Flâmula

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O porta-helicópteros francês Jeanne d'Arc arvorando uma longa flâmula de fim de comissão, ao regressar à base.

Uma flâmula constitui um tipo de galhardete longo e estreito, destinado a ser arvorado no mastro principal de um navio de guerra, a fim de assinalar que o mesmo é comandado por um oficial da marinha de guerra.[1][2][3]

Como é comum nos termos vexilológicos, o termo "flâmula" aplica-se ocasionalmente a realidades diferentes. É por isso utilizado frequentemente para designar qualquer bandeira triangular ou farpada, incluindo as que servem de insígnias de clubes e de unidades militares.

Significado e uso[editar | editar código-fonte]

A flâmula reflete o estatuto militar do navio onde a mesma é arvorada. No entanto, tecnicamente, representa o comandante do navio e não o navio em si.

Assim, no seu significado original, a flâmula é o distintivo pessoal de um detentor de carta-patente de oficial da marinha de guerra. Portanto, ao ser arvorada num navio, a flâmula atesta que esse navio está sob o comando de um oficial de marinha de guerra, significando que o navio está armado ou comissionado, o que indica implicitamente que o mesmo tem o estatuto de navio de guerra.

Consiste num longo galhardete, normalmente, nas cores nacionais da marinha que o arvora, podendo conter também emblemas. A flâmula mantém-se içada permanentemente num navio, enquanto o mesmo estiver em estado de armamento, exceto quando embarca a bordo um oficial general ou uma outra autoridade que tenha direito a arvorar um distintivo pessoal, o qual substitui a flâmula.

Na época da marinha à vela, a flâmula era arvorada no tope do mastro grande dos navios. Atualmente, é arvorada num mastro de sinais, que corresponde normalmente ao mastro principal do navio. Em algumas marinhas, a flâmula é também arvorada à proa das embarcações miúdas que levem embarcado o comandante ou mesmo outros oficiais do navio. [4]

História[editar | editar código-fonte]

Representação contemporânea do navio de guerra inglês Mary Rose (1511-1545), arvorando em todos os seus mastros longas bandeiras triangulares do tipo das modernas flâmulas. Cada uma delas tem uma cruz de São Jorge na tralha e as cores heráldicas em branco e verde da Casa de Tudor ao longo de todo o seu comprimento.
Flâmulas dos diversos países do mundo, no final do século XIX.

Segundo uma lenda, a origem da flâmula dos navios de guerra remontaria à Primeira Guerra Anglo-Holandesa, ocorrida entre 1652 e 1654. O almirante holandês Marteen Tromp fez-se ao mar com uma vassoura arvorada no mastro grande do seu navio, simbolizando a sua intenção de "varrer" os Ingleses do mar. Por sua vez, o almirante inglês Robert Blake arvorou um chicote para simbolizar a sua determinação em "chicotear" a armada holandesa. Venceu o almirante Blake e em comemoração pela sua vitória, a flâmula - que pelo seu formato longo e estreito lembrava um chicote - ter-se-ia tornado na marca distintiva dos navios de guerra.[4]

Apesar de interessante, não existem evidências de que esta lenda é verdadeira. A verdadeira origem da flâmula aparenta ser bastante mais prosaica.[4]

Galhardetes estreitos e compridos como as flâmulas são usados há milhares de anos, aparecendo já representados na arte do antigo Egito. O seu uso em navios, içados nos topes dos mastros ou nas vergas, ocorre pelo menos desde a Idade Média, estando representados em ilustrações de manuscritos medievais e em pinturas renascentistas. Os cavaleiros medievais levavam pendões e outras bandeiras triangulares e farpadas na ponta das suas lanças. Os registos indicam que, em tempo de guerra, esses cavaleiros assumiam o comando de navios mercantes, transformando-os em navios de guerra. Ao assumirem esse comando, os mesmos transferiam as bandeiras das suas lanças para os seus navios, arvorando-as nos respetivos mastros.[4] As flâmulas seriam assim uma evolução dos pendões dos cavaleiros medievais, sendo até meados do século XVII arvorados nas vergas e desde então nos mastaréus dos joanetes grandes.[5]

No final do século XVII tinham-se já desenvolvido as marinhas nacionais permanentes de quase todos os estados marítimos. Nessa época, todos os navios eram veleiros, sendo muito difícil distinguir exteriormente um navio de guerra de um mercante. As marinhas de guerra oficializaram a flâmula arvorada no mastro grande dos seus navios, como o sinal que os distinguia dos navios mercantes.[4]

Até ao início do século XX, era costume as bandeiras e flâmulas arvoradas nos navios de guerra eram geralmente de grandes dimensões. Estas grandes dimensões tinham uma razão prática, que era a necessidade de identificar facilmente a nacionalidade e o estatuto militar de um navio, sendo as bandeiras e flâmulas praticamente a única forma de o fazer. As maiores bandeiras arvoradas em navios de guerra do final do século XIX chegavam a ter 10 metros de comprimento, enquanto que existiam flâmulas com 21 metros.[4]

Contudo, a evolução dos navios de guerra a partir de meados do século XIX, fez com que os mesmos adotassem um formato exterior peculiar, bastante distinto do formato dos navios mercantes, fazendo com que os mesmos já não fossem facilmente confundidos com estes. Este formato distinto fez com que as flâmulas perdessem importância como sinal de identificação de um navio de guerra, levando à redução do seu tamanho. O processo de redução de tamanho foi acelerado com a proliferação de antenas eletrónicas nos navios do século XX. As flâmulas maiores, para uso normal, não ultrapassam agora os dois metros de comprimento, ainda que existam flâmulas mais compridas içadas em ocasiões especiais.[4]

Flâmulas de fim de comissão[editar | editar código-fonte]

O navio-patrulha britânico HMS Dumbarton Castle, arvorando a sua longa flâmula de fim de comissão, ao finalizar a sua última viagem antes do desarmamento.
Flâmula de Fim de Comissão do Brasil

Em algumas marinhas, existe a tradição de, quando um dos seus navios regressa à base, no final de uma longa comissão de serviço, o mesmo arvore no tope do seu mastro principal uma flâmula extremamente longa, chamada de "flâmula de fim de comissão".

A flâmula de fim de comissão tem normalmente, pelo menos o mesmo comprimento do navio e ocasionalmente, tem um comprimento tal que reflete a duração do seu tempo de serviço. Assim, por exemplo, cada metro de comprimento da flâmula pode corresponder a cada mês ou ano de serviço do respetivo navio. Estas dimensões contrastam com as dimensões das flâmulas de comando normais usadas modernamente, cujo comprimento geralmente não ultrapassa os dois metros.

A tradição do uso de flâmulas de fim de comissão é mantida em várias marinhas, incluindo na Marinha do Brasil, onde existe um modelo específico deste tipo de flâmulas.

Em outras marinhas, esta tradição já só se mantém para a última comissão de serviço de um navio, antes do mesmo ser desarmado. Neste caso, o arvorar da flâmula de fim de comissão faz parte da cerimónia de desarmamento do mesmo.[6]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Significado de flâmula no Dicionário Estraviz». estraviz.org. Consultado em 17 de fevereiro de 2020 
  2. «Flâmula». Michaelis On-Line. Consultado em 17 de fevereiro de 2020 
  3. Esparteiro, António Marques (2001). Dicionário Ilustrado de Marinha. 2.ª ed. Lisboa: Clássica Editora. ISBN: 972-561-325-2.
  4. a b c d e f g «Commissioning Pennant». Naval History and Heritage Command. Department of the Navy. 10 de abril de 2001. Consultado em 27 de março de 2020. Cópia arquivada em 2008 
  5. Este artigo incorpora texto do artigo «Flag» por H Lawrence (em inglês) da Encyclopædia Britannica (11.ª edição), publicação em domínio público.
  6. Cerimonial da Marinha, Marinha do Brasil - Escola de Aprendizes-Marinheiros do Espírito Santo, 2018

Ligações externas[editar | editar código-fonte]