Fluxo de consciência

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Em Literatura, fluxo de consciência é uma técnica literária, usada primeiramente por Édouard Dujardin, em que se transcreve o processo de pensamento integral de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado com impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de idéias. A característica não-linear do processo de pensamento leva frequentemente a rupturas na sintaxe e na pontuação. [1] O termo foi cunhado pelo filósofo e psicólogo William James, em 1892 para uso em Psicologia. [2]

Com o uso desta técnica, mostra-se o ponto de vista de um personagem através do exame profundo de seus processos mentais, borrando-se as distinções ente consciente e inconsciente, realidade e desejo, as lembranças da personagem e a situação presentemente narrada, etc. A profundidade e a abrangência desse exame é que faz com que o fluxo de consciência difira de um mero monólogo interior, já empregado anteriormente por autores como Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói.

O exame radical do processo de pensamento pode ser feito por outros meios. Por exemplo, em A consciência de Zeno, o personagem registra suas impressões em um diário, conforme ordenado pelo seu psicanalista. Isso não pode ser considerado fluxo de consciência. A técnica também não deve ser confundida com a escrita automática dos surrealistas. [1] [3]

Diversos autores notáveis do século XX, como Virginia Woolf, James Joyce, Samuel Beckett, John dos Passos e William Faulkner utilizaram extensivamente essa técnica. Na literatura brasileira, merecem destaque as obras de Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, de Autran Dourado e de Hilda Hilst. Notável em Autran Dourado é que ele, ao contrário dos demais, produz uma narrativa na terceira pessoa.

Índice

[editar] Exemplos

[editar] Virginia Woolf

Such fools we all are, she thought, crossing Victoria Street. For Heaven only knows why one loves it so, how one sees it so, making it up, building it round one, tumbling it, creating it every moment afresh; but the veriest frumps, the most dejected of miseries sitting on doorsteps (drink their downfall) do the same; can't be dealt with, she felt positive, by Acts of Parliament for that very reason: they love life. In people's eyes, in the swing, tramp, trudge; in the bellow and the uproar; the carriages, motor cars, omnibuses, vans, sandwich men shuffling and swinging; brass bands; barrel organs; in the triumph and the jingle and the strange high singing of some aeroplane overhead was what she loved; life; London; this moment of June.

Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim , elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de Junho. Porque era em meados de Junho. (Mrs. Dalloway, 1925, trad. port. Lisboa, Ulisseia, 1982, pp.5-6)

[editar] Clarice Lispector

[...] Assim, um cão latindo, recortado contra o céu. [...] Uma porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde [...] Também um mastro sem bandeira, ereto e mudo, fincado num dia de verão [...] (Perto do coração selvagem, 1980)

Referências

  1. a b The International Society for the Study of Narrative. Stream of consciousness (em inglês). Página visitada em 01 de janeiro de 2011.
  2. William James (1892). The Stream of Consciousness (em inglês). Página visitada em 01 de janeiro de 2011. "Psychology, Chapter XI"[]
  3. Carlos Ceia. Stream of Consciousness (em português). Página visitada em 01 de janeiro de 2011. "e-Dicionário de Termos Literários"
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