Herbert Baldus

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Herbert Baldus
Nascimento 14 de março de 1899
Wiesbaden
Morte 24 de outubro de 1970 (71 anos)
São Paulo
Cidadania Alemanha
Ocupação etnologista, escritor, professor universitário
Empregador Universidade de São Paulo

Herbert Baldus (Wiesbaden, 14 de março de 1899São Paulo, 24 de outubro de 1970) foi um etnólogo brasileiro nascido na Alemanha.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Era filho de Martin Baldus, um matemático e Carolina Baldus, filha de uma família de armadores alemães. Aos 18 anos, Herbert integrou o Corpo Real de Cadete da Alemanha, em Potsdam, como aviador, tendo participado da Primeira Guerra Mundial e, depois, passou a escrever poemas com teor de guerra. Em 1921, fez uma viagem sem motivos específicos para a Argentina e dois anos depois chegara ao Brasil[1].

Vinda para o Brasil e início de carreira[editar | editar código-fonte]

Se estabilizou em São Paulo e, no mesmo ano, integrou uma expedição cinematográfica que visitou os índios Xamakoko, Kaskihá e Sanapaná, do Chaco, Paraguai, iniciando assim o que seria o principal interesse de sua vida: a etnologia. Com todo o material de pesquisa desta viagem, Herbert publicou seu primeiro artigo com a temática indígena: "Os índios Chamacoco", em 1927. No mesmo ano da publicação, Baldus voltou a ter contato com indígenas, visitando os Guarani, no litoral de São Paulo. Esse contato o levou a escrever outro artigo, agora com a temática especifica dos Guaranis: "Ligeiras notas sobre os índios Guaranys no litoral paulista" em 1929[1].

Baldus retornou à Alemanha e foi aluno de Richard Thurnwald, Konrad Theodor Preuss e Walter Lehmann, na Friedrich-Wilhelm-Universitat, onde concluiu seus estudos de etnologia em 1928, além de adquirir o título de Doutor em Filosofia. Em 1931, ele publicou seu primeiro livro "Indianer Studien im nordöstlichen Chaco", na cidade de Leipzig. Este livro retratava os três grupos indígenas do Paraguai que já havia conhecido. Agora, se entregando mais ao seu lado literário, Herbert passou a escrever textos, tendo maior destaque em uma novela biográfica baseada na vida da esposa de Solano Lopes, Elisa Alicia Lynch. A obra se chamou "Madame Lynch" e foi publicada em 1931. Com a ascensão do nazismo ao poder em 1933, Baldus decidiu voltar para o Brasil, de onde nunca mais sairia[1].

Consolidação na carreira[editar | editar código-fonte]

No ano de sua volta ao Brasil, Baldus organizou uma expedição visitando o sul do país e visitou os Kaingang, em Palmas, no Paraná. Na mesma expedição, Herbert ainda conheceu os índios Xiripá. Essa viagem resultou em diversos artigos publicados por ele, com tema os índios conhecidos no Brasil e no Paraguai. Em 1934, em uma expedição para o Mato Grosso, Herbert teve seu primeiro contato com os índios Terena e com os Bororo, de Meruri e do Sangadouro, além de conheces pinturas rupestres em Sant'ana de Chapada, o que aflorou seu interesse pela arquelogia. Novamente, essa viagem rendeu alguns artigos para Baldus, como "As pinturas rupestres de Sant'ana da Chapada (Mato Grosso)" de 1937[1].

Em 1935, Baldus retornou ao Mato Grosso, agora para prosseguir seu estudo sobre os Bororo, e iniciou seus estudos sobre os índios Karajá, da Ilha de Bananal, no Rio Araguaia. Publicou em 1937 um ensaio sobre "A posição social da mulher entre os Borôros Orientais",Ele também conheceu os índios Tapirapé e, para chegar a eles, precisou seguir de canoa da Ilha de Bananal até a aldeia Tapiitaua. Sua experiência durou cerca de seis semanas naquele ano e outro curto período em 1947. Essas experiências lhe renderam seu principal trabalho, a obra "Tapirapé - Tribo tupi no Brasil Central", de 1970[1].

Baldus decidiu reunir diversos trabalhos e, em 1937, publicá-los em uma de suas principais obras: "Ensaios de Etnologia Brasileira", que contou com oito de seus ensaios. Herbert dedicou este livro "Ao grande conhecedor de índios no Brasil Curt Nimuendaju". Em 1939 tornou-se professor de etnologia brasileira na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Herbert era também diretor da seção etnológica da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), e através do periódico Sociologia, divulgou diversos de seus trabalhos. Lecionou na FESPSP e teve como seus discípulos Oracy Nogueira, Gioconda Mussolini, Virgínia Leone Bicudo, Lucila Hermann, Florestan Fernandes, Levy Cruz, Fernando Altenfender Silva, Sergio Buarque de Holanda, entre outros. Em companhia de Emilio Willems e dos seus alunos da FESPSP, Herbert visitou o Vale do Ribeira do Iguape, no interior paulista para estudar a mudança cultural no grupo de japoneses imigrantes que ali se estabelecera. Devido a essa expedição, Baldus publicou o artigo "Casas e túmulos de japoneses no vale do Ribeira do Iguape", com a colaboração de Willems, em 1941. No mesmo ano, Baldus naturalizou-se brasileiro e adotou o Brasil como sua segunda nacionalidade[1]. Emilio Willems considerou sua obra publicada em 1954 "Bibliografia Crítica da Etnologia Brasileira" como monumental.[2]

Herbert passou a ir cada vez mais a fundo nas pesquisas arqueológicas e em 1944, procedeu escavações em sítios no Estado do Paraná. Encontrou cacos de cerâmica no Rio Paranapanema e através de análises interpretativas e explanações descritivas, ele apresentou o estudo "Tonschenberfunde in Nordparaná" (1951/52). Dois anos depois, visitou os índios Kaingand do Ivaí, no Paraná, fazendo registros, principalmente sobre a mitologia desse povo. Esta viagem lhe rendeu o artigo "Os Kaingang do Ivaí", de 1947. A psicóloga Aniela Ginsberg ajudou no experimento seguinte de Baldus, e realizou a interpretação dos testes por ele aplicado em um grupo de trinta e dois Kaingang, sendo homens e mulheres, mas a parte de campo foi realizada somente por ele. Este outro estudo foi divulgado no artigo "Aplicação do psicodiagnóstico de Rorscharch a índios Kaingang" de 1947[1].

Em 1946, Sérgio Buarque de Holanda tornou-se diretor do Museu Paulista,[1] e contratou Baldus para ser Chefe da Seção de Etnologia. Juntos, os dois criaram fortes vínculos e, no comando do museu, transformaram a etnologia em peça principal deste "templo da história". Porém, talvez por falta de tato nos assuntos administrativos, o museu chegou a fechar as portas opara o publico por algum tempo[3]. Herbert editou a Revista do Museu Paulista e em 1947, publicou o primeiro volume da Nova Série que é um dos mais importantes periódicos antropológicos do Brasil[3]. Ele continuou na função de editor até a sua morte. Suas principais pesquisas etnológicas se deram nas regiões centro-oeste e norte do Brasil, sendo feitas juntamente com seu assessor Harald Schultz[3]. A contribuição de Herbert pode ser considerada, principalmente, pelo fato de fortalecer ainda mais os laços do museu com o estrangeiro e aproxima-lo da antropologia. Dez anos após ser contratado, Herbert assumiu a direção do museu com a ida de Sérgio Buarque para a cátedra de História da Civilização Brasileira na USP e o etnólogo enfrentou diversos problemas no cargo. Em 1959, seu mandato como Diretor em Exercício chegou ao fim, dando lugar a Paulo Junqueira Duarte[3].

Baldus, em 1947, visitou outro grupo Kaingang, agora de Icatu, em São Paulo, e outro grupo Terena, o de Araribá, também do interior paulista. No segundo semestre do mesmo ano foi convidado pelo Serviço de Proteção aos Índios para visitar a aldeia dos índios Karajá, da Ilha de Bananal. Esteve novamente com os Tapirapé, do Rio Tapirapé, no Mato Grosso. Em todas as suas visitas, Herbert ia representando o Museu Paulista e a FESPSP, sempre acompanhado do médico Haroldo Cândido de Oliveira. Ele escreveu um relatório para o Serviço de Proteção aos Índios que saiu na Revista do Museu Paulista, onde o criticava e propunha soluções para a melhora de condições de vida dos indígenas. Baldus criticou a "imposição" da escola branca para os índios e o uso, por parte deles, de objetos originários dos brancos, como panelas de ferro (que substituiram as panelas de barro) e sapatos de couro. Fez uma análise da política de "administração direta" das aldeias por parte do S.P.I., que "pacifica as hostis e acabocla as outras"[1].

No ano de 1949, Herbert Baldus foi convidado pelo governo dos Estados Unidos para fazer uma excursão por diversas tribos indígenas nos estados de Arizona e Novo Mexico. Ele foi eleito secretário do Comitê Executivo do XXIX Congresso Internacional de Americanistas, que ocorreu na cidade de Nova York. Voltando para São Paulo, ainda no mesmo ano, Baldus recebeu duas honrarias: uma foi a Medalha Tobias de Aguiar, concedida pelo Governo do Estado e a outra foi a Medalha Goetheana, concedida pela Sociedade Goetheana do Estado de São Paulo. Ainda em 1949, Herbert fez o prefácio de uma obra de seu discípulo Florestan Fernandes, que acabou sendo publicado em diversos outros veículos com o nome: "Etno-sociologia brasileira". No ensaio, ele sintetiza todas as contribuições de viajantes, cronistas e missionários para o conhecimento das populações de tribos brasileiras, abrangendo um espaço de tempo desde Pero Vaz de Caminha, até a sua época. Baseado em visitas anteriores à área do Araguaia, publicou o artigo "Akkulturantion im Araguaia" diferenciando as comunidades dos índios Karajá e Tapirapé, de sua primeira visita em 1935 para a segunda em 1947, e constatou uma série de diferenças na cultura dos dois povos[1].

Em 1952, Herbert foi até o Rio Grande do Sul realizar a sua última pesquisa de campo. Ele visitou os índios Kaingang de Nonoaí e Guarita e Mbyá-Guarany, que também eram de Guarita. No mesmo ano ele publicou o estudo "Breve notícia sobre os Mbyá-Guarany de Guarita". Ainda em 1952, Baldus participou da banca examinadora da defesa da tese de doutorado de Florestan Fernandes, na Faculdade de Filosofia, Cências e Letras da Universidade de São Paulo, quem o dedicou a dissertação. Depois, Herbert viajou para a Europa, a fim de conhecer instituições culturais, bibliotecas, museus de países como: Áustria, França, Dinamarca, Espanha, Suíça, Inglaterra, Portugal e Suécia. Nesta viagem, Herbert compareceu ao XXX Congresso Internacional de Americanistas (o qual havia sido secretário três anos antes na edição anterior), que aconteceu em Cambridge, na Inglaterra e foi eleito Vice-Presidente Honorário do conclave. No congresso, Baldus apresentou o seu artigo "Supernatural Relations with Animals among Indians of Eastern and Southern Brazil"[1].

No ano seguinte, ele participou do II Congresso Latino-Americano de Sociologia, realizado em São Paulo e foi eleito Presidente do conclave da I Reunião Brasileira de Antropologia. Ele fez parte de todas as outras edições da Reunião (Salvador, 1955; Recife, 1958; Curitiba, 1959; Belo Horizonte, 1961; e São Paulo, 1963). Em 1954, Baldus organizou, em São Paulo, o XXXI Congresso Internacional de Americanistas, visto que era o Presidente da Comissão Organizadora que o elegeu Secretário-Geral do Comitê Executivo. Ele participou de todas as edições do congresso até a de número XXXVI (Copenhagen, 1956; São José da Costa Rica, 1958; Viena, 1960; México, 1962; e Espanha, 1964). Na edição XXXVII, Baldus não pôde participar pois estava doente, mas ainda assim, foi eleito Vice-Presidente do congresso que ocorreu na Alemanha. Depois deste intercâmbio na Europa, Herbert voltou ao Brasil e continuou participando de diversos congressos, como "O Japonês em São Paulo e no Brasil", no qual presidiu uma das sessões, na cidade de São Paulo[1].

A partir de 1955, Herbert Baldus passou a ser membro correspondente da Sociedade Suíça de Americanistas. Em 1961, ele assumiu a cadeira de Etnologia Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, cidade no interior paulista. Em 1964, ano em que completou 65 anos, Herbert Baldus recebeu uma grande homenagem de inúmeros antropólogos do mundo. Hans Becher criou uma edição comemorativa de Völkerkundliche Abhandlungen — “Beiträge zur Völkerkunde Südamerikas”, onde trinta especialistas em assuntos Americanistas publicaram cada um, um texto de sua autoria, com o intuito de homenagear Herbert Baldus[1].

Morte[editar | editar código-fonte]

Herbert Baldus faleceu em 24 de outubro de 1970, na cidade de São Paulo[1].

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n O Antropólogo Herbert Baldus, por Orlando Sampaio-Silva
  2. Emilio Willems: Herbert Baldus 1899-1970, in: Kölner Zeitschrift für Soziologie und Sozialpsychologie, 23/1971, p. 666.
  3. a b c d Silva, Tathianni Cristini da (7 de agosto de 2014). «Um intelectual caipira na cidade: a trajetória de Mário Neme e sua gestão no Museu Paulista». doi:10.11606/T.8.2014.tde-08012015-162434 

Ver também[editar | editar código-fonte]