Falar em línguas

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São Pedro fala no Pentecostes, segundo retrato de Benjamin West.

Falar em línguas ou Dom de línguas é um fenômeno religioso cristão, que deriva da narrativa contida no livro de Atos dos Apóstolos do Novo Testamento, onde, sob inspiração do Espírito Santo, os primeiros seguidores de Jesus teriam falado em Jerusalém e os estrangeiros ali presentes entenderam as preleções, cada qual em seu idioma, conforme grifado abaixo:[1]

  1. E Cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar;
  2. E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.
  3. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.
  4. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhe concedia que falassem.
  5. E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu.
  6. E, correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.
  7. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando?
  8. Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?
  9. Partos e medas, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e Capadócia, Ponto e Ásia,
  10. E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos,
  11. Cretenses e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.
  12. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?[2]

Ainda segundo o relato bíblico, os forasteiros primeiramente teriam zombado dos apóstolos, dizendo que estes estavam "cheios de mosto", isto é, bêbados. O Apóstolo Pedro então, levantando-se, procedeu a uma fala, ao final da qual quase três mil pessoas haviam se convertido.[1]

Doutrina cristã tradicional[editar | editar código-fonte]

Segundo a doutrina cristã tradicional, antes do advento do pentecostalismo e neo-pentecostalismo, foi amplamente difundida a crença que o fenômeno de falar em línguas foi restrito ao fato de Pentecostes.[3]

Segundo esse entendimento, o fenômeno de línguas narrado em Pentecostes não é o mesmo narrado em São Paulo, na primeira carta aos coríntios - sendo esse decorrente do paganismo que ainda se praticava naquela cidade da Grécia Antiga.[3]

Interpretações para o Dom de línguas[editar | editar código-fonte]

Apesar da descrição bíblica ser clara, algumas denominações religiosas confundem o chamado dom de línguas com a Glossolalia, ou mesmo com a xenoglossia. Assim, tem-se a glossolalia como a tradução para o dom de línguas em denominações como a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã, ambas de origem estadunidense e pentecostais, aspecto que enfatizam em sua teologia.[4] Já a xenoglossia, segundo estudos antropológicos feitos no Brasil, são mais raros, pois consistem em falar-se uma língua, viva ou morta, existente; O sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, por exemplo, consignou em sua pesquisa a existência de apenas um caso de xenoglossia (ou xenolalia), entre os grupos evangélicos pesquisados, apontando que a grande maioria dizia falar em "..glossolalia, isto é, um conjunto de sons pronunciados de modo rítmico, sem significação aparente."[5]

Dom de línguas na modernidade[editar | editar código-fonte]

Existem, nas modernas acepções para o "falar em línguas", três formas de manifestação nos cultos religiosos: o falar, o orar e, finalmente, o cantar em "línguas". Quanto à condição consciencial do momento diz-se que podem ser extáticos e não-extáticos, em suas variantes o orador mantendo quase sempre a consciência do quanto lhe ocorre ao redor, como em situações registradas em cultos afros e da Renovação Carismática Católica.[5]

Oliveira Júnior, estudioso da PUC, refere-se à glossolalia como a "língua dos anjos" e que, portanto, não precisa de significado outro, senão aquele contextual no qual está inserido, chamando-a, entretanto, de "glossolalia religiosa".[6] Segundo este autor o embasamento para o dom de línguas pelas denominações cristãs modernas afastam-se do conceito dos Atos dos Apóstolos, e fiam-se nas epístolas de Paulo de Tarso, notadamente com expressões que considera ligadas aos fatos narrados em Atos, tais como: "língua dos anjos" (1 Coríntios, 13,1), "palavras inefáveis ditas no paraíso" (2 Cor. 12,4), "cantos em espírito" (1 Cor. 14, 15; Efésios 5, 19), "gemidos inefáveis", dentre outras.[7]

Referências

  1. a b Bíblia Sagrada, tradução de João Ferreira de Almeida, 1969, Atos, capítulo 2
  2. Almeida, João Ferreira de (1819). Atos, Capítulo II, versículos 1-12 - Wikisource Bíblia Sagrada. Visitado em 03/05/2010.
  3. a b Pereira, Pr. Luiz Fernando. A Carta de II Coríntios confirma a solução dos problemas da Igreja em Corinto (PDF) Cap. XV. Visitado em 03/05/2010. Esse estudo baseia-se na seguinte bibliografia:
    GARDINER, Jorge E. . A Catástrofe Corintiana. IBR, 1991
    FRANKLIM, Wilson. A Ação do Espírito Santo nas Igrejas. JUERP, 2000
    TARRY, Joe E. Paulo apoiou “as Línguas” em Cristo? 1989
    LIMA, Delcyr de Souza, O Pentecoste e o dom de Línguas. 1ª Edição, JUERP
    FERREIRA, Franklin. A Igreja Cristã – Da Origem aos dias atuais. Edições Vida Plena. 2000.
    GROMACKI, Robert G. Movimento Moderno de Línguas. JUERP, 1.972
  4. Mariano, Ricardo (2004). Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal revista Estudos Avançados, vol.18 no.52 in: Scielo. Visitado em 24/04/2010.
  5. a b Maués, Raymundo Heraldo (2003). Bailando com o Senhor: técnicas corporais de culto e louvor (o êxtase e o transe como técnicas corporais) Revista de Antropologia, vol.46 no.1, São Paulo. Visitado em 24/04/2010.
  6. Oliveira Junior, Antonio Wellington de, Editora Annablume, Línguas de anjos: sobre glossolalia religiosa, 80, São Paulo: 2000. ISBN 8574191515
  7. Oliveira Júnior, op. cit., pág. 43 e seguintes - "São Paulo e o dom"
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