Sigilo (magia)

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Um sigilo (pl. sigilia ou sigilos) é um signo criado para um propósito mágico específico. Um sigilo é geralmente composto por uma combinação complexa de traços ou figuras geométricas, cada uma com um significado ou intenção próprio.

O termo "sigilo" deriva do Latim sigillum, que significa "selo", apesar de também estar relacionado a סגולה, do hebraico (segulah significando "palavra, ação ou item de efeito espiritual"). Um sigilo pode possuir uma forma abstrata, picturial ou semi-abstrata[1].

13 Sigilos elementais.
Um sigilo utilizando Tomoes.
Um sigilo moderno pessoal.

Sigilos na Antiguidade[editar | editar código-fonte]

De forma geral, os alfabetos utilizados atualmente derivam de símbolos, modificados através do tempo. Uma cabeça de búfalo, por exemplo, foi estilizada e modificada ao longo dos anos até se tornar a letra “A”. Os egípcios usavam os Hieróglifos, e no Japão a escrita Kanji ainda tem em seus traços grande similaridade com os elementos que busca representar.

Quanto à construção de desenhos a partir de mensagens e frases, a escrita árabe sempre permitiu esta prática. As palavras árabes são conectadas por uma linha contínua, um fio condutor que permite sua torção e disposição em arranjos elaborados. Sendo assim, nos adornos de templos e na heráldica era comum encontrar desenhos que codificavam frases ou nomes. As suras do Alcorão, por exemplo (com exceção da 9ª), iniciam por Bismillah, que forma um “fecho” e permite que a frase seja amarrada em torno de si mesma com fácil localização de seu início e fim[2]. Além disso, nas práticas judaicas da Merkabah, a entrada nos níveis celestes era auxiliada pelos selos correspondentes, que deveriam ser desenhados pelo magista.

Desenho árabe de caligrafia baseado na Bismillah

Na África subsaariana, os sigilos também eram extensamente utilizados, como por exemplo para codificar histórias, e para evocar energias ancestrais. A ideia de desenhar histórias e mensagens na areia, em tramas elaboradas, era muito utilizada pelo povo Tchokwe, da Angola (e chamada de desenho Sona). Já no campo mágico e espiritual, uma das práticas mais conhecidas de sigilização africana é o Traçado de Pemba, utilizado tanto para ancorar entidades no plano físico quanto para atrair suas qualidades ou codificar intenções e desejos (ver Pontos Riscados).

A sigilização é presente também na cultura Nórdica, com o uso de Bandrunar (união de runas) e Insigils (sigilos rúnicos). Estas práticas da Magia rúnica consistiam na elaboração de desenhos que eram usados como talismãs ou entalhados na madeira das casas, buscando proteção ou sorte em batalhas. O desenho mais conhecido deste tipo é o Ægishjálmr, ou Elmo do Terror, um símbolo rúnico representando o elmo de mesmo nome que é citado nas Eddas, usado para a proteção de casas e pessoas.

Elmo do Terror Nórdico

Sigilos no Lemegeton[editar | editar código-fonte]

Nos livros Ars Theurgia e Ars Goetia, que fazem parte do Lemegeton (também chamado A Chave Menor de Salomão), são descritos os selos dos líderes espirituais, dos Daemons e dos Shemhamphorash. Já no Ars Paulina, são descritos os selos planetários, muitas vezes direcionados para uma intenção específica, e no Ars Almadel são apresentados os selos dos principais coros de anjos, bem como suas conjurações[3].

No Ars Notoria, são apresentados sigilos (chamados de Notas) que podem ser utilizados para as mais variadas finalidades, como acelerar o aprendizado ou obter conhecimento sobre uma área da ciência ou uma língua estrangeira. Os sigilos usados na Arte Notória eram construídos pelos magistas usando símbolos e elementos pertinentes àquela área do conhecimento. Por exemplo, o sigilo referente à gramática incluía os nomes de diferentes aspectos do discurso (morfologia, sintaxe, vocabulário, etc). Já o sigilo utilizado para aprender geometria contava com desenhos de linhas, triângulos, quadrados, pentagramas, estrelas de seis pontas e círculos.

As práticas Salomônicas, assim como as chinesas, consideravam que os portais de comunicação entre o mundo físico e o espiritual se abriam em lugares e horários específicos, por isso as direções cardeais e as horas planetárias sempre foram de vital importância na realização de qualquer intento mágico por estes sistemas.

Sigilos na Steganographia[editar | editar código-fonte]

Reconhecido como um livro de magia angelical e criptografia, este livro de Esteganografia foi escrito por volta de 1499 pelo monge beneditino Johannes Trithemius, e utilizado por Agrippa, John Dee e Austin Spare em seus trabalhos. A ideia geral do livro era a de codificar mensagens por meio de sigilos, e então enviá-las para pessoas distantes, por meio espiritual. As mensagens poderiam também ser enviadas a espíritos angelicais, que então iriam realizar os desejos ali descritos, funcionando por si só como um método de magia simpática (sistema mágico baseado na atração do que é desejado).

Na Steganographia, são descritos métodos de sigilização que permitem a representação pictórica de desejos e intenções. As mensagens, antes escritas em Inglês, Latim, Hebraico ou Enoquiano, poderiam ser descritas de forma mais exata e desambígua desta forma sigilizada, o que facilitaria sua transmissão e realização. O trabalho mental envolvido na elaboração do sigilo faria parte, segundo Trithemius, da prática mágica, e potencializaria seu efeito. Após o desenvolvimento do sigilo, este era enviado à entidade desejada, o que deveria ser feito na hora correta e voltando-se para a direção cardeal adequada[4].

Chave criptográfica baseada na Esteganografia, criada por John Dee

Sigilos por Austin Spare[editar | editar código-fonte]

Austin Osman Spare criou, por volta de 1910, técnicas de desenho e escrita automáticos, além de métodos de sigilização e um culto voltado à libertação do “verdadeiro eu” dos magistas, chamado Zos Kia. Em seu Livro do Prazer (Livro do Êxtase ou do Auto-Amor), Spare descreve como os sentimentos inconscientes podem estar ligados ao funcionamento da realidade externa, e como podem interferir na mesma, apresentando glifos para sua representação e práticas mágicas que incluem seu uso[5].

Nas descrições de sua prática com sigilos, Spare deixa claro que o envio de mensagens para serem atendidas por instâncias espirituais deve ocorrer de forma criptografada, uma vez que a linguagem humana não é suficiente para esta atividade. Além disso, Spare não utilizava horários, direções cardeais ou nomes de entidades, pois considerava que a realização dos intentos codificados nos sigilos ocorria por uma ou mais forças espirituais em consonância com o inconsciente do próprio magista.

Portanto, no momento da conjuração seriam selecionadas as energias corretas para levar a cabo cada objetivo, que então direcionariam o fluxo energético através do Éter. Este pensamento foi um dos que levou ao surgimento de novas vertentes de magia, baseadas em aspectos psicológicos e operadas pelo inconsciente do próprio magista. Isto aproximou ainda mais a magia da psicologia, e permitiu o uso mágico de ferramentas da psicanálise em conjunto com reinterpretações das evocações e invocações tradicionais.

A prática de Sigilização[editar | editar código-fonte]

A sigilização (ou sigilação) consiste na prática de construir sigilos a partir de uma mensagem ou intenção. Os métodos utilizados podem variar desde o uso de glifos e símbolos já existentes, passando pela criação de novos símbolos pelo magista, e o uso de alfabetos vulgares ou mágicos.

Quadrado Mágico com caracteres em sânscrito

Peter J. Carrol descreve a operação de um sigilo, em seu Liber Null e Psiconauta, como sendo composta por três partes: sua construção; seu envio para o inconsciente; e seu carregamento ou ativação. As três etapas podem ser realizadas por vários métodos, desde os mais tradicionais aos contemporâneos, à escolha do magista[6].

Sigilização pelo método de Carroll[editar | editar código-fonte]

Carroll apresenta três exemplos de métodos para a construção de sigilos. O primeiro método é baseado nas letras do alfabeto: escreve-se uma frase, eliminam-se as letras repetidas (e/ou as vogais), e combinam-se as letras restantes na forma de um desenho. O segundo método é pictórico: desenha-se a intenção desejada e simplifica-se o desenho em etapas, até a obtenção de um símbolo que não represente, à primeira vista, o que foi desenhado inicialmente. O terceiro método é mântrico: a partir da frase que codifica a intenção, eliminam-se algumas letras e cria-se um mantra que não descreva, em linguagem falada atual, o objetivo inicial.

Carregamento e Ativação de um Sigilo[editar | editar código-fonte]

Após elaborado, um sigilo deve ser lido pela parte consciente da psiquê, enviado para a parte inconsciente, e carregado ou ativado. Em outras palavras, deve ser “consagrado” para que, além da existência física, passe a ter existência no plano astral ou espiritual. Carroll apresenta alguns exemplos de métodos para isto, como a ativação em estados de emoção extrema, êxtase sexual, ou, preferencialmente, em estado de Gnose. O sigilo também pode ser queimado, enterrado, ou lançado no oceano, ou ainda repetido diversas vezes até a perda do significado, no caso de mantras ou frases.

Nestes casos, o importante é que o objetivo do sigilo não seja trazido a todo o tempo para a mente consciente, para que possa atuar a nível subconsciente. A ansiedade pelos resultados pode atrapalhar sua atração, uma vez que a mente desperta irá bloquear a atuação das energias mágicas[7]. O Censor Psíquico, parte cética da mente que não acredita que a magia funciona por não entender de forma científica os mecanismos envolvidos, também pode atrapalhar na obtenção dos resultados.

Sigilo baseado nos contos de H.P. Lovecraft

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. Carroll, Peter J. (2016). Liber Null e Psiconauta, p. 176. São Paulo: Editora Penumbra. ISBN 9788569871019.
  2. Craig Thompson (2012). Habibi. ISBN 9788535921311
  3. https://daemons.com.br/o-lemegeton/
  4. Skinner and Rankine (2007). Goetia of Dr. Rudd. ISBN 9780954763923
  5. Austin Osman Spare, The Book of Pleasure. ISBN 187218958X.
  6. Carroll, Peter J. (2016). Liber Null e Psiconauta, p. 176. São Paulo: Editora Penumbra. ISBN 9788569871019.
  7. https://medium.com/@projetoxaoz/sigilos-2dcc8304be47