Rei Lear

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Rei Lear e o bobo na tempestade", por William Dyce (1806-1864)

Rei Lear (King Lear, em inglês) é uma tragédia teatral de William Shakespeare, considerada uma de suas obras-primas. No argumento da obra, inspirado por antigas lendas britânicas, o rei enlouquece após ser traído por duas de suas três filhas, às quais havia legado seu reino de maneira insensata.

Escrita em torno de 1605, a peça foi encenada pela primeira vez perante a corte inglesa no dia 26 de dezembro de 1606. Foi impressa em 1608 e novamente, numa versão revisada, em 1623.[1] [2] Rei Lear foi adaptada repetidas vezes para o teatro e cinema.

Personagens[editar | editar código-fonte]

Argumento[editar | editar código-fonte]

Goneril e Regan, por Edwin Austin Abbey (1852-1911)

A trama da tragédia pode ser resumida assim:[2] [3] Lear, o idoso rei da Bretanha, decide dividir o reino entre suas três filhas: Goneril (esposa do duque de Albany); Regan (esposa do duque da Cornualha); e a favorita Cordélia (que tinha por pretendentes o rei da França e o duque da Borgonha). Para calcular a partilha, pede às filhas que expressem a gratidão e o amor que sentem pelo pai. Goneril e Regan fazem discursos aduladores, em que afirmam que o amam mais que qualquer coisa no mundo. Cordélia, por outro lado, contraria as expectativas do rei e afirma que o ama "como corresponde a uma filha, nada mais, nada menos". Irritado com essa resposta, Lear deserda-a e expulsa-a do reino, entregue sem dote ao rei da França. O duque de Kent intercede por Cordélia e também termina banido. Kent, entretanto, em vez de partir para o exílio, retorna ao reino disfarçado de Caio e põe-se ao serviço de Lear, quando este se encontrava na corte de Goneril.

Enquanto isso, o conde de Glócester, agindo de forma semelhante a Lear, cai numa conspiração criada por seu filho ilegítimo Edmundo, que através de uma carta forjada faz com que Glócester acredite que o seu filho legítimo, Edgar, planeja matá-lo para herdar seus bens. Edgar refugia-se na floresta e disfarça-se de mendigo louco (como Pobre Tom ou Tom o'Bedlam).

De acordo com o trato entre Lear, Goneril e Regan, o rei deveria ser atendido por uma corte de cem cavaleiros, e alternaria a hospedagem na casa de cada uma de suas filhas. Goneril, porém, reduz o número de serviçais do rei e ordena que suas ordens sejam ignoradas. Lear se enfurece contra Goneril e busca refúgio com Regan, mas esta se une a Goneril contra o pai. Lear, Goneril e Regan se reencontram na casa do conde de Glócester, onde o rei rompe definitivamente com as filhas. O velho rei é expulsado da casa, na companhia apenas do seu Bobo e de Kent/Caio. Uma grande tempestade desaba sobre o rei e seu esquálido séquito. Lear, já mostrando sinais de loucura, refugia-se numa cabana guiado por Glócester, que não pode suportar a maneira em que as filhas tratam o pai. Na mesma cabana esconde-se Edgar/Pobre Tom.

Na casa de Glócester, Edmundo trama novamente contra o pai e acusa-o de aliar-se aos franceses para promover a invasão da Bretanha. Furioso, o duque da Cornualha arranca os olhos de Glócester, mas um servidor fiel mata Cornualha. Glócester, cego e arrependido de ter acreditado em Edmundo, é expulsado da própria casa e encontra Edgar/Pobre Tom, que não revela sua verdadeira identidade. Glócester pede a Pobre Tom que o leve até uma falésia, de onde possa cometer suicídio. Edgar finge guiá-lo até a beira de um precipício. Glócester dá um passo adiante e Edgar, fingindo ser outra pessoa, diz que ele sobreviveu milagrosamente à caída. Os dois encontram Lear, agora completamente louco. Kent guia Lear ao exército francês, onde o rei reencontra Cordélia. Lear, com a razão parcialmente recuperada, tem vergonha do seu comportamento anterior, mas Cordélia não mostra nenhum rancor em relação ao pai.

Rei Lear lamenta a morte de Cordélia, James Barry, 1786-1788

Regan é agora viúva, e Goneril despreza Albany, considerado débil por ela, e planeja sua morte. Albany, de fato, horroriza-se com o comportamento das filhas e a mutilação de Glócester. Tanto Goneril como Regan tentam seduzir Edmundo, que é transformado no chefe do exército inglês. Nessa condição, Edmundo vence os franceses, captura Lear e Cordélia e os condena à morte.

Regan declara que se casará com Edmundo. Albany descobre uma carta secreta de Goneril para Edmundo e declara-o traidor. Regan cai morta, envenenada por Goneril, e esta se mata quando sua traição com Edmundo é descoberta. Aparece Edgar, que combate Edmundo e o fere mortalmente. Glócester morre quando Edgar se revela.

Edmundo, à beira da morte, confessa a trama e avisa sobre a sentença contra Lear e Cordélia, mas já é tarde: Cordélia é enforcada, apesar de que Lear conseguiu matar o carrasco. Lear entra com Cordélia nos braços. Tenta reanimar a filha e delira, pensando que Cordélia ainda respira. O rei finalmente morre. Albany oferece o trono para ser exercido simultaneamente por Kent e Edgar. Kent recusa, e Edgar assume o reino. Na versão do Quarto, porém, é Albany que se torna rei.[2]

Fontes[editar | editar código-fonte]

Shakespeare inspirou-se em antigas lendas para compor a trama da obra. Lear pertence ao folclore e aparece, já em 1147, em um episódio da Historia Regum Britanniae (1137/1138) do galês Godofredo de Monmouth.[4] Na História, este Leir é um rei britânico, fundador de Leicester, que tem três filhas, duas das quais tentam usurpar-lhe o reino. A terceira filha, Cordélia, permanece fiel ao pai e termina sendo a herdeira do trono.[1] [5]

No Renascimento, o episódio de Leir e Cordélia aparece recontado em várias obras literárias que podem ter influenciado Shakespeare, como as Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda (1587), de Raphael Holinshed (1529-1580) e o canto 10 do livro 2 do poema épico A Rainha das Fadas (The Faerie Queene, 1590), de Edmund Spenser (1552-1599). A principal fonte para o argumento geral da obra foi A Verdadeira Crónica do Rei Leir e suas Três Filhas (The True Chronicle Historie of King Leir and his Three Daughters), uma peça de autor anônimo que era parte do repertório teatral londrino da década de 1590.[2] Em relação a esta, porém, Shakespeare introduziu muitas modificações, especialmente o final trágico e o ambiente pagão (não-cristão) do reino de Lear.[2]

Por sua vez, a subtrama envolvendo Glócester e seus dois filhos estão inspirados n'A Arcádia da Condessa de Pembroke, um romance pastoral de Philip Sidney de 1590, que contém um episódio com o rei cego da Paflagónia que é enganado por um de seus dois filhos.[1] [2] A visão filosófica e algumas falas revelam influência dos Ensaios de Montaigne, conhecidos por Shakespeare pela edição de John Florio (1603).[2]

Criações totalmente shakespearianas são o Bobo do rei e o personagem do Pobre Tom (Poor Tom), ambas figuras que se fazem de loucos.[1] [2] Em contraste com a lenda de Leir e as versões literárias anteriores, a obra de Shakespeare termina em tragédia, com a loucura e morte de Lear e a execução de Cordélia.[1] [2]

Edições[editar | editar código-fonte]

Edição Quarto de Rei Lear (1608)

Rei Lear existe em dois textos diferentes, o Quarto de 1608 e o Folio de 1623, que diferem notavelmente entre si em vários aspectos. A impressão do Quarto é de má-qualidade, e o texto deste foi durante muito tempo considerado inferior ao Folio. É provável, porém, que o Quarto tenha sido editado em base às notas do próprio Shakespeare e que represente um estágio autêntico inicial da obra.[2] O Folio é uma edição póstuma, organizada pelos atores da companhia teatral de Shakespeare, e possui um texto mais aprimorado que o do Quarto. Entre os dois textos há várias diferenças no número de falas, vocabulário e o peso relativo dos episódios. Também o final é distinto: no Quarto, a última fala é do duque de Albany, enquanto que no Folio é de Edgar, indicando assim uma diferença entre quem reinará a Bretanha após Lear.[2]

Durante muito tempo, os editores misturaram ambas versões para tentar criar o "verdadeiro" texto de Rei Lear, mas atualmente há uma tendência a considerar-se o Quarto e o Folio como estágios diferentes na maduração da obra e, assim, igualmente "shakespearianos".[2] Historicamente, porém, alguns autores, descontentes com o final da obra, revisaram-na radicalmente: em 1681, o escritor Nahum Tate criou uma versão simplificada, sem o personagem do Bobo, na qual nem Cordélia nem Lear morrem no final e em que Edgar e Cordélia se casam. Essa e outras versões alteradas foram encenadas durante muito tempo, até que em 1838 uma produção do ator shakespeariano William Macready recuperou a maior parte do texto original.[2] Desde então o texto de Shakespeare voltou a ser utilizado nos teatros.

Técnicas dramatúrgicas[editar | editar código-fonte]

King Lear pode ser considerada uma obra da fase mais madura da produção shakespeareana. Seu caráter inovador pode ser apontado pela total ausência do divino em sua trama – o mundo de “Rei Lear” é um cosmos sem deuses ou interferências mágicas. A peça é, essencialmente, um drama familiar, no qual a personagem-título é a figura central e o herói trágico por excelência: a partir de uma escolha errônea – o rei decide dividir o seu reino entre suas três filhas, e para tal exige delas submissão e homenagens laudatórias; diante da recusa da mais jovem, Cordelia, que se revolta contra o fingimento das demais irmãs, Goneril e Regan, ele expulsa-a do reino e nega-lhe o direito à partilha –, Lear desencadeará toda uma alteração na ordem natural, provocando a mudança da fortuna da felicidade para a infelicidade – a Inglaterra cai em mãos inescrupulosas e ele mesmo, antes rei, vê-se lançado à própria sorte e é rechaçado pelas filhas a quem dera o trono – e a conseqüente catástrofe final – a morte da filha Cordelia, que se casara com o herdeiro do trono francês e volta para a Inglaterra para defender o pai, e a sua própria morte.[3]

O erro trágico de Lear – a escolha errada que faz pelas filhas bajuladoras, motivada por sua vaidade e soberba, e a conseqüente expulsão de Cordelia – é exposto por Shakespeare ao público já na primeira cena, e o protagonista começa a sofrer os efeitos da mudança da fortuna ainda nesse primeiro ato. Tal escolha deve-se, em parte, ao fato de que Shakespeare trata, nessa peça, de um universo de personagens que é desconhecido do público por não advir de nenhum mito conhecido; isso teria levado o dramaturgo a partir do erro trágico para mostrar suas conseqüências ao longo de todo o texto, ao invés de delongar sua aparição para mais adiante na trama. Esse caráter de novidade do mito de Lear seria também o fator motivador para a composição de uma trama secundária na peça – a de Gloster, que acredita nas intrigas tecidas por seu filho bastardo Edmund contra o nobre e fiel Edgar, seu filho legítimo –, a qual serve de espelhamento ao erro trágico de Lear e reforça, para o público, o cerne da trama principal.[3]

Como erro trágico, a ação de Lear não apresenta possível restauração. Mesmo o retorno de Cordelia, a filha fiel e injustiçada que regressa à Inglaterra com as forças francesas para restituir o trono ao pai vilipendiado pelas irmãs, mostra-se trágico, já que representará o grande sacrifício da personagem em nome do amor filial. A morte dos antagonistas ao final da peça tampouco representa um retorno à felicidade inicial. O próprio equilíbrio retomado ao final da peça, com a dominação dos exércitos do rei francês sobre a tirania imposta pelas filhas de Lear, Goneril e Regan, pode ser visto como uma alteração das forças da natureza ocasionada pelo erro trágico de Lear – já que, historicamente, a visão de um salvador oriundo da França para o público inglês soaria como uma verdadeira inversão cósmica da ordem natural.[3]

É interessante ressaltar que há diversos elementos em King Lear que também são encontrados em The Taming of the Shrew: o rebaixamento – que no “Rei Lear” está na figura de Kent, o qual se disfarça de servo para auxiliar o rei, a quem é fiel mas havia sido por Lear banido por tentar demovê-lo da idéia de expulsar Cordelia –, o engano, o espelhamento da trama central em uma trama secundária e mesmo o grosseiro e o burlesco – representados pelo Fool e suas intervenções junto ao rei – encontram paralelos na comédia anteriormente estudada. Contudo, o que em “A Megera Domada” servia para causar o riso, em “Rei Lear” é usado para compor o quadro de perdição oriundo do erro trágico do protagonista e, conseqüentemente, o efeito catártico e didático da tragédia shakespeareana: a fragilidade humana faz com que a velhice não traga, obrigatoriamente, a sabedoria ou o aprendizado pela experiência; os erros de julgamento, pelo contrário, podem ser ainda mais trágicos por conta da vaidade e da soberba oferecidos pela aparente superioridade de julgamento dos mais velhos – seja ele um rei, como Lear, ou um homem mais próximo de nós, como Gloster.

Referências

  1. a b c d e Shakespeare: Uma vida. Honan Park, tradução Sônia Moreira. Companhia das Letras. São Paulo (2001).
  2. a b c d e f g h i j k l m William Shakespeare King Lear. The RSC Shakespeare. Edited by Jonathan Bate and Eric Rasmussen. Macmillan Publishers. 2009. ISBN 13 978-0-230-57614-8
  3. a b c d Cadernos Entre Livros - Panorama da Literatura Inglesa, ISBN 978-85-99535-30-1, Editora Ediouro, Segmento-Duetto Editorial Ltda, páginas 12 a 21.
  4. Godofredo de Monmouth, Historia Regum Britanniae 2.11
  5. John Cannon, Anne Hargreaves. Kings and queens of Britain. Oxford University Press US, 2009. ISBN 0199559228 [1]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • William Shakespeare King Lear. The RSC Shakespeare. Edited by Jonathan Bate and Eric Rasmussen. Macmillan Publishers. 2009. ISBN 13 978-0-230-57614-8 (em inglês)

Ver também[editar | editar código-fonte]