Faravahar

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Faravahar
Relevo de escultura em pedra em Persépolis, período aquemênida (séculos VI-V a.C.)

O Faravahar (em farsi: فَرَوَهَر) ou Forouhar (em farsi: فُروهَر) ou, ainda, Farr-e Kiyâni (em farsi: فر کیانی) é um dos mais conhecidos símbolos dos povos iranianos e do Zoroastrianismo, a primeira religião do Irã, anterior à conquista muçulmana do Irã, e do nacionalismo iraniano.[1][2] Há várias interpretações do seu significado, sem que exista um consenso universal sobre o assunto. No entanto, acredita-se comumente que o Faravahar serve como uma representação zoroastrista simbólica do fravashi - anjo guardião de cada indivíduo que envia o urvan (geralmente traduzido como 'alma') ao mundo material para participar da batalha do bem contra o mal.[3][4] O Faravahar apresenta grandes semelhanças com o Horbehutet (Hórus de Behutet) da religião no Antigo Egito.[5][6]

O Faravahar é um dos símbolos pré-islâmicos mais conhecidos e usados do Irã e é frequentemente usado como pingente. Apesar de sua natureza tradicionalmente religiosa, tornou-se um símbolo secular e cultural para os iranianos.[7][8][9]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A palavra novo persa فروهر é lida como foruhar ou faravahar (pronunciado como furōhar ou furūhar no persa clássico). As formas persas médias eram frawahr (pálavi de livro: plwʾhl, maniqueu: prwhr), frōhar (gravado em pazend como 𐬟𐬭𐬋𐬵𐬀𐬭; é uma forma posterior da forma anterior) e fraward (pálavi de livro: plwlt', Maniqueu: frwrd), que era diretamente do persa antigo *fravarti-.[3][10] A forma da língua avéstica era fravaṣ̌i (𐬟𐬭𐬀𐬎𐬎𐬀𐬴𐬌).[carece de fontes?]

História[editar | editar código-fonte]

Relevo de parede de Assur dentro de um disco alado, c. 865–850 a.C.. Do Palácio Noroeste de Ashurnasirpal II em Nimrud (Calá Bíblica; antigo Kalhu), Nínive, Iraque (Mesopotâmia)

O uso pré-zoroastrista do símbolo se origina como o sol alado usado por vários poderes do Antigo Oriente Próximo, principalmente os do Egito Antigo e da Mesopotâmia. A adoção zoroastriana do símbolo vem de sua prevalência na iconografia neo-assíria. Esta imagem assíria geralmente inclui o que foi interpretado por Simo Parpola como uma "árvore da vida", que inclui o deus Assur em um disco alado.[11]

Na cultura zoroastrista[editar | editar código-fonte]

Faravahar esculpido em uma moeda cunhada sob Autofradates I de Pérsis no século II a.C.

O faravahar foi retratado nos túmulos dos reis aquemênidas, como Dario, o Grande (r. 522–486 a.C.) e Artaxerxes III (r. 358–338 a.C.).[12] O símbolo também foi usado em algumas das moedas do frataraca de Pérsis no final do século III e início do II a.C.[13] Mesmo após a conquista árabe do Irã, o zoroastrismo continuou a fazer parte da cultura iraniana. Ao longo do ano, celebram-se festividades como Noruz, Mehregan e Chaharshanbe Suri, que se relacionam com festivais e calendário zoroastrianos. Estes são remanescentes das tradições zoroastrianas. A partir do início do século XX, o ícone faravahar passou a ocupar lugares públicos e se tornou um ícone conhecido entre os iranianos. O Xanamé de Ferdusi é o épico nacional do Irã e contém histórias (em parte históricas e em parte míticas) dos tempos pré-islâmicos do Zoroastrismo. A tumba de Ferdusi (construída no início de 1930), que é visitada por numerosos iranianos todos os anos, também contém o ícone faravahar.[14]

O símbolo ressurgiu graças ao trabalho do estudioso Parsi, Jamshedji Maneckji Unvala, que publicou dois artigos em 1925 e 1930.[15][16] O trabalho de Unvala foi desacreditado por Irach Jehangir Sorabji Taraporewala, que refutou a ideia de que a figura alada representasse Aúra-Masda. Taraporewala sugeriu que as figuras usadas em relevos persas foram feitas para representar khvarenah ou glória real para refletir o poder divino percebido dos reis e, portanto, que não teria verdadeiro significado espiritual. Esta visão foi posteriormente apoiada por Alireza Shapour Shahbazi e Mary Boyce.[17][18][19]

Uso na era moderna[editar | editar código-fonte]

O Trono do Sol, a sede imperial do Irã, tem implicações visuais do Farahavar. O soberano estaria sentado no meio do trono, que tem a forma de uma plataforma ou cama que se eleva do chão. Este símbolo religioso-cultural foi adaptado pela dinastia Pahlavi para representar a nação iraniana.[20] No zoroastrismo moderno, uma das interpretações do faravahar é que é uma representação da alma humana e seu desenvolvimento junto com um guia visual de boa conduta.[21] Outra interpretação popular é que é uma representação visual de um Fravaxi, embora os Fravaxis sejam descritos na literatura zoroastrista como sendo femininos.[3] Uma das visões mais prevalentes na academia quanto ao significado do faravahar é que ele representa Khvarenah, o poder divino e a glória real.[3]

Após a Revolução Islâmica de 1979, o Leão e Sol, que fazia parte da bandeira nacional original do Irã, foi banido pelo governo de locais públicos. No entanto, os ícones faravahar não foram removidos e, como resultado, tornou-se um símbolo nacional para os iranianos e foi tolerado pelo governo em oposição ao Leão e Sol.[22] Os discos alados têm uma longa história na arte, religião e cultura do antigo Oriente Próximo e Médio, tendo cerca de 4.000 anos de uso e também simbolizando Asdur, Shamash e outras divindades.[23]

Galeria[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «What Does the Winged Symbol of Zoroastrianism Mean?». About.com Religion & Spirituality 
  2. «Sacred Symbols». Zoroastrianism for beginners 
  3. a b c d Boyce 2000, pp. 195–199.
  4. «FRAVAŠI – Encyclopaedia Iranica». www.iranicaonline.org 
  5. Ford, Michael. Necrominon - Egyptian Sethanic Magick. Houston: Sucubus, 2013, p. 148
  6. Ancient Egyptian Texts ( Late & Ptolemaic Periods). The Legend of Horus of Behutet and the Winged Disk
  7. «Europe | The Identity Necklace: Being Iranian in Britain». FRONTLINE - Tehran Bureau (em inglês). Consultado em 4 de abril de 2020 
  8. staff, T. O. I.; Agencies. «Iran official: If US attacks, Israel will be destroyed in half an hour». www.timesofisrael.com (em inglês). Consultado em 4 de abril de 2020 
  9. Szanto, Edith (15 de maio de 2018). «"Zoroaster was a Kurd!": Neo-Zoroastrianism among the Iraqi Kurds». Iran and the Caucasus (em inglês). 22 (1): 96–110. ISSN 1573-384X. doi:10.1163/1573384X-20180108 
  10. MacKenzie, David Neil (1986). A Concise Pahlavi Dictionary. London: Oxford University Press. ISBN 0-19-713559-5 
  11. Parpola, Simo (July 1993). «The Assyrian Tree of Life: Tracing the Origins of Jewish Monotheism and Greek Philosophy» (PDF). The University of Chicago Press. 52 (3): 161–208. Consultado em November 4, 2020  Verifique data em: |acessodata=, |data= (ajuda)
  12. Curtis 2007, p. 93.
  13. Curtis 2007, p. 94.
  14. «FERDOWSI, ABU'L-QĀSEM iii. MAUSOLEUM – Encyclopaedia Iranica». www.iranicaonline.org. Consultado em 14 de julho de 2019 
  15. Unvala, Jamshedji Maneckji (1888-1961). (c. 1900). The winged disk and the winged human figure on ancient Persian monuments. [S.l.]: s.n. OCLC 982616419 
  16. Eduljee, K. E. (2013). Farohar / Fravahar motif: what does it represent? use of icons & symbols in Zoroastrism. [S.l.]: [Verlag nicht ermittelbar]. OCLC 891516152 
  17. Taraporewala, Irach J. S. (Irach Jehangir Sorabji), 1884-1956. (2006). The religion of Zarathushtra. [S.l.]: Jain Pub. Co. ISBN 978-0-87573-092-9. OCLC 154674597 
  18. Boyce (1 de janeiro de 1982), A History of Zoroastrianism, Zoroastrianism under the Achaemenians, ISBN 978-90-04-29390-8, BRILL, pp. 104– 
  19. Shahbazi, A. S. 1974 An Achaemenid Symbol, I A Farewell To ' Fravahr' And ' Ahuramazda.' AMI 7 135 144 (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  20. «ZOROASTRIANS OF 19TH-CENTURY YAZD AND KERMAN – Encyclopaedia Iranica». www.iranicaonline.org. Consultado em 14 de julho de 2019 
  21. «What Does the Winged Symbol of Zoroastrianism Mean?». About.com Religion & Spirituality. Consultado em 26 de janeiro de 2017 
  22. Najmabadi, Afsaneh (2005). Gender and sexual anxieties of Iranian Modernity. [S.l.]: University of California Press. ISBN 0-520-24262-9 
  23. «What Does the Winged Symbol of Zoroastrianism Mean?». About.com Religion & Spirituality. Consultado em 26 de janeiro de 2017