Siglas poveiras

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Siglas Poveiras base para a maioria das siglas familiares.

As siglas poveiras ou marcas poveiras são uma forma de "proto-escrita primitiva", tratando-se de um sistema de comunicação visual simples usado na Póvoa de Varzim, Caxinas e Vila do Conde, durante séculos, em especial nas classes piscatórias. Para se escrever usava-se uma navalha e eram escritas sobre madeira, mas também poderiam ser pintadas, por exemplo, em barcos ou em barracos de praia. Foram deixadas por colonos vikings, há cerca de 1.000 anos, nesta zona da Póvoa de Varzim, Caxinas e Vila do Conde.

No passado, era também usado para recordar coisas; eram conhecidas como a «escrita» poveira, mas não formavam um alfabeto, em vez disso funcionavam como os hieroglifos egípcios; adquirindo bastante utilidade. Foram estudadas por Octávio Lixa Filgueiras.

Tipos de siglas[editar | editar código-fonte]

Segundo Lixa Filgueiras, pode-se distinguir dois tipos de símbolos relativamente ao uso: as marcas e as siglas.[1]

As marcas serviriam para registo de posse, sendo por isso bastante comuns, e as siglas tinham preocupações mágico-religiosas. Os símbolos de carácter mítico eram mais raros, quer em siglas antigas, quer em siglas mais recentes.

As siglas mágico-religiosas subdividiam-se em três tipos distintos:

  • Siglas Religiosas
  • Siglas Mágicas
  • Siglas Marítimas.
Quadro de referência dos tipos de siglas nas marcas dos pescadores comparada com marcações das portas das capelas de Balazar e Santa Tecla
Discriminação Póvoa de Varzim Balazar Santa Tecla
Siglas Religiosas 18 11 11
Siglas Mágicas 5 6 4
Siglas Marítimas (totais) 47 23 20
Barcos ou suas partes 32 12 13
Pesca 5 8 4
Penas 4 1 1
Pés de Galinha 6 2 2

Marcas familiares[editar | editar código-fonte]

Marca na soleira de uma garagem particular na Rua Cândido Landolt no centro da Póvoa.

As marcas são brasões de família usadas desde tempos imemoriais pela comunidade e com estes símbolos marcam-se todos os objectos marítimos e caseiros, ou seja, são um registo de propriedade. A "marca-brasão" de uma família era conhecida por toda a comunidade poveira, sendo os filhos reconhecidos através da contagem dos piques, uma sigla que corresponderia a um traço.

Este sistema de assinatura familiar revelava-se útil, eram usadas pelos vendedores no seu livro de conta fiada, sendo lidas e reconhecidas como reconhecemos um nome escrito em alfabeto latino. Os valores em dinheiro eram simbolizados por rodelas e riscos designando vinténs e tostões, respectivamente; e desenhados depois da marca de um dado indivíduo. Mas é nos túmulos que a «marca-sigla» adquire o cunho pessoal, a sigla gravada na lousa tumular indicava o indivíduo que jazia na sepultura.

Segundo conta o capitão do Porto de Leixões, o Conde de Vilas Boas, um indivíduo furtou uma bússola na Póvoa de Varzim e foi vendê-la a Matosinhos, mas desconhecia que uns "sarrabiscos" gravados na tampa indicavam quem era o dono. A primeira pessoa a quem tentou vender foi a uma poveira. Esta reconheceu imediatamente a sigla e seu dono e com outros pescadores, que também reconheceram a marca, levaram o homem, à força, para a capitania.[2]

Herança da marca[editar | editar código-fonte]

Um exemplo de siglas poveiras hereditárias numa família de quatro filhos. A posição dos piques varia consoante a família.

As marcas são brasões de famílias hereditários, transmitidos por herança de pais para filhos, têm simbolismo e só os herdeiros podem usar.

As marcas eram passadas do pai para o filho mais novo. Aos restantes filhos eram dadas a mesma marca mas com «pique». Assim, o filho mais velho tem um pique, o segundo dois, e por aí em diante, até ao filho mais novo que não teria nenhum pique, herdando assim a marca-brasão de seu pai. Existiam vários modos de colocar os piques na marca, desde picar, gradar até cruzar a marca. Formando-se assim, conforme o número de piques, cruzes, estrelas, grades.[2]

Na tradição poveira, que ainda perdura, o herdeiro da família é o filho mais novo tal como na antiga Bretanha e Dinamarca. O filho mais novo é o herdeiro dado que é esperado que tome conta dos seus pais quando estes se tornassem idosos. O Poveiro, ao chegar à meia idade, dava o lugar na lancha ao filho mais novo, que lhe tomava conta da rede e aprestos sinalados.[2]

Para as gerações seguintes, a dos netos, a regra é idêntica. Estes têm para além dos seus piques, os piques na marca do pai, caso nenhum dos dois seja o filho mais novo.

Siglas mágico-religiosas[editar | editar código-fonte]

Sanselimão desenhado junto à porta de uma casa na Rua da Quingosta, uma das mais estreitas e antigas ruas poveiras.

Capelas em praias e montes[editar | editar código-fonte]

Locais úteis para o estudo das siglas são os templos religiosos localizados não só na cidade e no seu concelho, mas também por todo o noroeste peninsular, em especial no Minho (em Portugal), mas também na Galiza (Espanha).

Os Poveiros, ao longo de gerações, costumavam gravar nas portas das capelas perto de areais ou montes a sua marca como documento de passagem ou como promessas da campanha. Todos os barcos têm o seu santo patrono e em toda a divisão de lucros, há sempre umas moedas para o santo. Estas moedas ficavam na posse do mestre da embarcação. Quando este as vai cumprir, quase sempre no dia de festa ou romaria do santo invocado, grava a sua marca na porta da capela, arco cruzeiro ou caixa das Esmolas testemunhando que desempenhou devotadamente o encargo que lhe foi confiado. A marca serviria para como que os poveiros que mais tarde a vissem que passou por ali ou para trazer boa ventura a si mesmos pelo santo que fora venerar. Isso pode ser verificado na Nossa Senhora da Bonança, em Esposende, e Santa Trega (Santa Tecla) no monte junto à Guarda, Galiza. Uma tradição idêntica existia na Suécia, como é visível na Igreja Românica de Skanör.[3]

Em 23 de Setembro de 1991 é inaugurada nas festividades de Santa Trega, uma escultura em honra às siglas poveiras que recorda a antiga porta coberta de siglas da capela de Santa Trega, por forma a perdurar o que tinha sido perdido, com a inauguração veio da Póvoa de Varzim uma expedição a bordo da lancha poveira Fé em Deus, cujos pescadores subiram ao Trega e oraram na ermida dedicada à padroeira do Monte. Os montes perto da costa, por serem visíveis do mar, têm importância na religiosidade dos poveiros. Outrora, os pescadores iam ao monte rezar à santa num ritual com cantigas de forma a mudar os ventos para que pudessem regressar a casa.

As marcas eram usadas de forma semelhantes nos templos de Senhora da Abadia e São Bento da Porta Aberta, em Terras de Bouro, São Torcato, em Guimarães e Senhora da Guia, em Vila do Conde e na Capela de Santa Cruz em Balasar.

A sigla Sanselimão era uma sigla mágico-religiosa, particularmente popular, e usada como símbolo protector e bruxaria, vide bruxa poveira.

Divisas[editar | editar código-fonte]

Representação de siglas poveiras num azulejo que representa a Ala-Arriba!. É visível a "divisa" da embarcação.

O peixe apanhado na rede pertencia ao seu proprietário, quer seja lanchão ou sardinheiro, os peixes eram assim marcados com sigla e entregues às mulheres dos donos da rede. As "marcas de peixe" são golpes feitos em forma de sigla no peixe em diferentes pontos.

A tripulação de cada barco tinha também uma sigla que era usada por todos os tripulantes, caso estes mudassem de barco passariam a usar a sigla desse barco. Estas siglas eram chamadas de "divisas".

As divisas são verdadeiros «escudos d'armas», destinados ao reconhecimento do barco, mas, curiosamente, eram diferentes da marca do dono do barco. Note-se que todo o que o poveiro possuía era marcado com a sua marca pessoal, excepto o barco. Este facto aponta, segundo Lixa Filgueiras, para que os barcos estivessem sujeitos predominantemente a invocações mágico-religiosas, adoptando-se um santo-patrono para a embarcação, ganhando um carácter mítico, envolto em símbolos protectores.[1]

«Cinco dias depois, entrava na barra da Póvoa, uma lancha encarnada que, pelas suas divisas, sarilho, peixe e panal à proa, panal e quatro piques em cruz à ré, se reconheceu ser a lendária lancha Santa Philomena.
Vinha finalmente, descansar de tanta luta e fadiga na acolhedora praia da terra-mãe».
A. Santos Graça, Epopeia dos Humildes, pág. 146

Casamento[editar | editar código-fonte]

Os poveiros escreviam a sua sigla na mesa da sacristia da igreja matriz quando se casavam como forma a registar o evento. Este tipo de uso de siglas pode ser encontrado na Igreja Matriz (igreja matriz desde 1757) e na Igreja da Lapa.

A mesa da sacristia da antiga Igreja de Santa Maria de Varzim, guardava em si milhares de siglas que serviriam para um estudo mais pormenorizado, nomeadamente para verificar origens de famílias, mas foi destruída quando a igreja foi demolida em 1910. Situada no Largo das Dores, a igreja tinha sido edificada no século XI e serviu de Matriz até 1757.

Origem[editar | editar código-fonte]

1. Marca do islandês Ormur Ketilsson (1369), 2. Marca do islandês Þórður Snorrason (1439), 3. Marca do juiz sueco Scalle (1413) e 4. marca de um pedreiro da catedral de Uppsala, na Suécia

As siglas foram estudadas, pela primeira vez, por António dos Santos Graça no seu livro "Epopeia dos Humildes". Editado em 1952, o livro contém centenas de siglas e a história e tragédia marítima poveiras. Outras das suas obras são "O Poveiro" (1932), "A Crença do Poveiro nas Almas Penadas" (1933) e "Inscrições Tumulares por Siglas" (1942).

Para Santos Graça, as siglas estavam relacionadas com os povos castrejos e o autor chegou mesmo a comparar siglas poveiras e outras siglas mais modernas usadas por outras comunidades piscatórias com a escrita ibérica. No entanto, essa tese carece de provas. Depois de uma visita ao National Museet de Copenhaga, Octávio Lixa Filgueiras casualmente encontrou peças marcadas com "marcas de casa" da Fiónia na Dinamarca. Curiosamente, o complexo sistema hereditário de marcas encontrados na Póvoa de Varzim ocorreu também na Fiónia.

As siglas poveiras terão evoluído, provavelmente, através da colonização viking entre os séculos IX e X e permanecido na comunidade devido à prática da endogamia e protecção cultural por parte da população. As marcas, usadas como brasão ou assinatura familiar para assinar os seus pertences, também existiram na Escandinávia, onde eram chamados de bomärken (marcas de casa).[4]

Cada sigla-base tem um nome, normalmente relacionados com objectos diários, mas esta associação sigla-objecto parece ser tardia, tanto na Póvoa de Varzim como no sistema estudado na Fiónia. A ampulheta da Fiónia era desenhada da mesma maneira que o cálice da Póvoa de Varzim.[1]

As siglas e as runas[editar | editar código-fonte]

As siglas foram comparadas com as runas, especialmente na década de 1960, quando Lixa Filgueiras pediu mais estudos sobre o assunto. Siglas e runas nórdicas idênticas para comparação:

i pique - runa-i isaz (gelo)
t arpão - runa-t Tiwaz (Tyr)
l meio-arpão - runa-l laguz (lago)
d cálix fechado - runa-d dagaz (dia)
g cruz - runa-g gyfu (prenda)
Segundo Santos Graça, o Cruzeiro do cemitério da Póvoa de Varzim terá dado origem à sigla poveira Padrão.

Segundo Santos Graça, as siglas eram inspiradas por objectos do uso quotidiano poveiro:

Lanchina lanchinha — Barco Poveiro (bombordo)
Lanchina lanchinha — Barco Poveiro (proa)
Mastro e verga mastro e verga — Barco Poveiro com Vela Içada
Coice coice — Barco Poveiro (pormenor da ré)
Padrao padrão — Cruzeiro do Cemitério da Póvoa de Varzim
Grade de 2 piques Grade de 3 piques grades de dois e três piques — Grade (Alfaia agrícola usada no desterroamento e alisamento dos campos depois das lavras na Giesteira, Póvoa de Varzim)
Sarilho Meio sarilho Meio sarilho sarilho e meio sarilho — Sarilho (Utensílio com que as mulheres faziam as meadas da lã ou do linho na Póvoa de Varzim)

As siglas hoje[editar | editar código-fonte]

Placa de Rua no centro da cidade com marcas familiares.

O uso de letras do alfabeto para identificar os barcos ocorreu bastante tarde na Póvoa de Varzim, comparando com outras comunidades piscatórias que usavam algum tipo de siglas. Em 1944, em 25 marcas de barcos, só uma aparecia com letras do alfabeto: F.A. de Francisco Fogateira, em substituição da marca lanchinha e dupla de dois piques em cruz e coice. Em A Ver-o-Mar, entre 38 já apareciam umas oito embarcações com letra e sigla.

Apesar de já não ter o uso de outrora, os banheiros do Bairro Norte ainda colocam a sua marca familiar nos seus pertences na praia, acontecendo o mesmo dentro do núcleo familiar com os pertences em algumas famílias típicas. A Casa dos Pescadores da Póvoa de Varzim ainda aceita as siglas como formas correctas de assinatura. As siglas são usadas como motivos nas calçadas da cidade. Nas placas das ruas do Centro da cidade, de forma a reavivar o seu uso e a espelhar a alma da cidade, são colocadas várias marcas de famílias poveiras.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c Lixa Filgueiras, Octávio (1965). Acerca das Siglas Poveiras. IV Colóquio Portuense de Arqueologia.
  2. a b c Santos Graça, António (1942). Inscrições Tumulares Por Siglas. Edição de autor, Póvoa de Varzim.
  3. Skanör - S:t Olof
  4. "Siglas Poveiras". Portal da CMPV

Ligações externas[editar | editar código-fonte]