Nitócris da Babilônia

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Nitócris da Babilônia
Rainha da Babilônia
Banquete de Belsazar por Washington Allston, 1817. A rainha nesta história, retratada aqui entre Daniel e Belsazar, foi identificada com Nitócris.
Reinado por volta de 550 a.C.
Cônjuge Nabonido (possivelmente)[1]
Casa babilônica
Nascimento século VI a.C.
Morte século VI a.C.
Ocupação Soberana
Filho(s)
Pai Nabucodonosor II (?)

Nitócris (em grego: Νίτωκρις) foi uma rainha da Babilônia, que seria desconhecida se o historiador grego Heródoto não a tivesse descrito em suas Histórias. Ela é apresentada como a segunda rainha da Babilônia e creditada pela construção de vários edifícios na cidade. Diz-se que ela deu continuidade a vários projetos de construção de Nabucodonosor II após a morte deste em 562 a.C. e também foi influente no reinado de reis posteriores sob Babilônia.[2] Segundo sínteses modernas com base nos textos antigos, ela foi filha de Nabucodonosor II, esposa de Nabonido e mãe de Belsazar.[3] Ela também já foi frequentemente identificada a Naquia, esposa de Senaqueribe e mãe de Assaradão, ou ainda como Adagupi, mãe de Nabonido.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Nas histórias de Heródoto[editar | editar código-fonte]

De acordo com Heródoto,[Nota 1] houve apenas duas rainhas governantes da Babilônia, a primeira foi Semíramis, e cinco gerações depois, Nitócris.[5] Ele a descreve como uma rainha mais sábia que Semíramis, e, vendo que o Reino dos Medos, por ser grande, poderia tentar se expandir, e lembrando-se do trágico destino de Nínive que fora destruída pelos medos, reformou a Babilônia para se preparar para a defesa.[6] Ela ordenou que mudassem o curso do Rio Eufrates para dar maior proteção a Babilônia, dificultando o acesso à cidade pelo rio, intimidando um ataque inimigo. Também ordenou que construíssem um lago artificial acima da cidade e uma ponte de tijolos com vigas de madeira através do Eufrates, o rio que corta a cidade; tal ponte só podia ser acessada durante o dia.[7][8][9]

Ao morrer, ela ordenou que seu túmulo fosse colocado em cima do portão mais movimentado da Babilônia. Em seu túmulo, ela fez gravarem uma inscrição, dizendo que dentro do túmulo tinha um tesouro, e que só deveria ser aberto em caso de extrema necessidade. O túmulo permaneceu fechado até Dario, o Grande, rei da Pérsia, decidiu abri-lo, mas não encontrara nenhum tesouro, só havia o cadáver e um recado de Nitócris, o reprimindo por ser tão ganancioso ao ponto de abrir os túmulos dos mortos. O recado dizia: "Se você é uma pessoa gananciosa e ambiciosa, que explora os pobres sem mínima vergonha. Pois então, abra o túmulo da pessoa morta".[10][11]

Segundo o historiador Heródoto, ela foi esposa de Labineto, e teve um filho também chamado de Labineto, o último rei da Babilônia, derrotado por Ciro, o Grande;[7] estes dois reis são identificados a Nabonido e seu filho Belsazar.[12][13]

Na Bíblia Sagrada[editar | editar código-fonte]

O livro bíblico de Daniel narra um episódio em que uma mulher chamada “rainha” dá um conselho sensato a Belsazar, recomendando Daniel como alguém capaz de interpretar a escrita misteriosa da parede.[14] Alguns estudiosos acham que essa “rainha” não era a esposa de Belsazar, mas a sua mãe, que se crê ser Nitócris, filha de Nabucodonosor.[15] A forma que ela falou com o rei faz transparecer uma mulher sábia e prudente, tal como a descrição de Heródoto.

Historicidade[editar | editar código-fonte]

Existem muitas opiniões conflitantes sobre o contexto histórico dessa rainha. Alguns acreditam que Nitócris era filha de Nabucodonosor II, e se casou com Neriglissar, que conspirou contra Evil-Merodaque. E após a morte de Neriglissar, ela se casou com Nabonido ajudando-o a destronar Labasi-Marduque, filho e sucessor de Neriglissar. Nabonido assumiu o trono e foi o último rei da Babilônia. Já outros acreditam que Nitócris era esposa de Nabucodonosor, e após a morte de seu marido, ela se casou com o rei Nabonido.[16]

Os Jardins Suspensos da Babilônia

Na mente de Heródoto, Nitócris representava o arquétipo de uma rainha digna, que servia a seus súditos e representava um exemplo moral. No entanto, essa rainha não é mencionada nos registros do antigo Oriente Próximo; as Histórias de Heródoto são a única fonte de informação a seu respeito. O nome Nitócris não é de origem babilônica, e sim, de origem egípcia. Heródoto também menciona uma rainha do Egito chamada Nitócris. É possível que Heródoto tenha compreendido mal as suas fontes e erroneamente atribuído a esta rainha realizações que deveriam ser creditadas a Nabucodonosor II e a sua esposa Amitis da Média, que provavelmente foi a inspiração por trás dos famosos Jardins Suspensos da Babilônia.[8]

Embora não haja nenhuma figura histórica que corresponde a descrição de Nitócris, há várias hipóteses para relacioná-la com uma ou mais figuras históricas conhecidas:[17]

  • Naquia, esposa de Senaqueribe, conhecida por suas atividades de construção.[18]
  • Adagupi, mãe de Nabonido, o último rei da Babilônia.[19][20]
  • Uma esposa ou filha desconhecida de Nabucodonosor II.[21]
  • Nabucodonosor: Heródoto teria transcrito o nome do famoso soberano usando o de Nitócris, um rainha egípcia de quem ele fala no livro II, sublinhando a homonímia com a personagem do livro I. É um erro notável de sua parte, pois ele faz de Nabucodonosor uma mulher. É porque o nome de Nabucodonosor em persa poderia passar para o feminino aos ouvidos de um grego que não sabia persa.[carece de fontes?]

Alexandre Schur, que traduziu os escritos de Heródoto para o hebraico, identifica Nitócris com uma esposa de Nabucodonosor. Essa é uma idéia plausível porque a esposa de Nabucodonosor é descrita como uma mulher sábia e forte em outras fontes. A Babilônia foi conquistada por Ciro, o Grande muitos anos após a morte de Nabucodonosor e portanto, Schur pode está errado nessa identificação.[22] É incerto se Nitócris era esposa ou filha de Nabucodonosor, mas esta última opção é mais segura.[23]

Nitócris e Nabonido[editar | editar código-fonte]

Heródoto, ao mencionar os eventos do vigésimo ano de Nabucodonosor, descreve um tratado de paz entre os medos e lídios, tendo um “Labineto” por mediador. Acredita-se que “Labineto” seja uma forma corrompida do nome Nabonido. Mais tarde, Heródoto refere-se a Ciro, o Grande, como lutando contra o filho de Labineto e Nitócris.

O professor R. P. Daugherty aventa a hipótese de que Nitócris era filha de Nabucodonosor e que Nabonido (Labineto), portanto, era o genro de Nabucodonosor. Por sua vez, acha-se que o “filho” de Nitócris e Nabonido (Labineto), mencionado por Heródoto, seja Belsazar. Embora este argumento se baseie em muitos raciocínios dedutivos e indutivos, poderia explicar o motivo da ascensão de Nabonido ao trono da Babilônia. Isto também se harmonizaria com o fato bíblico de Nabucodonosor ser chamado de “pai” do filho de Nabonido, Belsazar, visto que o termo “pai” às vezes tem o sentido de avô ou de antepassado. Este ponto de vista faz de Belsazar o neto de Nabucodonosor.[24] No entanto, nem todos os estudiosos acham totalmente satisfatória a evidência para tal parentesco.[15]

Contexto histórico[editar | editar código-fonte]

Após a morte de Nabucodonosor em 562 a.C., o Império Babilônico entrou em um período de decadência e instabilidade política. Seus sucessores foram incapazes de manter o império em seu esplendor. Seu filho e sucessor, Evil-Merodaque, não obteve o apoio do povo e da elite da babilônica devido às suas reformas na política de seu pai. Após reinar por apenas dois anos, ele foi assassinado por seu cunhado Neriglissar, que usurpou o trono e reinou por quatro anos.[25][26] Após sua morte em 556 a.C., seu filho Labasi-Marduque introduziu seu reinado na Babilônia, mas foi assassinado num golpe palaciano no mesmo ano de sua entronização. O líder do golpe, Nabonido, toma o poder.[27] Nabonido era uma figura importante na corte imperial, mas, ao contrário de seus predecessores, ele não tinha nenhum parentesco, até então conhecido, com Nabucodonosor. É possível que tenha se casado com Nitócris, filha de Nabucodonosor II, e isso poderia ter dado legitimidade ao seu reinado que durou dezessete anos.[28]

Na mídia[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

Notas

  1. No texto de Heródoto, há referências a dois reis, pai e filho, de nome Labineto, que, segundo historiadores modernos, é uma forma corrompida de Nabonido.

Referências

  1. Dougherty 2008, p. 43.
  2. «Nitocris of Babylon | Project Gutenberg Self-Publishing - eBooks | Read eBooks online». self.gutenberg.org. Consultado em 17 de janeiro de 2021 
  3. Dougherty, Raymond Philip (2008). Nabonidus and Belshazzar: A Study of the Closing Events of the Neo-Babylonian Empire. Eugene, Oregon: Wipf and Stock Publishers. pp. 38, 40–42, 65. ISBN 978-1-55635-956-9  Citando Heródoto, As Histórias, 1.188
  4. Vlaardingerbroek, H. Menko (2014). Mesopotamia in Greek and Biblical Perceptions: Idiosyncrasies and Distortions. Vrije Universiteit Amsterdam.
  5. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 184 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  6. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 185 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  7. a b Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 188 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  8. a b «Nitocris (fl. 6th c. BCE) | Encyclopedia.com». www.encyclopedia.com. Consultado em 7 de dezembro de 2020 
  9. Streck 1998, p. 590.
  10. Heródoto, Histórias, Livro I, Clio, 187 [pt] [el] [el/en] [ael/fr] [en] [en] [en] [es]
  11. Dillery, John (1992). «Darius and the Tomb of Nitocris (Hdt. 1.187)». Classical Philology (1): 30–38. ISSN 0009-837X. Consultado em 31 de dezembro de 2020 
  12. Gilbert Génébrard, Cronografia (1599), Libri Quatuor.
  13. Smith, William (1844). Dictionary of Greek and Roman biography and mythology. [S.l.]: London : Taylor and Walton, etc. 
  14. Daniel 5:5-12
  15. a b «Belsazar — BIBLIOTECA ON-LINE da Torre de Vigia». wol.jw.org. Consultado em 22 de novembro de 2020 
  16. a b Musée de Brooklyn - Centre Elizabeth A. Sackler - Nitocris
  17. Rölling, Wolfgang (1968). Nitokris von Babylon. [S.l.]: Beiträge zur Alten Geschichte und deren Nachleben, Festschrift F. Altheim. 128 páginas 
  18. L'apaté de Nitocris p. 110
  19. L'apatè de Nitocris p. 111
  20. Streck 1998, p. 591.
  21. Ravn, O.E. (1942). Herodotus' Description of Babylon. Copenhagen: [s.n.] 76 páginas 
  22. Os escritos de Heródoto. Traduzido do grego com introdução e notas do Dr. Alexandre Schur. Tel Aviv University Press, Papyrus, Benjamin Shiron e Rachel Tzelnik-Abramovich, 1998.
  23. «Nebuchadnezzar II of Babylon | Project Gutenberg Self-Publishing - eBooks | Read eBooks online». self.gutenberg.org. Consultado em 17 de janeiro de 2021 
  24. «Nabonido — BIBLIOTECA ON-LINE da Torre de Vigia». wol.jw.org. Consultado em 13 de dezembro de 2020 
  25. Fragmentos de Beroso
  26. [1]
  27. Easton's Bible Dictionary (1897), Nebuchadnezzar [em linha
  28. Easton's Bible Dictionary (1897), Belshazzar [em linha

Bibliografia[editar | editar código-fonte]