Marciano Capela

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Marciano Mineu Félix Capela (em latim: Martianus Minneus Felix Capella; fl. 375-425), melhor conhecido somente como Marciano Capela, foi um escritor de língua latina da Antiguidade Tardia e um dos primeiros a desenvolver o sistema das sete artes liberais que constituíram a base do conhecimento e ensino no início da época medieval.

Marciano nasceu e viveu na Província de África romana,[1] julgando-se que terá praticado advocacia na Cartago romana onde terá escrito a obra pela qual ficou célebre.

Marciano muitas vezes apresenta pontos de vista filosóficos baseados no Neoplatonismo, a escola de filosofia platónica iniciada por Plotino e seus seguidores.[2] Tal como o seu quase-contemporâneo Macróbio, que produziu também uma grande obra sobre religião romana clássica, Marciano nunca identifica diretamente a sua própria filiação religiosa. Muito da sua obra tem a forma de diálogo e as ideias dos interlocutores podem não representar as do próprio autor.[3]

A cratera lunar Capella foi assim chamada em homenagem a Marciano Capella.

Vida e Obra[editar | editar código-fonte]

A Música, ilustração em manuscrito do século XV de De Nuptiis Philologiae et Mercurii, Biblioteca Apostólica Vaticana

Marciano provavelmente viveu e escreveu em Cartago, como o parecem indicar os manuscritos da sua obra pelo adjetivo Afer carthaginensis após o nome do autor na maioria dos livros/capítulos e pelo próprio texto em si. Nos últimos versos da obra, que servem como uma espécie de assinatura, Marciano faz surgir a divindade alegórica Satura (representando o género literário da sátira menipeia), que é suposto ter-lhe dado a inspiração para toda a narrativa; Satura desenha então uma espécie de retrato de Marciano dizendo: "Tu que viste crescer a cidade feliz de Elissa" (ou seja, Dido, rainha mítica de Cartago).

Parece que a ideia geralmente aceite de que Marciano nasceu em Madaura (hoje Souk Ahras, Argélia), e que mais tarde se mudou para Cartago, seja errada, pois que essa afirmação remonta à introdução da edição por Grotius em 1599 da obra de Marciano, o qual julgava que se tratava de Marciano a quem Cassiodoro por várias vezes se referiu como Madaurensis, quando o que este último evoca invariavelmente é Apuleio.[4]

Marciano deve ter vivido no início do século V pois o livro que escreveu e pelo qual ficou famoso na época, De nuptiis Philologiae et Mercurii (Sobre as Núpcias entre Filologia e Mercúrio), foi escrito após o saque de Roma pelos Visigodos em 410, evento que é nele referido, mas aparentemente antes da conquista do Norte de África pelos Vândalos em 429, por não o ter sido.

Em meados do século VI, Securo Memor Félix, orador e professor de retórica, recebeu o texto em Roma colocando a assinatura pessoal no fim do Livro I (ou no Livro II em muitos manuscritos) registando que esteve a trabalhar em "exemplares muito corrompidos". Gerardus Vossius (1577–1649) erradamente considerou que isto significava que Marciano vivera no século VI, dando origem a um equívoco que perdurou longamente acerca da época em que Marciano vivera.[5]

De Nuptiis Philologiae et Mercurii[editar | editar código-fonte]

A única obra conhecida de Marciano que tem um carácter enciclopédico, De Nuptiis Philologiae et Mercurii (Sobre o casamento da Filologia e Mercúrio), às vezes chamada De Septem Disciplinis (Sobre as Sete Disciplinas) ou o Satyricon,[6] é uma alegoria didática complexa escrita numa mistura de prosa e de poesia elaboradamente alusiva, um prosimetrum à moda das sátiras menipeias de Varrão.

O estilo é prolixo e carregado com metáforas e expressões bizarras. O livro foi de grande importância na definição da fórmula padrão do ensino académico desde o Império Romano cristianizado do século V até ao Renascimento do século XII. Esta fórmula incluía o amor medieval pela alegoria (em específicas corporizações) como um meio para apresentar o saber, e a estruturação desse saber em torno das sete artes liberais.

A Retórica, ilustração de manuscrito do século XV de De Nuptiis Philologiae et Mercurii

O livro, fazendo uma súmula da magra cultura clássica do seu tempo, foi dedicado a seu filho. A sua história enquadradora nos dois primeiros livros conta o namoro e casamento de Mercúrio (a busca inteligente ou produtiva), que fora recusado pela Sabedoria, Adivinhação e a Alma, com a donzela Filologia (estudo, ou mais literalmente o amor pelas letras e o estudo), que se torna imortal sob a proteção dos deuses, das Musas, das Virtudes cardeais e das Graças. O título refere-se à união alegórica da busca intelectualmente proveitosa (Mercúrio) da aprendizagem por meio da arte das letras (Filologia).

Nos presentes de casamento estão sete servas para a Filologia, ou seja, as sete artes liberais: Gramática (uma mulher idosa com uma faca para extirpar os erros gramaticais das crianças), Dialética, Retórica (uma mulher alta com um vestido decorado com figuras de linguagem e armada de forma a atacar os adversários), Geometria, Aritmética, Astronomia e (a musical) Harmonia. Frances Yates comenta que estas imagens correspondem estreitamente às regras para a criação de imagens de memória artificial.[7] À medida que é apresentada, cada arte faz uma exposição dos princípios da ciência que representa, proporcionando assim um resumo das sete artes liberais. Duas outras artes, Arquitetura e Medicina, estiveram presentes na festa, mas dado que tratavam de coisas terrenas, deviam manter-se em silêncio na presença das divindades celestiais.

Cada livro é um resumo ou uma compilação de autores anteriores. O tratamento dos assuntos cultiva uma tradição que remonta a Disciplinae de Varrão, até mesmo a alusão de passagem de Varrão à arquitetura e medicina, que no tempo de Marciano Capela eram as artes da mecânica, sendo matéria para escravos inteligentes, não para senadores romanos. O currículo romano clássico, que iria em grande medida passar através do livro de Marciano Capela para o início do período medieval, foi modificado, mas escassamente revolucionado pelo Cristianismo. As porções de verso, no seu conjunto correta e classicamente elaborados, imitam Varrão.

O oitavo livro descreve um modelo astronómico geocêntrico modificado, no qual a Terra está em repouso no centro do universo à volta da qual giram a Lua, o Sol, três planetas e as estrelas, enquanto Mercúrio e Vénus circundam o Sol.[8] Esta perspectiva do universo foi elogiada por Copernicus no Livro I do seu De revolutionibus orbium coelestium.

Influência[editar | editar código-fonte]

O livro de Marciano Capela foi fundamental na história da educação, da retórica e da ciência. A obra foi lida, ensinada e comentada e estruturou a educação europeia desde o início da Idade Média até ao fim da Renascença carolíngia.[9]

Representação do modelo astronómico geocêntrico de Marciano Capela por Valentin Naboth (1573)

Logo no final do século V, outro africano, Fulgentius, compôs uma obra tendo por modelo a de Marciano. Um nota encontrada em numerosos manuscritos escrita por Securo Memor Félix, indica que cerca do ano 534 o texto denso e circular de De nuptiis já havia sido irremediavelmente corrompido pelos erros dos copistas.[10] Michael Winterbottom sugere que a nota de Securo Memor pode ser a base do texto encontrado num "número impressionante dos livros" escritos no século IX.[11]

Outro escritor do século VI, Gregório de Tours, assegura que o livro se tornou praticamente um manual escolar.[12] Na sua obra de 1959, C. Leonardi inventariou a existência de 241 manuscritos de De nuptiis, o que atesta a sua popularidade durante a Idade Média.[11] Foi comentado abundantemente por John Scotus Erigena, Hadoard, Alexander Neckham e Remígio de Auxerre.[13][14] No século XI o monge alemão Notker Labeo traduziu os dois primeiros livros para o alemão antigo. Marciano continuou a ter um papel importante enquanto veículo do saber antigo até ao nascimento do novo sistema de ensino com base na escolástica aristotélica. Ainda no século XIII, Marciano continuava a ser considerado a causa eficiente do estudo de astronomia.[15]

As ideias de Marciano perderam interesse para os estudiosos modernos, "exceto pelo esclarecimento que a sua obra dá sobre o que os homens de outros tempos e lugares sabiam ou pensavam que era importante saber acerca das artes liberais".[16] C. S. Lewis, em The Allegory of Love, afirmou que "o universo, que produziu a orquídea e a girafa, não produziu nada mais estranho do que Marciano Capela".

A editio princeps de De nuptiis por iniciativa de Francisco Vital Bodiano ocorreu em Vicenza em 1499. A relativamente tardia impressão da obra, bem como o número modesto de impressões posteriores,[17] é a marca da queda de popularidade, excepto como uma cartilha educativa fundamental nas artes liberais.[18] Durante muitos anos, a edição padrão da obra foi a de A. Dick (Teubner, 1925), mas J. Willis produziu uma nova edição para Teubner em 1983.[11]

Uma edição moderna, focando as artes matemáticas, é Martianus Capella and the Seven Liberal Arts, Vol. 1: The Quadrivium of Martianus Capella: Latin Traditions in the Mathematical Sciences, 50 B.C.–A.D. 1250.[19] O Volume 2 desta obra é a tradução para inglês de De nuptiis.

Ver também[editar | editar código-fonte]

  • Alegoria na Idade Média
  • Macróbio, autor de um manual pagão contemporâneo que apresenta muitos paralelismos com Marciano.
  • Cassiodoro

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Artigo na Catholic encyclopedia
  2. Danuta Shanzer, A Philosophical and Literary Commentary on Martianus Capella's De Nuptiis Philologiae et Mercurii Book One (Universisity of California Press, 1986), pp. 14, 136 et passim; Stahl, et al., vol. 1, p. 10.
  3. Stahl, Johnson e Burge, The Quadrivium of Martianus Capella, p. 5ff.; Alan Cameron, em The Last Pagans of Rome (Oxford University Press, 2011), p. 265 ff, considera altamente improvável que um não-cristão pudesse participar com destaque na vida pública nesta época.
  4. Artigo na Catholic encyclopedia
  5. Parker, H. - "The Seven Liberal Arts", The English Historical Review, vol. 5, no. 19, pp. 417-461)
  6. Sobre o título ver William Stahl, Martianus Capella and the Seven Liberal Arts, vol. 1, pp. 21-22.
  7. The Art of Memory, Frances Yates, London 1966
  8. Bruce S. Eastwood, Ordering the Heavens: Roman Astronomy and Cosmology in the Carolingian Renaissance, (Leiden: Brill, 2007), pp. 238-9.
  9. William H. Stahl, "To a Better Understanding of Martianus Capella" Speculum, vol. 40.1 (Janeiro de 1965), pp. 102-115.
  10. Stahl 1965:104.
  11. a b c Winterbottom, "Martianus Capella" (1983), em Texts and Transmission: A survey of the Latin Classics, editado por L. D. Reynolds, Oxford: Clarendon Press, p. 245
  12. "O nosso Marciano ensinou-nos as sete disciplinas", Gregório de Tours, Historia Francorum, X, 449, 14
  13. A edição digital dos comentários em manuscritos carolíngios da obra de Marciano Capela pode ser consultada em Teeuwen (2008) e Isépy & Posselt (2010).
  14. Victorius of Aquitaine, Martianus Capella. Remigius de Auxerre. Gregório o Grande na World Digital Library, [1]
  15. Stephen C. McCluskey, Astronomies and Cultures in Early Medieval Europe, (Cambridge: Cambridge Univ. Pr., 1999), p. 159.
  16. M. P. Cunningham, revisto por Stahl, Johnson e Burge, Martianus Capella and the Seven Liberal Arts, Vol. 1: The Quadrivium of Martianus Capella: Latin Traditions in the Mathematical Sciences 50 B.C.-A.D. 1250 em Classical Philology, vol 72.1 (Janeiro de 1977, pp. 79-80) p. 80.
  17. A editada e emendada pelo jovem de dezasseis anos Hugo Grotius é um tour de force, "um dos feitos mais prodigiosos do saber latino", como foi assinalado por Stahl 1965:104.
  18. Stahl 1965:102.
  19. Stahl, William Harris; Johnson, Richard; Burge, E. L. (1971). Martianus Capella and the Seven Liberal Arts, Vol. 1: The Quadrivium of Martianus Capella: Latin Traditions in the Mathematical Sciences, 50 B.C.–A.D. 1250 (Records of Civilization: Sources and Studies, 84). New York: Columbia University Press 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Wikisource-logo.svg Vários autores (1911). «Capella, Martianus Minneus Felix». In: Chisholm, Hugh. Encyclopædia Britannica. A Dictionary of Arts, Sciences, Literature, and General information (em inglês) 11.ª ed. Encyclopædia Britannica, Inc. (atualmente em domínio público)  An early version of this article was based on it.
  • Encyclopædia Britannica, "Martianus Capella" in .
  • P. Wessner em Pauly-Wissowa, Real-Encyclopädie der classischen Altertumswissenschaften 1930.
  • M. Cappuyns, em Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastique, Paris, 1949.
  • Martianus Capella and the Seven Liberal Arts. New York: Columbia University Press 1971.
    • Vol. 1: The quadrivium of Martianus Capella. Latin traditions in the mathematical sciences, 50 B.C.–A.D. 1250, por William Harris Stahl, 1971.
    • Vol. 2: The marriage of Philology and Mercury, traduzido para inglês por William Harris Stahl e R. Johnson, com E. L. Burge, 1977.
  • M. Ferré, Martianus Capella. Les noces de Philologie et de Mercure. Livre IV: la dialectique, Paris, Les Belles Lettres, 2007.
  • B. Ferré, Martianus Capella. Les noces de Philologie et de Mercure. Livre VI: la géométrie, Paris: Les Belles Lettres, 2007.
  • J.-Y. Guillaumin, Martianus Capella. Les noces de Philologie et de Mercure. Livre VII: l'arithmétique, Paris, Les Belles Lettres, 2003.
  • De nuptiis Philologiae et Mercurii (apenas o livro), [2] .
  • Konrad Vössing, "Augustinus und Martianus Capella - ein Diskurs im Spätantiken Karthago?", em Therese Fuhrer (hg), Die christlich-philosophischen Diskurse der Spätantike: Texte, Personen, Institutionen: Akten der Tagung vom 22.-25. Februar 2006 am Zentrum für Antike und Moderne der Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (Stuttgart, Franz Steiner Verlag, 2008) (Philosophie der Antike, 28),
  • O’Sullivan, Sinéad, "Martianus Capella and the Carolingians: Some Observations Based on the Glosses on Books I–II from the Oldest Gloss Tradition on De nuptiis," em Elizabeth Mullins e Diarmuid Scully (eds), Listen, O Isles, unto me: Studies in Medieval Word and Image in honour of Jennifer O’Reilly (Cork, 2011), 28-38.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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