José Albo

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José Albo
יוסף אלבו
Nascimento 1380
Monreal
Morte 1444 (64 anos)
Nacionalidade Espanha espanhol
Ocupação Rabino, filósofo

José Albo (em hebreu: יוסף אלבו) (Monreal, ca. 1380 – 1444) foi um filósofo e rabino espanhol, que viveu no século XV, conhecido principalmente por ser o autor do Sefer ha-Ikkarim ("Livro dos Princípios"), a obra clássica sobre os fundamentos do judaísmo.

Juventude[editar | editar código-fonte]

Monreal, uma cidade de Aragão, é o local geralmente aceito como o de nascimento de Albo. Isto se baseia no relato de Astruc ha-Levi sobre o debate religioso realizado em Tortosa em 1413-1414, que menciona Albo como um dos participantes judeus e menciona que ele era o delegado da congregação de Monreal. No entanto, o relato em latim deste debate não faz qualquer referência a esta localidade. O historiador Heinrich Graetz acredita que Albo não teria menos de trinta anos de idade, quando foi enviado para participar do debate, e consequentemente coloca a data de nascimento de Albo o mais tardar em 1380. Sua data de morte é dada várias vezes como sendo em 1444 (o mais provável), ou em 1430. É mencionado, contudo, como pregador em Sória, em 1433.

O costume de Albo em utilizar-se de ilustrações médicas cria a presunção de que era adepto da ciência médica, o que sugere que pode ter praticado medicina. Era versado em algum grau nos escritos de árabes aristotélicos. Seu professor foi Hasdai Crescas, autor de Or Adonai.

Iḳḳarim[editar | editar código-fonte]

O Iḳḳarim não foi composto na sua totalidade de uma só vez. A primeira parte foi publicada como um trabalho independente. Desenvolve a essência do pensamento de Albo. Foi somente quando sua publicação trouxe-lhe uma enxurrada de críticas, que Albo se sentiu compelido a ampliá-lo.

No prefácio da segunda parte, Albo faz um sermão sobre as críticas recebidas: "Aquele que criticar um livro deve, acima de tudo, conhecer o método utilizado pelo seu autor, e deve julgar todas as passagens sobre um determinado assunto como um todo". Critica o que ele viu como o procedimento negligente daquelas sentenças proferidas sobre um autor sem se preocuparem com a exigência fundamental de uma crítica bem fundamentada.

Os adversários de Albo não o trataram com delicadeza. Foi acusado, entre outras coisas, de plágio. Foi dito que ele se apropriou dos pensamentos de seu professor Crescas sem lhe dar o devido crédito. Os exames das provas, no entanto, não confirmaram as acusações. Crescas foi professor de Albo, porém, as semelhanças são apenas aquelas razoavelmente esperadas nos escritos de preceptor e discípulo.

Características distintas[editar | editar código-fonte]

Em contraposição aos treze princípios de Maimônides e aos seis de Crescas, Albo limitou os fundamentais princípios de fé judaicos a três:

  1. crença na existência de Deus
  2. crença na revelação
  3. crença na justiça divina, em relação à ideia da imortalidade.

Na formulação de outros artigos de fé, as controvérsias a que os compiladores foram expostos, influenciaram tanto a seleção dos princípios específicos a serem acentuados, quanto a maneira como eles foram apresentados. Semelhante ao caso de José Albo, sua seleção foi feita com vista a corrigir o esquema de Maimônides nos pontos onde ele parecia apoiar as alegações dos dogmáticos e polemistas cristãos.

O próprio Maimônides foi influenciado por um desejo de evitar certas reivindicações cristãs e muçulmanas. Sua ênfase sobre a incorporalidade absoluta de Deus, só encontra a sua verdadeira luz quando a doutrina cristã da encarnação é levada em conta. Sua expectativa messiânica, com a ênfase sobre a constância com que o seu cumprimento futuro é para ser procurado, tinha também uma postura anticristã. Mas este ponto, o dogma messiânico, tinha por sua vez logo se tornado uma fonte de ansiedade para os judeus, forçados a reunirem-se em disputas públicas com os mestres da Igreja. Entre os porta-vozes da Igreja estavam alguns convertidos do judaísmo. Estes não tardaram a mencionar este dogma messiânico de Maimônides, tanto quanto puderam, para envergonhar os defensores do judaísmo. Antes da época de Maimônides, a questão da corporalidade do Messias não parece ter sido um dos problemas discutidos nas polêmicas entre a Igreja e a comunidade judaica. Mas, meio século depois, quando sua doutrina messiânica tinha sido aceita como um dos artigos essenciais da fé, esse foi o ponto que foi empurrado para o primeiro plano das discussões.

Tendo participado de uma dessas disputas públicas, Albo deve ter tido a consciência do constrangimento com que a posição maimonideana ocasionava para os defensores do judaísmo. Em seu esquema, portanto, o Messias é eliminado como parte integrante da fé judaica. Em seu lugar, enfatiza a doutrina da justiça divina.

O título de seu livro indica o seu método no início. O básico para a sua investigação é o reconhecimento de que "a felicidade humana está condicionada ao conhecimento e à conduta". Mas "o intelecto humano não pode atingir o conhecimento perfeito, nem a conduta ética, uma vez que seu poder é limitado e logo se esgota na contemplação das coisas que a verdade encontraria; portanto, necessariamente, deve haver algo acima do intelecto humano através do qual o conhecimento e a conduta podem atingir um grau de excelência que não admite dúvida".

A insuficiência do intelecto humano, postula a necessidade da orientação divina; e, portanto, é dever de toda pessoa conhecer o Deus da lei dada. Mas para se saber isso, só é possível caso a pessoa tenha estabelecido os princípios verdadeiros, sem os quais não pode haver nenhuma lei divina. Vendo que sobre este tema vital há muita divergência, confusão, e superficialidade, Albo resolveu erguer uma estrutura para a verdadeira religião.

Princípios fundamentais[editar | editar código-fonte]

Albo afirma que todas as religiões reveladas reconhecem três princípios fundamentais. Mas será que a identidade desses três princípios, em religiões reveladas, não dá direito aos devotos de cada uma delas a reivindicar a sua própria como a única religião verdadeira? Não, responde Albo: estes três princípios podem ser igualmente indispensáveis para as assim chamadas religiões reveladas, mas apenas a verdadeira religião é aquela que compreende corretamente estes pensamentos básicos. O teste para essa correção de compreensão ele alega ser o maior reconhecimento de certas outras verdades e inferências que deve decorrer logicamente do reconhecimento dos três fundamentos. A menos que uma religião revelada aceite todas estas inferências, não deve ser reconhecida como a única religião verdadeira.

Albo afirma que o judaísmo não está apenas baseado em três princípios fundamentais, mas reconhece também as consequências que logicamente devem ser extraídas. Como consequência, o judaísmo é a verdadeira religião revelada. Tendo estabelecido esta conclusão, Albo chegou ao fim para o qual ele se comprometeu em sua investigação.

Sua terminologia[editar | editar código-fonte]

A terminologia de Albo é, provavelmente, original. Os três fundamentos que designa Iḳḳarim, ou raízes. As (oito) verdades derivadas e necessárias (sobre o reconhecimento e a aplicação correta da qual depende se a religião revelada comprova ser a verdadeira religião) ele chama de shorashim, ou raízes secundárias. Ambos, o Iḳḳarim e o shorashim são indispensáveis para a subsistência do tronco da árvore. Os ramos, porém, não estão nessa categoria.

Os costumes tradicionais judaicos, de que há um grande número em todas as religiões são chamados de anafim, "galhos". Ele os considera desnecessários à vida religiosa. Podem ser removidos ou podem morrer, e o tronco ainda subsiste.

Uma vez que os três Iḳḳarim são os mesmos em todas as religiões, Albo chama-os também de Iḳḳarim kolelim (os princípios universais ou raízes). As oito shorashim chama-as às vezes de Iḳḳarim peraṭyim, mas sua terminologia não é consistente ao longo do trabalho.

Flexibilidade religiosa[editar | editar código-fonte]

Albo encontra oportunidade para criticar as opiniões dos seus antecessores, mas se esforça para evitar a caça de heresia. Assim, se esforça para estabelecer o limite entre o qual o ceticismo judeu pode ser exercido sem risco de perda da ortodoxia doutrinária. Seu cânone para distinguir heterodoxia da ortodoxia é o reconhecimento da verdade da Torá.

A notável liberdade de interpretação é permitida, tanto assim, que realmente seria difícil sob as teorias de Albo impugnar a ortodoxia até mesmo dos judeus mais teologicamente liberais. Albo rejeita a hipótese de que creatio ex nihilo (criar a partir do nada) é uma implicação fundamental da crença em Deus. Albo critica livremente os treze princípios de fé de Maimônides e os seis princípios de Crescas. Albo afirma que nem Maimônides, nem Crescas levaram em consideração o seu próprio critério fundamental; ou seja, a indispensabilidade absoluta de um princípio sem o qual o tronco da árvore não poderia subsistir, e sobre este ponto, rejeita a maior parte de sua fé.

Princípios fundamentais e suas verdades derivadas[editar | editar código-fonte]

De acordo com Albo, o primeiro de seus princípios fundamentais, a crença na existência de Deus, abrange as seguintes shorashim, ou raízes secundárias:

  1. unidade de Deus
  2. incorporalidade de Deus
  3. independência do tempo de Deus
  4. perfeição de Deus: em Deus não pode haver nem fraquezas, nem outro defeito.

O segundo princípio fundamental, a crença na revelação, ou a comunicação da instrução divina por Deus ao homem, leva-o a obter as seguintes três raízes secundárias:

  1. Os profetas hebreus são os meios da revelação de Deus
  2. A crença na grandeza única de Moisés como profeta
  3. A força obrigatória da lei mosaica até que outra venha a ser divulgada e anunciada de uma forma tão pública (diante de seiscentos mil homens). Nenhum profeta posterior tem, consequentemente, o direito de revogar a dispensação mosaica.

Do princípio da terceira raiz, a crença na justiça divina, ele deriva uma raiz secundária: a crença na ressurreição do corpo.

De acordo com Albo, portanto, a crença no Messias é apenas "galho". Não é necessária para a solidez do tronco. Não é, portanto, parte integrante do judaísmo. Nem é verdade que toda lei seja obrigatória. Apesar de toda ordenação ter o poder de conferir felicidade em sua observância, não é verdade que todas as leis devam ser respeitadas, ou que, através da negligência de uma parte da lei, um judeu violaria o pacto divino ou seria condenado. Judeus observantes, no entanto, acreditam que o judeu é divinamente obrigado a cumprir todos os mandamentos aplicáveis.

A publicação da Iḳḳarim[editar | editar código-fonte]

A primeira edição da Iḳḳarim surgiu em Soncino, Itália, em 1485. Foi publicada com um comentário sob o título de "Ohel Ya'aḲob", por Jacob ben Samuel Koppelman ben Bunem de Brześć Kujawski, em Freiburg, 1584, e com um comentário maior de Gedeliah ben Solomon Lipschitz, Veneza, em 1618.

Nas edições posteriores, os trechos contendo críticas sobre a fé cristã, no Livro III. caps. xxv., xxvi., foram expurgados pelo censor, enquanto queGilbert Genebrard escreveu uma refutação dos mesmos com as notas valiosas. Esta refutação foi publicada com suas próprias observações pelo judeu batizado Claudius Mai, Paris, 1566.

O Iḳḳarim foi traduzido para o alemão pelo Dr. W. Schlesinger, rabino de Sulzbach, e seu irmão, L. Schlesinger, escreveu uma introdução para o mesmo, Frankfurt am Main, 1844.

Referências

Wikisource  "Albo, Joseph". Encyclopædia Britannica (11th). (1911). Ed. Chisholm, Hugh. Cambridge University Press. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]