Cassaia

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Cassaia
Princesa da Babilônia
Cônjuge Neriglissar (provavelmente)
Dinastia caldéia
Nome completo Cassaia da Babilônia
Nascimento século VI a.C.
Morte século VI a.C.
Filho(s) Labasi-Marduque (possivelmente)
Pai Nabucodonosor II
Mãe Amitis da Média (possivelmente)
Religião Antiga religião mesopotâmica

Cassaia (em acádio: Kaš-ša-a, mais corretamente pronunciado Caxexaia e grafado em inglês Kaššaya) foi uma princesa da Babilônia que viveu no século VI a.C. Filha mais velha do rei Nabucodonosor II e neta de Nabopolassar. Cassaia provavelmente foi casada com o general Neriglissar, e assim como ele, era uma empresária e rica proprietária de terras em Uruque.[1][2]

Nabucodonosor (r. 605–562 a.C.) foi sucedido por seu filho, Evil-Merodaque, mas o reinado de Evil-Merodaque durou apenas dois anos antes de Neriglissar usurpar o trono da Babilônia e matá-lo. Cassaia pode ter representado um ramo menos legítimo da família real, porém mais rico e estabelecido. Enquanto seu irmão, Evil-Merodaque, encabeçou um ramo menos estabelecido e mais jovem, embora mais legítimo. É, portanto, possível que a usurpação do trono tenha sido o resultado de lutas internas entre esses dois ramos da família real.

Nome[editar | editar código-fonte]

O nome Cassaia, escrito de várias formas em acádio Kaš-šá-a, Kaš-ša-a e Kaš-šá-a-a (como nome masculino) ocorre várias vezes em textos neobabilônicos. A pronúncia Cassaia é sugerida pelas duas últimas grafias. JJ Stamm originalmente classificou Cassaia como um nome de origem desconhecida, típico do apelido neobabilônico dado a mulheres casadas por seus maridos. De acordo com a CAD, o nome provavelmente é derivado etimologicamente da palavra Kaššu “cassita”.[3]

O nome provavelmente foi dado em homenagem à dinastia cassita que reinou na Babilônia séculos antes de sua vida.[4]

Contexto histórico[editar | editar código-fonte]

Após a morte de Assurbanípal em 627 a.C., o Império Neoassírio entrou em um período de declínio, devido às revoltas dos povos dominados. O avô de Cassaia, Nabopolassar, conseguiu estabelecer a independência dos babilônios e adotou uma política expansionista com o intuito de recuperar o antigo poder babilônico. Em 614 a.C. Nabopolassar se aliou a Ciaxares, rei dos medos, um povo aguerrido, cujo poderio estava em pleno processo de expansão. A aliança foi cimentada com o casamento de Nabucodonosor II, filho de Nabopolassar, com uma princesa meda, filha do rei Ciaxares, chamada Amitis. Os medos e babilônios unidos poram fim ao Império Neoassírio, e Nabopolassar estabeleceu o Império Neobabilônico.

O Império Neobabilônico atingiu seu auge durante o reinado de seu segundo monarca, Nabucodonosor II. Sob seu governo, o império consolidou seus domínios estabelecendo sua hegemonia sobre os territórios que outrora pertenceram aos assírios. Ao longo de seu reinado, Nabucodonosor gastou muito tempo e recursos em projetos de construção extensivos em todo o país, principalmente em sua capital, Babilônia.[5] À medida que o tesouro real se tornava cada vez mais tenso com o peso dos gastos, os empresários locais viriam a ficar mais ricos e, como consequência, mais influentes em questões políticas.[6]

História[editar | editar código-fonte]

Cassaia é atestada como uma pessoa histórica em textos econômicos cuneiformes. Os registros mencionam as frequentes doações da princesa para os templos de suas divindades. Da fato, presentes de jóias e metais preciosos para as divindades eram um dever costumeiro dos reis, altos funcionários e membros da família real. Isso é comumente registrado em textos cuneiformes neobabilônicos.[3] Em 1960, R. Labat publicou um texto cuneiforme sem data aludindo a uma doação de terras para o templo da deusa Istar na cidade de Uruque por uma mulher chamada Cassaia, identificada como “filha do rei”.[7][8] Um dos textos cuneiformes preservados menciona que, nos 31 anos de reinado de seu pai, ela recebeu grandes quantidades de lã azul por fazer mantos ullâku.[8]

Neriglissar foi um oficial proeminente na corte real e tornou-se mais influente ao se casar com uma das filhas de Nabucodonosor II.[6] Em 1974, o historiador David B. Weisberg propôs que a esposa de Neriglissar fosse Cassaia, já que seu nome aparece junto com o nome de Nabucodonosor e Neriglissar em documentos econômicos.[9] Embora não existam evidências concretas de que Cassaia, em vez de outra filha de Nabucodonosor, fosse esposa de Neriglissar,[10] esta suposição foi amplamente aceita por historiadores subsequentes, como Donald Wiseman e Jona Lendering.[6][11] Assim como Neriglissar, Cassaia foi uma empresária e rica proprietária de terras em Uruque durante o reinado de seu pai.[12]

Evil-Merodaque (r. 562–560 a.C.) introduziu seu reinado na Babilônia logo após a morte do seu pai. De acordo com o historiador babilônico Beroso, ele “governou caprichosamente e não tinha consideração pelas leis”. Em agosto de 560 a.C., Neriglissar teria liderado uma conspiração contra seu cunhado e assumiu o trono.[13][14][11] É provável que o conflito entre Evil-Merodaque e Neriglissar tenha sido um caso de discórdia entre famílias, e não alguma outra forma de rivalidade.[15] O casamento de Neriglissar com Cassaia (ou com outra filha de Nabucodonosor) foi provavelmente o que tornou possível a usurpação do trono. Um fator que pode ter aumentado significadamente as chances de Neriglissar de se tornar rei foi a posição de Cassaia em relação aos outros filhos de Nabucodonosor. Cassaia pode ter sido a mais velha entre todos os filhos de Nabucodonosor, pois ela é atestada como sendo ativa significadamente antes de seu quinto ano de reinado do que qualquer um de seus quatro filhos, que primeiramente foram atestados entre nos últimos anos do reinado de Nabucodonosor.[10] Embora os filhos só sendo referenciados tão tarde também possam ser coincidentes, a lacuna significativa no tempo poderia até ser interpretada como uma indicação de que os filhos eram fruto de um segundo casamento.[16] É, portanto, possível que a usurpação tenha sido o resultado de lutas internas entre um ramo mais velho, mais rico e mais influente da família real (representado por Cassaia) e um ramo menos estabelecido e mais jovem, embora mais legítimo (representado por Evil-Merodaque).[10] Neriglissar governou por quatro anos e foi sucedido por seu filho Labasi-Marduque. De acordo com Beroso, Labasi-Marduque teria reinado por nove meses antes de ser assassinado numa conspiração.[14] Não está claro porque Labasi-Marduque foi deposto e morto em um golpe. É possível que, embora Labasi-Marduque e seu pai fossem bem relacionados e ricos, eles eram vistos como plebeus, sem sangue nobre.[11] Além disso, é possível que, embora Neriglissar fosse visto como legítimo devido ao seu casamento com Cassaia, Labasi-Marduque poderia ser filho de outra esposa de Neriglissar e, portanto, completamente desconectado da dinastia real.[17]

Renda e dízimo de Cassaia[editar | editar código-fonte]

Alguns documentos registram várias operações envolvendo a “receita” (er-bu) e o “dízimo” (eš-rû) de Cassaia. Um registro descreve uma coleção de jóias como “a renda de Cassaia”, indicando que essas jóias haviam sido oferecidas as divindades do templo de Eana pela princesa. Isso indica que a frase “erbu ša” refere-se à renda acumulada no templo como resultado de um pagamento ou presente feito pelo referido indivíduo. Outro registro menciona o recebimento de uma quantidade de datas para o templo de Eana. Desta vez, as entregas são referidas como “o dízimo de Cassaia”. Outro documento registra o recebimento de recipientes de vinho, “a receita de Cassaia”. O destino final do vinho não é registrado, mas textos paralelos sugerem novamente o templo de Eana como o beneficiário da doação. Embora nenhum desses documentos contenha uma indicação específica de sua origem geográfica, as menções das deusas Nanaia e do templo de Eana em dois dos textos indicam Uruque como o local das operações.[3][18]

Há dúvidas quanto ao uso de dois termos diferentes, erbu e ešrû. Parece que erbu é uma designação mais vaga, aplicada a uma variedade de rendas provenientes do tesouro do templo, enquanto ešru se refere a um imposto específico geralmente traduzido, em bases etimológicas, como “dízimo”. Portanto, é possível que a maioria, se não todas, as operações registradas nesses textos fossem de fato esses pagamentos. O fato de Cassaia ser uma importante proprietária de terras na região de Uruque, explica por que ela estava sujeita ao pagamento de uma quantia.[3]

Árvore Genealógica[editar | editar código-fonte]

Nabopolassar
r. 626–605 a.C.
Bel-sum-iscunAmitisNabucodonosor II
r. 605–562 a.C.
Nabu-zer-ushabshiAdagupiNabu-balatsu-iqbi
Neriglissar
r. 560–556 a.C.
CassaiaEvil-Merodaque
r. 562–560 a.C.
Uma filhaNabonido
r. 556–539 a.C.
Labasi-Marduque
r. 556 a.C.
BelsazarEnigaldi-Nana

Posteridade[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Neriglissar

Nitócris da Babilônia

Evil-Merodaque

Enigaldi-Nana

Referências

  1. Francis Joannès, Kaššaia, fille de Nabuchodonosor ll [Kassaia, filha de Nabucodonosor II]. Revue d'assyriologie 74 p 183
  2. Weisberg, D. (1974). Royal Women of the Neo-Babyloninan Period. In Le palais et la royauté. Paris: XIXe RAI.
  3. a b c d Beaulieu, Paul-Alain (1998). «Ba'u-asītu and Kaššáya, Daughters of Nebuchadnezzar II». Orientalia. Col: Nova Series (Fasc. 2) (em inglês). 67. [S.l.]: Pontificium Institutum Biblicum 
  4. Cousin et al. 2016, p. 12.
  5. Mark 2018.
  6. a b c Wiseman 1991, p. 241.
  7. Kashshaia, In Leick G. (2002), Who's Who in the Ancient Near East, Routledge, London and New York. p. 91
  8. a b Wiseman 1991, p. 10.
  9. Beaulieu 1998, p. 199.
  10. a b c Beaulieu 1998, p. 200.
  11. a b c Lendering 2006.
  12. Beaulieu 1998, p. 198.
  13. Wiseman 1991, p. 11.
  14. a b Beaulieu 2006, p. 139.
  15. Wiseman 1991, p. 242.
  16. Beaulieu 1998, p. 201.
  17. Gruenthaner 1949, p. 409.
  18. Budin, Stephanie Lynn; Turfa, Jean Macintosh (12 de agosto de 2016). Women in Antiquity: Real Women across the Ancient World (em inglês). [S.l.]: Routledge 
  19. «lastkingofbabylon». www.lastkingofbabylon.com. Consultado em 8 de setembro de 2020 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]