Mbundu

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Mbundu
Mapa étnico de Angola em 1970 (área dos Ambundu marcada a cinzento)
População total
Regiões com população significativa
Angola
Línguas
Religiões

Os Mbundu[nota 1], Ambundu ou ambundos[1] são um grupo étnico do filo linguístico bantu que vive em Angola, na região que se estende da capital Luanda para Leste. A sua língua é o Kimbundu ou quimbundo.[nota 2] Os Ambundu são o segundo maior grupo étnico angolano, representado cerca da quarta parte da população do país. Os seus subgrupos mais importantes são os Luanda (ou Axiluanda/Besangana), os Ambundu em sentido restrito, os Kissama (Quissama), os Hungo, os Libolo, os Kibala (Quibala), os Ngola, os Bângala (ou Imbangala), os Songo, os Chinje e os Minungo.[2]

História[editar | editar código-fonte]

Os Ambundu, cuja língua é o kimbundu, habitavam na faixa de terra entre dois importantes rios da região: o Kwanza, Bengo e a Baixa de Kassange. Formaram dois importantes reinos pré-colonial Africano,sendo eles o Reino do Ndongo e Reino da Matamba.

Os Ambundu são o povo dominante na região da capital angolana, mais precisamente nas províncias do Bengo, Kwanza Norte, Malange , Kwanza Sul e uma pequena parte do Uíge . Apesar de os portugueses terem travado relações comerciais com os Ambundu logo após a sua chegada ao reino do Kongo, a partir da altura em que estabeleceram uma colónia permanente em Luanda no ano de 1576 como base para o comércio de escravos, houve revoltas constantes contra a ocupação dos portugueses na região, sendo a mais famosa a encabeçada pela Rainha N'Jinga.[nota 3]

Boa parte dos mais de 4 milhões de escravos traficados para o estrangeiro entre os séculos XVI e XIX (especialmente para o Brasil) eram Ambundu, já que este foi o grupo étnico onde a secular presença portuguesa na "cabeça de ponte" de Luanda teve mais impacto.[3][nota 4]

O desenvolvimento da cidade de Luanda como capital e principal centro industrial levou a que muitos Ambundu se deslocassem para a capital, terminando na construção de imensos musseques nos arredores da cidade e levando a que, por causa da pesada presença dos portugueses e do grande número de mestiços lusófonos, o português se sobrepusesse à língua nativa, levando a que, hoje, muitos Ambundu só saibam falar o português.[4]

Foi no tecido social constituído pela sociedade luandense e os Ambundu que começou a desenvolver-se, no século XX, uma identidade social "nacional", isto é, um sentido de pertença a Angola no seu conjunto. Gerou-se, em consequência disto, uma oposição à ocupação colonial que, desde o início, teve uma perspectiva "nacionalista". Fundaram-se, neste âmbito,[5] nos anos 1950, vários grupos de resistência anticolonial, dos quais o mais importante, que absorveu ou eclipsou os outros, viria a ser o Movimento Popular de Libertação de Angola. Embora este tivesse pouca margem para marcar uma presença no complexo Ambundu-Luanda, durante a Guerra de Libertação (1961-1974), foi este que constituiu a sua principal base social no conflito que eclodiu em torno da descolonização do país, sendo uma das condições que lhe garantiram a vitória. O mesmo sucedeu durante o período da Guerra Civil Angolana, de 1975 a 2002. Como revelaram as eleições realizadas em 2008, esta ligação continua a ser expressiva no período pós-colonial, marcado pelo domínio político do MPLA.

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Notas

  1. Mais precisamente os Mbundu do Norte. Nesta terminologia, os "Mbundu do Sul" são os Ovimbundu.
  2. Por desconhecimento, confundiu-se no tempo colonial a designação da língua com a designação da etnia, passando a chamar incorretamente a etnia de "quimbundos". Este hábito, nunca aceite pelos conhecedores, teve uma certa continuação no período pós-colonial.
  3. A melhor fonte a este respeito é Joseph Miller, Poder político e parentesco: Os antigos Estados Mbundu em Angola, Luanda: Arquivo Histórico Nacional de Angola, 1996. Traduzido do inglês pela historiadora angolana Maria da Conceição Neto.
  4. Sobre o tráfego de escravos a partir de Angola, a referência básica é a obra monumental de Josph Miller, Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade, 1730 - 1830, Londres & Madison/Wisconsin: James Currey & University of Wisconsin Press, 1996. NB: Muitos escravos provinham do Leste de Angola de hoje e foram "comercializados" pelos Ambundu.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. «Ambundos». Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Consultado em 28 de julho de 2012  NB: Essa forma reflete um desconhecimento do facto de que, em kimbundu, o prefixo A (ou Akwa) designa o plural, de modo que o acréscimo do sufixo português "-s" não apenas constitui uma hibridação, como também uma aberração gramatical. É por isso que o termo desapareceu desde 1975 da literatura científica, devido também ao empenho dos historiadores angolanos.
  2. José Redinha, Etnias e culturas de Angola, Luanda: Instituto de Investigação Científica de Angola, 1975
  3. Filipe Zau (5 de janeiro de 2010). «A génese do Reino do Ndongo». Jornal de Angola. Consultado em 8 de maio de 2010 
  4. Filipe Zau (5 de janeiro de 2010). «A génese do Reino do Ndongo». Jornal de Angola. Consultado em 8 de maio de 2010 
  5. John Marcum, The Angolan Revolution, vol. I, Anatomy of an Explosion, Cambridge/Mass. & Londres, 1968, distingue três correntes anti-coloniais em Angola: o Luanda/Ambundu, o Bakongo e e Ovimbundu/Côkwe

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CAVAZZI DE MONTECUCCOLO, Pe. João António (1622-1692). Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola (2 vols.). Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965. .
  • DIAS, Gastão Sousa. Heroismo e lealdade: quadros e figuras da Restauração em Angola. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1943. 95 p.
  • GONÇALVES, Domingos. Notícia Memorável da vida e acçoens da Rainha Ginga Amena, natural do Reyno de Angola. Lisboa: Oficina de Domingos Gonçalves, 1749.
  • MELLO, António Brandão de. Breve história da rainha Zinga Mbandi, D. Ana de Sousa. in: Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 63, nº 3 e 4 (1945), p. 134-146.
  • MILLER, Joseph C., Kings and kinsmen: early Mbundu states in Angola, Oxford, England: Clarendon Press, 1976
  • PARREIRA, Adriano. Economia e sociedade em Angola na época da rainha Jinga: século XVII. Lisboa: Editorial Estampa, 1997. 247 p. ISBN 972-33-1260-3
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