Fome
Fome | |
|---|---|
| Homem durante uma refeição em Bangladesh, em fotografia de 2018 | |
| Campo | Política, ajuda humanitária e ciências sociais |
| Medida da ONU | Prevalência de subalimentação estimada pela FAO |
| Meta global | ODS 2 - Fome Zero, até 2030 |
Fome, no sentido social, é a condição em que a privação involuntária e prolongada de alimentos causa desconforto, fraqueza, doença ou dor.[1] No monitoramento mundial, a FAO acompanha a fome pela prevalência de subalimentação, isto é, a parcela da população cujo consumo habitual de energia alimentar é insuficiente para uma vida ativa e saudável.[2] Esse uso não equivale ao apetite, o desejo de comer, nem à desnutrição, que também abrange deficiências de nutrientes, excessos e desequilíbrios, nem à insegurança alimentar, que mede dificuldades de acesso a alimentos em sentido mais amplo. A carestia é uma crise extrema, na qual falta grave de alimentos, desnutrição aguda e mortalidade elevada atingem simultaneamente uma população.[3]
A fome não depende apenas da quantidade de alimentos produzida ou disponível. Ela pode persistir quando há comida nos mercados, mas parte da população não tem renda, meios físicos ou estabilidade para obtê-la. Desemprego, perda de renda, alta de preços, guerras, deslocamentos, bloqueios e falhas de transporte podem cortar o acesso, enquanto secas, enchentes, calor extremo e perdas de colheita podem reduzir produção e renda ao mesmo tempo. Em crises graves, esses fatores costumam se combinar, e decisões políticas podem agravar ou aliviar a privação.[4]
Quando a ingestão insuficiente se prolonga, a fome pode levar à subnutrição, perda de peso, enfraquecimento do sistema imunológico e maior vulnerabilidade a doenças. Crianças são especialmente suscetíveis. A emaciação aumenta o risco de morte, e a privação nutricional prolongada pode prejudicar o crescimento e o desenvolvimento. A Organização Mundial da Saúde estima que quase metade das mortes de crianças menores de cinco anos esteja relacionada à subnutrição.[5]
A prevalência mundial de fome caiu entre meados dos anos 2000 e meados da década de 2010, voltou a subir nos anos seguintes e chegou a 8,6% em 2021 e 2022. O número estimado de pessoas subalimentadas alcançou seu pico recente em 2022. Nos três anos seguintes, as duas medidas voltaram a cair. Em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas, 7,8% da população mundial, ainda estavam subalimentadas, com diferenças acentuadas entre as regiões e a maior prevalência na África.[6]
O combate à fome combina respostas imediatas, como assistência alimentar, refeições escolares e transferências em dinheiro ou vales, com políticas de nutrição, proteção social, produção agrícola e apoio aos meios de subsistência. O ODS 2 fixa a meta de acabar com a fome até 2030, mas as projeções publicadas em 2026 ainda colocavam centenas de milhões de pessoas em situação de subalimentação no fim da década.[7][6]
Definição e medição
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Para acompanhar a fome como problema social em diferentes países, a FAO usa principalmente a prevalência de subalimentação, que estima quantas pessoas não conseguem obter, de forma habitual, energia suficiente dos alimentos para manter uma vida ativa e saudável. Essa medida é útil para acompanhar a fome em grandes populações, mas não substitui conceitos mais amplos, como desnutrição e insegurança alimentar.[2]
- A fome, na medida usada pela FAO, é acompanhada pela prevalência de subalimentação, conhecida pela sigla PoU. O indicador estima a parcela da população que consome habitualmente menos energia dos alimentos do que necessita. Para fazer esse cálculo, a FAO considera a quantidade média de energia alimentar disponível para consumo, a necessidade mínima de energia da população e a maneira como o acesso aos alimentos se distribui entre as pessoas. As necessidades energéticas variam conforme fatores como idade e sexo. No acompanhamento mundial, a FAO estima o consumo médio de cada país por meio de seus balanços alimentares e usa pesquisas domiciliares ou outros levantamentos representativos para estimar as diferenças de consumo dentro da população.[8]
- A desnutrição é um conceito mais amplo e inclui falta, excesso ou desequilíbrio de energia e nutrientes. Uma pessoa pode consumir calorias suficientes para não ser considerada subalimentada pela PoU e, mesmo assim, ter deficiência de micronutrientes, como vitaminas e minerais. Também é possível consumir energia em excesso e desenvolver obesidade.[9][10]
- A insegurança alimentar ocorre quando uma pessoa ou família não consegue ter acesso regular a alimentos seguros, nutritivos e suficientes para crescer, se desenvolver e levar uma vida ativa e saudável. Ela pode existir antes que a falta de comida se torne grave ou duradoura o bastante para aparecer nas estimativas de subalimentação. Para medir essa experiência, a FAO usa pesquisas domiciliares, entre elas a Food Insecurity Experience Scale. A PoU, por sua vez, procura estimar a falta habitual de energia alimentar em grupos maiores da população.[11][10]
- A insegurança alimentar aguda corresponde a uma falta de alimentos grave o bastante para ameaçar a vida das pessoas ou os meios que elas usam para se sustentar, independentemente da causa ou de quanto tempo a crise dure. A escala IPC divide essas situações em cinco fases. Para um domicílio, a fase 5 recebe o nome de "Catástrofe". Para que uma área inteira seja classificada como "Carestia", também precisam ser atingidos limites específicos de desnutrição aguda e mortalidade.[12][3]
Como a PoU foi criada para acompanhar populações relativamente grandes, ela não permite saber quais indivíduos específicos estão subalimentados e também não é adequada para medir mudanças de curto prazo, como o efeito imediato de uma política pública ou de uma alta temporária nos preços dos alimentos.[13] O próprio termo "fome" também pode ser usado de maneira mais ampla por organizações que trabalham com alimentação, aproximando-se dos conceitos de desnutrição e insegurança alimentar. Esse uso social e estatístico é diferente da sensação comum de querer comer, que também pode ser sentida por uma pessoa com acesso regular e suficiente à alimentação.[1][10]
Causas
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As causas da fome costumam se combinar, e um país pode ter alimentos suficientes nos mercados sem que todas as pessoas consigam comprá-los ou recebê-los. A segurança alimentar depende de quatro dimensões: disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade.[14] O acesso pode ser limitado pela falta de renda, mesmo quando há comida à venda, ou por problemas físicos e geográficos, como longas distâncias, transporte precário, conflitos e interrupções no abastecimento. Crises econômicas, guerras e eventos climáticos extremos podem afetar mais de uma dessas dimensões ao mesmo tempo.[15][16]
Inacessibilidade econômica
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Quando a renda cai ou desaparece, conseguir comida suficiente pode se tornar difícil mesmo que os mercados estejam abastecidos. Desemprego, queda de salários reais, perda de bens ou dos meios usados para ganhar a vida, endividamento, recessões e inflação podem levar uma família a comprar menos alimentos ou a trocar produtos mais nutritivos por outros mais baratos.[6]
Renda, preços e poder de compra
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O preço que chega ao consumidor depende de muitos elementos, desde a produção e os estoques até o comércio, a taxa de câmbio, a energia, o transporte, o processamento e o varejo. Quando os preços dos alimentos sobem mais depressa que a renda, o poder de compra diminui, e as famílias mais pobres costumam ter menos espaço no orçamento para compensar essa alta. Alimentos nutritivos também ficam mais caros quando estradas são ruins, falta armazenagem ou refrigeração adequada, a energia é pouco confiável ou os mercados funcionam de maneira ineficiente. Esses custos pesam especialmente sobre frutas, hortaliças e alimentos de origem animal.[6][17]
Quando uma crise econômica reduz a renda ao mesmo tempo que eleva o preço dos alimentos, famílias e países têm menos opções para se adaptar. Países pobres que dependem de importações costumam ter menos recursos para enfrentar uma quebra de safra ou uma alta internacional por meio de estoques, crédito ou compras no exterior. Entre as famílias de baixa renda, uma das primeiras respostas costuma ser diminuir a variedade da alimentação. Nas projeções da OCDE e da FAO para 2026-2035, aumentos no preço da energia e dos fertilizantes afetam de maneira mais intensa a produção, as importações e o consumo nos países de baixa renda, onde há menos recursos para absorver esses custos.[17]
Demanda, biocombustíveis e mercados
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À medida que a população cresce, aumenta também a quantidade total de alimentos necessária, enquanto o aumento da renda pode mudar o tipo de alimento consumido. Em países de renda média, uma parte dessa mudança ocorre quando cresce o consumo de produtos de origem animal, o que também aumenta o uso de cereais e oleaginosas na ração dos animais. A OCDE e a FAO projetam que cerca de 34% dos cereais consumidos no mundo em 2035 serão destinados à ração. Esse aumento da demanda não causa fome por si só, porque a produção e o comércio também podem crescer, mas pode contribuir para altas de preços quando os estoques estão baixos ou a oferta sofre uma quebra.[17]
Os biocombustíveis também criam demanda por produtos agrícolas que poderiam ser usados na alimentação humana ou animal. Etanol produzido de milho ou açúcar e biodiesel feito com óleos vegetais continuam entre os principais biocombustíveis de primeira geração. O efeito dessa produção sobre os alimentos varia conforme a cultura usada, o tamanho da safra, os estoques disponíveis, os preços da energia e as políticas adotadas. Durante a crise de preços de 2007 e 2008, o aumento da procura por biocombustíveis ocorreu junto com estoques reduzidos, problemas nas safras, petróleo caro e restrições ao comércio.[18][19]
Depois da crise de 2007 e 2008, a especulação financeira nos mercados de commodities passou a receber grande atenção, embora não explique sozinha as altas dos preços dos alimentos. Um estudo da FAO encontrou sinais compatíveis com bolhas de preços em poucos produtos durante 2008, mas atribuiu as altas de 2010 e 2011 principalmente às condições reais de oferta e procura. Quando os estoques estão baixos ou há restrições às exportações, os preços também podem reagir com mais força às operações financeiras nesses mercados.[20]
Produção, custos e comércio
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Produzir alimentos em quantidade suficiente depende de água, sementes, trabalhadores, fertilizantes, energia, crédito, estoques, tecnologia e meios para transportar a produção até os mercados. Quando a energia fica mais cara, também podem subir os custos dos fertilizantes, da irrigação, do processamento e do transporte. Esses aumentos pesam mais sobre agricultores com pouco acesso a crédito ou tecnologia e sobre países que não conseguem compensar uma queda da produção interna com importações.[17]
O comércio internacional permite que alimentos produzidos em regiões com excedente sejam vendidos a regiões onde há falta, mas as políticas comerciais podem alterar tanto os preços quanto a quantidade disponível. Durante períodos de alta, alguns governos limitam as exportações de alimentos básicos para tentar proteger seus consumidores. Essas medidas podem ajudar o mercado interno, mas também reduzem a oferta mundial e podem aumentar a instabilidade dos preços para países que precisam importar alimentos. A OCDE registrou ondas desse tipo de restrição na crise de 2007-2008, no começo da pandemia de COVID-19 e depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. Tarifas, subsídios e outras formas de apoio à agricultura também alteram os preços e os incentivos à produção, com efeitos diferentes conforme o produto, a política adotada e a posição de cada país no comércio internacional.[21][22]
Inacessibilidade física e geográfica
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Mesmo quando há comida suficiente em uma parte do país, ela pode não chegar a outra se estradas, pontes, portos, ferrovias, armazéns ou redes de distribuição forem inadequados ou deixarem de funcionar. Em regiões isoladas, o custo e o tempo de transporte também podem tornar os alimentos caros demais para parte da população. A OCDE e a FAO apontam problemas de transporte, armazenagem, comércio e tecnologia entre as dificuldades que limitam os mercados de alimentos nos países de baixa renda. Esses obstáculos dificultam a venda das colheitas, aumentam as perdas e tornam mais difícil importar alimentos quando a produção local diminui.[17]
Guerra, violência e deslocamentos
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Durante uma guerra, uma família pode perder ao mesmo tempo sua fonte de renda, sua produção de alimentos e o acesso físico aos mercados. Os combates podem expulsar agricultores de suas terras, matar ou dispersar rebanhos, impedir colheitas, fechar mercados, destruir estradas e silos e dificultar tanto as importações quanto a chegada de ajuda humanitária. Pessoas obrigadas a abandonar suas casas também podem perder emprego, terra, bens e redes de apoio que antes lhes permitiam conseguir alimentos.[23]
Entre as crises alimentares agudas mais graves analisadas em 2025, os conflitos continuaram entre as causas predominantes.[23][24]
Clima e desastres
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Eventos como secas, enchentes, ondas de calor, tempestades e incêndios podem destruir plantações, matar animais, prejudicar a pesca e a aquicultura, danificar estoques e interromper estradas e mercados. Ao mesmo tempo que diminuem a quantidade de alimentos produzida, esses eventos também podem reduzir a renda de agricultores, pescadores e trabalhadores rurais. O IPCC concluiu, com alta confiança, que eventos climáticos extremos já reduziram a produtividade da agricultura e da pesca e prejudicaram a segurança alimentar e os meios usados pelas pessoas para ganhar a vida. Secas e enchentes também podem aumentar preços e diminuir a variedade de alimentos disponíveis.[25]
Com o avanço da mudança climática, alguns desses riscos aumentam porque as temperaturas e os padrões de chuva mudam e certos eventos extremos podem se tornar mais frequentes ou intensos. Os efeitos variam muito entre regiões, e nem sempre é possível dizer quanto uma crise alimentar específica foi causada pelo aquecimento provocado pelas atividades humanas. Ainda assim, o IPCC concluiu que a mudança climática já prejudica a segurança alimentar em partes do mundo e que os riscos aumentam à medida que o planeta aquece, sobretudo em locais onde muitas pessoas dependem da agricultura de sequeiro, da pecuária ou da pesca e têm poucos recursos para se adaptar.[25]
Perdas e desperdício de alimentos
[editar | editar código]Uma parte considerável dos alimentos produzidos no mundo nunca chega a ser consumida. A FAO estima que 13,2% se perdem depois da colheita e antes de chegar ao varejo, por problemas que podem ocorrer no armazenamento, no transporte, no processamento ou na distribuição. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estimou que outros 1,05 bilhão de toneladas foram desperdiçados em 2022 no varejo, nos serviços de alimentação e dentro das casas, o equivalente a 19% dos alimentos disponíveis aos consumidores. Esses dois percentuais medem etapas diferentes do caminho percorrido pelos alimentos e, por isso, não devem ser simplesmente somados.[26][27]
Diminuir as perdas e o desperdício aumenta a quantidade de comida que permanece disponível, mas isso não significa que todo alimento poupado possa ser entregue diretamente a quem passa fome. A distância, o tempo que um alimento leva para estragar, a renda das famílias e o funcionamento dos mercados ainda determinam quem consegue obtê-lo. Mesmo assim, reduzir essas perdas evita que terra, água, energia e trabalho sejam usados para produzir alimentos que nunca serão consumidos.[26][27]
Em uma mesma crise, uma seca pode destruir parte da safra, uma guerra pode bloquear estradas e expulsar agricultores de suas terras, a moeda pode perder valor e encarecer as importações, enquanto uma família sem renda deixa de conseguir comprar comida que ainda está disponível no mercado. Por esse motivo, os relatórios sobre crises alimentares costumam apontar uma causa predominante sem concluir que as demais deixaram de ter efeito.[16]
Consequências
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A fome prolongada pode levar à subnutrição, embora os dois termos não tenham o mesmo significado. A FAO estima a fome pela quantidade de energia alimentar que uma população consegue consumir de forma habitual, enquanto os efeitos da subnutrição sobre o corpo são avaliados por sinais como perda de peso, emaciação, atraso de crescimento e falta de nutrientes. Para estudar efeitos sociais e psicológicos, é comum usar medidas de insegurança alimentar, que também incluem situações em que uma pessoa tem dificuldade para conseguir comida suficiente antes de chegar à subalimentação crônica. Por isso, cada resultado apresentado abaixo se refere ao indicador usado no estudo citado, e não a uma única condição.[8][9]
Saúde física e mortalidade
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Quando uma pessoa passa muito tempo consumindo menos energia e proteínas do que o corpo necessita, o organismo reduz o metabolismo e começa a usar suas reservas de gordura. Se a falta de alimento continua, passa também a retirar proteínas dos músculos e de outros tecidos. A perda de massa muscular causa fraqueza e pode dificultar tarefas comuns e o trabalho. Nos casos mais graves, podem surgir anemia, edema, queda da temperatura corporal, redução da frequência cardíaca e da pressão arterial, dificuldade para respirar e para cicatrizar feridas, além de danos a diferentes órgãos. Em casos extremos, a inanição pode causar insuficiência cardíaca, insuficiência renal, falência de outros órgãos e morte.[28]
A subnutrição e as infecções podem agravar uma à outra, formando um ciclo difícil de romper. A falta de energia e nutrientes enfraquece partes do sistema imunológico, o que dificulta o combate a infecções. Diarreia, pneumonia e outras doenças também podem diminuir o apetite, aumentar a quantidade de energia de que o corpo precisa ou provocar perda de nutrientes, piorando ainda mais a subnutrição.[29][28] Esse risco é especialmente alto entre crianças pequenas. A OMS estima que quase metade das mortes de menores de cinco anos esteja relacionada à subnutrição, e crianças com emaciação moderada ou grave correm maior risco de morrer quando não recebem tratamento.[5]
Nos casos mais graves de falta de energia e proteínas, podem surgir condições como marasmo e kwashiorkor. No marasmo, ocorre uma perda intensa de gordura e músculo. No kwashiorkor, o corpo pode apresentar edema e outras alterações no metabolismo, às vezes junto com emaciação. Essas condições não são causadas apenas pela falta de comida, pois doenças e outros problemas de saúde também podem provocar ou piorar a subnutrição grave.[28]
Crescimento, desenvolvimento e aprendizagem
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Quando uma criança passa muito tempo sem receber alimentação suficiente, seu crescimento pode ficar abaixo do esperado, sobretudo se a falta de nutrientes ocorrer junto com infecções frequentes e outras dificuldades. A emaciação costuma estar ligada a uma perda de peso recente ou intensa, enquanto o atraso de crescimento se desenvolve ao longo de um período maior. Crianças com atraso de crescimento têm maior risco de adoecer e podem apresentar dificuldades no desenvolvimento mental, na aprendizagem e no desempenho escolar.[30]
Uma revisão de 30 estudos realizados em países de renda baixa e média encontrou, de forma consistente, pior desenvolvimento neurológico e pior desempenho escolar entre pessoas que haviam sofrido desnutrição na infância. A maior parte dos estudos sobre cognição, que envolve capacidades como memória, atenção e raciocínio, também encontrou resultados piores entre os grupos que haviam passado por desnutrição. Ainda assim, fatores como renda familiar, escolaridade dos pais e doenças também afetam o desenvolvimento, o que torna difícil medir separadamente o efeito da alimentação em todos os casos. Os estudos sobre saúde mental depois da desnutrição infantil eram menos numerosos e chegaram a resultados menos uniformes.[31]
As estimativas conjuntas do UNICEF, da OMS e do Banco Mundial para 2024 apontaram 150,2 milhões de crianças menores de cinco anos com atraso de crescimento e 42,8 milhões com emaciação, das quais 12,2 milhões tinham emaciação grave. Esses números medem formas de desnutrição infantil e não correspondem diretamente à estimativa de fome usada pela FAO.[32]
Gestação e efeitos entre gerações
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Durante a gestação, o organismo materno passa a precisar de mais energia e nutrientes, e uma alimentação insuficiente, somada a doenças ou a outras condições que dificultem a ingestão e o aproveitamento dos nutrientes, pode levar à subnutrição materna. Essa condição aumenta o risco de o feto crescer menos do que o esperado e de o bebê nascer com baixo peso. Bebês que nascem com baixo peso têm maior risco de adoecer ou morrer no período neonatal e também de apresentar atraso de crescimento durante a infância.[33][34]
Em estudos que acompanharam grupos de pessoas por décadas no Brasil, Guatemala, Índia, Filipinas e África do Sul, quem sofreu subnutrição ainda no útero ou nos primeiros anos de vida apresentou, na idade adulta, menor estatura, menos anos de estudo e menor produtividade econômica. Entre as mulheres que haviam sofrido subnutrição no começo da vida, os filhos também tenderam a nascer com menor peso.[35] Essa passagem dos efeitos da subnutrição de uma geração para outra não é inevitável, pois melhores condições de alimentação, cuidado e saúde materna e infantil podem interromper esse ciclo.[36]
Saúde mental e bem-estar
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Os estudos sobre os efeitos psicológicos da falta de alimentos costumam usar medidas de insegurança alimentar, e não a estimativa de subalimentação da FAO. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024, que reuniu resultados de vários estudos, encontrou mais sofrimento psicológico, sintomas de ansiedade e depressão e problemas de sono entre pessoas em insegurança alimentar. Como a maioria dos estudos observou as pessoas em apenas um momento, não é possível afirmar que a falta de alimentos tenha causado sozinha todos esses problemas. A relação também pode ocorrer no sentido contrário, pois problemas de saúde mental podem dificultar o trabalho, reduzir a renda e tornar mais difícil conseguir comida.[37]
Quando a falta de alimentos se torna muito grave, a deterioração física também pode provocar apatia, irritabilidade, dificuldade de concentração e alterações da consciência. Esses sinais não significam necessariamente que a pessoa tenha um transtorno mental, pois podem surgir junto com fraqueza, perda de peso e outros efeitos da subnutrição grave sobre o organismo.[28]
Educação, trabalho e renda
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Quando a subnutrição ocorre nos primeiros anos de vida, seus efeitos sobre o desenvolvimento, a aprendizagem e a capacidade física podem acompanhar a pessoa por muitos anos. Estudos realizados em cinco países encontraram uma relação entre crescimento insuficiente nos primeiros dois anos de vida, menos anos de escolaridade e menor produtividade econômica na idade adulta.[35] Uma revisão mais recente sobre desnutrição infantil encontrou resultados semelhantes para o desenvolvimento neurológico e o desempenho escolar.[31]
Um estudo realizado na Guatemala acompanhou adultos que, quando crianças, haviam participado de um programa de suplementação nutricional entre 1969 e 1977. Entre os homens que receberam o suplemento mais nutritivo dos zero aos dois anos de idade, o salário por hora na vida adulta foi 46% maior do que no grupo usado para comparação. Esse resultado veio de uma intervenção específica e não significa que o mesmo efeito ocorreria em todos os países, mas mostrou que uma melhora na nutrição durante os primeiros anos de vida pode ter consequências econômicas muitas décadas depois.[38]
Quando um adulto sofre de subnutrição grave, os efeitos sobre sua capacidade de trabalhar podem surgir rapidamente. A perda de músculos, a fraqueza e as dificuldades físicas e de concentração diminuem a força, a resistência e a capacidade para realizar tarefas. Para famílias que dependem do trabalho diário para comprar comida, essa perda de capacidade também pode reduzir a renda e tornar ainda mais difícil conseguir alimentos suficientes.[28]
Famílias e meios de subsistência
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Quando uma família começa a ter dificuldade para conseguir comida suficiente, é comum primeiro reduzir o tamanho ou a qualidade das refeições, usar a poupança, pedir dinheiro emprestado ou procurar outras formas de ganhar renda. Se a crise se agrava, algumas famílias passam a vender ferramentas, animais e outros bens usados para trabalhar, cortam gastos com saúde, tiram crianças da escola ou vendem e hipotecam terra e moradia para conseguir comprar alimentos. O PAM acompanha esse tipo de decisão porque ela ajuda a mostrar se a família enfrenta uma dificuldade temporária ou se já está recorrendo a medidas que podem prejudicar sua capacidade de se recuperar no futuro.[39]
Essas escolhas surgem da dificuldade de conseguir alimentos e podem deixar a família ainda mais vulnerável nos meses ou anos seguintes. Vender uma ferramenta de trabalho ou um animal, por exemplo, pode garantir comida naquele momento, mas também pode reduzir a capacidade de produzir alimentos ou ganhar renda depois. A Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar leva em conta esse tipo de perda dos meios de sustento, junto com a quantidade de alimentos consumida, ao avaliar a gravidade de uma crise alimentar.[40]
Carestias
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Uma carestia ocorre quando a falta de alimentos atinge uma população de forma extrema, acompanhada de desnutrição aguda e aumento das mortes. Na classificação IPC, a "Carestia" corresponde à fase 5 aplicada a uma área. Para que essa classificação seja usada, pelo menos 20% dos domicílios precisam enfrentar falta extrema de alimentos e perda dos meios usados para sobreviver, ao menos 30% das crianças devem apresentar desnutrição aguda e a mortalidade precisa ultrapassar dois óbitos não traumáticos por 10.000 pessoas por dia.[3] Uma carestia pode surgir quando problemas como quebra de safra, guerra, deslocamento, perda de renda, interrupção dos mercados e decisões políticas se combinam e dificultam o acesso da população aos alimentos.[4]
Na Europa setentrional, a Grande Fome de 1315–1317 começou depois de anos de frio, chuvas persistentes e colheitas ruins, e seus efeitos continuaram em partes da região até 1322.[41] No Nordeste brasileiro, a Grande Seca de 1877–1879 provocou perdas nas safras, fome e deslocamentos em massa. O acesso ao socorro público também dependia das condições impostas para conseguir alimentos e trabalho.[42][43] Na Irlanda, a Grande Fome Irlandesa começou com repetidas perdas da cultura da batata causadas por Phytophthora infestans. A forte dependência desse alimento, as condições de acesso à terra e a resposta ao desastre também pesaram sobre a mortalidade e a emigração.[44]

No século XX, a Fome soviética de 1932–1933 atingiu regiões produtoras de grãos da União Soviética durante a coletivização forçada e as requisições impostas pelo Estado. Na Ucrânia, essa catástrofe é conhecida como Holodomor.[45] Durante a Segunda Guerra Mundial, a Fome de 1943 em Bengala deixou milhões de pessoas sem acesso suficiente a alimentos. A inflação causada pela guerra, a perda do poder de compra entre os grupos mais vulneráveis e falhas na política e na distribuição ajudam a explicar a crise, que não pode ser entendida apenas pela quantidade total de alimentos disponível.[46] Na China, a Fome de 1958–1961 na China ocorreu durante o Grande Salto Adiante. As exigências rígidas de entrega de grãos ao Estado e a dificuldade do sistema de planejamento para ajustar essas exigências quando a produção local mudava aumentaram a mortalidade.[47]
Desde o começo do século XXI, a classificação IPC passou a oferecer critérios comuns para avaliar e declarar carestias em crises recentes. Em 2025, a IPC confirmou a existência de carestia na Governadoria de Gaza e em partes do Sudão, em meio a guerras, restrições à chegada de ajuda humanitária e grandes deslocamentos de população.[23]
Prevalência e tendências
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A FAO, o FIDA, o UNICEF, o PAM e a OMS publicam todos os anos o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI), que reúne dados mundiais sobre fome, segurança alimentar e nutrição. A edição de 2026 concentrou-se especialmente no custo e no acesso a dietas saudáveis.[6] Entre os indicadores usados está a PoU, que estima a falta habitual de energia alimentar em grupos da população. Ela não permite diagnosticar indivíduos, não mede diretamente a falta de vitaminas ou minerais e não é adequada para acompanhar mudanças muito rápidas. Por isso, seus resultados são analisados junto com outros indicadores de segurança alimentar e nutrição.[8][13]
Mundo
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Depois de aumentar no começo da década de 2020, a fome mundial caiu por três anos seguidos até 2025, embora a melhora tenha ocorrido em ritmos diferentes entre as regiões. Na África, a parcela da população subalimentada caiu de 20,3% em 2024 para 20,0% em 2025, a primeira redução em quase uma década. Mesmo com essa melhora, o SOFI 2026 projeta que entre 510 e 520 milhões de pessoas ainda estarão subalimentadas em 2030, das quais 56% viverão na África.[6][49]
Mesmo quando uma pessoa consome calorias suficientes, pagar por uma alimentação equilibrada e nutritiva pode continuar fora de seu alcance. O SOFI 2026 estimou que 2,69 bilhões de pessoas, ou 32,7% da população mundial, não tinham renda suficiente para pagar uma dieta saudável em 2025.[50] O custo de uma dieta saudável é calculado a partir do valor mínimo necessário para comprar, entre os alimentos disponíveis localmente, uma combinação que atenda às necessidades de uma alimentação equilibrada. Para saber se essa dieta é acessível, o cálculo considera a renda das pessoas e também as despesas básicas que não podem ser gastas com alimentação.[51]
| Ano | 2005 | 2010 | 2015 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Número de pessoas subalimentadas no mundo, em milhões[6] | 788,8 | 611,2 | 594,8 | 583,7 | 663,3 | 686,1 | 687,6 | 686,4 | 658,8 | 645,0 |
| Percentual da população mundial subalimentada[6] | 12,0% | 8,7% | 8,0% | 7,5% | 8,4% | 8,6% | 8,6% | 8,5% | 8,1% | 7,8% |

Além da PoU, o Índice Global da Fome (IGF) procura acompanhar a fome reunindo quatro indicadores: a prevalência de subalimentação, a proporção de crianças menores de cinco anos com atraso de crescimento, a proporção com emaciação e a mortalidade antes dos cinco anos. O índice reúne informações sobre falta de energia alimentar e desnutrição, mas não mede diretamente o consumo de micronutrientes.[52] Na edição de 2025, 136 países atenderam aos critérios de inclusão e 123 receberam uma pontuação completa. O índice mundial caiu de 19,0 em 2016 para 18,3 em 2025. Para permitir comparações corretas, os valores de 2000, 2008 e 2016 foram recalculados usando os dados disponíveis na edição de 2025, já que as séries estatísticas podem ser revistas de uma edição para outra.[53][52]

As diferenças entre as regiões eram grandes em 2025. A fome atingia cerca de 309 milhões de pessoas na África, 292 milhões na Ásia e 32 milhões na América Latina e no Caribe, equivalentes a 20,0%, 6,0% e 4,8% das populações dessas regiões. Pelas estimativas da FAO, a África passou a concentrar o maior número regional de pessoas em fome crônica.[6]

Para acompanhar crises que surgem ou se agravam rapidamente, são usados outros indicadores, porque a insegurança alimentar aguda não mede a mesma coisa que a PoU. O Global Report on Food Crises 2026 estimou que 266 milhões de pessoas em 47 países ou territórios enfrentaram níveis elevados de insegurança alimentar aguda em 2025, quase 23% de toda a população analisada nesses locais.[16] O número foi menor que o apresentado na edição anterior, mas isso ocorreu principalmente porque havia menos dados disponíveis e menos países ou territórios puderam ser incluídos na análise. A queda, portanto, não correspondeu a uma melhora do mesmo tamanho nas crises alimentares.[23]
Brasil
[editar | editar código]Os dados brasileiros também mostram mudanças consideráveis ao longo das últimas décadas. Em 2009, o IBGE estimou que 11,2 milhões de brasileiros, ou 5,8% da população, viviam em domicílios com insegurança alimentar grave.[55] Em 2013, a FAO incluiu o Brasil entre 38 países que haviam alcançado antes de 2015 a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas com fome, tomando como referência a comparação entre os períodos de 1990-1992 e 2010-2012.[56]

Depois de sair do Mapa da Fome em 2014, o Brasil voltou a aparecer nele quando a prevalência de subalimentação alcançou 4,1% no período de 2019-2021, o equivalente a cerca de 8,6 milhões de pessoas.[57] No período de 2022-2024, a média voltou a ficar abaixo de 2,5%, limite usado para a inclusão no mapa, e a média de 2023-2025 manteve o país fora dele.[58][59]

A insegurança alimentar grave medida pela FAO também caiu nos anos seguintes, chegando a 0,6% no período de 2023-2025, depois de 6,6% em 2021-2023 e 3,4% em 2022-2024. Entre 2021-2023 e 2023-2025, 16,7 milhões de pessoas deixaram essa condição. No período encerrado em 2025, a parcela da população sem renda suficiente para pagar uma dieta saudável caiu para 21,1%.[59]
Os dados da PNAD Contínua medem o problema de outra forma, por meio de pesquisas feitas diretamente com os domicílios, e por isso não são equivalentes à prevalência de subalimentação calculada pela FAO. Em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros apresentavam algum grau de insegurança alimentar, ante 27,6% em 2023. A forma grave caiu de 4,1% para 3,2% no mesmo período. Mesmo com essa melhora, 18,9 milhões de domicílios ainda conviviam com algum grau de insegurança alimentar em 2024.[60]
Desigualdades e grupos populacionais
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Como a prevalência de subalimentação da FAO foi criada para medir a situação de grandes grupos da população, ela não permite saber quais pessoas específicas estão subalimentadas. Para entender diferenças relacionadas a gênero, idade, local de residência ou deslocamento forçado, pesquisadores recorrem a pesquisas domiciliares, à Food Insecurity Experience Scale e a outros indicadores. Essas medidas observam aspectos diferentes do problema e não podem ser comparadas diretamente com a PoU.[13][11]
Gênero
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Em todas as regiões do mundo, a insegurança alimentar moderada ou grave é mais frequente entre mulheres adultas do que entre homens. Em 2024, ela atingia 26,1% das mulheres com 15 anos ou mais e 24,2% dos homens, o que correspondia a 63,4 milhões de mulheres a mais nessa situação. A diferença diminuiu em 2025, mas continuou existindo.[61][6] Diferenças de renda, escolaridade e participação no trabalho remunerado ajudam a explicar parte dessa desigualdade, mas não toda.[62]
No Brasil, a PNAD Contínua de 2024 encontrou algum grau de insegurança alimentar em 27,9% dos domicílios cuja pessoa responsável era mulher, contra 20,1% daqueles em que o responsável era homem. A insegurança alimentar grave atingia 3,6% dos domicílios com responsável mulher e 2,8% daqueles com responsável homem. Esses números classificam cada domicílio pelo sexo da pessoa responsável e, por isso, não mostram a experiência individual de cada pessoa que vive nele.[63]
Em Portugal, o estudo nacional EpiDoC3 acompanhou dados de 5.648 adultos que viviam fora de instituições em 2015 e 2016 e estimou insegurança alimentar em 23,5% das mulheres e 14,7% dos homens. Nos níveis moderado ou grave, os percentuais eram de 6,3% entre as mulheres e 4,1% entre os homens. Os resultados foram ajustados para representar a população adulta portuguesa.[64]
Nos Estados Unidos, a diferença também aparecia entre famílias com crianças e apenas um adulto responsável pelo domicílio. Em 2024, 36,8% dos domicílios chefiados por uma mulher sem cônjuge estavam em insegurança alimentar, ante 23,8% daqueles chefiados por um homem sem cônjuge.[65]
Idade
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As comparações entre faixas etárias dependem da maneira como cada pesquisa mede a insegurança alimentar. Em muitos levantamentos domiciliares, a situação é atribuída à casa inteira e não separadamente a cada morador. Os dados abaixo tratam principalmente de domicílios onde vivem pessoas idosas e, por isso, não devem ser interpretados como uma taxa individual de fome entre idosos.[13][66]
Brasil
[editar | editar código]Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2024, 78,2% dos domicílios brasileiros com pelo menos um morador de 60 anos ou mais estavam em segurança alimentar. Entre os demais, 14,6% apresentavam insegurança alimentar leve, 4,3% moderada e 2,9% grave. Somadas essas três categorias, 21,8% dos domicílios com moradores dessa faixa etária tinham algum grau de insegurança alimentar, abaixo dos 24,2% encontrados no conjunto de todos os domicílios brasileiros.[66]
Entre 2023 e 2024, a parcela de domicílios com ao menos um morador de 60 anos ou mais em segurança alimentar subiu de 76,3% para 78,2%, enquanto a insegurança alimentar grave caiu de 3,6% para 2,9%. Como a pesquisa classifica o domicílio inteiro, esses percentuais não correspondem diretamente à proporção de pessoas idosas que passaram individualmente por falta de alimentos.[66]
Portugal
[editar | editar código]Em Portugal, dados de 2015 e 2016 apontaram insegurança alimentar em 20,9% dos agregados familiares com pessoas idosas, ante 19,3% no conjunto dos agregados do país.[67] Outro estudo, realizado com 1.885 pessoas de 65 anos ou mais que viviam na comunidade, estimou que 23% moravam em agregados com insegurança alimentar. Renda baixa, menor escolaridade e grande dificuldade para viver com o dinheiro disponível estavam entre os fatores associados a essa situação.[68] Como os dois estudos observaram grupos diferentes, um considerando a composição do agregado familiar e o outro pessoas com 65 anos ou mais, seus percentuais não formam uma sequência histórica diretamente comparável.
Estados Unidos
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Nos Estados Unidos, 9,9% dos domicílios com pelo menos uma pessoa de 65 anos ou mais enfrentavam insegurança alimentar em 2024. Entre os domicílios em que uma pessoa dessa idade vivia sozinha, a proporção chegava a 11,3%.[65]
Para pessoas idosas, conseguir alimentos suficientes pode depender de condições físicas além da renda disponível. Uma análise do NHANES de 2013 a 2018 encontrou dificuldade para comprar ou preparar alimentos em 25,0% dos adultos com 60 anos ou mais que não viviam em domicílios classificados como economicamente inseguros. Entre aqueles que enfrentavam ao mesmo tempo dificuldades econômicas e físicas para conseguir comida, a qualidade média da alimentação era menor e os sintomas de depressão eram mais frequentes.[69] Outra análise do NHANES também encontrou uma relação entre diferentes níveis de insegurança alimentar e sintomas de depressão considerados clinicamente relevantes entre adultos de 60 anos ou mais.[70]
Quando a mobilidade é limitada, uma pessoa idosa também pode ter dificuldade para chegar a supermercados ou a programas de distribuição de alimentos que exigem deslocamento até um ponto de atendimento.[71]
Para famílias de baixa renda, o Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP) oferece benefícios destinados a complementar o orçamento usado na compra de alimentos. O programa ajuda principalmente com a dificuldade econômica, enquanto pessoas que não conseguem fazer compras ou preparar comida podem precisar de outros tipos de apoio.[72][69]

Canadá
[editar | editar código]Nas províncias do Canadá, 25,5% das pessoas viviam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar em 2023. A proporção era menor entre grupos mais velhos: 12,6% entre pessoas de famílias nas quais quem tinha a maior renda possuía 65 anos ou mais, 8,7% entre casais idosos e 14,3% entre idosos que não faziam parte de uma família econômica. A pesquisa divulga separadamente os dados dos territórios canadenses, que não estão incluídos nessas estimativas.[73]
Reino Unido
[editar | editar código]No Reino Unido, a Family Resources Survey de 2024-2025 encontrou maior segurança alimentar nos domicílios cuja pessoa de referência tinha 65 anos ou mais do que naqueles chefiados por pessoas mais jovens. O uso de bancos de alimentos também foi mais frequente entre as faixas etárias mais jovens. Como a pesquisa classifica cada domicílio pela idade de sua pessoa de referência, esses resultados não mostram separadamente a experiência alimentar de todos os moradores.[74]
Área de residência
[editar | editar código]Em escala mundial, a insegurança alimentar moderada ou grave continuou mais frequente nas áreas rurais do que nas áreas periurbanas em 2025, enquanto as áreas urbanas apresentaram a menor proporção.[75] Diferenças na quantidade de alimentos disponível, no poder de compra e no acesso a serviços ajudam a explicar esse quadro, embora a relação entre local de residência e insegurança alimentar varie de uma região para outra.[76]
Deslocamento forçado
[editar | editar código]Nos países e territórios analisados pelo Global Report on Food Crises 2026, mais de 85 milhões de pessoas estavam deslocadas à força. Em muitos desses locais, pessoas obrigadas a deixar suas casas enfrentavam insegurança alimentar aguda com maior frequência do que as comunidades que as receberam.[23]
Combate à fome
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Estratégias, direitos e metas
[editar | editar código]A resposta à fome pode combinar distribuição de alimentos, transferências em dinheiro ou vales, alimentação escolar, tratamento e prevenção da desnutrição, proteção social, apoio a pequenos produtores e medidas para proteger meios de subsistência. A combinação depende do tipo de crise e das condições locais.[77][78][79]
A fome também é tratada pelo direito internacional. O artigo 11 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais reconhece o direito de toda pessoa a um padrão de vida adequado, incluindo alimentação adequada, e o direito fundamental de estar livre da fome. O Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais entende que o direito à alimentação adequada exige acesso físico e econômico contínuo a alimentos adequados ou aos meios para obtê-los.[80]
Em 2004, o Conselho da FAO adotou diretrizes voluntárias para orientar governos na realização progressiva desse direito. Elas tratam de temas como legislação, acesso a recursos, mercados, nutrição, redes de proteção, ajuda alimentar, desastres e monitoramento.[81]

O ODS 2 reúne metas para 2030 relacionadas a fome, segurança alimentar, nutrição e agricultura sustentável. A meta 2.1 busca acabar com a fome e garantir a todas as pessoas acesso durante todo o ano a alimentos seguros, nutritivos e suficientes. Outras metas tratam de desnutrição, produtividade e renda de pequenos produtores, sistemas agrícolas resilientes, diversidade genética, investimentos, comércio e volatilidade de preços.[7]
Tecnologia e inovação
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Muito antes da agricultura industrial, comunidades agrícolas criaram maneiras de reduzir o risco entre uma colheita e outra. Sistemas de irrigação baseados em águas superficiais, águas subterrâneas e captação de chuva permitiam cultivar em áreas de baixa precipitação ou atravessar estações secas. A secagem e o armazenamento de cereais, em estruturas adaptadas ao clima e às culturas locais, prolongavam a conservação de parte da safra e das sementes. Essas técnicas podiam diminuir perdas e faltas sazonais, mas não garantiam que os estoques chegassem a todas as pessoas quando havia guerra, perda de renda ou colheitas sucessivamente ruins.[82][83][4]
A partir dos séculos XIX e XX, bombas, motores, tratores, colheitadeiras e máquinas de processamento ampliaram a escala de produção e reduziram parte do trabalho manual no campo. Em 1908, Fritz Haber patenteou a síntese de amônia, depois levada à escala industrial por Carl Bosch. A síntese de Haber-Bosch tornou possível fabricar fertilizantes nitrogenados em grande escala. A mecanização elevou a produtividade em muitos sistemas agrícolas, embora máquinas, energia, crédito e infraestrutura não estivessem igualmente disponíveis e alguns modelos de mecanização trouxessem custos ambientais.[84][85]
Nas décadas de 1960 e 1970, a Revolução Verde reuniu variedades de trigo e arroz de alto rendimento, irrigação, fertilizantes, controle de pragas e pesquisa agronômica. A produção de cereais cresceu onde essas técnicas foram amplamente adotadas, mas os ganhos foram desiguais entre regiões e vieram acompanhados de custos ambientais e sociais em alguns sistemas agrícolas.[86] A tecnologia também passou a atuar sobre o valor nutricional dos alimentos. A fortificação industrial acrescenta vitaminas e minerais a produtos consumidos em larga escala. A biofortificação procura elevar o teor de nutrientes na planta durante o crescimento por manejo agronômico, melhoramento convencional ou biotecnologia. A OMS aponta essa abordagem como uma possibilidade para alcançar populações em locais onde a suplementação e a fortificação convencional são difíceis de implementar, embora ainda considere necessária mais pesquisa antes de formular recomendações específicas.[87]
Depois da crise alimentar mundial do início da década de 1970, a FAO criou o Global Information and Early Warning System on Food and Agriculture, o GIEWS, para acompanhar oferta, demanda e riscos de escassez. O sistema passou a combinar informações de campo com preços, estimativas de chuva, imagens de satélite e índices de vegetação. O Agricultural Stress Index System, disponibilizado globalmente em 2014, permite localizar rapidamente áreas agrícolas provavelmente afetadas por períodos secos ou por seca.[88][89]
Na agricultura de precisão, dados, tecnologias digitais e automação são usados para ajustar operações agrícolas às condições encontradas dentro de uma propriedade. Em abril de 2026, o PAM lançou uma nova versão do HungerMap Live, que integra dados de segurança alimentar com modelagem preditiva e previsões assistidas por inteligência artificial para apoiar alertas e decisões humanitárias.[90][91]
Entre as linhas em desenvolvimento para os próximos anos estão a robótica agrícola, novas aplicações de inteligência artificial e a edição de genoma. A FAO avalia que a edição de genoma pode reduzir o tempo de melhoramento e produzir variedades com resistência a doenças, pragas e estresses abióticos, ou com composição nutricional modificada. Seu uso envolve questões de segurança, regulação, propriedade intelectual, custo e acesso pelos produtores. A automação digital enfrenta barreiras semelhantes, entre elas conectividade, eletricidade, capacitação e investimento. A tecnologia pode ampliar a oferta, reduzir perdas ou antecipar uma crise, mas não substitui renda, transporte, mercados funcionais e acesso físico aos alimentos quando esses fatores falham.[92][85][4]
História
[editar | editar código]Antes da Segunda Guerra Mundial
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Ao longo do tempo, a responsabilidade por alimentar pessoas em situação de necessidade foi assumida por famílias, comunidades, instituições religiosas, organizações beneficentes e governos. Na Grã-Bretanha do século XIX, os debates sobre a assistência aos pobres e sobre a Grande Fome Irlandesa colocaram frente a frente a ideia de que a sociedade tinha um dever de ajudar e as posições de laissez-faire, que defendiam menor intervenção do Estado.[93]
Na Grã-Bretanha anterior ao século XX, homens, mulheres e crianças que passavam fome também eram vistos de maneiras diferentes nas campanhas de socorro. James Vernon escreveu que mulheres e crianças famintas costumavam despertar compaixão, enquanto homens que não conseguiam sustentar a si mesmos e suas famílias eram muitas vezes tratados com desprezo.[93]

Depois da Primeira Guerra Mundial, o grande número de ex-combatentes desempregados tornou mais difícil sustentar a ideia de que homens que passavam fome eram necessariamente culpados pela própria situação. Vernon também relacionou o alcance da campanha de Emily Hobhouse durante a Segunda Guerra dos Bôeres ao fato de ela ser mulher, em uma época em que mulheres ligadas a causas humanitárias eram recebidas de forma diferente pela opinião pública.[93]
Ao refletir sobre as obrigações humanas diante da pobreza, a filósofa Simone Weil escreveu que alimentar uma pessoa faminta, quando há recursos para isso, está entre os deveres mais evidentes. Ela também observou que a ideia de progresso social havia sido ligada à expectativa de construir uma sociedade em que as pessoas não precisassem sofrer de fome.[94] Karl Polanyi, ao estudar sociedades anteriores à economia de mercado, explicou que a produção e a distribuição necessárias à sobrevivência podiam ser organizadas por relações de reciprocidade e redistribuição, e não apenas pela compra e venda em mercados.[95]

No fim do século XIX e no começo do XX, campanhas públicas aumentaram a pressão para que governos assumissem uma participação maior no combate à fome. Nos Estados Unidos, o tema recebeu mais atenção durante a Grande Depressão, quando havia excedentes agrícolas ao mesmo tempo que muitas famílias não tinham renda suficiente para comprar comida. Programas federais passaram então a direcionar parte desses estoques para a assistência alimentar.[93][96]
Ações após a Segunda Guerra Mundial
[editar | editar código]Depois de 1945, a fome mundial passou a receber muito mais atenção de governos, organizações internacionais e pesquisadores.[97] Nesse período foram criadas instituições que passaram a atuar de forma permanente nessa área: a FAO em 1945, o PAM em 1961 e o FIDA em 1977.[98][99][100] Seus programas abrangem áreas como alimentação e agricultura, assistência alimentar em emergências e desenvolvimento rural.[77][78][79]


Entre as décadas de 1960 e 1980, a Revolução Verde levou variedades agrícolas de maior rendimento, irrigação, pesquisa e novos insumos a muitas regiões do mundo em desenvolvimento. A produção de cereais aumentou fortemente em vários países, embora os benefícios tenham sido desiguais e alguns sistemas agrícolas tenham enfrentado custos ambientais e sociais.[86]
A partir da década de 1980, programas de ajuste estrutural ligados ao FMI, ao Banco Mundial e a bancos regionais passaram a exigir mudanças nos gastos e nas políticas econômicas de muitos países de baixa e média renda. Uma revisão publicada em 2017, baseada em 13 estudos, encontrou principalmente efeitos negativos sobre a saúde de mães e crianças. Entre as possíveis explicações estavam a redução da renda, dificuldades no acesso a alimentos e limitações no acesso aos serviços de saúde.[102]
Em 1998, Amartya Sen recebeu o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel por seus trabalhos na economia do bem-estar. Seus estudos sobre carestias, especialmente Poverty and Famines: An Essay on Entitlement and Deprivation, mostraram que uma população pode passar fome mesmo quando a quantidade total de alimentos disponível não cai o suficiente para explicar a crise. Isso pode acontecer quando determinados grupos perdem renda, emprego ou outros meios de conseguir comida.[103]
No Brasil, o Fome Zero começou a ser executado em 2003 reunindo ajuda imediata para o acesso a alimentos com políticas de renda, agricultura familiar e segurança alimentar. O programa incluía transferências de renda, que depois foram integradas ao Bolsa Família, compras públicas de alimentos produzidos pela agricultura familiar e ampliação da alimentação escolar.[104]
Durante a crise internacional de alimentos de 2007 e 2008, os preços subiram em muitos países de baixa renda, reduzindo o poder de compra das famílias e contribuindo para protestos e distúrbios em diferentes lugares. Depois dessa crise, a FAO ampliou o acompanhamento dos preços dos alimentos para identificar mais rapidamente mudanças que pudessem ameaçar a segurança alimentar.[105]
Da crise alimentar de 2008 ao fim da década de 2010
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Na 35.ª reunião de cúpula do G8, em Áquila, os participantes lançaram em 2009 a L'Aquila Food Security Initiative. Os doadores haviam mobilizado mais de 22 bilhões de dólares para segurança alimentar quando terminou, em dezembro de 2012, o período de três anos dos compromissos financeiros.[106]

Durante a presidência mexicana do G20, em 2012, a segurança alimentar permaneceu na agenda do grupo, que colocou entre suas prioridades a redução da diferença de produtividade entre pequenos agricultores e grandes produtores.[107]
Adotada em Londres em 25 de abril de 2012 e em vigor desde 1.º de janeiro de 2013, a Convenção de Assistência Alimentar tinha 16 partes em setembro de 2026.[108] O tratado sucedeu acordos anteriores de ajuda alimentar e permite que os compromissos sejam cumpridos por diferentes formas de assistência, entre elas o fornecimento de alimentos, dinheiro e vales.[109]
Também em 2012, o G8 lançou, em maio, a New Alliance for Food Security and Nutrition, que tinha como meta anunciada retirar 50 milhões de pessoas da pobreza ao longo de dez anos por meio de investimentos em agricultura e segurança alimentar.[110]

Durante os Jogos Olímpicos de Verão de 2012, o Reino Unido reuniu governos e organizações em uma cúpula contra a fome realizada em 12 de agosto.[111] Naquele mesmo ano, uma forte seca nos Estados Unidos pressionou os mercados agrícolas. Em julho, o índice de preços dos alimentos da FAO subiu 6%, enquanto o preço internacional do milho aumentou cerca de 23%.[112]
Na Europa, o período posterior a 2009 também trouxe um aumento da insegurança alimentar. Um estudo realizado em 21 países europeus entre 2004 e 2012 encontrou uma relação entre o crescimento do desemprego, a queda dos salários e o aumento da insegurança alimentar. Essa relação foi menos acentuada nos países que destinavam mais recursos à proteção social.[113]
Em junho de 2013, a reunião Nutrition for Growth, organizada pelo Reino Unido em conjunto com o governo do Brasil e a Children's Investment Fund Foundation, reuniu compromissos de até 2,7 bilhões de libras, cerca de 4,15 bilhões de dólares, destinados a ações contra a subnutrição até 2020.[114]
Depois de anos de queda, os dados da ONU voltaram a mostrar crescimento da fome na segunda metade da década de 2010.[115] A edição de 2019 de The State of Food and Agriculture examinou como as perdas e o desperdício de alimentos se relacionam com a segurança alimentar. Reduzir essas perdas pode aumentar a quantidade de alimentos disponível e facilitar o acesso, mas os resultados variam conforme o ponto da cadeia de abastecimento em que a redução ocorre, o tipo de alimento e quem recebe seus benefícios.[116]
Década de 2020
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Nos primeiros meses da pandemia de COVID-19, o PAM projetou, em abril de 2020, que seus efeitos econômicos poderiam elevar de 135 milhões em 2019 para 265 milhões, até o fim daquele ano, o número de pessoas em situação de crise ou em níveis ainda mais graves de insegurança alimentar aguda, caso não houvesse uma resposta rápida. Tratava-se de uma projeção, e não de uma contagem das pessoas que efetivamente se encontravam nessas condições no fim de 2020.[117] A série revista no SOFI 2026 estimou 687,6 milhões de pessoas subalimentadas em 2022, ante 583,7 milhões em 2019, uma diferença de cerca de 104 milhões.[6]
Em Portugal, o Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas ampliou sua capacidade mensal de distribuição de alimentos durante a pandemia, passando de cerca de 60 mil pessoas atendidas em abril para 120 mil em julho de 2020.[118] Em 2024, o governo anunciou que o cabaz alimentar seria substituído por um Cartão Social destinado a beneficiários selecionados pelas instituições locais, com cobertura potencial de 120 mil pessoas. Com o cartão, os beneficiários passaram a poder escolher os alimentos adquiridos com o apoio.[119]
A invasão da Ucrânia em 2022 interrompeu fluxos de exportação e aumentou a incerteza nos mercados de alimentos e fertilizantes, já que Rússia e Ucrânia respondiam por parcelas elevadas do comércio internacional de produtos agrícolas.[120]

No Brasil, o governo lançou em agosto de 2023 o Plano Brasil Sem Fome, reunindo 80 ações de 24 ministérios em três eixos voltados à renda e à redução da pobreza, à alimentação adequada da produção ao consumo e à mobilização contra a fome.[121] Em novembro de 2024, durante a presidência brasileira do G20, foi lançada a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, apoiada por um mecanismo sediado na FAO que busca aproximar países e parceiros de instrumentos de política pública, conhecimento e financiamento.[122]
Nos Estados Unidos, a administração do presidente Donald Trump determinou, em 20 de janeiro de 2025, uma pausa e uma revisão da assistência externa do país. Uma dispensa emitida em 28 de janeiro permitiu que a assistência humanitária considerada vital continuasse durante o processo de revisão.[123] Em março, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou que 83% dos programas administrados pela USAID seriam encerrados e que os programas restantes passariam para a administração do Departamento de Estado.[124] Em 1.º de julho, os programas de assistência alimentar que ainda permaneciam sob administração da agência foram transferidos para o Departamento de Estado.[125] O financiamento registrado pelo PAM como proveniente dos Estados Unidos caiu de US$ 4,45 bilhões em 2024 para US$ 2,07 bilhões em 2025, uma redução de cerca de 54%, embora o país ainda fosse o maior doador da organização.[126][127] No mesmo intervalo, o total de recursos recebidos pelo PAM caiu cerca de 33%, e uma análise publicada em julho de 2025 estimou que a falta de financiamento poderia deixar até 16,7 milhões de pessoas sem assistência alimentar emergencial.[128]
Organizações e iniciativas
[editar | editar código]Internacionais e regionais
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A ONU atua por meio de organismos com funções diferentes. A FAO trabalha com governos em políticas e sistemas agroalimentares. O PAM reúne assistência emergencial, nutrição e ações de resiliência. O FIDA financia projetos de desenvolvimento rural por empréstimos e doações. UNICEF e OMS mantêm programas e orientações de nutrição materna e infantil.[77][78][79][129][130]
Na África, a União Africana adotou em janeiro de 2025 a Estratégia e Plano de Ação CAADP de Kampala para 2026-2035 e lançou a implementação em maio. A própria organização informou que nenhum país estava no caminho para cumprir todas as metas de Malabo previstas para 2025. O novo plano tem entre seus objetivos ampliar a segurança alimentar e nutricional e fortalecer a resiliência dos sistemas agroalimentares.[131]
Brasil
[editar | editar código]A Rede Brasileira de Bancos de Alimentos (RBBA), coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, reúne bancos públicos, unidades do Sesc Mesa Brasil, organizações da sociedade civil e bancos instalados em centrais de abastecimento. Criada pela Portaria nº 17, de 14 de abril de 2017, e restabelecida pelo Decreto nº 12.512, de 12 de junho de 2025, a rede tinha 208 bancos integrantes em setembro de 2026. Em 2024, seus integrantes arrecadaram mais de 72,9 mil toneladas de alimentos.[132]
O Sesc Mesa Brasil recolhe excedentes de empresas parceiras e os encaminha a instituições socioassistenciais cadastradas. O programa atua em todos os estados e no Distrito Federal e informou ter distribuído 57,6 milhões de kg entre alimentos e outras doações em 2025, com 2,7 milhões de pessoas atendidas por mês.[133]
Portugal
[editar | editar código]A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome coordena bancos que recolhem produtos alimentares e os encaminham gratuitamente a instituições que preparam refeições ou distribuem cestas de alimentos. Em setembro de 2026, a federação reunia 21 bancos em Portugal continental e nas ilhas, e informava que a distribuição por instituições parceiras alcançava mais de 390 mil pessoas.[134][135]
A associação REFOOD mantém uma rede de núcleos locais que recolhem excedentes alimentares e os redistribuem dentro das comunidades. Em setembro de 2026, havia mais de 60 núcleos em funcionamento no país.[136]
Estados Unidos e Reino Unido
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Nos Estados Unidos, a Feeding America reúne mais de 250 bancos alimentares e 60 mil programas de refeições. Os bancos da rede recebem, armazenam e encaminham alimentos a despensas e programas locais que atendem diretamente as comunidades.[137] No Reino Unido, a rede Trussell distribuiu mais de 2,6 milhões de pacotes emergenciais de alimentos em 1.671 locais em 2025.[138] A House of Commons Library registrou pelo menos 1.172 bancos alimentares independentes no país naquele ano.[139]
Iniciativas locais e comunitárias
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Banco alimentar
Um banco alimentar recolhe, armazena ou distribui alimentos para pessoas que não conseguem comprá-los em quantidade suficiente. Os modelos variam muito entre países e organizações. Uma tipologia publicada em 2026, baseada em entrevistas com provedores de assistência alimentar de países de alta renda, agrupou os serviços em pacotes de alimentos, vales, refeições, despensas, minimercados, supermercados sociais e alternativas de alimentos a preços reduzidos. Uma mesma organização pode operar mais de um modelo.[140] Na rede Feeding America, os bancos funcionam principalmente como centros de coleta, armazenamento e distribuição para despensas e programas de refeições locais.[137]
Cozinha comunitária

Uma cozinha comunitária oferece refeições prontas à população. No Brasil, a legislação federal define essas cozinhas como equipamentos públicos de segurança alimentar que fornecem refeições adequadas e saudáveis gratuitamente ou a baixo custo, com prioridade para pessoas em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar.[141] Serviços de refeições aparecem entre os modelos de assistência alimentar usados por organizações comunitárias e podem funcionar junto de despensas, pacotes de alimentos ou outras formas de apoio.[140]
Langar
Na tradição sikh do Langar, gurdwaras mantêm cozinhas comunitárias que oferecem refeições gratuitas a qualquer pessoa. Comer em comum expressa a igualdade entre os participantes.[142][143]
Ver também
[editar | editar código]- Inanição, estado físico causado por privação alimentar extrema
- Desnutrição, desequilíbrio ou insuficiência na ingestão de nutrientes
- Segurança alimentar, condição de acesso regular a alimentos suficientes e adequados
- Índice Global da Fome, indicador multidimensional usado para acompanhar a fome por país
- Fome Zero, programa brasileiro de combate à fome e à pobreza
- Direito humano à alimentação adequada, direito relacionado ao acesso a alimentação suficiente e digna
- Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2, meta internacional de erradicação da fome e promoção da agricultura sustentável
- Banco alimentar, organização que recolhe e distribui alimentos
- Cozinha comunitária, serviço que oferece refeições gratuitas ou de baixo custo
- Soberania alimentar, princípio relacionado ao direito dos povos de definir seus próprios sistemas alimentares
Fontes
[editar | editar código]Parte do texto deste artigo incorpora conteúdo disponibilizado sob licenças livres pelas seguintes publicações:
- The State of Food Security and Nutrition in the World 2026, Food and Agriculture Organization of the United Nations, CC BY 4.0.
- FAO, The State of Food and Agriculture 2019. Moving forward on food loss and waste reduction, In brief, p. 24, CC BY-SA 3.0.
- FAO, IFAD, UNICEF, WFP e WHO, The State of Food Security and Nutrition in the World 2024, CC BY 4.0.
- The State of Food Security and Nutrition in the World 2025, Food and Agriculture Organization of the United Nations, CC BY 4.0.
Referências
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- 1 2 3 4 Ó Gráda, Cormac (2009). Famine: A Short History. [S.l.]: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-12237-3. doi:10.2307/j.ctv1jk0jpr. Cópia arquivada em 14 de julho de 2025
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- ↑ Fieldhouse, Paul (2017). Food, Feasts, and Faith: An Encyclopedia of Food Culture in World Religions. [S.l.]: ABC-CLIO. pp. 97–102. ISBN 978-1-61069-411-7
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Leitura adicional
[editar | editar código]- Castro, Josué de (2022). Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. São Paulo: Todavia. ISBN 978-65-5692-332-1
- Campello, Tereza; Jaime, Patricia; Bortoletto, Ana Paula; Yamaoka, Marina (2023). Geografia da fome – 75 anos depois: novos e velhos dilemas. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. ISBN 978-65-88304-11-2. doi:10.11606/9786588304112. Cópia arquivada em 19 de setembro de 2026
- Campello, Tereza; Bortoletto, Ana Paula (2022). Da fome à fome: diálogos com Josué de Castro. São Paulo: Elefante. ISBN 978-85-93115-72-1. Cópia arquivada em 19 de setembro de 2026
- José Graziano da Silva (coord.) (2019). Do Fome Zero ao Zero Hunger: uma perspectiva global. [S.l.]: Food and Agriculture Organization of the United Nations. Cópia arquivada em 18 de janeiro de 2026
- Castro, Josué de (1957). Geopolítica da fome: ensaio sobre os problemas de alimentação e de população do mundo 4 ed. São Paulo: Brasiliense
- Organização Pan-Americana da Saúde (2017). Sistemas alimentares e nutrição: a experiência brasileira para enfrentar todas as formas de má nutrição. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde. ISBN 978-92-75-71969-5. Cópia arquivada em 20 de setembro de 2026
- Michelle Jurkovich. 2020. Feeding the Hungry: Advocacy and Blame in the Global Fight against Hunger. Cornell University Press.
- Wallerstein, Mitchel B. (1980). Food for War/Food for Peace: U.S. Food Aid in a Global Context. Cambridge, MA: MIT Press. ISBN 978-0-262-23106-0
Ligações externas
[editar | editar código]- FAO no Brasil, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
- ODS 2: Fome zero e agricultura sustentável, Nações Unidas no Brasil.
- Centro de Excelência contra a Fome do WFP no Brasil, Programa Mundial de Alimentos.
- SOFI 2026: dados e síntese em português, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.
- Como apoiar a Ação da Cidadania, doações, voluntariado e outras formas de participação no Brasil.
- Campanhas dos Bancos Alimentares Contra a Fome, doação de alimentos e voluntariado em Portugal.
- World Food Programme - WFP (em inglês)
- Integrated Food Security Phase Classification - IPC (em inglês)
- Global Forum on Food Security and Nutrition - FSN Forum (em inglês)



