Iuechis

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Iuechis
Noin-Ula nobleman and priest over fire altar.jpg

MigracionesDeLosYueh-Chih-pt.svg

Acima: figuras nos tapetes bordados do cemitério de Noin-Ula, propostas como sendo iuechis (século I a.C.-I d.C.)

Abaixo: Migração dos iuechis

População total
Regiões com população significativa
Línguas
Religiões

Iuechis[3][4] (em chinês: 月氏; romaniz.: Yuèzhī (pinyin) ou Yüeh4-chih1 (Wade–Giles)[5]) foram um antigo povo descrito pela primeira vez nas histórias chinesas como pastores nômades que viviam extensa área de pastagem árida na parte ocidental da atual província de Gansu, durante o I milênio a.C.. Após uma grande derrota para os Xiongnu em 176 a.C., se dividiram em dois grupos migrando em direções diferentes: os grandes (大月氏 Dà Yuèzhī) e pequenos iuechis (小 月氏, Xiǎo Yuèzhī).

Os grandes inicialmente migraram para o noroeste no vale do Ili (nas fronteiras modernas da China e do Cazaquistão), onde supostamente deslocaram populações sacas. Foram expulsos do Ili pelos usuns e migraram para o sul para Soguediana e mais tarde se estabeleceram em Báctria. Consequentemente, foram frequentemente identificados com povos descritos em fontes clássicas europeias como tendo invadido o Reino Greco-Báctrio, os tocários (em sânscrito: तुखार; romaniz.: Tukhāra; em grego clássico: Τοχάριοι; romaniz.: Tokhárioi) e ásios (em latim: asii; em grego clássico: asioi). Durante o século I a.C., uma das cinco principais tribos maiores em Báctria, os cuchanas (em chinês: 貴霜; romaniz.: Guìshuāng (pinyin)) começou a agregar as outras tribos e povos vizinhos. O subsequente Império Cuchana, em seu auge no século III, estendeu-se de Turfã na bacia do Tarim, no norte, até Pataliputra, na planície Indo-Gangética da Índia, no sul. Os cuchanas desempenharam papel importante no desenvolvimento do comércio na Rota da Seda e na introdução do Budismo na China.

Os iuechis menores migraram para o sul até a borda do Planalto Tibetano. Alguns teriam se estabelecido entre os qiang em Chingai e se envolveram na Rebelião de Liangzhou (184–221). Outros teriam fundado a cidade estado de Cumuda, no Tarim Oriental. Um quarto grupo pode ter se tornado parte dos jiés de Xanxim, que criou Chao Posterior no século IV (apesar disso ser controverso).

Muitos estudiosos acreditam que os iuechis eram um povo indo-europeu.[6][7] Embora alguns estudiosos os tenham ligado a artefatos de culturas extintas na bacia do Tarim, como as múmias do Tarim e textos que registram as línguas tocarianas, a evidência para tal ligação é puramente circunstancial.[8]

Primeiras referências em textos chineses[editar | editar código-fonte]

Três textos pré-Hã mencionam povos que parecem ser os iuechis, embora com nomes ligeiramente diferentes.[9]

  • O tratado filosófico Guanzi (73, 78, 80 e 81) menciona pastores nômades conhecidos como iuchis (em chinês: 禺氏; romaniz.: yúzhī (pinyin); em chinês antigo: *ŋʷjo-kje) ou niuchis (牛氏, niúzhī (pinyin); em chinês antigo: *ŋʷjə-kje), que forneciam jade aos chineses.[9][10] (Acredita-se agora que o Guanzi foi compilado por volta de 26 a.C., com base em textos mais antigos, incluindo alguns da era do Reino de Chi dos séculos XI a III a.C.. A maioria dos estudiosos não atribui mais sua autoria primária a Guan Zhong, um oficial de Chi no século VII a.C.[11]). A exportação de jade da bacia do Tarim, pelo menos desde o final do II milênio a.C., está bem documentada arqueologicamente. Por exemplo, centenas de peças de jade encontradas na tumba de Fu Hao (c. 1 200 a.C.) originaram-se da área de Cotã, na borda sul da bacia.[12]
  • O capítulo 59 do Livro Perdido de Chou (provavelmente datando do século IV ao I a.C.) refere-se aos iuchis que viviam a noroeste do domínio Chou e ofereciam cavalos como tributo. Um suplemento tardio contém o nome iuedi (em chinês: 月氐; romaniz.: Yuèdī (pinyin); em chinês antigo: *ŋʷjat-tij), que pode ser um erro ortográfico do iuechi (月氏; yuèzhī (pinyin); chinês antigo: *ŋʷjat-kje) encontrado em textos posteriores.[9]

No século I a.C., Sima Chiã - amplamente considerado o fundador da historiografia chinesa - descreve como a dinastia Chim (221–206 a.C.) comprou jade e cavalos militares altamente valiosos de um povo que chamou de uchis (em chinês: 烏氏; romaniz.: Wūzhī (pinyin); chinês antigo: *ʔa-kje), liderado por um homem chamado Luo. Os uchis trocaram esses produtos por seda chinesa, que então venderam para outros vizinhos.[13][14] Esta é provavelmente a primeira referência ao iuechis como um eixo central no comércio na Rota da Seda, que no século III a.C. começou a ligar os Estados chineses à Ásia Central e, eventualmente, ao Oriente Médio, Mediterrâneo e Europa.[15]

Artefatos em Gansu e Ninxiá (século V-IV a.C.)[editar | editar código-fonte]

Numerosos artefatos nômades são atribuídos às áreas do sul de Ninxiá e sudeste de Gansu durante o século V-IV a.C.. São bastante semelhantes aos trabalhos da cultura nômade de Ordos mais ao leste, e refletem fortes influências citas. Alguns desses artefatos foram sinicizados pelo Estado vizinho de Chim na China, provavelmente também para consumo nômade. Figuras nômades com narizes compridos montados em um camelo também aparecem regularmente no sul de Ninxiá a partir do século IV a.C..[16]


Etimologia[editar | editar código-fonte]

Hakan Aydemir, professor assistente na Universidade Medeniyet de Istambul, reconstruiu o etnônimo * Arki ~ * Yarki que fundamentava as transcrições chinesas 月氏 (chinês antigo *ŋwat-tēɦ ~[ŋ]ʷat-tēɦ) e 月支 (chinês hã posterior *ŋyat-tśe), bem como várias outras transcrições estrangeiras e o etonônimo tocariano A Ārśi.[17] Aydemir sugeriu que *Arki ~ *Yarki é etimologicamente indo-europeu.[18]

Referências

  1. Watson 1993, p. 234.
  2. Hulsewé 1979, p. 119–120.
  3. Albanese 2006, p. 33.
  4. Correia 1918, p. 137.
  5. Hassnain 2002, p. 133.
  6. Narain 1990, p. 152–155.
  7. Roux 1997, p. 90.
  8. Mallory 2000, p. 283–284.
  9. a b c d Thierry 2005.
  10. Lebedynski 2006, p. 59.
  11. Jianguo 2004, p. 115–127.
  12. Liu 2001a, p. 265.
  13. Benjamin 2007, p. 32.
  14. Liu 2010, p. 3–4.
  15. Liu 2001a, p. 273.
  16. Bunker 2002, p. 24–25.
  17. Aydemir 2019, p. 273.
  18. Aydemir 2019, p. 263.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Albanese, Marília (2006). Índia Antiga. Traduzido por Manhães, Francisco. Barcelona: Folio 
  • Bunker, Emma C. (2002). Nomadic Art of the Eastern Eurasian Steppes: The Eugene V. Thaw and Other Notable New York Collections. Nova Iorque: Museu Metropolitano de Arte 
  • Correia, Alberto Carlos Germano da Silva (1918). Índia Portuguesa - Estudos Antropológicos e Aclimológicos. Lisboa: Imprensa Nacional 
  • Hassnain, F. M. (2002). Historic Kashmir. Serinagar: Gulshan 
  • Hulsewé, A. F. P.; Loewe, M. A. N. (1979). China in Central Asia: The Early Stage: 125 B.C.-A.D. 23: An Annotated Translation of Chapters 61 and 96 of the History of the Former Han Dynasty. Leida: Brill. ISBN 90-04-05884-2 
  • Jianguo, Liu (2004). Distinguishing and Correcting the pre-Qin Forged Classics. Xiã: Editora Popular de Xianxim. ISBN 7-224-05725-8 
  • Lebedynski, Iaroslav (2006). Les saces - les nomades blancs d'asie: Viiie siècle av. j.-c. - ive siècle apr. j.-c. (Errance archéologie). Paris: Errance 
  • Yatsenko, Sergey A. (2012). «Yuezhi on Bactrian Embroidery from textiles found at Noyon Uul, Mongolia». The Silk Road. 10: 39–48