolta de Domiciano aconteceu ou no território gálico ou na fronteira entre ele e o território romano.

Há apenas duas referências literárias à existência de Domiciano, nenhuma delas indica que ele tenha sido imperador. A primeira é o historiador bizantino Zósimo (I 49), que relata que um tal Domiciano (Domitianus) foi punido por uma revolta durante o reinado de Aureliano (r. 270–275). O texto é vago sobre a natureza da revolta e contra quem ela foi dirigida. Como Zósimo a coloca no reinado de Aureliano e como ele também iguala Domiciano e Septímio, que fora aclamado imperador pela guarnição da Dalmácia na mesma época, assume-se geralmente que Domiciano estivesse confrontando Aureliano diretamente. Portanto, sua revolta teria ocorrido no território sob controle de Roma e não em terras do Império das Gálias no ocidente ou do Império de Palmira no oriente. O historiador A. Watson sugere que sua capital estaria em algum lugar a sudoeste do Lago Genebra, na fronteira entre Roma e os imperadores gálicos[4] .

A outra fonte é a pouco confiável História Augusta[5] , que menciona Domiciano como sendo um general envolvido na supressão da revolta de Macriano Maior em 261[2] . Ela afirma que nesta operação, Domiciano era um "associado" (possivelmente um cliente ou protegido) do hiparco de Galieno, Aureolo, o comandante da cavalaria romana a quem normalmente se credita a vitória sobre Macriano. Porém, a referência é feita de uma forma que sugere que Domiciano seria um comandante importante e já com brilho próprio. Não há mais nenhuma menção na História Augusta de que Domiciano estivesse envolvido em qualquer atividade ilegal contra Aureliano.

A História Augusta sugere que Domiciano seria descendente do imperador Domiciano, o filho de Vespasiano e Domitila Maior. A intenção seria sugerir um status senatorial para ele. É possível que o motivo real do autor em glorificar Domiciano seria tirar um pouco da glória obtida por Aureolo, que não era nobre, em sua vitória. O autor da História Augusta não chegou ao ponto de denegrir Aureolo, mas não se importa em destacar Domiciano como sendo "um de nós". Deve-se lembrar, contudo, que se Domiciano de fato tivesse status senatorial, seria necessário explicar como ele conseguiu escapar da decisão de Galieno no início de seu reinado de expulsar todos os oficiais aristocratas do exército.

Interpretações possíveis[editar | editar código-fonte]

As evidências não permitem que se confirme que o associado ou protegido de Aureolo mencionado na História Augusta, o obscuro rebelde do reinado de Aureliano mencionado por Zósimo e o usurpador celebrado nas moedas sejam a mesma pessoa. Porém, a opinião acadêmica majoritária é de que é mais provável que de fato sejam todos a mesma pessoa.

É bem possível que, como cliente de Aureolo, Domiciano tenha posteriormente se associado aos imperadores gálicos tendo em mente o que se suspeita e sabe sobre seu patrocínio a Póstumo. Se as afirmações da História Augusta sobre sua reputação militar forem corretas, não é improvável que ele tenha sido bem recebido no grupo do novo imperador gálico e de seus sucessores. Porém, vale reafirmar, as evidências são poucas e circunstanciais.

As evidências numismáticas sugerem que Domiciano seria, com alto grau de certeza, um militar associado com o rebelde Império das Gálias que comandava tropas próximas o suficiente de Augusta Treveroro ou Colônia Agripina a ponto de conseguir assegurar que suas pretensões imperiais fossem proclamadas da forma mais tradicional, as moedas. Era muito difícil para os pretendentes ao trono em regiões onde não haviam casas da moeda fazer isso[a].

Dado o que sabemos sobre a cronologia do Império das Gálias, o golpe de Domiciano deve, com maior probabilidade, ser associado ao período atribulado que se seguiu ao golpe dos oficiais contra o imperador Vitorino em 271. Os assassinos do imperador parecem não ter tido uma agenda política e, portanto, não é surpresa que uma confusão tenha se armado depois da morte do imperador. Nestas circunstâncias, a ascensão de pretendentes defendidos por facções era de se esperar, principalmente considerando a reputação de Domiciano entre as tropas - principalmente se era, de fato, o homem que derrotou Macriano, como conta a História Augusta. Por outro lado, as evidências literárias sugerem que as forças que queriam Tétrico I no trono foram mais hábeis em consolidá-lo no poder e a revolta de Domiciano acabou transformando-se num evento de pouca importância fora das províncias controladas pelos gálicos.

Morte[editar | editar código-fonte]

As circunstâncias da morte de Domiciano são desconhecidas. Uma possibilidade é que ele teria sido executado por Tétrico ou, mais provável, assassinado por seus próprios soldados quando as principais guarnições do exército do Reno se declararam em favor de Tétrico. Uma outra possibilidade é que ele tenha sido derrotado por Placidiano, um general fiel a Aureliano que protegia a região do vale do baixo Ródano durante o ataque de Vitorino a Autun em 270, o que sugeriria que a revolta teriam acontecido no sul da Gália, perto o suficiente das províncias de Roma a ponto de atrair a atenção de Aureliano[6] .

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Até onde se sabe, Septímio, na Dalmácia, não cunhou moedas (não havia casas da moeda na região) e o rebelde em Ilírico, Ingênuo, fracassou vinte anos antes justamente por que Galieno retirou da região a casa da moeda quando mudou o foco de sua campanha em defesa do ocidente do Danúbio para o Reno. Regaliano também só conseguiu produzir umas poucas moedas (cunhadas sobre moedas mais antigas), apesar de ter conseguido sobreviver por algum tempo depois de sua aclamação (260).

Referências

  1. Okamura, Lawrence. (1992). "Forging a Usurper in Late Roman Aquitania". Hermes 120 (1): 103-109.
  2. a b Leins, Ian. . "Domitianus II - the forgotten emperor". Current Archaeology (194): 76–79.
  3. Abdy, Richard. (2009). "The Domitian II coin from Chalgrove: a Gallic emperor returns to history". Antiquity 83 (321): 751–757.
  4. Watson, A.. Aurelian and the Third Century. [S.l.]: Routledge, 1999. p. 52.
  5. História Augusta 12.14
  6. Watson, Alaric. Aurelian and the Third Century. [S.l.: s.n.], 2004. p. 167.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]