Heráldica

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Exemplo de brasões.

A heráldica refere-se simultaneamente à ciência e à arte de descrever os brasões de armas ou escudos. As origens da heráldica remontam aos tempos em que era imperativo distinguir os participantes das batalhas e dos torneios, assim como descrever os serviços por eles prestados e que eram pintados nos seus escudos. No entanto, é importante notar que um brasão de armas é definido não visualmente, mas antes pela sua descrição escrita, a qual é dada numa linguagem própria – a linguagem heráldica.

Ao ato de desenhar um brasão dá-se o nome de brasonar. Para termos a certeza de que os heraldistas, após a leitura das descrições, estão a brasonar corretamente, criando brasões precisos e semelhantes entre si, a arte de brasonar segue uma série de regras mais ou menos estritas.

A primeira coisa que é descrita num escudo é o esmalte (cor) do campo (fundo); seguem-se a posição e esmaltes das diferentes figuras (objectos) existentes no escudo. Estas cargas são descritas de cima para baixo, e da direita (dextra) para a esquerda (sinistra). Na verdade, a dextra (do latim dextra, -æ, «direita») refere-se ao lado esquerdo do escudo, e a sinistra (do latim sinistra, -æ, «esquerda») ao lado direito, tal como este é visto pelo observador. A razão porque isto sucede prende-se com o facto de a descrição se referir ao ponto de vista do portador do escudo, e não do seu observador.

Embora a palavra escudo seja comumente utilizada para se referir ao brasão de armas no seu todo, na realidade, o escudo é apenas um dos elementos que compõem um brasão de armas. Numa descrição completa, o escudo pode ser acompanhado por outros elementos, como suportes, coronéis, listéis com motes (ou lemas).

No entanto, muitos escudos apresentam por vezes duas formas distintas: uma complexa, e outra simplificada, reduzida ao escudo propriamente dito (o que sucede por vezes quando há pouco espaço para inserir o brasão de armas maior). Inúmeros países apresentam assim as chamadas armas maiores e armas menores (veja-se o caso de Portugal).

As regras da Heráldica[editar | editar código-fonte]

Escudo e lisonja[editar | editar código-fonte]

O foco da heráldica moderna é o brasão, ou cota de armas, cujo elemento central é o escudo.[1] Em geral, a forma do escudo empregado numa cota de armas é pouco relevante, porque as formas de escudo que foram apropriadas pela arte heráldica evoluíram através dos séculos, mas é claro que há ocasiões em que um brasão especifica um formato particular de escudo. Estas especificações ocorrem principalmente fora do contexto europeu, como na cota de armas de Nunavut (imagem disponível em en:Coat of arms of Nunavut)[2] e na antiga República de Bophuthatswana,,[3] com o exemplo ainda mais insólito da Dakota do Norte,[4] enquanto o Estado de Connecticut especifica um escudo "rococó".[5] — a maioria fora do contexto europeu, mas não todos: costam dos registros públicos escoceses um escudo oval, da Lanarkshire Master Plumbers' and Domestic Engineers' (Employers') Association, e um escudo quadrado, da organização Anglo Leasing.

Tradicionalmente, como as mulheres não iam à guerra, elas não carregavam escudos; em vez disso, as cotas de armas femininas eram ostentadas numa lisonja — um losango apoiado num de seus ângulos agudos. Ainda é desse modo na maior parte do mundo, embora algumas autoridades da Heráldica (como as escocesas, cujas armas femininas são ovais) façam exceções.[6] No Canadá, a restrição contra mulheres ostentarem armas num escudo foi eliminada. O clero não combatente também fez uso da lisonja e de escudos ovais.

Esmaltes[editar | editar código-fonte]

Cores principais Metais principais Peles principais
Blau ou Azure
Heraldic Shield Azure.svg
Gules
Heraldic Shield Gules.svg
Sable
Heraldic Shield Sable.svg
Sinopla ou Vert
Heraldic Shield Vert.svg
Purpure
Heraldic Shield Purpure.svg
Jalde ou Or
Heraldic Shield Or.svg
Argente
Heraldic Shield Argent.svg
Arminho
Blason region fr Bretagne.svg
Veiro
Vair plain.svg

Esmaltes são as cores usadas na heráldica, embora haja certos padrões, chamados peles, e representações de figuras em suas cores naturais, ou da sua cor (distintas das cores representáveis), que também são tratados como esmaltes. Como a heráldica é, em sua essência, um sistema de identificação, a convenção heráldica mais importante é a regra da contrariedade das cores (fr:Règle de contrariété des couleurs, en:Rule of tincture): em prol do contraste e da visibilidade, metais (que geralmente são esmaltes mais claros) nunca devem ser postos sobre metais, e cores (que geralmente são esmaltes mais escuros) nunca devem ser postos sobre cores. Quando uma figura sobrepõe uma parte do fundo do escudo, a regra não se aplica. Há também outras exceções — sendo a mais famosa a das armas do Reino de Jerusalém, que consistem numa cruz de ouro em fundo prata.[7]

Os nomes usados na brasonaria lusófona para as cores e metais provêm principalmente do francês. Os mais comuns são Jalde ou Or (ouro), Argente (prata), Blau ou Azure (azul), Gules (vermelho), Sable (preto), Sinopla ou Vert (verde) e Purpure (púrpura). Outras cores são utilizadas ocasionalmente, normalmente para finalidades especiais.[8]

Certos padrões chamados peles podem aparecer num brasão, e são (de modo um tanto arbitrário) classificados como esmaltes. As duas peles comuns são o Arminho e o Veiro. O Arminho representa a pelagem hibernal do arminho (branca com a cauda preta). O veiro representa um tipo de esquilo que tem o dorso azulado e o ventre branco. Costuradas lado a lado, formam um padrão alternado de formas azuis e brancas.[9]

Figuras heráldicas podem ser representadas em suas cores naturais. Muitos objetos da natureza, como plantas e animais, são descritos como de sua cor neste caso. Figuras de sua própria cor são muito freqüentes como timbres e suportes. O abuso do esmalte de sua cor é visto como uma prática viciosa e decadente.

Partições do escudo[editar | editar código-fonte]

Partições do escudo

O campo de um escudo, na heráldica, pode ser dividido em mais de um esmalte; do mesmo modo as várias figuras do escudo. Muitas cotas de armas consistem simplesmente de uma divisão do escudo em dois esmaltes contrastantes. Como estas são consideradas partições do escudo, a regra da contrariedade das cores pode ser ignorada. Por exemplo, um escudo dividido em partições azure e goles seria perfeitamente aceitável. A linha que divide o escudo em partições pode ser reta ou seguir padrões — serrilhados, ondulados, dentados, ou diversos outros.[10]

As variações de pintura seguem certos padrões de esmaltes, bem como as partições do escudo. As partições mais comuns resultam num escudo:

  1. Cortado (dividido na horizontal)
  2. Partido (dividido na vertical)
  3. Fendido (dividido diagonalmente a partir do canto direito)
  4. Talhado (dividido diagonalmente a partir do canto esquerdo)
  5. Franchado (fendido e talhado)
  6. Esquartelado (cortado e partido)
  7. em Asna (dividido por um "V" invertido)
  8. Terciado (dividido em três partes). Pode ser:
    1. Em pala (três partes verticais)
    2. Em faixa (três partes horizontais)
    3. Em banda (três partes, a do meio diagonal a partir do canto esquerdo)
    4. Em barra (três partes, a do meio diagonal a partir do canto direito)
    5. Em mantel (como duas cortinas que se abrem da parte superior central da partição)

Peças[editar | editar código-fonte]

Nos primórdios da Heráldica, formas retilíneas muito simples e com traço grosso eram pintadas nos escudos. Estas poderiam ser facilmente reconhecidas à distância e lembradas. Assim, serviam ao propósito-mor da Heráldica: identificação.[11] À medida que escudos mais complexos passaram a ser usados, estas formas grossas foram separadas numa categoria à parte, as peças. Elas funcionam como figuras, e sempre são descritas primeiro na brasonaria. A menos que seja expressamente especificado de outra forma, elas se estendem de borda a borda do campo. Existem peças de primeira ordem (oras chamadas honrarias, embora este vocábulo seja por vezes usado como sinônimo de peça) e segunda ordem (ordinárias).

Embora esta classificação não seja unânime, algumas normalmente são classificadas como de primeira ordem: estas incluem a cruz, a faixa, a pala, a banda e a aspa, soter ou sautor.[12]

Entre as que normalmente são classificadas como de segunda ordem estão a bordura, o chefe, os flancos e o cantão.[13]

As peças podem aparecer em séries paralelas; nestes casos, embora a brasonaria inglesa nomeie-os no diminutivo plural, a francesa não faz tal distinção. Salvo ressalva expressa, uma peça é desenhada com linhas retas, mas também podem seguir padrões serrilhados, ondulados, dentados, ou diversos outros.[14]

Figuras[editar | editar código-fonte]

Uma figura é um objeto aposto num escudo heráldico ou em qualquer outro objeto de uma composição armorial.[15] Qualquer coisa encontrada na natureza ou na tecnologia pode aparecer num armorial como uma figura heráldica. Figuras podem ser animais, objetos ou formas geométricas. As figuras mais freqüentes são a cruz, com suas centenas de variações, o leão e a águia. Outros animais comuns são o alce, o javali, a merleta e o peixe. Dragões, morcegos, unicórnios, grifos e criaturas ainda mais exóticas aparecem tanto como figuras quanto como suportes.

Animais são encontrados em posições estereotipadas, ou atitudes. Quadrúpedes freqüentemente são encontrados rampantes — sobre as patas traseiras. Outra atitude freqüente é a passante, do animal andando, como os leões das Armas Reais da Inglaterra. Águias quase sempre estão com as asas espraiadas.

Na heráldica inglesa, símbolos como o crescente, a moleta (em inglês), a merleta, o anelete (em inglês), a flor-de-lis e a rosa (em inglês) podem ser adicionados a um escudo para brisurá-lo. Estas brisuras são mostradas em tamanho menor do que figuras comuns, e mesmo assim não é certo que um escudo contendo uma figura assim pertença a um ramo familiar. Todas essas figuras ocorrem freqüentemente em cotas de armas basicamente indistintas.[16]

Elmo e timbre[editar | editar código-fonte]

Na heráldica alemã, há exemplos de escudos com múltiplos timbres, como estas armas de Saxe-Altemburgo, que possuem sete timbres. Algumas moedas de táler chegam a mostrar quinze.

A palavra timbre é usada para se referir a toda uma categoria de adornos heráldicos. O uso técnico do termo heráldico timbre refere-se a apenas um componente de todo um conjunto. O timbre jaz no topo de um elmo que, por sua vez, apóia-se sobre a parte mais importante do conjunto: o escudo.

O timbre moderno evoluiu da figura tridimensional colocada sobre os elmos dos cavaleiros como meios adicionais de identificação. Na maioria das tradições heráldicas as mulheres não ostentam timbres, embora esta tradição venha sendo relaxada em algumas jurisdições heráldicas, e a cota de Lady Marion Fraser, apresentada numa lisonja, tinha um elmo, um timbre e um mote.

O timbre geralmente é encontrado num virol, algumas vezes dentro de um coronel. Timbres-coronéis geralmente são mais simples do que os coronéis de nobreza, mas existem formas especializadas variadas: por exemplo, no Canadá, descendentes dos Lealistas do Império Britânico (em inglês) têm o direito de usar o coronel lealista militar (os descendentes de membros dos regimentos Lealistas) ou o coronel lealista civil (os outros).

Quando o elmo e o timbre são ostentados, costumam ser acompanhados de um lambrequim. Originalmente, tratava-se de um tecido usado sobre o fundo do capacete como proteção parcial contra o aquecimento provocado pelo sol. Hoje, sua forma é de uma capa estilizada pendendo do elmo.[17] Na heráldica britânica, é típico que a superfície externa do lambrequim seja da cor principal do escudo, e a superfície interna, do principal metal — embora os pares no Reino Unido usem colorações padronizadas, a despeito da posição nobiliárquica ou das cores de suas armas. O lambrequim por vezes é ilustrado com as bordas rasgadas, como se houvesse sofrido dano em combate, embora as bordas de muitos seja simplesmente decorada à vontade do brasonador.

O clero costuma evitar ostentar elmos ou timbres em suas cotas de armas. Membros do clero podem mostrar a indumentária apropriada — geralmente, um chapéu de copa baixa e abas largas, chamado "galero" fora da heráldica, cujas cores e borlas indicam hierarquia. Ou, no caso das armas papais, utilizava-se uma coroa tripla elaborada, conhecida como tiara papal, pelo menos até o papa Bento XVI ser eleito em 2005. Bento XVI, por sugestão do arcebispo Piero Marini, havia quebrado a tradição milenar ao substituir a tiara pela mitra em suas armas. Porém, a 10 de outubro de 2010, o papa Bento XVI mandou inserir a tiara em seu brasão, conforme projeto de Pietro Siffi, da "Ars Regia", uma firma especializada da cidade de Ferrara, recuperando a heráldica tradicional dos papas.[18] [19]

Brasão de Bento XVI, com a tiara recuperada

O clero ortodoxo e presbiteriano às vezes adota indumentária capital diferente em suas armas.

Na tradição anglicana, membros do clero podem passar timbres para sua descendência, mas raramente os ostentam em seus próprios escudos.

Motes[editar | editar código-fonte]

O mote, lema ou divisa armorial é a frase ou conjunto de palavras que descreve a motivação ou intenção da pessoa ou corporação detentora das armas. Não é ignorada a possibilidade de formar um trocadilho com o nome da família, como no lema de Thomas Nevile (em inglês) — "Ne vile velis" —. Motes geralmente são modificados à vontade e não são parte integrante do patrimônio heráldico. Motes podem ser encontrados tipicamente em um pergaminho sob o escudo, chamado listel. Na heráldica escocesa, em que o mote é garantido como parte do brasão, ele costuma ser mostrado em um listel acima do timbre, e não pode ser modificado à vontade. Um mote pode ser escrito em qualquer idioma.

Brasão de armas do Levante de Janeiro, respeitando e formando as nações da Commonwealth, sendo Três Nações: Águia Branca (Polónia), Vytis/Pahonia (Lituânia e Bielorrússia) e Arcanjo Miguel (Ucrânia).

Suportes e outras insígnias[editar | editar código-fonte]

Suportes são figuras de humanos ou animais, ou, muito raramente, de objetos inanimados, normalmente colocados de cada lado de uma cota de armas, como se a estivessem suportando. Em muitas tradições, o uso de suportes passou a seguir padrões estritos, que o limitavam a certas classes sociais. No continente europeu, costuma haver menos restrições ao uso de suportes.[20] No Reino Unido, apenas os pares do reino, uns poucos baronetes, os membros sênior de ordens de cavalaria e algumas corporações têm o direito de usar suportes. Estes freqüentemente têm um significado local ou uma ligação histórica com o detentor da cota de armas.

Se o detentor das armas tiver o título de barão, cavaleiro hereditário ou maior, ele pode ostentar um coronel de nobreza em seu escudo. Enquanto no Reino Unido ele aparece entre o escudo e o elmo, na heráldica continental costuma estar aboletado acima do timbre.

Outra adição que pode ser feita a uma cota de armas é a insígnia de um baronete ou de uma ordem de cavalaria. Esta geralmente é representada por um colar ou faixa similar ao redor do escudo. Quando as armas do cavaleiro e de sua esposa são mostradas numa única apresentação, a insígnia de cavalaria cerca apenas as armas do marido, e as da esposa são costumeiramente cercadas tão-somente por uma guirlanda ornamental de folhas, sem significado heráldico, tão-somente pelo equilíbrio estético.[21]

Diferenciação e brisuras[editar | editar código-fonte]

Como as armas passam de pais para filhos, e a maioria dos casais têm mais de um filho, é necessário distinguir as armas dos irmãos e outros familiares das armas originais, passadas de primogênito a primogênito. Várias tentativas foram feitas pelos tempos; veja brisura.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. William Whitmore. The Elements of Heraldry. (Weathervane Books, New York: 1968), p.9.
  2. Governo de Nunavut. n.d. About the Flag and Coat of Arms. Governo de Nunavut, Iqaluit, NU, Canada. Accessado em 05 de Maio de 2009. Disponível aqui
  3. Hartemink R. 1996. Heráldica cívica da África do Sul - Bophuthatswana. Ralf Hartemink, Países Baixos. Accessado em 05 de Maio de 2009. Disponível aqui
  4. Registro Heráldico Norte-Americano (em inglês)
  5. Sociedade Americana de Heráldica - Armas de Connecticut (em inglês)
  6. Stephen Slater. The Complete Book of Heraldry. (Hermes House, New York: 2003), p.56.
  7. Bruno Heim. Or and Argent (Gerrards Cross, Buckingham: 1994).
  8. Michel Pastoureau. Heraldry: An Introduction to a Noble Tradition. (Henry N Abrams, London: 1997), 47.
  9. Thomas Innes of Learney. Scots Heraldry (Johnston & Bacon, London: 1978), 28.
  10. Stephen Friar and John Ferguson. Basic Heraldry. (W.W. Norton & Company, New York: 1993), 148.
  11. Carl-Alexander von Volborth. Heraldry: Customs, Rules, and Styles. (Blandford Press, Dorset: 1981), 18.
  12. Stephen Friar, Ed. A Dictionary of Heraldry. (Harmony Books, New York: 1987), 259.
  13. Stephen Friar, Ed. A Dictionary of Heraldry. (Harmony Books, New York: 1987), 330.
  14. Woodcock, Thomas & John Martin Robinson. The Oxford Guide to Heraldry. (Oxford University Press, New York: 1988), 60.
  15. John Brooke-Little. Boutell's Heraldry. (Frederick Warne & Company, London: 1973), 311.
  16. Iain Moncreiffe of that Ilk and Don Pottinger. Simple Heraldry, Cheerfully Illustrated. (Thomas Nelson and Sons, London: 1953), 20.
  17. Peter Gwynn-Jones. The Art of Heraldry. (Parkgate Books, London: 1998), 124.
  18. Inserida a Tiara Papal no Brasão de Bento XVI.
  19. Le retour de la Tiare.
  20. Ottfried Neubecker. Heraldry: Sources, Symbols, and Meaning. (Tiger Books International, London: 1997), 186.
  21. Julian Franklyn. Shield and Crest. (MacGibbon & Kee, London: 1960), 358.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]