Malleus Maleficarum

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Disambig grey.svg Nota: Para o álbum da banda de trash metal holandesa Pestilence, veja Malleus Maleficarum (álbum).


Malleus Maleficarum
O Martelo das Feiticeiras
Malleus Maleficarum Maleficat & earum haeresim, ut framea potentissima conterens
Malleus Maleficarum edição veneziana de 1576
Autor (es) Heinrich Kraemer e James Sprenger
Idioma Latim
País Alemanha
Assunto Religião
Género Manual de perseguição
Lançamento 1487
Cronologia
Último
bula Summis Desiderantis Affectibus
Próximo

Malleus Maleficarum Maleficat & earum haeresim, ut framea potentissima conterens ou mais comumente chamado apenas Malleus Maleficarum é o título original em latim (também chamado O Martelo das Bruxas ou O Martelo das Feiticeiras[1] ) do livro publicado em 1486 ou 1487[2] pelos dominicanos Heinrich Kraemer (também conhecido por Heinrich Institoris[3] ) e James Sprenger, na Alemanha, em cumprimento à bula papal Summis Desiderantis Affectibus de Inocêncio VIII, que os autorizava criar um manual de combate aos praticantes de heresias - e que veio a se tornar o guia dos inquisidores pelo restante do século XV e seguintes; embora outros manuais tenham sido escritos no período, este é dos mais "perversos e cruéis", verdadeiro "manual de ódio, de tortura e morte".[4]

A partir dele a Igreja Católica torturou, matou e perseguiu especialmente as mulheres, acusadas de bruxaria, pactos com o diabo e heresias, levando à fogueira mais de cem mil delas na Europa.[4] O Malleus passou a ser o guia da perseguição às mulheres acusadas de práticas de magia, fazendo com que todo o período fosse conhecido como de caça às bruxas, tendo seus eventos mais acentuadamente ocorridos em França e Alemanha, e nalguns momentos na Inglaterra, Bélgica, Suíça, Itália e outros.[5]

O livro é dividido em três partes; na primeira, relata as propriedades do demônio e sua ligação com a bruxaria; a segunda trata de como lidar com os malefícios durante o dia-a-dia; finalmente, a terceira parte faz a descrição de como proceder aos julgamentos e como cumprir as sentenças.[4]

Apesar de seu conteúdo obscuro, é uma obra da Idade Moderna, havendo surgido poucos anos antes da viagem de Colombo e contemporânea da obra de Pico della Mirandola, base do humanismo florentino.[6]

Embora o livro original traga uma dupla autoria, modernamente é consenso que o papel do então renomado autor Sprenger na escrita deste livro deva ser mínima.[3]

Precedentes históricos[editar | editar código-fonte]

Muitas leis europeias bastante antigas já traziam artigos punindo as práticas mágicas - como por exemplo a lei sálica, de Clóvis ainda no século V que prescrevia várias multas para as práticas de bruxaria, especialmente as mortais ou referentes ao nó da bruxa.[7]

Em 1326 o papa João XXII emitiu a bula Super Illius Specula, na qual a bruxaria passou ao rol de heresia já que, segundo as doutrinas em voga, suas práticas implicavam em pactos demoníacos e infidelidade com a fé cristã - o que autorizava a Inquisição a tratar de seu combate.[5]

Durante todo o século XV então em várias regiões surgiram processos contra a feitiçaria, bem como tratados de demonologia foram sendo publicados.[5]

Várias bulas foram publicadas por João XXII e Bento XII (do Papado de Avinhão) que tratavam de formas como lidar com as bruxarias, anatematizando essas abominações; também trataram do tema Gregório XI, Alexandre V e Martinho V; Eugênio IV emitiu quatro bulas que iam contra a feitiçaria e a magia negra, a primeira delas para o inquisidor florentino Pôncio Fougeyron; Nicolau V, em 1 de agosto de 1451 emitiu uma bula ao inquisidor dominicano Hugo Niger; a lista se encerra com as bulas emitidas por Calisto III e Pio II, que denunciavam a necromancia.[7]

Digno de nota é que Alexandre IV enviou duas bulas, primeiro aos franciscanos e depois aos dominicanos, em 1258 e 1260, dizendo para que se esquivassem de julgar casos de feitiçaria, salvo quando tenha ficado patente que se tratava de clara heresia.[7]

Foi contudo quando subiu ao trono papal Francesco della Rovere como Sisto IV que as feiticeiras passaram a ser vistas como integrantes de um complô internacional através de sociedades de bruxas, e foi o responsável pela nomeação de Torquemada como Grande Inquisidor de Castela e, finalmente, sua bula Summis desiderantes affectibus, que deu aos inquisidores poderes que até então eles não possuíam.[7]

A mulher como instrumento do diabo, para Institoris[editar | editar código-fonte]

Título do Malleus, em edição de 1520.
Exemplar da Biblioteca da universidade de Sidney.

A maior inovação da obra do inquisidor Institoris (Kraemer) foi justamente atribuir exclusivamente à mulher a condição de "bruxa" - o que inicialmente não foi aceito mesmo por seus contemporâneos; antes da publicação do livro, e de posse da bula papal, ele havia empreendido esforços para processar mulheres suspeitas de bruxaria, lançando-se numa vigorosa investigação em Innsbruck mas, apesar de encontrar uma cidade repleta de feiticeiras, as autoridades locais mostraram-se relutantes em fazer qualquer coisa contra elas; também entre os magistrados e o próprio bispo, Georg Golser, foram-lhe hostis na pretensão punitiva, em outubro daquele ano.[3]

Durante um interrogatório preliminar Institoris procurou conectar a um desvio sexual feminino com a bruxaria, e o fez de tal forma que pareceu ofensivo aos seus anfitriões, que se mostraram claramente relutantes em aceitar a condição de bruxas como ele entendia; um autor chegou a comentar que Institoris reivindicava algo que não poderia provar; o fato foi que com todo o clima contrário, junto aos ardis advocatícios e a erros processuais cometidos pelo próprio Institoris, seus processos ali foram arruinados.[3] Ele insistiu em tentar reavivar os processos, mas só obteve negativas e finalmente recebeu uma ríspida ordem episcopal para sair da cidade, ou ficasse para sofrer a ira das famílias cujas esposas e filhas ele tinha ofendido.[3]

Como resposta a este tratamento tão adverso ele escreveu seu tratado, o Malleus Maleficarum ou Martelo das Bruxas que, assim como seu trabalho inquisitorial fracassado, não foi geralmente aceito - no qual procura de forma sistemática e abrangente descrever as bruxas, seu caráter e comportamento e ainda expor um resumo das medidas legais e espirituais a usar contra elas.[3]

Não existem bruxos, só bruxas[editar | editar código-fonte]

Mulher suspeita de bruxaria é interrogada por inquisidores.

É marcante na obra de Institoris que a bruxaria era algo exclusivamente feminino - enquanto outros autores da época consideravam as mulheres eram apenas propensas à superstição - ele foi além, afirmando que os pontos fracos tornavam a mulher passível às ciladas do diabo, em corpo e espírito - sendo o único inquisidor até então a ligar a bruxaria como algo inerente com o sexo feminino; isto para ele era algo simples, um fato verificado por meio de sua própria experiência e pelo senso comum - e qualquer prova em contrário era prontamente posta de lado por ele.[3]

O Malleus, fruto deste pensamento, trata a existência de bruxos como algo minimizado, como realmente exceções; os magos, por exemplo, não são bruxos ou porque eles só usam de poderes naturais ocultos ou porque estão iludidos pensando que agem sob comando ou influência do demônio: eles, ao contrário das bruxas, jamais poderão estar ligados ao diabo, pois isto só ocorre por meio de um pacto explícito selado com a relação sexual.

Assim, Institoris chama os homens que trabalham com as formas populares de magia de "superstitiosi" ou de "magi", em vez de bruxos ("malefici"); caso lapidar, diz ele, foi o de um homem chamado Hengst que era famoso pela cura dos males frutos de magia, a ponto que multidões iam consultá-lo mesmo no auge do inverno - e como ele próprio dizia antes que apenas as bruxas tinham o poder de remover os malifícios, poder-se-ia concluir que seria tratado como "bruxo" - mas não: ele diz que Hangst era um mero supersticioso.[3]

Ao interpretar o Formicarius, de Johann Nider, mesmo quando no original se diz que um "maleficus" confessara ter convocado o diabo para matar um inimigo, Institoris evita cuidadosamente em falar em "bruxo", referindo-se a ele de forma indireta.[3]

Nenhum tratado anterior foi tão enfático em mostrar o sexo feminino como instrumento satânico quando este; pode ser considerado um marco na demonização da mulher, expondo-a à perseguição e ao castigo.[8]

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

Mulheres levadas à fogueira, por bruxaria.

Embora desde a antiguidade, e em muitas culturas além da Europa, a mulher fosse temida, isto só atingiu seu ápice quando ela teve reconhecido o seu papel como agente demoníaco, e nenhum outro tratado foi tão específico neste mister quanto o Malleus'; foi um marco na demonização da mulher e das práticas religiosas populares, sendo o manual da maioria dos inquisidores durante a "caça às bruxas".[8]

Assim é que Institoris afirma, pela primeira vez: “É um fato que maior número de praticantes de bruxaria é encontrado no sexo feminino. Fútil é contradizê-lo: afirmamo-lo com respaldo na experiência real, no testemunho verbal de pessoas merecedoras de crédito.[8] Ele embasa suas ideias colocando a mulher como herdeira do pecado original: “...em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente.[8]

A falta de memória das mulheres, segundo o Malleus, é uma das causas para sua propensão ao mal - já que não conseguem guardar muitas coisas nas lembranças, seguem mais seus impulso e instintos, estando muito mais afeitas a cair em pecado: "E, com efeito, assim como, em virtude da deficiência original em sua inteligência, são mais propensas a abjurarem a fé, por causa da falha secundária em seus afetos e paixões desordenados também almejam, fomentam e infligem vinganças várias, seja por bruxaria, seja por outros meios. Pelo que não surpreende que tantas bruxas sejam desse sexo."[8]

Institoris deixa claro a origem feminina do mal, e qual motivo absolve os homens: "Há três coisas insaciáveis, quatro mesmo que nunca dizem: Basta! A quarta é a boca do útero. Pelo que, para saciarem a sua lascívia, copulam até mesmo com demônios. Poderíamos adiantar ainda outras razões, mas já nos parece suficientemente claro que não admira ser maior o número de mulheres contaminadas pela heresia da bruxaria. E por esse motivo convém referir-se a tal heresia culposa como a heresia das bruxas e não a dos magos, dado ser maior o contingente de mulheres que se entregam a essa prática. E abençoado seja o Altíssimo, Que até agora tem preservado o sexo masculino de crime tão hediondo: como Ele veio ao mundo e sofreu por nós, deu-nos, a nós homens, esse privilégio."[8]

Edições recentes[editar | editar código-fonte]

No Brasil foi publicado pela editora Três em 1976 com o título Malleus Maleficarum: Manual de Caça às Bruxas e, posteriormente, pela editora Rosa dos Tempos com o título O Martelo das Feiticeiras.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Kramer, Heinrich e Sprenger, Jacobus - Malleus Malleficarum. Republicação integral (em inglês) da edição de 1928, contendo a introdução da edição de 1948 e uma bula de Inocêncio VIII de 1484.
  • Kramer, Heinrich e Sprenger, Jacobus - Malleus Malleficarum: Manual da Caça às Bruxas. Ed.Três, São Paulo, 194pp, formato 17x20cm, 1976. Google Livros. Jan. 2011

Referências

  1. Rose Marie Muraro (s/d). «O Martelo das Feiticeiras». DHnet. Consultado em 16/2/2016. 
  2. Institucional (s/d). «The Hammer of Witches: A Complete Translation of the Malleus Maleficarum». Cambridge University Press. Consultado em 16/2/2016. 
  3. a b c d e f g h i Hans Peter Broedel (2002). «To Preserve the Manly Form from so Vile a Crime: Ecclesiastical Anti-Sodomitic Rhetoric and the Gendering of Witchcraft in the Malleus Maleficarum». Essays in Medieval Studies, n. 19, pp. 136-148. Consultado em 16/2/2016. 
  4. a b c Márcia Cristina Rodrigues (21-Mar-2012). «Malleu Maleficarum - a bruxaria como afirmação do poder espiritual» (PDF). Revista Brasileira de História das Religiões, ISSN 1983-2850. Consultado em 16/2/2016.  Obs: Texto em Creative Commons, com atribuição requerida.
  5. a b c Helen Ulhôa Pimentel (janeiro de 2012). «Cultura mágico-supersticiosa, cristianismo e imaginário moderno» (PDF). ANPUH, Ano IV, n. 12, ISSN 1983-2850. Consultado em 16/2/2016.  Obs: Texto em Creative Commons, com atribuição requerida.
  6. Breno Martins Campos (s/d). «Fundamentalismo protestante: a invenção de uma tradição exclusivista na modernidade» (PDF). Revista Brasileira de História das Religiões, ISSN 1983-2850. Consultado em 16/2/2016. 
  7. a b c d Rev. Montague Summers (1928). «Introdução». Edição inglesa do Malleus Maleficarum. Consultado em 17/2/2016. 
  8. a b c d e f Juliana Torres Rodrigues Pereira (janeiro de 2011). «Bruxaria e o feminino na visitação inquisitorial ao Arcebispado de Braga (1565)» (PDF). Revista Brasileira de História das Religiões, vol. III, nº 9, ISSN 1983-2859. Consultado em 17/2/2016.