Isidoro de Cárax

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Isidoro de Cárax (em grego, Ισιδώρου ο Χαρακηνού; em latim Isidorus Characenus) foi um geógrafo que viveu entre o século I a.C. e o século I d.C., do qual perdura uma obra e fragmentos, e sobre o qual pouco se conhece.

O seu nome indica que era originário de Cárax, capital do reino de Caracene no Império Parto. Isidoro era grego pela sua cultura e a sua língua, embora o seu lugar de origem fosse Cárax. Também não ignorava o arameu, idioma da região.

Segundo Michael Grant[1] , Cárax encontra-se numa elevação artificial entre o Tigre e o Choaspes (atualmente rio Karkheh), no ponto onde ambos se unem perto do golfo Pérsico .[2] Plínio o Velho salienta a autoridade geográfica de Isidoro e menciona-o junto a escritores como Artemidoro de Éfeso. As citas permitem coligir uma certa notoriedade de Isidoro em geografia e topografia no mundo greco romano.

Obras[editar | editar código-fonte]

Isidoro é conhecido por ter escrito:

  • "Etapas práticas" ou "Periegese de Pártia" (Gr. Σταθμοὶ Παρθικο; Lat. Mansiones Parthicae) que talvez fosse parte de uma obra maior denominada Descrição geográfica da Partia (Gr. Παρθίας περιήτικον). Nessa obra descrevia o percurso das caravanas no seu trânsito da Síria à Índia.
  • Outra obra geográfica de caráter mais geral denominada provavelmente "Périplo pelo mundo habitado" (Gr., περίπλους τής όικουμένης), que indica as medidas das distâncias registradas.
  • Um fragmento descrevendo a pesca das pérolas no golfo Pérsico, que é citado quase literalmente por Ateneu.
  • Existem além duas referências a Isidoro no Macrobii (Gr. Μακρόβιοι; “longevidade”) supostamente escrito pelo Pseudo Luciano, que menciona dois longevos reis orientais citados por Isidoro: Artaxerxes, presumivelmente Ardacher (século I a.C.), e Goaisos, rei de Omã[3]

Etapas práticas ou Periegese de Partia[editar | editar código-fonte]

Segundo Plínio, (História Natural vi.31), Isidoro foi comissionado por Augusto para redigir uma “descrição do mundo”, coletando toda a informação necessária antes da partida do seu neto maior Caio César para a Armênia para tomar o comando na luta contra partos e árabes. Plínio refere-se ao autor como “Dionísio”, embora em outro escrito posterior (História Natural vi.141) reconheça o erro: o autor é “Isidoro”[4]

A obra seria escrita após 26 a.C. (terminus post quem), pois menciona a revolta de Tiridates II contra Fraates IV, que ocorreu nesse ano, e antes de 77 d.C. (terminus ante quem), ao publicar-se a “História Natural” de Plínio. Contudo, supõe-se que Isidoro escreveu a sua obra muitos anos antes que Plínio a mencionasse na sua.

A topografia de Isidoro tem antecessores antigos. Na sua Pérsica, descrição da rota real dos persas (obra perdida mas reconstruída pelo epítome de Fócio e pelas citas de Diodoro Sículo e Plutarco), Ctésias proveu a lista de estações desde Éfeso até Báctria, depois tomadas por Isidoro para o Roteiro dos Partos. Assim mesmo serviu-se dos bemetistas de Alexandre: Baeton, Amyntas, Filão de Quersonesso, Diognetus. Seleuco I Nicátor teria acompanhado os bemetistas nas suas explorações.[5]

Segundo a opinião compartilhada pela maioria dos autores, a fonte principal de Isidoro seria um documento de origem parta que dataria de fins do século III a.C. A origem arameia de alguns toponímicos e outras particularidades, levam a pensar que ele teve à sua disposição tais documentos, e até mesmo se serviu de relatórios verbais de comerciantes na sua cidade Spasinu Charax, ou em localidades vizinhas. Porém, não se descarta que Isidoro tenha percurso pessoalmente partes do itinerário que descreve.

Se se acredita que Isidoro partiu da Antioquia da Síria, somente após franquear o Eufrates em Osroena começariam as "Etapas práticas" propriamente ditas. O trajeto divide-se em 19 grandes regiões. Isidoro usa o Schoenus (Gr., σχοι̃νος) que equivale a 30 estádios para medir as distâncias, embora existam discrepâncias segundo os autores e regiões,variando as opiniões entre os 30 e 40 estádios.

A descrição da parte oriental do roteiro é muito mais sucinta e não apresenta as estações individualmente mas vai de uma província a outra, assinalando a distância entre ambas e dando uma informação sumária do número de cidades, povos e estações. Remete-se mormente ao roteiro usado nos tempos assírios e aquemênidas. Isto poderia explicar-se porque para as partes perdidas do texto original e fazer o epítome, recorreu a outras fontes, ou foi feito por uma pessoa diferente a quem essas zonas não lhe pareciam relevantes.

Fontes[editar | editar código-fonte]

A tradução da coleção de fragmentos atribuídos a Isidoro de Cárax foram publicados por Wilfred Harvey Schoff in 1914.[6] O texto de Etapas Práticas usado para esse volume é o de Karl Müller em Geographi Græci Minores I, pp. 244-256, Paris 1853).

Atualmente o texto baseia-se essencialmente em dois manuscritos: o Codex Parisinus 443 (106,2 - 111,9) e o Codex Parisinus 571 (17 r - 418 r), conservado na Biblioteca Nacional de França, ambos de fins do século XIII. O Codex Palatinus Graecus da Biblioteca Vaticana e o Codex Monacencis Graecus 556 (50 - 52 r) da Biblioteca Estatal de Baviera são cópias dos anteriores e remontam ao século XVI.

Depois do século XVII Isidoro de Cárax foi reimpresso muitas vezes. A edição de Müller, ricamente comentada, merece ainda ser consultada, assim como a de Fragmente der griechischen Historiker (parte 3 - Nº 781) de Jacoby, mais recente e muito crítica.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Paniagua Aguilar, David (2006), «A literatura geográfica», Universidade de Salamanca, El panorama literario técnico-científico en Roma (siglos I-II D.C.)”docere delectare”, 1ª, 160 - 161
  • Wiesehöfer, Josef (2001), I.B.Tauris, Ancient Persia, 145 - 147

Referências

  1. Grant, Michael (1986), H.W. Wilson, A Guide to the Ancient World : A Dictionary of Classical Place Names (Specialized Dictionaries), 1ª, 163 Digitalizado a 17 de Fev 2010
  2. Hill, John E. (2010). Charax Spasinu (em inglês).Tradução comentada.
  3. Roller, Duane W. (2003), Routledge, The world of Juba II and Kleopatra Selene : royal scholarship on Rome's African frontier, 216 e ss.
  4. Schmitt, Rüdiger (15 de dezembro, 2007). Isidorus of Charax (em inglês).
  5. Cary, Max e Warmington, Eric Herbert (1963), The ancient explorers, Penguin Books, 181 e ss., 195 Digitalizado a 4 de outubro 2008
  6. Isidoro de Charax (Londres, 1914). Parthian Stations (em inglês). Tradução para o inglês e comentários do texto “Etapas práticas”.