Teatro Garrett

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Teatro Garrett
Construção 1890
Inauguração 22 de Agosto de 1873
Capacidade 485
Geografia
Cidade Póvoa de Varzim, Portugal

Teatro Garrett é um teatro localizado na cidade da Póvoa de Varzim, em Portugal. Localiza-se junto ao Largo David Alves no número 13 na que é hoje denominada rua José Malgueira, antiga rua da Senra. O primeiro Teatro Garrett surgiu em 1873 na Praça do Almada, sendo que o presente é de 1890, foi assim o que teve maior impacto social e longevidade. No final do século XX, com a popularidade dos cinemas, passou a designar-se Cine-Teatro Garrett, se bem que tenha sido sempre conhecido apenas como Garrett.

Pelo Garrett passaram o que havia de melhor no teatro português: João Villaret, Laura Alves, Ruy de Carvalho e o brasileiro Procópio Ferreira. Actuavam também no Garrett, osquestras ligeiras e sinfónicas, tunas, espectáculos de variedades e grandes comícios políticos e conferências.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Origens e apogeu[editar | editar código-fonte]

O Teatro Garrett surgiu por iniciativa de uma sociedade de cinco cidadãos do Porto, que levou à edificação do teatro num elegante edifício de madeira em 22 de Agosto de 1873.[2] O Teatro homenageia Almeida Garrett, impulsionador do teatro em Portugal, cuja ligação à Póvoa advém do seu amigo pessoal, o poveiro Francisco Gomes de Amorim. Na sua estadia na Póvoa, Garrett encontrou inspiração para escrever Frei Luís de Sousa.[2] A popularidade da Póvoa de Varzim como eminente instância balnear, leva à construção de um novo edifício para o teatro, o presente, em 1890.

Um espaço fundamental para a sociedade poveira da época, com impacto também no Norte de Portugal, que à Póvoa vinham a banhos, muitos foram os que assistiram ali, pela primeira vez nas suas vidas, a peças de teatro, cinema e concertos. Várias acções beneméritas foram ali organizadas. O antigo e célebre monumento ao Cego do Maio, um herói local condecorado pelo Rei D. Luís I, erigida em 1906, foi construída com o dinheiro necessário obtido localmente por meio de subscrições e de espectáculos organizados pelo Clube Naval Povoense no Teatro Garrett.

Nos primeiros anos do século XX, A Póvoa era roteiro preferencial de grandes artistas nacionais e internacionais, sobretudo espanhóis. Era na Póvoa que as vedetas da época iniciavam a sua tournée por Portugal. Era, no Norte, onde existiam mais casas de espectáculos, em especial café-concerto. Cada casa trazia à Póvoa o que havia de melhor na música, arte dramática e bailado. O Teatro Garrett era o grande teatro da época. A imprensa nacional dava destaque às companhias de opereta, revista e zarzuela que ali se apresentavam. Algumas das companhias como a Sociedade Artística de Lucinda Simões, o Teatro Ginásio de Lisboa e o Teatro Nacional do Porto apresentavam peças de qualidade, e muitas em estreia absoluta.[1]

O Orfeon Povoense[editar | editar código-fonte]

No dia 25 de Abril de 1915, o Orfeon Povoense (mais tarde Orfeão Poveiro), dirigido por Josué Trocado, fez a sua primeira apresentação em público no Teatro Garrett. O espectáculo abre com a Tuna dos Empregados do Comércio na marcha O Poveiro de Josué Trocado. Na segunda parte prossegue com o Orfeão Povoense, com a "Cantata", hino do Orfeão, a "A Bailadeira Oriental" de H. Weyts, a "A Vindima" de Josué Trocado e a tradução por Josué Trocado do "Coro dos Caçadores", de Der Freischütz de Weber. Na terceira parte, teatro com a comédia "o Caloiro" pelo Colégio Povoense.

Na verdade, o Orfeon Povoense, tinha surgido, literalmente, de um sonho de Viriato Barbosa "Era no Garrett!", contava. "Estavam as bancadas… ocupadas por toda a rapaziada, a fina flor da nossa Póvoa que em orfeão entoava a «overture» do «Navio Fantasma» de Wagner… Ao centro do palco… destacava-se a correcta regência daquele orfeon, um cavalheiro que… se evidenciou na originalidade da sua música… Seguia-se um trecho alegre de Rossini…, depois de Weber…, e logo um desespero de Schumann…; e ainda Chopin… Acordei e depois desse sonho fantasiei-o em realidade! Sim. Tornei esse meu sonho d'um Orfeon Povoense, um facto, e daí desejando provas palpáveis, escrevi-o, procurando insuflá-lo no espírito de quem ler, e incuti-lo em quem se julgue de ânimo forte para o realizar." E, essa pessoa foi Josué Trocado.[3]

Boa parte das récitas do orfeão foram no Teatro Garrett, nas passou pelo Café Chinês, pelo Casino da Póvoa e várias cidades portuguesas. Aquando das récitas em Lisboa, o Orfeon Povoense é referido pela imprensa da época como o "melhor orfeão português". O orfeão acaba por desaparecer nos anos 60, depois de ter entrado em decadência nos anos 40.

Teatro de Revista[editar | editar código-fonte]

O teatro ligeiro era especialmente popular e o Teatro Garrett teve muitas noites de sucesso graças a esta forma teatral cuja matéria-prima era a crítica ao poder e a face anedótica da política local e nacional. Se nomes nacionais como Laura Alves, Ivone Silva e Eugénio Salvador faziam vibrar o público, era a poveira Clarice Marques, uma mulher do povo sem formação dramática, que causava grande impacto entre o público local e que popularizou este género teatral na Póvoa de Varzim.[1]

Descendente de pescadores poveiros e nascida na Rua dos Ferreiros, Clarice era conhecida o seu sotaque poveiro, o vocabulário local e os perfeitos trejeitos de uma verdadeira pescadeira e com um humor notável criava grande impacto entre o público, merecendo elogios do encenador António Pedro e de profissionais brasileiros como Lucinha Lins e Ary Fontoura que contracenaram com a actriz amadora em 1988 em Esta Póvoa que eu Amo. Foi na opereta Maria, com apenas 16 anos, que começou no teatro. A sua estreia deu-se em 1961 com a Revista Espera que já comes.., levando ao riso a plateia. No ano seguinte, leva a plateia às lágrimas durante o monólogo Aquela Música, com a Serenata de Schubert como música de fundo. Numa nova revista onde o seu nome constava, o Teatro Garrett esgotava.[1]

A decadência[editar | editar código-fonte]

Parte da fachada degradada do Teatro Garrett antes do início das obras de recuperação com cartaz político de protesto, com "Basta de esperar pelo Garrett."

Com o passar dos anos, no final do século XX, o espaço encontrava-se em avançado estado de degradação. Para o recuperar devidamente, foram propostos vários projectos e tentado apoio financeiro com recurso ao programa nacional denominado Adaptação e Instalação de Recintos Culturais em 1997, que no entanto é rejeitado, transitando para o ano seguinte, mas que uma alteração legislativa impede nova candidatura augurando o desaparecimento do teatro. Governava então António Guterres.

Para proteger o teatro de ser usado para outros fins, que não o seu propósito secular, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim decide comprar o imóvel por 170 mil contos (o equivalente a quase 848 mil euros).[4] [5] Apesar dos sinais de degradação de mais de um século na vida cultural local, no ano 2000, estrearam ali as peças «Que relíquia!» do Teatro Art'Imagem, «As más» e «Vírus Zucco» do Varazim Teatro.

Em Setembro de 2005, a Câmara da Póvoa vedou o cine-teatro com tapais de obra por perigo de ruína. Em Março de 2006, o vereador da Cultura da Câmara, Luís Diamantino, garantia que o projecto de recuperação do Garrett estava praticamente concluído e chegou mesmo a afirmar que acreditava ser possível ter o teatro recuperado e operacional ainda em 2007.[6]

A recuperação[editar | editar código-fonte]

A 15 de Setembro de 2008, aproveitando um momento menos bom na construção civil nacional, mas positiva financeiramente na cidade com as receitas municipais a aumentarem mais de 50% entre 2005 e 2007, foi finalmente adjudicada a recuperação e valorização do Garrett, por quatro milhões e 300 mil euros, um valor mais baixo do que o valor base do concurso, na ordem dos cinco milhões e 400 mil euros. A obra arrancaria nos próximos 30 dias.[5] No entanto, com a crise financeira mundial e as dificuldades financeiras da construtora e o atraso na chegada das verbas do Fundo de Turismo (dos impostos da concessão de jogo do Casino da Póvoa), que financiarão 50% da empreitada, levam a que a requalificação esteja bloqueada até dia 14 de Setembro de 2009, um ano depois.

Projecto de recuperação[editar | editar código-fonte]

A intervenção pretende-se recuperar a imagem de sala de espectáculos, vocacionada para a apresentação de teatro e dança, espectáculos de música ou até para a projecção de filmes de carácter não comercial, mantendo as características essenciais do edifício, com a recuperação da fachada, mas adequada às exigências contemporâneas do público.[7]

A reestruturação do edifício, passou pelo redimensionamento da própria sala de espectáculos para anfiteatro com a demolição do primeiro balcão, e reorganização do segundo balcão, cuja capacidade total passou a 485 lugares sentados, mantendo os 32 lugares nos camarotes das varandas laterais. O projecto prevê a criação de uma sala de apoio para recepções ou eventos de menor escala e a criação de novos camarins, a reestruturação geral do palco e das áreas técnicas. Ao nível da cobertura, será criada uma zona de bar e esplanada virada para os telhados do casario do centro da cidade para uso regular de forma a voltar a criar hábitos do uso do equipamento entre a população.[5]

Referências

  1. a b c d Azevedo, José de. Poveirinhos pela Graça de Deus. [S.l.]: Na Linha do horizonte - Biblioteca Poveira CMPV, 2007.
  2. a b Baptista de Lima, João. Póvoa de Varzim - Monografia e Materiais para a sua história. [S.l.]: Na Linha do horizonte - Biblioteca Poveira CMPV, 2008.
  3. [Auto de Colocação da 1ª Pedra (de 20 de Novembro de 1921] - Arquivo Municipal da Póvoa de Varzim
  4. Cine-Teatro Garrett - CMPV
  5. a b c Cine-Teatro Garrett de volta à vida cultural da Póvoa - CMPV
  6. Obras do Cine-teatro Garrett estão paradas há um ano - Jornal de Notícias
  7. Autarquia vai reabilitar Cine-Teatro Garrett - RTP