Pandemia
Pandemia | |
|---|---|
| Médico da peste usando o traje de proteção associado às epidemias de peste na Europa dos séculos XVII e XVIII. | |
| Epidemiologia e saúde pública | |
| Tipo | Epidemia de doença infecciosa com ampla disseminação geográfica |
| Escala | Multinacional, continental ou mundial |
| Agentes | Patógenos transmissíveis |
Uma pandemia é uma epidemia de uma doença infecciosa que se espalha por uma grande área geográfica e atravessa fronteiras internacionais, podendo alcançar vários continentes ou o mundo.[1] O termo se refere principalmente à extensão da transmissão, e não à gravidade da doença. Uma infecção pode se tornar pandêmica sem causar alta mortalidade, enquanto uma doença muito grave não recebe essa classificação se permanecer limitada a uma região.[2][3] Doenças endêmicas que circulam de forma esperada em muitas regiões, como a gripe sazonal, não são consideradas pandemias apenas por estarem amplamente presentes.[2][3]
Pandemias ocorreram em épocas e circunstâncias muito diferentes, da Peste Negra, causada por Yersinia pestis, às pandemias de gripe, à disseminação mundial do HIV/AIDS e à pandemia de COVID-19.[4][5][6][7] O modo de transmissão, a imunidade da população, as condições em que as pessoas vivem e a capacidade dos sistemas de saúde ajudam a explicar por que a velocidade e os efeitos de uma pandemia podem variar tanto de uma doença para outra.[8][9]
Mudanças no uso da terra, urbanização, mobilidade, clima e contato entre seres humanos, animais e ecossistemas podem mudar as oportunidades para novos agentes surgirem e se espalharem.[8] Viagens e redes de transporte também permitem que uma infecção alcance populações distantes em pouco tempo, o que torna a detecção precoce e a troca rápida de informações parte da preparação para uma possível pandemia.[9]
Quando uma ameaça se espalha, a resposta pode combinar vigilância epidemiológica, diagnóstico, isolamento de casos, rastreamento de contatos, medidas de saúde pública, vacinação, tratamentos e ampliação da capacidade de atendimento, conforme o agente e a situação.[9][10] Como patógenos atravessam fronteiras, laboratórios, autoridades de saúde e organizações internacionais também dependem da cooperação entre países para compartilhar informações, avaliar riscos e organizar o acesso a diagnósticos, medicamentos e vacinas.[11]
Além de causar doença e morte, uma pandemia pode pressionar serviços de saúde e afetar famílias, trabalho, educação e atividade econômica. Como novos agentes podem surgir e vírus conhecidos continuam evoluindo, a preparação procura reduzir esses danos antes que um surto se espalhe amplamente, mantendo vigilância, pesquisa, laboratórios, atendimento e comunicação prontos para serem ampliados durante uma emergência.[8][9]
Definição
[editar | editar código]Terminologia e escopo
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A palavra vem do grego antigo pándēmos, "de todo o povo, público, comum", formado por pan-, "todo", e dêmos, "povo".[12]
O Dicionário de Epidemiologia da Oxford define pandemia como uma "epidemia que ocorre em uma escala que atravessa fronteiras internacionais, geralmente afetando pessoas em escala mundial".[1] Na epidemiologia, a classificação depende principalmente da ampla disseminação geográfica de uma doença infecciosa e não exige, por si só, um nível mínimo de gravidade ou mortalidade. Assim, uma pandemia pode causar doença relativamente leve, enquanto uma doença muito grave não é uma pandemia se não apresentar esse padrão de disseminação.[2][3] A palavra "pandemia" não tem uma formulação única aceita em todos os contextos.[2][3]
Quando uma doença infecciosa se espalha amplamente entre animais não humanos, o termo equivalente é panzootia. Ela pode abranger uma grande região geográfica ou o mundo e atingir mais de uma espécie.[13]
Pandemia, epidemia e emergência pandêmica
[editar | editar código]A Organização Mundial da Saúde (OMS) usa categorias jurídicas do Regulamento Sanitário Internacional que não significam a mesma coisa que pandemia. Uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (ESPAI) é um evento extraordinário que constitui risco de saúde pública para outros Estados pela disseminação internacional de doença e pode exigir uma resposta internacional coordenada. Para tomar essa decisão, o diretor-geral da OMS considera as informações do Estado Parte e a orientação do Comitê de Emergência. Também leva em conta os princípios e as evidências científicas disponíveis e os riscos para a saúde humana, a disseminação internacional e o tráfego internacional.[14]
A categoria de emergência pandêmica foi criada por emendas ao Regulamento Sanitário Internacional aprovadas em 2024. As novas regras entraram em vigor para a maioria dos Estados Partes em setembro de 2025, com prazos diferentes para alguns países.[15][16][14] Uma emergência pandêmica é uma ESPAI causada por uma doença transmissível que já apresenta, ou corre alto risco de apresentar, ampla disseminação entre vários países, sobrecarregar sistemas de saúde, causar forte perturbação social ou econômica e exigir uma resposta internacional rápida e coordenada.[14]
Toda emergência pandêmica é uma ESPAI, mas nem toda ESPAI é uma emergência pandêmica. Uma ESPAI pode ser declarada diante de um risco internacional que exija ação coordenada, enquanto a categoria de emergência pandêmica exige também ampla disseminação, pressão sobre os sistemas de saúde e forte perturbação social ou econômica.[14] Em maio de 2026, por exemplo, a OMS declarou como ESPAI uma epidemia de doença pelo vírus Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, mas afirmou que o evento não preenchia os critérios de emergência pandêmica.[17]
Pandemias de influenza
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A expressão "pandemia de influenza" tem um sentido mais específico do que a simples presença da gripe sazonal em muitas partes do mundo. A OMS acompanha a influenza sazonal mundialmente para orientar a composição das vacinas, mas usa a ideia de influenza pandêmica para a emergência de um novo vírus influenza capaz de se disseminar amplamente entre pessoas.[18][19]
Como a gravidade de uma pandemia de influenza não depende apenas do número de infecções, a mortalidade costuma ser comparada por meio da mortalidade excessiva, medida usada desde os trabalhos de William Farr no século XIX. Já os casos leves, pouco sintomáticos ou não diagnosticados dificultam a estimativa da morbidade.[20]
História
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Muitos relatos históricos de epidemias não permitem identificar o agente com segurança, porque infecções diferentes podem produzir quadros semelhantes e mais de uma doença pode circular na mesma população. A paleogenômica ampliou as possibilidades de análise ao recuperar DNA antigo de patógenos em restos humanos, embora a preservação, a amostragem e a datação ainda limitem as conclusões.[21]
Com a expansão da agricultura, da criação de animais e do pastoreio, aumentaram também as oportunidades de transmissão de infecções entre seres humanos e outros animais. Uma análise de DNA antigo encontrou, por exemplo, patógenos zoonóticos em populações da Eurásia desde cerca de 6.500 anos atrás, tornando-se mais frequentes por volta de 5.000 anos atrás, quando a domesticação de animais já estava amplamente difundida.[22]
Da revolução neolítica à Antiguidade tardia
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Com o crescimento dos assentamentos e a expansão da agricultura e do comércio, grupos humanos antes mais separados passaram a manter contatos mais frequentes, criando condições para epidemias de maior escala.
Na Europa, esse processo avançou com a Revolução Neolítica, enquanto redes urbanas e comerciais ampliavam a circulação de pessoas e infecções.[23] O comércio e as guerras também passaram a conectar centros populacionais distantes, favorecendo epidemias de maior extensão. Durante a Guerra do Peloponeso, a Peste de Atenas atingiu a cidade entre 430 e 426 a.C. Tucídides escreveu que a doença teria chegado à Grécia depois de passar por regiões da África e do Mediterrâneo oriental.[24] Uma análise de dentes encontrados em uma vala comum identificou sequências atribuídas a Salmonella enterica serovar Typhi e propôs a febre tifoide como possível causa.[25] Essa interpretação foi contestada por limitações na análise das sequências, e a causa da epidemia continua incerta.[26]
Na Roma Antiga, surtos registrados por autores como Tito Lívio costumavam ficar restritos a cidades e áreas próximas. Com a expansão das estradas e das rotas militares, porém, pessoas, mercadorias e exércitos passaram a circular por distâncias maiores. Em 65, uma epidemia atingiu Roma, e Tácito relatou mortalidade generalizada, enquanto Suetônio registrou 30.000 mortes em um único outono.[27] Entre 165 e 180 d.C., a Peste antonina atingiu grande parte do Império Romano. Varíola e sarampo já foram propostos como possíveis causas, mas o agente responsável nunca foi confirmado. Modelagens epidemiológicas mais recentes concluíram que os dados históricos disponíveis não permitem identificar o patógeno com segurança e também questionaram algumas estimativas antigas de mortalidade muito elevada.[28]

No século III d.C., a Peste de Cipriano atingiu partes do Império Romano, mas seu agente causador não foi identificado e ainda há incerteza sobre sua origem, duração e extensão. Uma interpretação recente propõe que a doença tenha entrado no império pelas invasões góticas no Danúbio, e não pelo Egito, depois da morte do imperador Décio.[29] No século IV, textos antigos também mencionam epidemias de "pústulas", expressão interpretada de formas diferentes, entre elas varíola e carbúnculo, inclusive em relatos ligados às guerras romano-persas.[30] Com a retração do comércio no século V, grandes surtos passaram a ser menos registrados no Ocidente, embora doenças continuassem acompanhando invasões e deslocamentos populacionais.[30]
A Peste de Justiniano, entre 541 e 549, atingiu Constantinopla em 542 e se espalhou por regiões do Mediterrâneo. Genomas recuperados de restos humanos do século VI confirmam que o agente era Yersinia pestis.[31] Embora relatos da época registrem muitas mortes na capital bizantina, ainda há debate sobre o tamanho da redução populacional no Império Bizantino e em outras regiões. Estudos modernos contestaram estimativas antigas de um colapso demográfico em escala imperial.[32]
Entre 735 e 737, uma epidemia de varíola atingiu o Japão e causou forte mortalidade.[33]
Idade Média
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Depois do último surto conhecido da primeira pandemia de peste, por volta de meados do século VIII, os registros de grandes epidemias europeias tornam-se mais fragmentários.[27] Por isso, diagnósticos feitos retrospectivamente permanecem incertos. Para a malária, uma revisão histórica publicada em 2017 encontrou indícios de ocorrência ao norte dos Alpes antes do ano 1000, mas ressaltou a escassez de evidências diretas e as divergências sobre sua cronologia e distribuição.[34]
A lepra aparece com frequência na documentação da Europa medieval e provavelmente atingiu seu auge entre os séculos XI e XIII, quando muitos leprosários foram estabelecidos. Nos séculos XIV e XV, sua ocorrência diminuiu. Restos humanos encontrados em sítios arqueológicos, sobretudo europeus, confirmam a presença da doença, mas as amostras vêm de poucos locais e muitas vezes foram selecionadas porque já apresentavam sinais de lepra. Por isso, não permitem estimar com segurança sua prevalência em toda a Europa.[35]

A Peste Negra (c. 1346–1353), causada por Yersinia pestis, espalhou-se pela Eurásia e pelo norte da África.[4] DNA antigo de sepultamentos datados de 1338 e 1339, próximos ao lago Issyk-Kul, no atual Quirguistão, revelou uma linhagem de Y. pestis ancestral à diversificação associada à Peste Negra.[4] Na Europa, a mortalidade variou muito de uma região para outra. Dados paleoecológicos encontraram fortes contrações demográficas em algumas áreas e pouca ou nenhuma mudança detectável em outras, o que torna impreciso usar uma única porcentagem para todo o continente.[36]
Com a Peste Negra começou a longa sequência de surtos conhecida como segunda pandemia de peste, que continuou em ondas nos séculos seguintes.[37]
Expansão marítima, colonização e intercâmbio entre continentes
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Depois da Renascença, a peste e a varíola continuaram provocando grandes epidemias na Europa, e a varíola chegaria a matar centenas de milhares de europeus por ano perto do século XVIII.[38] O tifo epidêmico ficou ligado a exércitos e acampamentos, a malária continuou afetando regiões da Europa e a tuberculose era reconhecida em formas como as escrófulas.[39]
As viagens oceânicas, as guerras e o comércio de longa distância aceleraram a circulação de doenças. Esse período também permitiu distinguir clinicamente infecções como coqueluche, difteria, caxumba, gripe, sarampo e escarlatina.[39]
A segunda pandemia de peste continuou causando grandes surtos nos séculos XVI e XVII. Genomas antigos de Yersinia pestis recuperados em sítios europeus permitiram relacionar restos humanos desses períodos a surtos registrados historicamente.[37]
A pandemia de gripe de 1580 costuma ser tratada como a primeira pandemia de influenza bem documentada.[40] Ela provavelmente começou na Ásia e se espalhou por rotas terrestres para a Ásia Menor e o norte da África antes de alcançar a Europa.[41]

Depois das viagens europeias, o contato permanente entre Eurásia, África e Américas mudou a circulação de doenças. A varíola e o sarampo foram introduzidos nas Américas e causaram epidemias graves entre populações indígenas.[42] A tuberculose, porém, já existia no continente antes da chegada dos europeus: micobactérias encontradas em esqueletos peruanos mostram uma forma do complexo Mycobacterium tuberculosis próxima de linhagens adaptadas a focas e leões-marinhos.[43] Genomas antigos de Treponema pallidum também são compatíveis com uma origem americana das linhagens estudadas.[44] O tráfico transatlântico de pessoas escravizadas transportou agentes infecciosos entre a África e as Américas, entre eles os da febre amarela e da malária.[39] Dados genéticos são compatíveis com a introdução de P. vivax principalmente por colonizadores europeus e de P. falciparum principalmente pelo tráfico transatlântico.[45]
Populações indígenas
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Com a colonização europeia, populações indígenas das Américas foram expostas a novas ondas de infecções, entre elas varíola e sarampo, com efeitos que variaram entre regiões e períodos.[42] Na Grande Amazônia, sarampo, influenza e malária responderam por cerca de 75% das mortes registradas em epidemias que atingiram sociedades indígenas entre os séculos XIX e XXI.[46]
A varíola esteve entre as infecções introduzidas que causaram maior mortalidade nas Américas. No México central, uma epidemia começou em 1520 durante a conquista espanhola de Tenochtitlán.[47] DNA antigo recuperado no norte do Chile também forneceu evidência molecular direta da presença da varíola durante a colonização europeia.[48] Uma reconstrução demográfica estimou que a população das Américas caiu de cerca de 60,5 milhões de pessoas em 1492 para aproximadamente 4,5 milhões em 1600. Epidemias introduzidas responderam pela maior parcela estimada dessa redução, agravada por guerras, escravização e fome.[49]

Na Austrália, uma epidemia de varíola atingiu comunidades aborígenes perto de Port Jackson em 1789, pouco depois do início da colonização britânica. Modelagens baseadas nos registros disponíveis favorecem a hipótese de que a doença tenha entrado pelo sudeste do continente e consideram pouco provável que o surto de Sydney tenha resultado de contatos com comerciantes macassares pelo norte. Também não há evidência de que a epidemia de 1789 tenha alcançado toda a Austrália.[50]
Em Fiji, uma epidemia de sarampo em 1875 matou mais de um quinto da população indígena em cerca de quatro meses.[51]
Séculos XVIII e XIX
[editar | editar código]A partir do século XVIII, governos passaram a assumir responsabilidades que antes ficavam mais dispersas entre cidades e autoridades locais. Já no século XIX, a resposta a epidemias começou a ganhar instrumentos internacionais. O Conselho Sanitário de Constantinopla foi criado em 1838.[52] A primeira Conferência Sanitária Internacional reuniu representantes em Paris em 1851 para tentar uniformizar regras internacionais de quarentena contra cólera, peste e febre amarela.[53] A Revolução Industrial, a urbanização e os transportes a vapor tornaram as viagens mais rápidas e numerosas, enquanto cidades densamente povoadas criavam novas condições para a transmissão de doenças.[52]
Peste e cólera
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No século XIX, a segunda pandemia de peste recuou no Império Otomano depois da adoção de regulamentos sanitários inspirados em medidas europeias. A peste epidêmica desapareceu de muitas áreas, embora focos locais continuassem ocorrendo.[54]
A pandemia de cólera de 1817–1824 começou no subcontinente indiano e se espalhou por Nepal, Sudeste Asiático, Indonésia, China, Japão, Médio Oriente e partes do Império Russo. A onda recuou antes de alcançar a Europa Ocidental, ao contrário das pandemias de cólera que se seguiram no século XIX.[55]
A partir do século XIX, sucederam-se sete pandemias de cólera, e as ondas de 1829–1837 e 1840–1860 atingiram duramente a Europa e a América do Norte. Na epidemia de 1831–1832, foram registrados 21.882 óbitos por cólera na Inglaterra e no País de Gales e 9.592 na Escócia.[56] Em Paris, a epidemia de 1832 causou 18.402 mortes.[57]
A terceira pandemia de peste, nos séculos XIX e XX, partiu de focos documentados em Yunnan, no sudoeste da China, onde a doença se tornou endêmica nas décadas de 1850 e 1860. Entre 1899 e 1900, espalhou-se por todos os continentes habitados. Uma revisão histórica e microbiológica estimou mais de 26 milhões de casos e mais de 12 milhões de mortes somente na Índia e na China.[58] A bactéria causadora, Yersinia pestis, foi identificada durante a epidemia de Hong Kong em 1894.[59] A peste permanece presente em reservatórios animais e ainda causa casos humanos em algumas regiões.[60]
Embora a terceira pandemia de peste tenha começado na China e matado milhões de pessoas sobretudo na China e na Índia, os surtos levados a portos de outros continentes foram geralmente mais limitados.[61]
Doenças transmitidas por mosquitos
[editar | editar código]A malária esteve presente em grande parte do leste dos Estados Unidos entre os séculos XVII e XIX, com surtos documentados também em áreas do norte do país.[62] O programa nacional de eliminação começou em 1947, e em 1951 a malária era considerada eliminada dos Estados Unidos.[63]

A febre amarela causou epidemias repetidas nas Américas, atingindo cidades como Nova York, Filadélfia e Boston. Em 1793, uma epidemia matou mais de 5.000 pessoas na Filadélfia, cerca de um décimo da população da cidade. Aproximadamente 20.000 habitantes deixaram Filadélfia durante o surto.[64]
Pobreza, saneamento e doenças urbanas
[editar | editar código]No século XIX, a tuberculose foi uma das principais causas de morte na Europa industrializada e esteve fortemente ligada à pobreza urbana e às condições de moradia.[52] No auge da epidemia europeia, cerca de 20–25% das mortes de adultos eram atribuídas à tuberculose.[65] Estimativas históricas situam em mais de 100 milhões as mortes causadas pela doença no mundo durante o século XX.[66]
O tifo epidêmico e a febre recorrente também acompanharam situações de pobreza, guerras e deslocamentos. Já doenças transmitidas por água e alimentos, entre elas cólera e febre tifoide, ficaram ligadas à qualidade do abastecimento de água e do saneamento urbano.[52]

Doenças da infância
[editar | editar código]Difteria, poliomielite, escarlatina e sarampo produziram epidemias recorrentes, mas o desenvolvimento de soros e vacinas mudou a forma de preveni-las.[52] Antes da introdução da vacina contra o sarampo em 1963, os Estados Unidos registravam de 3 a 4 milhões de infecções por ano.[67]
Século XX
[editar | editar código]Influenza, varíola e outras pandemias
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A pandemia de gripe de 1889–1890, tradicionalmente classificada como influenza, espalhou-se rapidamente por cidades conectadas por ferrovias e navios a vapor, mas sua causa não foi estabelecida.[68][69] Epidemias de influenza haviam ocorrido repetidamente no século XIX, entre elas a de 1847–1848.[68]

A gripe espanhola de 1918–1920 infectou cerca de 500 milhões de pessoas, aproximadamente um terço da população mundial.[5] O total mundial de mortes permanece incerto, com estimativas muito citadas de 50 milhões ou mais e uma reavaliação publicada em 2018 que calculou cerca de 17,4 milhões e discutiu as limitações dos totais mais altos.[5][70] A pandemia apresentou mortalidade excepcionalmente alta entre adultos jovens.[71]

As pandemias de influenza de 1957–1958 e 1968–1970 foram menos letais do que a de 1918, mas ainda causaram grande mortalidade mundial. O subtipo H2N2 causou a primeira, e o H3N2, a segunda. O H1N1 reapareceu em 1977 e provocou epidemias de alcance mundial concentradas sobretudo em pessoas com menos de 25 anos. O episódio é por vezes descrito como uma pandemia restrita por idade, mas não integra a sequência das três pandemias mundiais de influenza do século XX, de 1918, 1957 e 1968.[72]

O vírus da varíola pode ter surgido há mais de 3.800 anos.[73] No século XX, a doença matou cerca de 300 milhões de pessoas. Em 1967, a OMS iniciou uma campanha intensiva de erradicação, e o último caso conhecido de transmissão natural ocorreu na Somália em 1977. A Assembleia Mundial da Saúde declarou a varíola erradicada em 1980.[74][75]
No começo da década de 1950, a OMS estimava cerca de 50 milhões de casos de varíola por ano no mundo.[76] A erradicação da varíola foi certificada em 1980, e ela continua sendo a única doença infecciosa humana erradicada mundialmente.[74] A peste bovina, doença viral dos bovinos e outros ungulados, também foi declarada erradicada em escala mundial em 2011.[77]
A chamada pandemia de psitacose de 1929–1930 reuniu surtos de psitacose ligados ao comércio internacional de aves, com cerca de 800 casos e 100 mortes em diferentes países. Os surtos parecem ter resultado principalmente de transmissões separadas de aves para seres humanos, com pouca transmissão entre pessoas, e provavelmente não seriam classificados como pandemia pelos critérios atuais.[78]
Transição epidemiológica e doenças emergentes
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Em 1971, Abdel R. Omran propôs o conceito de transição epidemiológica, inspirado na transição demográfica. O modelo separava a mudança dos padrões de mortalidade em uma era de pestes e fomes, uma fase de recuo das pandemias e uma fase em que doenças degenerativas passariam a responder por parcela maior das mortes.[79]
O esquema original não se aplica como uma sequência universal e definitiva, pois doenças infecciosas persistiram ou reemergiram ao mesmo tempo que crescia a carga de doenças crônicas. Revisões recentes da teoria passaram a incorporar questões como zoonoses, doenças emergentes e diferenças de vulnerabilidade entre populações.[80]
HIV/AIDS
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Desde que a AIDS foi reconhecida clinicamente em 1981, a epidemia de HIV permanece uma questão mundial de saúde pública.[6] Desde o início da epidemia, aproximadamente 44,2 milhões de pessoas morreram de causas relacionadas ao HIV. Ao fim de 2025, cerca de 41,0 milhões viviam com o vírus. Em 2025, 570.000 pessoas morreram de causas relacionadas ao HIV e 1,2 milhão adquiriram a infecção.[6] O HIV-1 e o HIV-2 resultaram de transmissões independentes de vírus da imunodeficiência símia de primatas africanos para seres humanos. O HIV-1 grupo M, responsável pela maior parte da pandemia de AIDS, deriva de uma transmissão de SIVcpz de chimpanzés do sudeste de Camarões. Análises de relógio molecular situam o ancestral comum do grupo M aproximadamente entre 1910 e 1930.[81] O vírus é transmitido por determinados fluidos corporais, sobretudo por relações sexuais, compartilhamento de equipamentos para injeção de drogas e transmissão durante a gestação, o parto ou a amamentação.[82] Sem tratamento, a fase crônica costuma levar dez anos ou mais para progredir para AIDS, embora em algumas pessoas avance mais rapidamente.[83] A terapia antirretroviral pode suprimir o vírus a níveis indetectáveis, e pessoas que mantêm carga viral indetectável não transmitem HIV por via sexual.[82] Não existe vacina aprovada para prevenir ou tratar a infecção pelo HIV fora de ensaios clínicos.[84]
Século XXI
[editar | editar código]Influenza A(H1N1) de 2009
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Em 11 de junho de 2009, a OMS elevou a avaliação da influenza A (H1N1) da fase 5 para a fase 6 do sistema então vigente e declarou que os critérios de uma pandemia de influenza haviam sido preenchidos. Naquele momento, a organização avaliou a gravidade mundial como moderada.[85] A pandemia de A(H1N1) de 2009 foi a primeira pandemia de influenza do século XXI.[85]
Peste e cólera
[editar | editar código]A peste continuou produzindo surtos no século XXI, entre eles o de Madagascar em 2017, que reuniu 2.417 casos confirmados, prováveis ou suspeitos e 209 mortes. Cerca de 77% dos casos foram classificados clinicamente como peste pneumônica.[86]
COVID-19
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Um agrupamento de casos de pneumonia associado ao que depois foi identificado como SARS-CoV-2 foi comunicado à OMS em Wuhan, na província chinesa de Hubei, em dezembro de 2019.[88] A OMS classificou o surto como Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional de 30 de janeiro de 2020 a 5 de maio de 2023.[89][90] Até 28 de junho de 2026, mais de 779 milhões de casos confirmados de COVID-19 e mais de sete milhões de mortes haviam sido notificados à OMS. O número real de infecções e reinfecções é muito maior, pois testes e notificações diminuíram. Em 6 de agosto de 2026, a OMS classificava o risco mundial de saúde pública associado à COVID-19 como moderado. O SARS-CoV-2 continuava circulando globalmente e mantendo a capacidade de provocar doença grave e mortes, sobretudo em pessoas idosas, imunocomprometidas ou com comorbidades.[7]
Em 11 de março de 2020, a OMS passou a caracterizar a COVID-19 como pandemia.[91]
Como as contagens oficiais não captaram toda a mortalidade associada à pandemia, uma análise da OMS publicada em Nature estimou 14,83 milhões de mortes em excesso em 2020 e 2021, com intervalo de incerteza de 13,23 a 16,58 milhões. A medida inclui mortes associadas direta e indiretamente à crise e procura reduzir as distorções causadas por diferenças entre países na testagem e no registro de óbitos.[92]
Emergência e propagação
[editar | editar código]Uma pandemia pode surgir quando um agente capaz de infectar seres humanos encontra condições para manter a transmissão e alcançar populações conectadas. Nas zoonoses, a passagem de uma transmissão entre espécies para surtos maiores depende das características do agente, dos hospedeiros, do ambiente e das redes de contato e mobilidade.[8]
Emergência de novos patógenos e doenças
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Reconhecer uma nova ameaça depende da capacidade de detectá-la, por isso sistemas clínicos, laboratoriais e de vigilância epidemiológica precisam perceber sinais incomuns, identificar ou caracterizar o agente e acompanhar sua transmissão. Para ameaças zoonóticas, a integração de dados de saúde humana e animal com informações ambientais pode permitir que mudanças sejam percebidas antes de uma disseminação ampla.[8][9] A rapidez desse reconhecimento varia conforme o acesso a atendimento, diagnóstico, laboratórios e mecanismos de notificação. Por isso, a falta de registros não significa necessariamente que o agente não esteja circulando.[9]
Fatores demográficos, sociais e ambientais
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Mudanças no uso da terra, no clima, na urbanização, na mobilidade e nas interações entre seres humanos, animais e ecossistemas podem alterar a frequência de transmissões entre espécies e a propagação de doenças. Os efeitos variam conforme o agente, a região e as condições locais.[8][93] Esses fatores podem agir em etapas diferentes. Alguns aumentam as oportunidades de transmissão entre espécies, enquanto outros ampliam a disseminação depois que a transmissão entre pessoas já se estabeleceu.[8]
Ao transportar pneus usados entre países, o comércio internacional participou da dispersão de Aedes albopictus, cujos ovos resistem à dessecação e podem viajar em recipientes que acumulam água. Esse é um exemplo de como o comércio pode levar vetores a novas regiões.[94] Viagens e redes de transporte podem levar uma infecção a populações distantes em pouco tempo, o que torna detecção precoce e troca rápida de informações especialmente relevantes para a contenção.[8][9]
Dinâmica de transmissão
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Na fase inicial de uma epidemia, o número de infecções pode crescer de forma aproximadamente exponencial. Esse padrão foi usado para estimar a transmissibilidade nos primeiros períodos da pandemia de influenza de 1918 e da pandemia de COVID-19 em 2020.[95]
O número básico de reprodução, representado por , indica quantas infecções secundárias, em média, uma pessoa infectada produz em uma população totalmente suscetível e sob condições definidas. Quando , a transmissão pode crescer. Quando , cada cadeia tende, em média, a encolher. Esse valor não é uma propriedade fixa do patógeno, pois depende das condições de contato, da suscetibilidade da população e do ambiente em que a transmissão ocorre.[96]
A escala internacional de uma pandemia depende da transmissibilidade do agente e das conexões entre populações. Como fronteiras políticas não interrompem por si mesmas redes de transporte, migração, comércio ou circulação de animais e mercadorias, a avaliação do risco precisa considerar as rotas pelas quais o agente se move entre regiões.[8]
As médias de uma população podem esconder diferenças entre grupos, pois idade, ocupação, moradia, comportamento, imunidade prévia e posição nas redes de contato podem concentrar a transmissão em determinados lugares ou períodos. Modelos e intervenções precisam levar essas diferenças em conta, em vez de pressupor que todos tenham padrões de contato semelhantes.[96]
Prevenção, preparação e resposta
[editar | editar código]A prevenção de pandemias e a preparação dependem de capacidades que precisam existir antes de uma emergência e poder ser ampliadas quando surge uma ameaça. A estrutura da OMS publicada em 2026 define 12 capacidades essenciais. Três dessas capacidades são fundacionais e tratam de autoridade legal, evidências e políticas e financiamento. As outras nove são técnicas. Elas abrangem coordenação, gestão de emergências, força de trabalho, vigilância e inteligência em saúde pública, laboratórios e diagnósticos, comunicação de risco e envolvimento comunitário, medidas de saúde pública e sociais e atendimento clínico. Também incluem pesquisa, desenvolvimento, implantação e acesso a contramedidas médicas.[9]
Prevenção
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Uma Só Saúde e redução do risco na origem
[editar | editar código]Na abordagem Uma Só Saúde, a saúde humana, animal, vegetal e ambiental são tratadas em conjunto. O plano de ação elaborado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, pela OMS e pela Organização Mundial da Saúde Animal inclui a redução dos riscos de epidemias e pandemias zoonóticas emergentes e reemergentes.[97] Em agosto de 2026, as quatro organizações estenderam o período de implementação do plano até 2029.[98]
Tecnologias emergentes e futuro da prevenção
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O sequenciamento metagenômico permite procurar agentes infecciosos sem escolher de antemão qual patógeno o teste deve encontrar. A técnica analisa diretamente o material genético presente em amostras clínicas, animais ou ambientais e pode revelar vírus inesperados ou desconhecidos. Métodos de sequenciamento mais rápidos e técnicas para concentrar material viral vêm ampliando seu uso em diagnóstico e vigilância. Ainda assim, problemas de padronização, validação, bioinformática e interpretação dos resultados limitam a adoção rotineira.[99] A Rede Internacional de Vigilância de Patógenos vem tratando a metagenômica como uma ferramenta emergente de vigilância capaz de aplicar uma abordagem menos dependente de testes dirigidos a um agente específico.[100]
Sistemas de inteligência epidemiológica passaram a usar também inteligência artificial para filtrar grandes volumes de informação e chamar atenção para sinais incomuns. A versão 2.0 do sistema Epidemic Intelligence from Open Sources (EIOS), lançada em outubro de 2025, acrescentou ferramentas de IA para análise automatizada e detecção de sinais. O sistema também passou a processar novas fontes, entre elas canais de rádio com transcrição e tradução automáticas. O sistema complementa os dados formais de laboratórios e hospitais, mas qualquer sinal encontrado ainda precisa ser verificado e avaliado por autoridades de saúde pública.[101]
No caso dos vírus respiratórios, uma frente de pesquisa tenta produzir imunidade no próprio local por onde o patógeno entra no organismo. Vacinas nasais e inaladas podem estimular a imunidade nas mucosas das vias respiratórias e são estudadas para reduzir a infecção e a transmissão, além de proteger contra doença grave. Produzir uma resposta imune forte e duradoura nas mucosas, porém, é difícil, e ainda existem desafios relacionados às formulações, aos dispositivos de administração, aos adjuvantes e à segurança.[102] Em 2026, a CEPI e a Comissão Europeia apoiaram o programa internacional MUSICC, liderado pelo Imperial College London. O programa testa se vacinas contra coronavírus dirigidas à imunidade mucosa conseguem impedir a infecção e a transmissão entre pessoas, inclusive por meio de estudos controlados de desafio humano.[103]
Vigilância e detecção precoce
[editar | editar código]Redes e métodos de vigilância
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Em maio de 2023, a OMS lançou a Rede Internacional de Vigilância de Patógenos, em inglês International Pathogen Surveillance Network (IPSN), sediada no centro de Berlim. A rede foi criada para detectar e responder a ameaças antes que se transformem em epidemias e pandemias e para melhorar a vigilância rotineira. A rede conecta países e procura aperfeiçoar os sistemas de coleta e análise de amostras de patógenos potencialmente nocivos.[104] A vigilância de águas residuais, por exemplo, pode fornecer alertas precoces ao detectar patógenos no esgoto.[105]
Quando há risco de transmissão zoonótica ou por vetores, a vigilância pode reunir dados sobre populações humanas, animais domésticos, fauna silvestre e ambiente.[8] Redes laboratoriais usam métodos moleculares para identificar e caracterizar agentes. O nível de contenção é definido por uma avaliação de risco, e a OMS reserva as medidas de contenção máxima para situações excepcionais em que uma exposição ou liberação poderia ter consequências graves.[106]
Doenças emergentes prioritárias
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Em 2015, uma etapa inicial do R&D Blueprint da OMS priorizou oito grupos de doenças ou agentes para pesquisa. Eram eles febre hemorrágica da Crimeia-Congo, doença por vírus Ébola, doença do vírus de Marburg, febre de Lassa, SARS, MERS, infecção pelo vírus Nipah e febre do vale Rift.[107] Zika, chikungunya e a síndrome da febre grave com trombocitopenia ficaram entre os candidatos considerados para ciclos seguintes.[107] A epidemia de Zika que começou no Brasil em 2015 levou à confirmação de uma relação causal entre infecção pelo vírus Zika durante a gestação e microcefalia, além de outras complicações congênitas.[108]
Nos anos seguintes, a OMS manteve e modificou o processo de priorização, e a lista e a abordagem mais recentes usadas neste artigo aparecem em Doenças com potencial pandêmico.
Preparação
[editar | editar código]Contramedidas médicas e estoques
[editar | editar código]A Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) mantém a "Missão dos 100 Dias", que busca desenvolver vacinas seguras, eficazes e acessíveis em até 100 dias após a identificação de uma nova ameaça pandêmica. A estratégia CEPI 3.0, publicada em 2026 para o período de 2027 a 2031, organiza esse trabalho em torno de famílias virais, plataformas de vacinas e redes de pesquisa, fabricação e regulação prontas para serem ativadas.[109][110] Nos Estados Unidos, a rede ReVAMPP do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) pesquisa vírus representativos de famílias selecionadas, chamados de patógenos protótipos. O objetivo é desenvolver vacinas e anticorpos monoclonais que possam acelerar a resposta caso um vírus relacionado surja como ameaça pandêmica.[111]
Manter estoques de contramedidas médicas e outros suprimentos é uma das formas de se preparar para uma pandemia. A OMS recomenda planejar estoques de vacinas, medicamentos, diagnósticos e equipamentos de proteção a partir de avaliações de risco e regras claras de governança. O planejamento também deve considerar capacidade de armazenamento, monitoramento da validade e estratégias de reposição ou acesso rápido durante uma emergência.[112]
Modelagem e planejamento de cenários
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Durante a resposta britânica à COVID-19, a modelagem matemática de doenças infecciosas ajudou a estimar transmissibilidade e gravidade e a interpretar dados incompletos. Os modelos também foram usados para explorar possíveis efeitos de intervenções e cenários de hospitalizações e mortes. Esses modelos apresentam futuros possíveis com base em dados e pressupostos, e não previsões exatas do que acontecerá.[113]
Avaliação de risco e níveis de alerta
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Embora os níveis de alerta e as avaliações globais ajudem a coordenar a resposta internacional, cada país ainda precisa fazer sua própria avaliação de risco. Intensidade de transmissão, características clínicas, capacidade assistencial e disponibilidade de contramedidas podem variar entre territórios, de modo que ações nacionais podem ser iniciadas, ampliadas ou reduzidas em momentos diferentes.[114]
As decisões de cada país não precisam seguir mecanicamente a fase ou a avaliação mundial da OMS, que resume o risco internacional. A intensidade da transmissão, a capacidade hospitalar e outras condições podem ser diferentes em cada Estado.[114]
Para decidir quando abrir leitos, distribuir estoques ou adotar medidas sociais, cada território precisa definir limites com base em seus próprios indicadores e capacidades. O nível de alerta funciona como uma referência comum para coordenação e comunicação, mas não substitui essas decisões locais.[114]
Estruturas específicas para influenza
[editar | editar código]Organização Mundial da Saúde
[editar | editar código]A OMS organiza o risco de influenza pandêmica em quatro fases globais: interpândemica, alerta, pandêmica e transição. Elas resumem a avaliação mundial sobre vírus influenza com potencial pandêmico, sem substituir as avaliações de risco feitas por cada país.[114]
A gravidade da influenza sazonal e pandêmica é avaliada pela estrutura Pandemic Influenza Severity Assessment (PISA), que considera transmissibilidade, gravidade da doença, morbidade e mortalidade e pressão sobre os serviços de saúde.[115]
Centros de Controle e Prevenção de Doenças
[editar | editar código]O CDC dos Estados Unidos usa o Pandemic Intervals Framework para dividir a evolução de uma pandemia de influenza em seis intervalos. Eles vão da investigação dos primeiros casos de uma nova influenza à preparação para ondas posteriores.[116] Os seis intervalos são:
- investigação de casos de uma nova influenza.
- reconhecimento do aumento do potencial de transmissão contínua.
- início de uma onda pandêmica.
- aceleração de uma onda pandêmica.
- desaceleração de uma onda pandêmica.
- preparação para futuras ondas pandêmicas.
O CDC usa também o Pandemic Severity Assessment Framework (PSAF) para avaliar pandemias de influenza em duas dimensões: a gravidade clínica entre as pessoas infectadas e a transmissibilidade da infecção na população.[117]
Estruturas nacionais de preparação e resposta
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Brasil
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No Brasil, a preparação, a vigilância e a resposta a emergências de saúde pública são organizadas no Sistema Único de Saúde pelo Ministério da Saúde. A vigilância envolve a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, a Rede Cievs, a Rede Nacional de Vigilância Epidemiológica Hospitalar e outros sistemas de monitoramento. Quando uma emergência exige coordenação ampliada, o Ministério pode ativar um Centro de Operações de Emergência em Saúde (COE), que reúne áreas técnicas e administrativas e pode incorporar outros órgãos. A Força Nacional do SUS pode ser mobilizada para complementar equipes locais.[118]
Em 2026, a rede de laboratórios que integra a preparação brasileira recebia investimentos do Ministério da Saúde para modernizar os 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacen) e o laboratório municipal de São Luís. Os investimentos buscavam ampliar a testagem, a detecção de novos patógenos e o monitoramento por genômica.[119]
Portugal
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Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) coordena a vigilância epidemiológica e a gestão de emergências de saúde pública. O Centro de Emergências em Saúde Pública integra a DGS e depende diretamente do diretor-geral da Saúde enquanto Autoridade de Saúde Nacional. O centro acompanha riscos, usa ferramentas de inteligência epidêmica, emite alertas, gere sistemas de vigilância e deteção precoce, participa da análise de risco e coordena tecnicamente a preparação e a resposta.[120] As autoridades de saúde portuguesas atuam em níveis nacional, regional e local.[121]
Para vigiar a influenza e outros vírus respiratórios, a DGS trabalha com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA). O Programa Nacional de Vigilância da Gripe e Outros Vírus Respiratórios reúne vigilância clínica e laboratorial. Suas atividades são desenvolvidas no INSA pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios e pelo Departamento de Epidemiologia, em colaboração com a DGS.[122]
Controle da propagação
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Objetivos e combinação de medidas
[editar | editar código]Medidas de saúde pública e sociais procuram reduzir situações em que uma infecção pode ser transmitida ou tornar essas situações mais seguras. Indivíduos, comunidades e governos podem adotar essas medidas. Muitas vezes, elas são as primeiras ferramentas disponíveis quando ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos, quando a oferta é limitada ou quando essas opções não chegaram de forma equitativa às populações afetadas.[126] A diretriz da OMS de 2026 para influenza organiza essas intervenções em proteção individual, medidas ambientais, busca de casos e manejo de contatos, medidas sociais e ações relacionadas a viagens.[10]
Em 2025, a OMS publicou um instrumento para apoiar decisões sobre medidas de saúde pública e sociais durante emergências. Ele combina evidências sobre efetividade com fatores como equidade, viabilidade, aceitação pública, recursos disponíveis e possíveis consequências adversas, permitindo ajustar as medidas à medida que a situação e o conhecimento sobre o agente mudam.[127]
Detecção, isolamento e rastreamento de contatos
[editar | editar código]No começo de um surto, identificar casos, isolar pessoas infectadas e fazer rastreamento de contatos pode interromper cadeias de transmissão. Se a transmissão se torna mais ampla, medidas semelhantes podem ser usadas para desacelerar a propagação, reduzir casos graves e mortes e evitar a sobrecarga dos serviços de saúde. Os objetivos podem se sobrepor e mudar conforme a situação epidemiológica.[10]
Proteção individual e ambientes internos
[editar | editar código]Entre as formas de proteção individual e comunitária estão a higiene das mãos, o uso de máscaras quando indicado e a redução de exposições de maior risco. Para patógenos respiratórios transmitidos pelo ar, também importam as condições dos ambientes internos, pois ventilação, fluxo de ar e outras intervenções podem alterar a concentração, a dispersão e a inalação de partículas respiratórias infecciosas.[126][128]
Em ambientes internos, o fluxo de ar e a ventilação influenciam a transmissão pelo ar de agentes respiratórios porque afetam a dispersão e a inalação de partículas respiratórias infecciosas.[128]
Distanciamento, escolas, trabalho e eventos
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Em escolas, locais de trabalho, estabelecimentos comerciais e eventos, medidas sociais podem mudar a forma como as pessoas se encontram. Entre elas estão o distanciamento físico, alterações em reuniões e grandes aglomerações, mudanças de funcionamento e outras formas de reduzir contatos ou torná-los menos propícios à transmissão. A seleção depende do modo de transmissão, da fase do surto e dos efeitos esperados sobre saúde, educação, trabalho e outras atividades sociais.[126][10]
Viagens e medidas de fronteira
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Em determinadas circunstâncias, medidas relacionadas a viagens e fronteiras podem ser usadas para reduzir a entrada ou a saída de casos de uma região. A utilidade dessas medidas depende do agente, do estágio do surto, do volume de deslocamentos e da capacidade de detecção. Elas fazem parte de um conjunto que também inclui atendimento clínico, isolamento de casos, quarentena quando indicada e medidas de distanciamento.[10]
Vacinação, profilaxia e tratamento
[editar | editar código]Quando vacinação e tratamento estão disponíveis, eles podem ser combinados com medidas de saúde pública e sociais. A orientação da OMS para influenza epidêmica e pandêmica agrupa essas medidas em proteção individual, intervenções ambientais, busca de casos e manejo de contatos, medidas sociais e medidas relacionadas a viagens.[10]
Escolha, duração e suspensão das medidas
[editar | editar código]Para escolher por quanto tempo manter uma medida, é preciso considerar o agente, a intensidade da transmissão e as condições locais. A OMS recomenda levar em conta eficácia, viabilidade, recursos, aceitabilidade, equidade, direitos humanos e efeitos sociais e econômicos, já que intervenções de maior alcance também podem produzir danos não intencionais.[10]
O fim de uma pandemia não é definido por um único limiar universal, pois os desfechos epidemiológico, administrativo e social podem ocorrer em momentos diferentes. Mesmo quando casos ou mortes diminuem, isso não significa que o agente tenha desaparecido.[129] Em 5 de maio de 2023, por exemplo, a OMS encerrou a classificação da COVID-19 como ESPAI, mas declarou que a doença permanecia um problema de saúde estabelecido e contínuo.[90]
Quando uma doença ou agente infeccioso tem presença constante ou prevalência habitual em uma população ou área geográfica, ele é chamado de endêmico. Isso não significa, por si só, que a doença seja leve ou ocorra em nível baixo, e uma doença pode ser hiperendêmica, com incidência ou prevalência persistentemente elevada.[130]
Resposta dos sistemas de saúde
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Durante uma pandemia, os sistemas de saúde precisam absorver aumentos rápidos da demanda sem abandonar serviços essenciais. A estrutura de preparação e resposta da OMS de 2026 prevê que certas capacidades sejam planejadas antes de uma crise e ampliadas durante a resposta. Entre elas estão força de trabalho, gestão de emergências, laboratórios e diagnósticos, orientação para atendimento clínico, vigilância e acesso a contramedidas.[9]
Na atenção primária, preparar-se para emergências significa conectar serviços e autoridades, detectar ameaças, proteger pacientes e profissionais e manter a capacidade de tratamento. Esse planejamento pode prever a expansão temporária de equipes e espaços de atendimento, rotas de encaminhamento e proteção ocupacional. Pode também incluir a continuidade da vacinação e de outros cuidados de rotina e mecanismos para receber apoio quando a capacidade local é ultrapassada.[131] A resiliência não depende apenas de criar capacidade adicional. Também exige preservar linhas de cuidado, informação, suprimentos e pessoal durante toda a emergência.[9]
Comunicação e participação pública
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Para que a comunicação de risco e o envolvimento comunitário funcionem, as informações precisam ser claras e confiáveis, e as comunidades precisam participar antes, durante e depois das emergências de saúde pública.[132] O excesso de informação que acompanha um surto, inclusive conteúdo falso ou enganoso, é chamado de infodemia e pode gerar confusão e comportamentos de risco, reduzir a confiança nas autoridades de saúde e prejudicar a resposta de saúde pública. A OMS emprega o termo manejo da infodemia para o uso sistemático de métodos baseados em risco e evidências destinados a reduzir esses efeitos durante emergências de saúde.[133]
Em uma crise, a comunicação depende da confiança entre especialistas, autoridades, equipes de saúde e as comunidades afetadas. Ouvir preocupações e percepções, explicar o que já se sabe e dizer claramente o que ainda permanece incerto pode ser tão necessário quanto divulgar recomendações técnicas.[132]
Questões éticas e direitos
[editar | editar código]Quando vacinas, tratamentos e diagnósticos são escassos, uma pandemia exige escolhas éticas sobre como distribuí-los e sobre o uso de medidas coletivas que podem restringir atividades ou deslocamentos. Para distribuir contramedidas médicas, a orientação da OMS usa princípios de equidade, eficiência, reciprocidade e justiça processual. Já a diretriz de 2026 para medidas de saúde pública recomenda considerar direitos humanos, aceitabilidade, equidade e efeitos sociais e econômicos.[134][10]
Cooperação internacional
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Em setembro de 2021, a OMS criou em Berlim o WHO Hub for Pandemic and Epidemic Intelligence, voltado à detecção e à avaliação de ameaças à saúde. Em 2025, o centro trabalhou com mais de 160 Estados-membros e mais de 190 parceiros, reunindo iniciativas de inteligência epidêmica, análise colaborativa e vigilância de patógenos.[135]
O Regulamento Sanitário Internacional define, no plano internacional, os direitos e as obrigações dos Estados Partes na gestão de riscos, eventos e emergências de saúde pública que podem atravessar fronteiras. O regulamento exige capacidades de vigilância e resposta, estabelece deveres de notificação e atribui à OMS funções de alerta e coordenação internacional.[11]
Depois da pandemia de COVID-19, a Assembleia Mundial da Saúde decidiu por consenso, em dezembro de 2021, iniciar a elaboração e a negociação de um instrumento internacional sobre prevenção, preparação e resposta a pandemias.[136] O Acordo sobre Pandemias da OMS foi adotado por consenso pela Assembleia Mundial da Saúde em 20 de maio de 2025, depois de o texto ter sido aprovado no Comitê A por 124 votos a favor, nenhum contra e 11 abstenções.[137] Antes de ser aberto para assinatura e ratificação, o acordo ainda depende da conclusão do anexo sobre acesso a patógenos e repartição de benefícios, conhecido pela sigla PABS.[138]
O texto aprovado reafirma a soberania dos Estados ao estabelecer que o Secretariado da OMS não recebe autoridade para impor leis ou políticas nacionais, restrições a viajantes, mandatos de vacinação, medidas terapêuticas ou diagnósticas nem confinamentos.[139]
Como patógenos e cadeias de abastecimento atravessam fronteiras, a cooperação internacional envolve compartilhar sinais epidemiológicos e sequências e coordenar avaliações de risco. Também envolve manter redes laboratoriais e organizar o acesso a diagnósticos, tratamentos e vacinas. A utilidade desses mecanismos depende de confiança, interoperabilidade e participação suficientemente ampla para evitar lacunas entre a detecção de uma ameaça e a ação coletiva.[9][11]
Riscos e pandemias futuras
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Prevenir futuras pandemias depende de detectar ameaças cedo, reduzir os riscos de emergência e transmissão e manter sistemas capazes de responder antes que um surto alcance grande escala.[9]
Essas avaliações consideram possibilidades, e não uma previsão única sobre qual será o próximo agente, onde ele surgirá ou quando isso acontecerá. Seu objetivo é identificar capacidades úteis em diferentes cenários e reduzir o tempo entre a detecção de um sinal e a resposta.[9][140]
Como a influenza evolui rapidamente e já causou pandemias, ela continua capaz de provocar novos eventos desse tipo. Em abril de 2026, o Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe reunia 158 Centros Nacionais de Influenza em 136 Estados-membros da OMS.[141] Os centros coletam e analisam amostras de vírus influenza, e esses dados entram no processo pelo qual são recomendadas as composições das vacinas sazonais.[142]
Em 2008, um relatório de cenários do National Intelligence Council dos Estados Unidos considerou a possibilidade de uma nova doença respiratória humana, muito contagiosa e sem contramedidas adequadas, desencadear uma pandemia mundial. O documento citou influenza aviária altamente patogênica e coronavírus semelhantes ao SARS entre os agentes plausíveis e chamou atenção para áreas densamente povoadas onde pessoas e animais domésticos convivem de forma próxima.[143]
Em 2020, uma oficina da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) reuniu centenas de estudos sobre biodiversidade e pandemias. Mudanças no uso da terra, expansão agrícola e comércio podem aumentar o contato entre seres humanos, animais domésticos e fauna silvestre. Outras atividades com o mesmo efeito também foram tratadas como fatores capazes de elevar o risco de novas zoonoses e pandemias.[144][8]
Doenças com potencial pandêmico
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No R&D Blueprint, a OMS mantém uma lista de doenças e agentes que recebem prioridade em pesquisas para emergências de saúde pública. A lista não pretende ser completa nem prever qual agente causará a próxima epidemia.[140]
- COVID-19
- Febre hemorrágica da Crimeia-Congo
- Ebola e Marburg
- Febre de Lassa
- MERS e SARS
- Nipah e outras doenças por henipavírus
- Febre do vale Rift
- Zika
- Doença X
No programa, "Doença X" é o nome dado à possibilidade de uma epidemia internacional grave ser causada por um patógeno que ainda não é conhecido como causador de doença humana.[140]
Em 2024, a OMS concluiu também uma priorização por famílias de patógenos, na qual mais de 200 cientistas de mais de 50 países avaliaram 28 famílias virais e um grupo central de bactérias, abrangendo 1.652 patógenos. O método organiza a pesquisa por famílias e patógenos protótipos, buscando vacinas, diagnósticos e tratamentos que possam ser adaptados a agentes relacionados.[145] Em abril de 2026, a OMS e parceiros publicaram roteiros de pesquisa e desenvolvimento para dez famílias virais e um grupo de bactérias, com prioridades voltadas a vigilância, diagnósticos, tratamentos e vacinas antes de futuras emergências.[146]
Coronavírus
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Os coronavírus humanos mais comuns costumam causar infecções leves a moderadas das vias respiratórias superiores.[147] Outros coronavírus causaram a epidemia de SARS de 2002–2004, surtos de MERS e a pandemia de COVID-19.[148] Foi proposta a hipótese de que o coronavírus humano OC43, HCoV-OC43, tenha causado a pandemia de gripe de 1889–1890, mas a etiologia desse evento não foi estabelecida.[68] Uma reavaliação molecular de 2023 estimou que o ancestral comum mais recente de HCoV-OC43 e do coronavírus bovino surgiu com maior probabilidade entre 1898 e 1902, intervalo que pesa contra a associação com a pandemia de 1889–1890.[69] Muitos coronavírus humanos têm origem zoonótica e possuem reservatórios naturais em morcegos ou roedores,[149] e novos saltos entre espécies continuam sendo uma preocupação para a vigilância de doenças emergentes.[150]
Influenza
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As pandemias de influenza surgem em intervalos irregulares e podem começar quando um novo vírus influenza A passa a infectar pessoas com facilidade e mantém transmissão eficiente e sustentada entre seres humanos em uma população com pouca imunidade.[151] Em 6 de setembro de 2026, a OMS informava que os eventos recentes de influenza na interface entre seres humanos e animais não apresentavam transmissão sustentada entre pessoas.[152] Para os vírus A(H5) de influenza aviária de alta patogenicidade, uma avaliação conjunta da FAO, OMS e WOAH publicada em maio classificou o risco mundial para a saúde pública como baixo. Para pessoas com exposição ocupacional ou frequente a animais infectados, o risco foi classificado de baixo a moderado, conforme as condições locais e as medidas de proteção.[153]
A influenza sazonal causa cerca de um bilhão de infecções por ano no mundo, entre 3 e 5 milhões de casos graves e de 290.000 a 650.000 mortes por causas respiratórias.[18]
O Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe (GISRS) acompanha continuamente vírus influenza sazonais, pandêmicos e zoonóticos. Em setembro de 2026, a rede reunia 166 instituições em 136 Estados-membros da OMS.[154] Os laboratórios nacionais coletam e compartilham amostras e dados que alimentam a vigilância e as recomendações da OMS para a composição de vacinas contra a influenza.[141]
Resistência a antibióticos
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A resistência antibiótica surge quando bactérias deixam de responder a antibióticos que antes eram eficazes contra elas, tornando algumas infecções mais difíceis ou impossíveis de tratar e aumentando o risco de disseminação, doença grave e morte. Em 2023, aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório entre doenças comuns no mundo apresentava resistência a antibióticos.[155]
Em 2024, cerca de 390.000 pessoas desenvolveram tuberculose multirresistente ou resistente à rifampicina, e cerca de 150.000 morreram por essas formas da doença.[156]
Uma análise mundial do Global Burden of Disease estimou que a resistência bacteriana a antimicrobianos esteve associada a 4,71 milhões de mortes em 2021, das quais 1,14 milhão foram atribuíveis diretamente à resistência.[157]
Mudanças climáticas
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As mudanças climáticas modificam condições ambientais que influenciam a transmissão de algumas doenças infecciosas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas concluiu que mudanças de temperatura e precipitação já alteram as regiões e épocas do ano adequadas para certos vetores. O aquecimento também aumenta, em graus diferentes entre regiões, os riscos de doenças transmitidas por vetores, água e alimentos.[158]
Avanço sobre áreas silvestres
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A avaliação Nexus de 2024 da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) examinou como biodiversidade, água, alimentos e saúde se relacionam.[159] A síntese para formuladores de políticas estima que metade dos eventos de doenças infecciosas emergentes e reemergentes é impulsionada por mudanças no uso da terra e práticas agrícolas. Também entram nessa estimativa atividades que avançam sobre habitats naturais e aumentam o contato entre fauna silvestre, animais domésticos e seres humanos.[160]
Degelo do permafrost
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Alguns vírus conseguem permanecer viáveis depois de longos períodos congelados no permafrost. Vírus antigos já foram reativados em laboratório, mas os exemplares testados infectavam Acanthamoeba, e não houve demonstração de que fossem capazes de infectar seres humanos ou outros animais.[161] Com o conhecimento disponível, o risco representado por vírus liberados pelo degelo não parece maior que o de vírus encontrados em outros ambientes, como solos de regiões temperadas e sistemas aquáticos.[162] Na península de Yamal, um surto de antraz em 2016 ocorreu depois de anos de degelo rápido e durante um verão excepcionalmente quente e seco. Essas condições podem ter favorecido o surto, embora não expliquem sozinhas sua ocorrência.[163]
Inteligência artificial e biossegurança
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Nas ciências da vida, a inteligência artificial pode ser usada para analisar dados e auxiliar no projeto de moléculas e sistemas biológicos, o que também levanta questões de biossegurança.[164] Modelos de linguagem genômica já foram usados, por exemplo, para projetar bacteriófagos viáveis, vírus que infectam bactérias, e não seres humanos.[165] A OMS inclui a inteligência artificial e técnicas de modificação genética entre as tecnologias que exigem avaliação de risco e supervisão em laboratórios.[166]
Consequências
[editar | editar código]Demográficas e sociais
[editar | editar código]Grandes epidemias podem alterar o tamanho e a composição de uma população conforme o número de mortes e a idade das pessoas que morrem. A Peste Negra, por exemplo, produziu quedas populacionais muito fortes em partes da Europa, embora a intensidade tenha variado entre regiões.[36] Pandemias de longa duração também podem se concentrar de maneira desigual entre países e grupos sociais. A epidemia de HIV/AIDS, por exemplo, atingiu com especial intensidade países da África Subsaariana e manteve efeitos sobre mortalidade, famílias e sistemas de saúde por décadas.[6]
Grandes surtos podem aumentar rapidamente a procura por atendimento e interromper serviços essenciais de saúde, por isso a preparação busca manter esses serviços em funcionamento e reduzir os efeitos sociais e econômicos durante a resposta.[9]
Econômicas
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O sistema mundial de prevenção, preparação e resposta a pandemias foi estimado em cerca de 31,1 bilhões de dólares por ano, dos quais ao menos 10,5 bilhões dependeriam de financiamento internacional adicional.[167] O Fundo Pandêmico, hospedado pelo Banco Mundial, foi criado para ajudar a financiar lacunas de preparação em países de renda baixa e média.[168]

A pandemia de COVID-19 provocou uma retração econômica mundial, e a economia global encolheu cerca de 2,7% em 2020.[169] A queda temporária da atividade econômica também reduziu as emissões de dióxido de carbono e dióxido de nitrogênio.[170][171] Durante a Peste Negra, a concentração de chumbo registrada em um testemunho de gelo dos Alpes caiu a níveis excepcionalmente baixos, provavelmente devido à redução da mineração e da fundição de metais.[172]
Na cultura e na religião
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Grandes epidemias passaram para a arte e para práticas religiosas de diferentes épocas. Na Europa, São Sebastião e São Roque foram invocados contra a peste e apareceram em pinturas, altares e cenas de intercessão junto aos doentes.[173][174] Durante a pandemia de COVID-19, comunidades religiosas em muitos países modificaram cultos e reuniões, recorrendo a medidas como distanciamento físico, uso de máscaras e celebrações realizadas à distância.[175]
Na literatura, a Peste Negra abre o Decamerão, de Giovanni Boccaccio, cuja narrativa começa em Florença durante a epidemia de 1348.[176] Daniel Defoe voltou à peste de Londres de 1665 em A Journal of the Plague Year, publicado em 1722.[177] Pinturas e gravuras também retrataram sepultamentos, procissões, santos, médicos da peste e cidades atingidas pela doença, criando imagens que atravessaram séculos mesmo quando não correspondiam a uma pandemia específica.
A COVID-19 produziu novas obras, fotografias, cartazes e objetos ligados à experiência da pandemia. Museus passaram a recolher esse material ainda durante a crise, incluindo itens sobre isolamento, trabalho, luto e mudanças nos espaços públicos.[178]
Ver também
[editar | editar código]- Epidemia, ocorrência de casos acima do esperado em uma população ou região
- Endemia, presença habitual ou previsível de uma doença em determinada população
- Epidemiologia, estudo da distribuição e dos determinantes das condições de saúde em populações
- Lista de epidemias e pandemias, relação cronológica de grandes surtos e pandemias
- Quarentena, medida usada para limitar a propagação de doenças transmissíveis
- Vigilância epidemiológica, acompanhamento sistemático de doenças e agravos
- Erradicação de doenças infecciosas, redução permanente da incidência mundial de uma infecção a zero
- Risco catastrófico global, categoria de riscos que pode abranger pandemias de grande escala
Referências
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Leitura adicional
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- Bancroft EA (outubro de 2007). «Antimicrobial resistance: it's not just for hospitals». JAMA. 298 (15): 1803–1804. PMID 17940239. doi:10.1001/jama.298.15.1803
- Face aux épidémies, Michel Lafon, 2022.
Ligações externas
[editar | editar código]- Capacidade local é fundamental para garantir preparação global diante de pandemias, Organização Pan-Americana da Saúde, em português.
- Resposta a emergências, Ministério da Saúde do Brasil, em português.
- Fundação Oswaldo Cruz, Brasil, em português.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Brasil, em português.
- Direção-Geral da Saúde, Portugal, em português.
- Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, Portugal, em português.
- WHO Pandemic Agreement, Organização Mundial da Saúde, em inglês.
- WHO Hub for Pandemic and Epidemic Intelligence, Organização Mundial da Saúde, em inglês.
- Pandemic Flu, Centers for Disease Control and Prevention, em inglês.
- European Centre for Disease Prevention and Control, em inglês.


