Olivier Toni
| Olivier Toni | |
|---|---|
| Nascimento | 27 de maio de 1926 São Paulo |
| Morte | 25 de março de 2017 (90 anos) São Paulo |
| Residência | Brasil |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | professor universitário, compositor, maestro |
| Empregador(a) | Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo |
George Olivier Toni (São Paulo, 27 de maio de 1926 - São Paulo, 25 de março de 2017), foi compositor, regente, fagotista e influente professor de música.[1][2]
Foi professor titular e um dos fundadores do Departamento de Música (CMU) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). E recebeu o título de professor emérito pela mesma instituição em 2001.[3]
Fundou, em 1947, a Orquestra da Faculdade de Filosofia. Foi membro fundador da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Criou a Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP) e a Orquestra Sinfônica Jovem do Município de São Paulo, e atuou em ambas como regente titular e diretor artístico.[3]
Biografia
[editar | editar código]Entre 1947 e 1950, cursou Filosofia na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL), que passou a se chamar, em 1970, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).[4] Enquanto cursava Filosofia, conciliava com seus estudos em fagote, piano, harmonia, regência, composição e teoria musical com José Carboni, Osvaldo de Vicenzo e Camargo Guarnieri.[3]
Trajetória
[editar | editar código]Entre 1947 e 1950, frequentou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e, paralelamente, dedicou-se à formação musical: estudou fagote com José Carboni, piano com Osvaldo de Vicenzo e Samuel A. dos Santos, harmonia com Martin Braunwieser, regência com Mario Rossini, e composição com Camargo Guarnieri (1907-1993). Nesse mesmo período, aprofundou-se em composição e teoria musical com Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005).[5]
Em 1947, fundou aOrquestra da Faculdade de Filosofia, onde deu seus primeiros passos na regência. Em 1951, ingressou como instrumentista na Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), na qual passou a atuar como professor a partir de 1952 e se efetivou em 1953. Três anos mais tarde, tornou-se membro fundador da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP).[5]
Criou a Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP) em 1956 e, em seguida, a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo (atual Orquestra Experimental de Repertório)[6] em 1968, exercendo em ambas as orquestras, as funções de regente titular e diretor artístico. Posteriormente, fundou a Escola Municipal de Música de São Paulo, onde atuou como coordenador e professor entre 1969 e 1971.[5][7][8][9][10][11]
Em 1966, liderou o movimento pela criação de um instituto de artes na USP e foi designado como membro da comissão responsável por sua estruturação e pela elaboração do currículo do Departamento de Música (CMU). O departamento foi inaugurado em 1970, e, dois anos depois, ele assumiu sua coordenação, função que exerceu por mais de quinze anos. Nesse período, criou também a Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP) e, em 1995, a Orquestra de Câmara do CMU, também conhecida Orquestra de Câmara da USP (OCAM) ligada ao Departamento de Música da ECA-USP.[5]
A partir de 1974, iniciou suas atividades como pesquisador, conduzindo uma expedição à região aurífera de Minas Gerais para recuperar e restaurar documentos da música brasileira colonial. Essa iniciativa deu impulso à criação do Festival de Prados, em 1977, do qual se tornou diretor artístico até 2015, e, paralelamente, passou a ministrar aulas sobre a música colonial brasileira na pós‑graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Tornou-se Professor Titular em 1984.[7][8][9][10][11]
Ao longo de sua trajetória, regeu a Berliner Kammerorchester, a Orquestra de Câmara da Costa Rica, a Sinfônica Nacional de Cuba, e diversas formações brasileiras, entre elas a OCSP, com a qual realizou turnês pela Europa, África e Estados Unidos entre 1966 e 1970, e a OSM e a OSESP.[5]
Em 2010, incentivou o surgimento da USP-Filarmônica, a orquestra de alunos da FFCLRP-USP, em Ribeirão Preto, tendo sido, logo após sua fundação, em fevereiro de 2011, presidente da primeira banca de seleção de seus bolsistas.[6]
Seu catálogo reúne obras para diversas formações, abrangendo peças para instrumentos solistas, música de câmara, orquestra e vocal, tanto camerística quanto coral. Nesse campo, destacam-se as Três Variações para Orquestra, de sua autoria, executadas na Alemanha em 1963, e a Canção de Amigo, estreada em Berlim, em 1990. Suas composições foram editadas pela Panamericana Union, Peer Corporation e Novas Metas.[5]
Atuou como jurado em concursos,entre eles o Gottschalk de Composição, realizado em Porto Rico em 1968; o Aldo Parisot, nos Estados Unidos, em 1982; e o Vincenzo Bellini, na Itália, em 1993. Como regente, possui dois discos gravados com a OCSP (1964 e 1965) além do primeiro título do Selo USP, lançado em 1983, dedicado majoritariamente a obras do barroco mineiro.[5]
Recebeu, com a OCSP, o prêmio de melhor conjunto em 1959, o prêmio especial pela encenação de A Infância de Cristo, de H. Berlioz (1959), e o de melhor disco em 1964, todos concedidos pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). No início da década de 1980, foi agraciado ainda com a Medalha Couto Magalhães, em reconhecimento aos serviços prestados à cultura do país. Aposentou-se pela USP como professor titular e emérito em 2001.[5][7][8][9][10][11] De 2002 a 2006, atuou ainda como professor no recém fundado Curso de Música pela USP de Ribeirão Preto.[6]
Vários de seus ex-alunos e ex-orientandos ocupam hoje lugar de destaque no meio musical brasileiro, entre outros, Rogério Duprat, Régis Duprat, Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Mario Ficarelli, Rodolfo Coelho de Souza, Fabio Mechetti, Eduardo Guimarães Álvares, André Mehmari, Florivaldo Menezes, Fábio Zanon, Paulo Castagna, Paulo César Chagas, Sílvio Ferraz, Rubens Russomanno Ricciardi, Maurício Dottori e Cláudio Cruz.[6] Em 2014, o Selo SESC produziu um CD com obras suas, de câmara e orquestrais.[4]
Comentário crítico
[editar | editar código]George Olivier Toni é uma figura-chave no desenvolvimento da música paulistana nas últimas décadas. A política e a música, tanto como ideologia quanto como realização prática, são para o maestro elementos absolutamente indissociáveis, a ponto de ele exprimir que há um dualismo expresso entre as figuras do político e do regente.[5]
Esse dualismo manifesta-se de forma consistente em suas realizações como idealizador, fundador e coordenador de organismos que, até hoje, desempenham papel significativo na construção da história musical de São Paulo, articulando-se de maneira indissociável à sua atuação como regente e professor. Líder por vocação, sua atuação como representante da Orquestra Municipal ao longo da década de 1960, função que exerceu por mais de três mandatos, possibilitou-lhe o contato direto com o então prefeito José Vicente Faria Lima, que o incumbiu da criação da Orquestra Sinfônica Jovem do Município de São Paulo. Essa experiência viabilizou, posteriormente, a elaboração da proposta de fundação da Escola Municipal de Música, concretizada ainda sob a mesma gestão municipal.[5]
De modo análogo, a indignação diante da escassa valorização das atividades artísticas no âmbito da Universidade de São Paulo (USP), aliada ao desejo de instituir um espaço dedicado às artes nessa instituição, levou-o a elaborar, em parceria com o professor Erasmo Mendes, um memorial apresentado ao então reitor Luís Antônio da Gama e Silva. Este, que pouco depois viria a redigir o Ato Institucional nº 5 (AI-5), foi também responsável por publicar, no Diário Oficial do Estado de São Paulo, a portaria de criação do Instituto de Artes da USP, além de convocar Toni e Mendes para integrarem a comissão encarregada de sua estruturação. Nesse processo, o movimento contou ainda com o apoio de figuras de destaque do meio musical e social paulistano, como o regente da Filarmônica de Viena, Karl Böhm, e o proprietário do jornal O Estado de S. Paulo, Júlio de Mesquita Filho.[5]
Assim, apesar de suas convicções comunistas, atua em colaboração com representantes do regime militar com o objetivo de viabilizar projetos que considerava autenticamente relevantes. Da mesma forma, durante sua formação como compositor, estuda com expoentes das duas correntes em conflito no início da década de 1950: a música universalista, representada por Koellreutter, e a música nacionalista vinculada ao pensamento de Mário de Andrade, então comandada por Camargo Guarnieri. Sua orientação estética é influenciada pelas diretrizes comunistas difundidas pelo compositor Cláudio Santoro do II Congresso Internacional de Compositores e Críticos Musicais de Praga (1948), bem como pela publicação da Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil (1950), de Guarnieri.[5]
Ainda assim, os alunos de composição que orienta nesse período, notadamente Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira e Rogério Duprat alinham-se à música de vanguarda, tornando-se importantes expoentes dessa vertente. A esse grupo somam-se outras gerações de compositores de destaque no campo da música contemporânea, entre os quais se podem citar Mário Ficarelli, Silvio Ferraz, Florivaldo Menezes Filho, Paulo Chagas, Rubens Ricciardi, Rodolfo Coelho de Souza e Paulo Álvares. Esse mesmo espiritoorienta sua atuação à frente da Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP), período em que apresenta, lado a lado, obras representativas tanto de uma corrente quanto de outra.[5]
A esse respeito, o próprio maestro afirma que seus concertos conciliam, "[...] de uma certa forma o Guarnieri e o Koellreutter", por não privilegiar "facções políticas e musicais", que crê ser o papel legítimo de uma orquestra. Essa mesma orientação político-musical, associada à sua preocupação social de esquerda, também o impulsiona à criação do Festival de Prados.[5]
Durante uma viagem a Minas Gerais com um grupo de estudantes de Música da Universidade de São Paulo (USP), em uma expedição voltada à coleta de partituras do período barroco da região, Toni depara-se com as particularidades humanas e musicais da cidade de Prados. Desse encontro nasce um evento que alcançou sua 35ª edição em 2012, destacando-se por sua longevidade no cenário musical brasileiro e por ter sido continuamente dirigido e organizado pelo próprio maestro. Segundo ele, o festival tinha como objetivo “estimular a criatividade musical daquela cidade e desenvolver a atividade pedagógica dos alunos mais capacitados do CMU, convivendo com uma população de fortes raízes culturais, mas de baixo nível econômico e educacional”. Cabe ressaltar que, ao longo de toda a sua trajetória, nenhum professor participante recebeu remuneração, evidenciando o caráter essencialmente formativo e humano do projeto.[5]
Paralelamente à sua atuação como regente, seu interesse pela música antiga o transformava em um importante difusor da música barroca brasileira. Nesse campo, destaca-se a catalogação de mais de meia centena de obras de compositores mineiros dos séculos XVII e XVIII, além da realização de estreias mundiai, como a do Moteto para os Santos Mártires, do padre José Maurício, apresentada no Festival de Prados, em 1984, com o coro e a orquestra do Departamento de Música (CMU), e dos cursos durante o festival.[5]
Composicionalmente, sua estética desenvolve-se a partir da convicção de que “a linguagem artística, como um todo, está cada vez mais desfigurada". Para Toni, "não há mais solução na linguagem musical. Tudo o que veio recentemente passou. A música eletrônica passou, a música dodecafônica passou e o jovem músico vai escrever o quê? Vai escrever o mesmo que Mozart, Verdi? Não. A música vive um impasse. A música ocidental é toda montada num esquema em que dentro da oitava se fixaram todas as notas e o músico é obrigado a tocar temperado ou, como se diz hoje, afinado. Agora se inventou o serialismo, que usa algumas notas mais do que outras. Eu, como compositor, ultimamente me recuso a usar as 12 notas".[5]
Como alternativa estética, o compositor passou a explorar linguagens baseadas em um número reduzido de alturas. Em Três Variações para Orquestra (1962-1963), a primeira variação conta com oito notas, a segunda com quatro, a terceira, apenas com uma, um si bemol ininterrupto. Essa problemática permaneceu em suas peças mais atuais. Ao comentar a peça Só Isso e Nada Mais, Toni explica que que "para a composição com seis notas, de caráter modal, mas com pitadas emprestadas da técnica chinesa de pintura", buscando "mostrar que o vazio é vivo", e tentando superar, por meio desse vazio, o sistema saturado das 12 notas.[5]
Bibliografia e notas
[editar | editar código]- Enciclopédia Itaú Cultural
- RAMOS, Ricely Araújo. Música viva e a nova fase da modernidade musical brasileira. p. 114.
- SOUZA, Rodolfo Coelho de. Notas compactas: Olivier Toni.
- TONI, George Olivier. Memorial, p.7.
- MANDALOUFAS, Kika. Memórias e lições de um pioneiro.
- Ibidem.
- COELHO, João Marcos. Olivier Toni, 85 anos de paixão.
- MARCONDES, Marco Antônio (org.). Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2a ed. revista e ampliada. São Paulo: Art Editora, 1998, p.778-779.
Referências
- ↑ «George Olivier Toni (1926-2017): Mortes: Criou orquestras e escolas de música em São Paulo». Folha de S.Paulo
- ↑ «Olivier Toni morre em São Paulo aos 90 anos». Concerto, São Paulo. 25 de março de 2017
- 1 2 3 «Professores eméritos». ECA-USP | Escola de Comunicações e Artes. Consultado em 11 de dezembro de 2025
- 1 2 «Linha do Tempo | 90 ANOS DE HISTÓRIA». memoria.fflch.usp.br. Consultado em 11 de dezembro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Cultural, Instituto Itaú. «George Olivier Toni». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- 1 2 3 4 «Departamento de Música». musica.ffclrp.usp.br. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- 1 2 3 «Morre, aos 90 anos, o professor, maestro e compositor Olivier Toni». João Luiz Sampaio
- 1 2 3 «Morre Olivier Toni, maestro emérito da Orquestra de Câmara da USP»
- 1 2 3 «GaúchaZH». gauchazh.clicrbs.com.br. Consultado em 31 de dezembro de 2017
- 1 2 3 «Nota de falecimento do professor da ECA, Olivier Toni » Sala de Imprensa - USP – Universidade de São Paulo». www.usp.br. Consultado em 31 de dezembro de 2017
- 1 2 3 «Quem foi o maestro Olivier Toni e qual seu papel na formação musical no Brasil». Nexo Jornal