Sindemia

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Sindemia caracteriza a interação mutuamente agravante entre problemas de saúde em populações em seu contexto social e econômico. O conceito foi cunhado por Merril Singer a partir de estudo sobre o entrelaçamento entre a síndrome da imunodeficiência adquirida e a violência em cidades estadunidenses. Problemas de saúde e sociais se agrupam em comorbidade crescente a partir de fatores sociais, psicológicos e biológicos, embora os agravos à saúde sejam enfermidades crônicas não transmissíveis.[1][2]

No início de 2019, o relatório "A Sindemia Global da Obesidade, da Desnutrição e das Mudanças Climáticas" foi lançado pela Comissão de Obesidade do periódico The Lancet na Conferência PMAC 2019, realizada na Tailândia. O relatório denominou de "sindemia global" a combinação sinérgica entre pandemias da fome, da obesidade e da mudança climática, as três decorrentes, principalmente, do sistema agroalimentar global.[3][4][5][6][7]

Em setembro de 2020, durante a pandemia por COVID-19, Richard Horton, editor-chefe do The Lancet, publicou um comentário neste periódico dizendo que a vulnerabilidade dos cidadãos a esta doença permitia concluir que o surgimento de um tratamento ou vacina protetora, por mais eficaz, falharia.[8] Esta vulnerabilidade era observada entre os mais idosos, em pessoas de comunidades étnicas negras, asiáticas e minoritárias, e em trabalhadores que eram comumente mal pagos e recebiam menos proteções de bem-estar, O pesquisador argumentou que o avanço da COVID-19 deveria ser entendido então como uma sindemia, e a busca por uma solução para a doença não deveria ser puramente biomédica, mas seria necessária maior atenção às doenças não transmissíveis (DNT) e à desigualdade socioeconômica. Horton observou grande interação entre a infecção pelo SARS-CoV-2 e DNTs em populações específicas, de modo que combater a COVID-19 implicava em também combater a hipertensão, a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias crônicas e o câncer.[8] Entretanto, as DNTs são uma causa negligenciada de problemas de saúde nos países mais pobres. Em conclusão, Horton afirmou que a menos que os governos elaborassem políticas e programas para reverter suas profundas desigualdades sociais e econômicas, incluindo os países desenvolvidos, o mundo nunca estaria verdadeiramente protegido da COVID-19.[8]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Sindemia: una nueva categoría que reúne lo social y lo biológico». IntraMed. 7 de maio de 2017. Consultado em 2 de outubro de 2019 
  2. Codeço, Cláudia Torres; Coelho, Flávio Codeço (dezembro de 2008). «Redes: um olhar sistêmico para a epidemiologia de doenças transmissíveis». Ciência & Saúde Coletiva. 13 (6): 1767–1774. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/S1413-81232008000600011 
  3. «Sindemia global: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas podem ter a mesma causa». Comida de verdade. Consultado em 2 de outubro de 2019 
  4. «Relatório sobre sindemia global ganha versão em português». idec.org.br. Consultado em 2 de outubro de 2019 
  5. «» Relatório sobre Sindemia Global ganha versão em português CRN5». Consultado em 2 de outubro de 2019 
  6. «Obesidade, desnutrição, mudanças climáticas: três faces de uma mesma questão». 19 de agosto de 2019. Consultado em 2 de outubro de 2019 
  7. «Quais as vantagens e os problemas dos hambúrgueres veganos». Nexo Jornal. Consultado em 2 de outubro de 2019 
  8. a b c Horton, Richard (setembro de 2020). «Offline: COVID-19 is not a pandemic». The Lancet (10255). ISSN 0140-6736. PMID 32979964. doi:10.1016/s0140-6736(20)32000-6. Consultado em 2 de outubro de 2020 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Mendenhall, E. Syndemics: a new path for global health research. The Lancet 2017; 389(10072): 889-891.
  • Mendenhall, E and Singer, M. What constitutes a syndemic? Methods, contexts, and framing from 2019. Current Opinion in HIV and AIDS 2020; 15(4), 213-217.
  • Singer, MC. Introduction to syndemics: a systems approach to public and community health. Jossey-Bass, San Francisco, 2009.
  • Singer, MC and Clair, S. Syndemics and public health: reconceptualizing disease in bio-social context. Med Anthropol Q. 2003; 17: 423-441
  • Singer, M, Bulled, N, Ostrach, B and Mendenhall, E. Syndemics and the biosocial conception of health. The Lancet 2017; 389(10072): 941-950.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]