Fluxo de consciência

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Em Literatura, fluxo de consciência é uma técnica literária, usada primeiramente por Édouard Dujardin em 1888, em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de idéias. A característica não-linear deste processo de pensamento leva frequentemente a rupturas na sintaxe e na pontuação. [1] O termo foi cunhado pelo filósofo e psicólogo William James, em 1892 para uso em Psicologia. [2]

Com o uso desta técnica, mostra-se o ponto de vista de um personagem através do exame profundo de seus processos mentais, borrando-se as distinções entre consciente e inconsciente, realidade e desejo, as lembranças da personagem e a situação presentemente narrada, etc. A profundidade e a abrangência desse exame é que faz com que o fluxo de consciência difira de um mero monólogo interior, já empregado anteriormente por autores como Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói.

Definição[editar | editar código-fonte]

Carlos Ceia em seu E-dicionário de Termos Literários distingue que o monólogo interior é a representação de movimentos dentro da consciência e que o fluxo de consciência é a representação literária de todo o pensamento no seu estado corrente (cf. Leon Edel: The Modern Psychological Novel, 1964). Assim, seguindo a metáfora proposta por William James, se tomarmos a corrente de consciência como o fluxo de um rio, o monólogo interior "poderá ser uma represa onde a água remoinha durante algum tempo para depois voltar à corrente". O fluxo de consciência é um rio impetuoso ou uma corrente de palavras e imagens indistintas tão próximas quanto possível da variedade contraditória de elementos que atravessam constantemente a mente humana, um fluir desenfreado das sensações e pensamentos das personagens, da consciência, da vida subjetiva (Ceia E-dicionário, verbete stream of consciousness).

Em A consciência de Zeno (Italo Svevo, 1923) o personagem registra suas impressões em um diário, conforme ordenado pelo seu psicanalista. Entretanto, isto também não deve ser considerado fluxo de consciência. A técnica também não deve ser confundida com a escrita automática dos surrealistas. [1] [3]

Diversos autores notáveis do século XX, como Virginia Woolf, James Joyce, Samuel Beckett, John dos Passos e William Faulkner utilizaram extensivamente essa técnica. Na literatura brasileira, merecem destaque as obras de Guimarães Rosa, de Clarice Lispector, de Autran Dourado e de Hilda Hilst. Notável em Autran Dourado é que ele, ao contrário dos demais, produz uma narrativa na terceira pessoa.

Exemplos de monólogo interior[editar | editar código-fonte]

Virginia Woolf[editar | editar código-fonte]

Such fools we are, she thought, crossing Victoria Street. For Heaven only knows why one loves it so, how one sees it so, making it up, building it round one, tumbling it, creating it every moment afresh; but the veriest frumps, the most dejected of miseries sitting on doorsteps (drink their downfall) do the same; can't be dealt with, she felt positive, by Acts of Parliament for that very reason: they love life. In people's eyes, in the swing, tramp, and trudge; in the bellow and the uproar; the carriages, motor cars, omnibuses, vans, sandwich men shuffling and swinging; brass bands; barrel organs; in the triumph and the jingle and the strange high singing of some airplane overhead was what she loved; life; London; this moment of June. (Projeto Gutemberg Austrália, 1925 pay 1. acesso em 26 abril 2013)

Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim , elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de Junho. Porque era em meados de Junho. (Mrs. Dalloway, 1925, trad. port. Lisboa, Ulisseia, 1982, pp.5-6)

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Referências

  1. a b The International Society for the Study of Narrative. Stream of consciousness (em inglês). Página visitada em 01 de janeiro de 2011.
  2. William James (1892). The Stream of Consciousness (em inglês). Página visitada em 01 de janeiro de 2011. "Psychology, Chapter XI"[]
  3. Carlos Ceia. Stream of Consciousness (em português). Página visitada em 01 de janeiro de 2011. "e-Dicionário de Termos Literários"

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • (em inglês) Stream of consciousness, verbete da International Society for the Study of Narrative
  • (em inglês) Barbara Lynn James:« Flux in context: The Cultural Difference Between Stream of Consciousness and Interior Monologue», Tese de Doutoramento, Universidade de Colorado (1993)
  • (em inglês) Clifford Douglas King, Édouard Dujardin, inner monologue and the stream of consciousness, Blackwell, Oxford, 1953, 116-128 p.
  • (em inglês) Leon Edel: The Modern Psychological Novel (1954); Erwin R. Steinberg: The Stream of Consciousness Technique in the Modern Novel (1979)
  • (em inglês) Erwin R. Steinberg (dir.), The Stream-of-consciousness technique in the modern novel, Kennikat Press, Port Washington, N.Y., 1979, 198 p. ISBN 978-0-8046-9225-0
  • (em inglês) Haim Callev, The stream of consciousness in the films of Alain Resnais, McGruer Pub, New York, 1997, 250 p. ISBN 9659016204
  • (em inglês) Melvin Friedman, Stream of Consciousness : a Study in Literary Method, Yale University Press, New Haven, 1955, 279 p.
  • (em inglês) Robert Humphrey: Stream of Consciousness in the Modern Novel (1954)
  • (em inglês) Shiv K. Kumar, Bergson and the stream of consciousness novel, Blackie, London, 1962, 174 p.
  • (em inglês) Thomas Laborie Burns: «Stream of Consciousness: Joycean Technique», Estudos Anglo-Americanos, nº12-13 (1988-89)
  • (em alemão) Manfred Smuda: «”Stream of Consciousness” and “Duree”: Das Problem ihrer Realisation und Wirkung im modernen englischen Roman», Poetica, nº13/3-4 (1981)

Ver também[editar | editar código-fonte]