Florent-Jean de Vallière

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Canhão de 24 de Vallière, Uranie), fabricado por Jean Maritz em 1745.
Os canhões de de Vallière eram perfurados após terem sido fundidos numa única peça, de acordo com o método desenvolvido por Jean Maritz.

Florent-Jean de Vallière (16671759) foi um oficial de artilharia francês. Foi Tenente-General dos Exércitos do Rei. Em 1726, de Vallière tornou-se Diretor-Geral dos Batalhões e Escolas de Artilharia.

Pelo Regulamento Real de 7 de Outubro de 1732, de Vallière deu início à reorganização e padronização da artilharia real. Melhorou o método utilizado para a fundição dos canhões, substituindo a técnica utilizada por Jean-Jacques Keller. Cria, assim, o sistema de de Vallière,[1] o qual estabeleceu o padrão da artilharia francesa até ao advento do sistema de Gribeauval.

O sistema de de Vallière[editar | editar código-fonte]

Canhões de De Vallière de 24 libras, Hôtel des Invalides.

As peças de artilharia, e os seus pesos e formatos, do exército francês eram muito variados, não existindo um padrão para o seu fabrico. De Vallière cria um padrão nas medidas das peças de artilharia estabelecendo apenas os padrões 24,, 12, 8 e 4 libras para os canhões; 12 e 8 polegadas francesas para os morteiros; e morteiros de projécteis de pedra de 15 polegadas francêsas.[1]

A libra francesa, equivalente a 1,097 libras inglesas, atribuía um maior peso aos projécteis franceses (13,164 libras para um equivalente inglês de 12 libras).[2] A polegada francesa media 2,707 cm, ligeiramente maior que a inglesa que era de 2,52 cm.[3]

Este sistema utilizava a perfuração da peça para criar o seu interior (alma) directamente na peça fundida em bronze, um método desenvolvido por Jean Maritz, o que permitia uma maior precisão da construção do cano e da sua superfície e, assim, uma maior eficiência do tiro.

As armas fabricadas de acordo com o método de de Vallière eram decoradas com figuras e desenhos muito elaborados e inscrições na sua superfície.

Boca[editar | editar código-fonte]

Parte frontal do canhão de 24 lbs Uranie.

A zona frontal dos canhões de de Vallière tinha um desenho na sua extremidade, seguida pelo seu respectivo nome. A seguir, tinha a inscrição em latim Ultima Ratio Regum, introduzida por Luís XIV de França, que demonstrava o papel importante das armas: O último argumentos dos Reis. Sobre esta inscrição estava o nome "Louis Charles de Bourbon, comte d'Eu, duc d'Aumale", o Grand Maître de l'artillerie de France (Grande Mestre da Artilharia de França), seguido de um emblema real. A meio do canhão estavam os munhões utilizados para posicionar a arma no sítio e movimentá-la para cima ou para baixo. O topo dos munhões eram ornamentados por golfinhos que também serviam para elevar o canhão.[4]

Cano[editar | editar código-fonte]

Vista da zona da culatra do canhão de 24 lbs Uranie.

A zona traseira tinha, por vezes, uma inscrição com o peso da peça (p.ex.: "4" para indicar que se tratava de um canhão de 4 lbs), seguida da inscrição em latim Nec pluribus impar. Na linha a seguir estava o brasão real da Casa de Bourbon. A data e o local de fabrico estavam gravados no fundo da arma (no exemplo: "Strasbourg, 1745"); por fim, o nome e o título do fundidor (p.ex.: Fondu par Jean Maritz, Commissaire des Fontes).[4] A culatra estava decorada com a face de um animal o que indicava a categoria da peça (no exemplo: a cabeça de um leão indica que se trata de 24 lbs).

Desenho da culatra[editar | editar código-fonte]

Os canhões tinham uma cascavel com desenhos que permitiam identificar a categoria da peça:[4]

  • Cara com um sol: 4 libras
  • Cabeça de macaco: 8 libras
  • Cabeça de galo: 12 libras
  • Cabeça de medusa: 16 libras
  • Cabeça de Baco ou de leão: 24 libras

Utilização[editar | editar código-fonte]

Batalha de Saratoga mostra o General Daniel Morgan ao pé de uma peça de 4lbs.
Pessoal Exército dos Estados Unidos com um canhão de 4 lbs na década de 1960 (embora o carro seja de uma arma de 20 lbs).

As peças de de Vallière revelaram-se eficazes nos cercos, mas pouco satisfatórias em operações que exigissem movimento.[1] Esta situação observou-se durante a Guerra de Sucessão Austríaca (1747–1748), e durante a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), conflitos em que a capacidade de movimentação era um factor-chave e em que armamento ligeiro era necessário. A falta de obuzes era outro problema.[6]

Vários canhões de de Vallière foram utilizados na Guerra de Independência dos Estados Unidos, em particular os de 4 libras. Estas peças eram enviadas de França e os carros fornecidos pelos EUA. Estas armas revelaram-se muito importantes na Batalha de Saratoga,[4] e no Cerco de Yorktown. George Washington chegou a escrever uma carta ao General Heath acerca das vantagens destas armas, em 2 de Maio de 1777.[4]

Obsolescência[editar | editar código-fonte]

Canhão de 12 lbs, fabricado por Jean Maritz em 1736. Calibre: 121 mm. Comprimento: 290 cm.
Canhão clássico francês, séc. XVII-XVII).

Florent-Jean de Vallière tinha um filho, Joseph Florent de Vallière (1717–1776), Comandante do Batalhão de Artilharia em 1747, que continuou a utilizar o sistema do seu pai. A partir de 1763, Gribeauval, como Inspetor Geral da Artilharia Francêsa, segundo no comando a seguir a de Vallière, iniciou a introdução de um sistema mais moderno que daria a França um das artilharias mais fortes do século seguinte.[7]

Referências

  1. a b c A Dictionary of Military History and the Art of War By André Corvisier, p.837 [1]
  2. History.navy.mil
  3. Chartrand, p.2
  4. a b c d e Springfield Armory
  5. a b c d e A Dictionary of Military History and the Art of War de André Corvisier, John Childs, John Charles Roger Childs, Chris Turner Pág. 42 [2]
  6. Napoleon's Guns, 1792-1815 de René Chartrand, Ray Hutchins, p.2
  7. Napoleon's Guns, 1792-1815 de René Chartrand, Ray Hutchins, p.6

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Chartrand, René 2003 Napoleon's guns 1792-1815 (2) ISBN 1841764604 Osprey Publishing