Thema de Hellas

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Mapa da Grécia por volta de 900, mostrando o Thema de Hellas à esquerda, na região central da Grécia.

O Thema de Hellas (em grego: θέμα Ἑλλάδος; transl.: thema Hellados), também chamado de Thema Heládico, foi um thema (província civil-militar) bizantino que abrangia a parte central da Grécia, a Tessália e, até 800, o Peloponeso. Ele foi fundado no final do século VII e sobreviveu até o final do século XI ou início do XII.

História[editar | editar código-fonte]

"Hellas" já era um nome utilizado no século VI para designar o sul da Grécia num contexto administrativo, sendo empregado no "Sinecdemos" como um nome alternativo para a província romana de Acaia.[1] [2] Durante o século VII, o colapso definitivo da fronteira do Danúbio permitiu que grandes quantidades de invasões e assentamentos eslavos ocorressem por toda a península balcânica. Na Grécia, as tribos eslavas tiveram liberdade quase total para saquear e se assentar definitivamente, principalmente por que a atenção bizantina estava voltada para as recentes invasões islâmicas no oriente. A maior parte da população grega nativa fugiu para as cidades fortificadas, para as ilhas e para a Itália.[3]

A criação do Thema de Hellas ocorreu em algum momento entre 687 e 695, durante o primeiro reinado do imperador Justiniano II (r. 685-695 e 705-711),[1] possivelmente como resultado direto de sua campanha contra os eslavos de 688-689. O primeiro estratego de Hellas aparece em 695: Leôncio, antigo estratego do Thema Anatólico, que havia caído em desgraça após sua derrota na Batalha de Sebastópolis[4] Ainda que as fontes contemporâneas não apliquem o termo "thema" para Hellas até depois do século VIII, utilizando o termo estratégia (strategia; "generalato") ao invés dele, é quase certo que Hellas desde o início era uma entidade administrativa plena, controlando as terras da antiga província de Acaia que ainda permaneciam sob controle imperial.[5] A abrangência original do thema é incerta e debatida entre os estudiosos, mas, baseado na extensão do controle bizantino, seu território deve ter abrangido a costa oriental da península (a parte oriental da Grécia central e partes da Tessália), possivelmente incluindo o Peloponeso oriental, além de algumas ilhas do Egeu como Esquiro e Ceos.[1] [6] [7] Não se sabe se a capital era Atenas ou Tebas; provavelmente esta última, pois ela certamente era a capital no início do século X. Na segunda metade deste mesmo século, porém, o estratego se mudou para Lárissa.[5] [8]

Dada a falta de profundidade para o interior, as atividades do thema originalmente se orientavam primordialmente para o mar.[6] O imperador Justiniano II assentou alguns milhares de mardaítas lá, que proviam tripulações para os esquadrões marítimos locais. O número de tropas terrestres, por outro lado, permaneceu baixo por toda a existência do thema, chegando talvez a 2 000 de acordo com as estimativas de Warren Treadgold.[9] A frota de Hellas teve um proeminente papel durante a revolta bizantina anti-iconoclasmo de 726. Durante o século VIII, porém, a autoridade imperial gradualmente se estendeu para o interior. Os habitantes eslavos locais foram cristianizados e sujeitados à autoridade bizantina, geralmente em distritos autônomos próprios sob um arconte.[10] [11] Este processo foi paralisado por outra onda de invasões eslavas na década de 740. A expedição contra eles do ministro Estaurácio em 783 restaurou e expandiu o controle imperial novamente na região, especialmente no Peloponeso e na Grécia setentrional,[12] o que eventualmente levaria à separação do que seria o Thema do Peloponeso por volta do ano 800.[13]

Durante o século IX e início do X, Hellas sofreu com raides sarracenos, especialmente após a conquista de Creta pelos árabes na década de 820 e a fundação do estado pirata do Emirado de Creta. Além disso, repetidos ataques do tsar Simeão (r. 893-927) da Bulgária, chegaram até o Peloponeso.Koder 1976, p. 60–61 Mesmo assim, Hellas, a partir do final do século IX e juntamente com o resto da Grécia, passou a mostrar sinais de crescente prosperidade, como a fundação de novas cidades e a fundação de diversas novas indústrias (principalmente a da seda em Tebas).[14] A ameaça búlgara continuou sob Samuel, que ocupou a Tessália em 987 e lançou diversos raides devastadores na região central da Grécia e no Peloponeso até sua derrota na Batalha de Esperqueu em 997. A região gozou de um longo período de paz depois disso, interrompido apenas pelos raides durante a revolta de Pedro Delian (1040-41) e o fracassado ataque normando na Tessália em 1082-1083.[15]

Durante os séculos X e XI, o governo de Hellas era geralmente acumulado com o do Peloponeso por um único estratego e conforme a administração civil ganhava importância, a mesma prática passou também a ser adotada ali, com protonotários, pretores e kritai sendo nomeados para ambos os themata.[1] [16] [17] A Tessália parece ter sido destacada de Hellas e fundida no Thema Tessalônico a partir do início do século XI até algum momento do século XII.[18] Ao final do século XI, o thema conjunto Hellas-Peloponeso caiu sob o controle do mega-duque, o comandante-em-chefe da marinha bizantina e, por conta de suas ausências prolongadas, a administração local era de fato exercida por um pretor, uma posição geralmente mantida por um oficial sênior e de distinção, como os juristas e acadêmicos Aleixo Aristeno e Nicolau Hagiotheodorita[16] [19] Porém, cada vez mais pequenas jurisdições apareciam no território do thema conjunto e que evoluíam para pequenos distritos fiscais, chamados de várias maneiras: órios (oria), cartularatos (chartoularia) e episkepseis no século XII[a], enquanto que os antigos themas de Hellas e do Peloponeso gradualmente minguavam como entidades administrativas.[5] [20] O território de Hellas permaneceu sob o controle bizantino até o início do século XIII (1204-1205), quando, após o saque de Constantinopla pela Quarta Cruzada, a região caiu sob o controle dos estados latinos de Tessalônica e Atenas.[1]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Os episkepseis eram grandes domínios alocados para sustentarem indivíduos, casas nobres ou igrejas e monastérios.[21] Os órios eram distritos encarregado da manutenção dos navios de guerra e prover tripulações para a marinha. Os cartularatos eram distritos sob o comando de um cartulário e encarregados de prover a marinha com cavalos e animais de carga. Eles também funcionavam como postos militares intermediários, similares aos antigos mitata e os aplectos.[22]

Referências

  1. a b c d e Kazhdan 1991, p. 911
  2. Koder 1976, p. 52
  3. Koder 1976, p. 54–56
  4. Pertusi 1952, p. 170
  5. a b c Nesbitt 1994, p. 22
  6. a b Koder 1976, p. 57
  7. Pertusi 1952, p. 171
  8. Pertusi 1952, p. 172
  9. Treadgold 1995, p. 26, 66–69, 72
  10. Nesbitt 1994, p. 22–24
  11. Koder 1976, p. 57–58
  12. Koder 1976, p. 58–59
  13. Koder 1976, p. 59
  14. Koder 1976, p. 61
  15. Koder 1976, p. 63
  16. a b Nesbitt 1994, p. 22, 62
  17. Koder 1976, p. 61, 66
  18. Koder 1976, p. 62, 66
  19. Magdalino 2002, p. 234
  20. Koder 1976, p. 66–67
  21. Magdalino 2002, p. 162ff., 234
  22. Magdalino 2002, p. 234–235

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Koder, Johannes; Friedrich Hild. Tabula Imperii Byzantini, Band 1: Hellas und Thessalia (em alemão). Viena: Verlag der Österreichischen Akademie der Wissenschaften, 1976. ISBN 3-7001-0182-1.
  • Pertusi, A.. Constantino Porfirogenito: De Thematibus (em italiano). [S.l.]: Biblioteca Apostolica Vaticana, 1952.