Logos
O Logos (em grego λόγος, palavra), no grego, significava inicialmente a palavra escrita ou falada—o Verbo. Mas a partir de filósofos gregos como Heráclito passou a ter um significado mais amplo. Logos passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza.
Na teologia cristã o conceito filosófico do Logos viria a ser adaptado no Evangelho de João, o evangelista se refere a Jesus Cristo como o Logos, isto é, a Palavra: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra é Deus" João 1:1 (εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος)
(Há traduções do Evangelho em que Logos é o "Verbo"). O Logos também pode ser visto como o "Motivo" de todas as coisas, sendo a causa que explica o anseio existencial humano tão discutido pela filosofia.
Para muitos cristãos, a vida da pessoa que se tornou conhecida como Jesus Cristo não começou aqui na terra. Segundo essa compreensão, Ele mesmo teria falado da sua vida celeste pré-humana (Jo 3:13; 6:38, 62; 8:23, 42, 58). De acordo com uma compreensão corrente entre os cristãos, o livro João 1:1,2 fornece o nome celeste daquele que se tornou Jesus, dizendo: “No princípio era o Verbo [“Verbo”, Al; CBC; gr.: Lógos], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.”
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Heráclito [editar]
Foi nos escritos de Heráclito que a palavra "logos" mereceu especial atenção na filosofia da Grécia Antiga.1 Apesar de Heráclito parecer usar a palavra com um significado não muito diferente da maneira como era utilizada no grego comum dessa época,2 uma existência independente de um "logos" universal era já sugerida:3
Este LOGOS, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este LOGOS, parece não terem experiência em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo-se em tais palavras e obras, e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens ignoram-o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono. (Diels-Kranz 22B1)
Por esta razão, o comum deve ser seguido. Mas, apesar de o LOGOS ser comum a todos, a maior parte das pessoas vive como se cada um tivesse um entendimento particular. (Diels-Kranz 22B2)
É sábio que os que ouviram, não a mim, mas ao LOGOS, reconheçam que todas as coisas são um. (Diels-Kranz 22B50)
Logos = justa medida = razão (filosofia)
Estoicismo [editar]
O estoicismo é uma doutrina filosófica que afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estóicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino, como parte de um todo ao qual pertence. Este lógos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo que em grego significa "harmonia"). Visto que o homem buscava intensamente essa harmonia e tranquilidade de vida.
Logos como Hipóstase [editar]
A doutrina do Logos como Hipóstase ou Pessoa Divina encontra sua primeira formulação no judeu Fílon de Alexandria (nasceu entre 15 e 10 a.C.), assim Filon diz:
"A sombra de Deus é o Seu Logos; servindo-Se Dele como instrumento, Deus criou o mundo. Essa Sombra é quase a imagem derivada e o modelo das outras coisas. Pois assim como Deus é o modelo dessa Sua Imagem ou Sombra, que é o Logos, o Logos é o modelo das outras coisas".
- All. Leg., III, 31.
Logos no Cristianismo [editar]
No Cristianismo o Logos é Jesus Cristo. No primeiro capítulo do Evangelho do apóstolo João: “O Logos Se fez carne e habitou entre nós” (João: 1, 14). Segundo o renomado Dicionário de Filosofia(1) durante os 3 primeiros séculos do Cristianismo os filósofos e líderes das comunidades primitivas insistiram nos 2 pontos seguintes:
- A perfeita igualdade do Logos-Filho com Deus-Pai.
- A participação da natureza humana no Logos.
(1) ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 630.
O filósofo Justino o mais importante dos apologistas cristãos do século II d.C. (mártir no ano 165 d.C.) diz:
"Aprendemos que Cristo é o primogênito de Deus e que é o Logos, do qual participa todo o gênero humano."
- I Apologia, 46.
"Sendo Verbo e primogênito de Deus, Ele também é Deus".
- I Apologia 63,15.
"Com efeito, depois de Deus nós adoramos e amamos, o Logos nascido de Deus, eterno e inefável, porque Ele Se fez homem por nós, para curar-nos dos nossos males, tomando-os sobre Si"
- II Apologia 13.
Contra os gnósticos Ireneu (nasceu no ano 130 d.C., foi Bispo de Esmirna atual Turquia) afirma a igualdade de essência e paridade entre Deus-Pai e o Logos-Filho.
- Irineu em sua obra Adv. Haeres., II, 13, 8.
Atenágoras de Atenas é o autor de uma Súplica pelos cristãos, composta na segunda metade do século II d.C. Nessa carta afirma que o Logos é o Filho-Jesus e procede do Pai, não que tenha sido criado porque desde o principio Deus tem em Si o Logos:
"Como não se admiraria alguém de ouvir chamar ateus os que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e o Espírito Santo, ensinando que o seu poder é único e que sua distinção é apenas distinção de ordens?".
- Súplica pelos Cristãos 10.
"De fato, reconhecemos também um Filho de Deus. E que ninguém considere ridículo que, para mim, Deus tenha um Filho. Com efeito, nós não pensamos sobre Deus, e também Pai, e sobre seu Filho como fantasiavam vossos poetas, mostrando-nos deuses que não são em nada melhores do que os homens, mas que o Filho de Deus é o Verbo do Pai em idéia e operação, pois conforme a ele e por seu intermédio tudo foi feito, sendo o Pai e o Filho um só. Estando o Filho no Pai e o Pai no Filho por unidade e poder do Espírito, o Filho de Deus é inteligência e Verbo do Pai".
- Súplica pelos Cristãos 10,2-4.
Clemente de Alexandria (150 - 215 d.C.) mestre da escola catequética de Alexandria:
"O mistério é claro: Deus está no homem e o homem se torna Deus, e o Mediador realiza a vontade do Pai. Mediador é o Logos, que é comum a ambos: Filho de Deus, Salvador dos homens, de Deus servo, de nós pedagogo. Uma vez que a carne é serva, conforme Paulo atesta (…) Que a carne seja forma de servo é atestado pelo apóstolo quando fala do Senhor: 'Aniquilou a Si mesmo, tomando a natureza de escravo', chamando escravo o homem de carne antes que o Senhor Se tornasse escravo e Se encarnasse. O próprio Deus, porém, sofrendo na carne, libertou a carne da corrupção e, depois de tê-la afastado da escravidão portadora de morte e amarga, a revestiu de imortalidade."
- O Protréptico.
Teófilo de Antioquia (Bispo de Antioquia) é autor de três livros A Autólico elaborados na segunda metade do século II d.C.. Teófilo retoma e aprofunda a explicação da Trindade em termos de Logos imanente a Deus.
"Igualmente os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade: de Deus [=Pai], de seu Verbo [=Filho] e de sua Sabedoria [=Espírito Santo]".
- Segundo Livro a Autólico 15,3.
Bispo da cidade de Óstia Hipólito de Roma (mártir no ano 235 d.C.) escreveu:
"Deus possuía o Verbo em Si mesmo, e o Verbo era imperceptível para o mundo criado; mas fazendo ouvir Sua voz, Deus tornou-Se perceptível. Gerando-O como Luz da Luz, enviou como Senhor da criação Aquele que é Sua própria inteligência. E este Verbo, que no principio era visível apenas para Deus e invisível para o mundo, tornou-Se visível para que o mundo, vendo-O manifestar-Se, pudesse ser salvo.
O Verbo é verdadeiramente a inteligência de Deus que, ao entrar no mundo, Se manifestou como o Servo de Deus. Tudo foi feito por Ele, mas Ele procede unicamente do Pai (…).
O Verbo, portanto, Se tornou visível, como diz São João (…) o Verbo por quem tinham sido criadas todas as coisas."
- Do Tratado contra a heresia de Noeto - Cap. 9-12: PG 10,815-919.
"O Deus-Logos… revestiu-Se da santa carne da santa Virgem."
- De Christo et antichristo 4, GCS I,6.
Nesses conceitos alguns séculos depois os líderes das comunidades cristãs (os bispos) no Primeiro Concílio de Nicéia (325 d.C.) redigiram as formulações dogmáticas sobre os dogmas fundamentais do Cristianismo: Trindade e Encarnação.
Controvérsias sobre Logos [editar]
Entretanto de certa forma a noção de Logos na relação de perfeita paridade entre o Logos-Filho e o Pai não foi uma unanimidade: o presbítero Orígenes sustenta que o Logos-Filho é gerado na eternidade pelo Pai e não criado no tempo como todas as outras coisas, da mesma substância do Pai, mas possivelmente influenciado pelo pensamento médio-platônico/neoplatônico admite certa subordinação do Filho ao Pai.
Mesmo no I Concílio de Nicéia cerca de 3 a 5 Bispos de um total de 250 a 320 Bispos vão discordar da perfeita paridade entre o Logos-Filho e o Pai.
Ver também [editar]
Referências
- ↑ F.E. Peters, Greek Philosophical Terms, New York University Press, 1967.
- ↑ W. K. C. Guthrie, A History of Greek Philosophy, vol. 1, Cambridge University Press, 1962, pp. 419ff.
- ↑ W. K. C. Guthrie, The Greek Philosophers: From Thales to Aristotle, Methuen, 1967, p. 45.
Bibliografia [editar]
- REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Patrística e Escolástica.2.ed. São Paulo: Paulus, 2005, v.2.
- ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
- I Apologia de Justino.
- II Apologia de Justino.
- Contra as heresias de Irineu.
- Súplica pelos Cristãos de Atenágoras de Atenas.
- O Protréptico de Clemente de Alexandria.
- Segundo Livro a Autólico de Teófilo de Antioquia.
- Do Tratado contra a heresia de Noeto de Hipólito de Roma.
- De Christo et antichristo de Hipólito de Roma.