A Cigarra e a Formiga

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A cigarra e a formiga (ilustração de Gustave Doré)

A Cigarra e a Formiga (O Gafanhoto e Formiga no original) é uma das fábulas atribuídas a Esopo e recontada por Jean de La Fontaine em francês. No Brasil, esta história e as demais histórias de Esopo e La Fontaine foram recontadas, no contexto do Sítio do Picapau Amarelo, pelo escritor Monteiro Lobato, emprestando-lhes um contexto mais afeito à realidade do país, em sua obra Fábulas.[1] O espanhol Félix María Samaniego também incluiu uma versão da história em suas Fábulas morales, de 1784.[2]

Nos países francófonos, as fábulas de La Fontaine são ensinadas às crianças desde a mais nova idade e todos as conhecem de cor, e sua versão da fábula da cigarra e da formiga é a mais conhecida delas, no Ocidente.[1]

Enredo[editar | editar código-fonte]

Conta a história de uma cigarra que canta durante o verão, enquanto a formiga trabalha acumulando provisões em seu formigueiro. No inverno, desamparada, a cigarra vai pedir abrigo à formiga. Esta pergunta o que a outra fez durante todo o verão. "Eu cantei", responde a cigarra. "Então agora, dance", rebate a formiga, deixando-a do lado de fora.

Tradução de Bocage[editar | editar código-fonte]

Versão com o gafanhoto e a formiga (Projeto Gutenberg)

O poeta Bocage traduziu para o idioma português a versão escrita por La Fontaine[3] (em domínio público):

Tendo a cigarra em cantigas
Passado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.
- "Amiga", diz a cigarra,
- "Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes d'agosto
Os juros e o principal."
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
- "No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: - "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
- "Oh! bravo!", torna a formiga.
- "Cantavas? Pois dança agora!"

Contexto histórico, interpretação e re-interpretações[editar | editar código-fonte]

Se a lição que esta fábula procura passar é o da previdência, ela contudo pode ser reinterpretada - algo que o próprio Monteiro Lobato procurou fazer ao colocar na sua obra a figura irreverente da boneca Emília que contestava as lições finais; a sociedade contemporânea pode rever estes valores, e ainda debater em que medida ainda seriam válidos; no exemplo da fábula da cigarra com a formiga pode-se contestar se ela não traz embutida os valores da sociedade aristocrática do século XVII em que foi escrita como, no caso, a exaltação à acumulação de bens, que são valores burgueses do capitalismo.[1]

Ao longo do tempo a história sofreu releituras por vários escritores, humoristas, teatrólogos e outros artistas (no Brasil pode-se citar Jô Soares e Millôr Fernandes).[1] Mesmo na propaganda a fábula é utilizada, como uma peça publicitária espanhola que, valendo-se de que a história já integra o inconsciente coletivo, reconta a fábula de modo a traduzir o objetivo de vender um produto; no caso em análise a formiga "esperta" trabalhou durante o verão, mas também o desfrutou porque fez um plano de pensão.[4]

Adaptações[editar | editar código-fonte]

Entre diversas outras versões, a fábula foi transposta para o cinema num curta-metragem da Disney, The Ant and the Grasshopper (1934. Parte da série Silly Symphonies, a animação contava com a canção The world owes me a living, composta por Leigh Harline e Larry Morey[5].

A história foi também uma das adaptadas por Radamés Gnatalli para a Coleção Disquinho, na década de 1940[6].

Referências

  1. a b c d Marcos Bagno (abril de 2002). «Fábulas fabulosas» (PDF). Práticas de Leitura e Escrita, projeto Salto para o futuro. Consultado em 28 de outubro de 2016 
  2. Institucional (s/d). «Félix María Samaniego». Biografias y Vidas. Consultado em 28 de outubro de 2016  Verifique data em: |date= (ajuda) (em espanhol)
  3. PAIS, Carlos Castilho. Bocage, tradutor. Instituto Camões
  4. Antonio Mendoza Fillola (2010). «Función de la literatura infantil e juvenil em la formación de la competencia literaria» (PDF). Biblioteca Virtual Universal. Consultado em 28 de outubro de 2016 
  5. HISCHAK, Thomas S.; ROBINSON, Mark A. The Disney Song Encyclopedia. Scarecrow Press, 2009. Pág. 134 (em inglês)
  6. Gravadora relança histórias infantis de Braguinha. O Estado de S.Paulo, 3 de Outubro de 2001

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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