Sá de Miranda

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Francisco Sá de Miranda
Wikisource
O Wikisource possui obras de
Sá de Miranda

Francisco de Sá de Miranda (Coimbra, a 28 de agosto de 1481Amares, 15 de Março de 1558 (76 anos)) foi um poeta português, introdutor do soneto e do Dolce Stil Nuovo em nossa língua.

Francisco de Sá de Miranda nasceu em Coimbra: /da antiga e nobre cidade som natural, som amigo/, possivelmente em 28 de Agosto de 1481 (data em que D. João II subiu ao trono, dizem os biógrafos). Outros autores apontam para a data de "27 de Outubro de 1495".[1] [2] Era filho de Gonçalo Mendes, cónego da Sé de Coimbra e de Inês de Melo, solteira, nobre, e neto paterno de João Gonçalves de Crescente, cavaleiro fidalgo, e de sua mulher Filipa de Sá que viveram em São Salvador do Campo em (Barcelos) e em Coimbra, no episcopado de D. João Galvão.

Nada se sabe da vida de Sá de Miranda nos seus primeiros anos. Meras hipóteses, mais ou menos aceitáveis, nos indicam o caminho que seguira, desde o seu berço em Coimbra até à Universidade em Lisboa.

Foi nas Escolas Gerais que Sá de Miranda conheceu Bernardim Ribeiro, com quem criou estreitas relações de amizade, lealmente mantidas e fortalecidas na cultura literária, nos serões poéticos do paço real da Ribeira, na intimidade, em confidências e na comunhão de alegrias e dissabores.

Estudou Gramática, Retórica e Humanidades na Escola de Santa Cruz. Frequentou depois a Universidade, ao tempo estabelecida em Lisboa, onde fez o curso de Leis alcançando o grau de doutor em Direito, passando de aluno aplicado a professor considerado e frequentando a Corte até 1521, datando-se de então a sua amizade com Bernardim Ribeiro, para o Paço, compôs cantigas, vilancetes e esparsas, ao gosto dos poetas do século XV.

Na Corte-trovador[editar | editar código-fonte]

Se as ninfas do Mondego lhe embalaram docemente o berço e lhe deram as primeiras inspirações, o sangue dos Sá, tão rico de vida e de fulgor, e o seu parentesco com a fidalguia da corte, abriram-lhe as portas do paço da Ribeira, que era então o templo das Musas. Ali ouviu os velhos trovadores D. João de Menezes, o Pica-sino, que assistiu à tomada de Azamor (1513) e lá morreu em 15 de Maio de 1514; e D. João Manuel, camareiro-mor de el-rei.

Na carta a D. Fernando de Menezes, Sá de Miranda refere-se, com viva saudade, no seu retiro de Duas Igrejas, às festas da corte, aos velhos trovadores e aos faustosos serões.

O Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, impresso em 1516, publica treze poesias do Doutor Francisco de Sá. Seus versos à maneira dos trovadores da época já revelam o carácter do homem e a vivacidade e cultura do seu espírito. Sá de Miranda começou, imitando os poetas do Cancioneiro General de Hernan Castillo, impresso em 1511, glosando, em castelhano, os motes ou cantigas de Jorge Manrique e de Garcia Sanchez. Nunca abandonou as formas tradicionais da redondilha, antes e depois de conhecer e aceitar a escola italiana, e de introduzir em Portugal o verso decassilábico.

Viagem à Itália e Espanha[editar | editar código-fonte]

Tendo-lhe falecido o pai, em 1521 parte para Itália onde permanece até 1526. Graças a uma parente abastada, Vitória Colonna, marquesa de Pescara, pôde conviver com algumas personalidades do Renascimento tais como o italiano (Pietro Bembo, Sannazaro e Ariosto), apreciando muito a estética literária que todos os humanistas cultivavam com entusiasmo.

Regressou a Portugal em 1526. Fruto dessa viagem, trouxe para Portugal uma nova estética, introduzindo o soneto, a canção, a sextina, as composições em tercetos e em oitavas e os versos de dez sílabas.

Além de composições poéticas várias, escreveu a tragédia Cleópatra, as comédias Estrangeiros e Vilhalpandos, e algumas Cartas em verso, sendo uma delas dirigida ao rei D. João III, de quem era amigo.

Na ida, ou na volta, demorou-se em Espanha, encontrando escritores clássicos como Juan Boscán e Garcilaso de la Vega. Na carta em que respondeu a D. Fernando de Menezes, que lhe havia escrito de Sevilha, refere-se Sá de Miranda aos lugares que lhe deixaram mais viva impressão.

Dessa viagem, que o poeta recordou, saudoso, na carta a D. Fernando de Menezes, resultaram seus inegáveis triunfos, o progresso do nosso teatro e a introdução do verso de decassílabos a par das novas formas poéticas. Foi, sem dúvida, o introdutor da escola italiana, o arauto da Renascença literária em Portugal.

Regresso a Coimbra[editar | editar código-fonte]

Não existem elementos seguros para fixar a data do regresso de Sá de Miranda. D. Carolina Michaelis de Vasconcelos afirma, todavia, que o poeta voltou a Portugal em 1526 ou, com mais certeza, em 1527 fixando a sua residência em Coimbra ou nos seus arredores. É no entanto possível afirmar-se, sem receio, que Sá de Miranda estava em 1527 na sua terra natal.

Foi em Coimbra e em Buarcos que o poeta do Neiva estudou e escolheu a melhor forma de executar o seu plano de reforma literária concebido em Itália.

A comédia «Os Estrangeiros», em prosa, foi talvez a sua primeira obra e é, sem dúvida, a primeira comédia clássica portuguesa. Sá de Miranda, no propósito de apresentar um modelo clássico que triunfasse dos autos de Gil Vicente, tão apreciados pelos cortesãos, imitou «mais do que deveria» o teatro de Terêncio e de Plauto.

A alusão ao teatro vicentino é apontada por Clóvis Monteiro como feita no prólogo dessa peça, tido como dito pela própria Comédia, se referindo a mudança de nome para Auto: "Venho fugindo, aqui neste cabo do mundo acho paz, não sei se acharei assossego. Ia sois no cabo, e dizeis ora não mais, isto he auto, e desfazeis as carrancas, mas eu o que não fiz até agora, não queria fazer no cabo de meus dias,que he mudar o nome. Este me deixay por amor da minha natureza, e eu dos vossos versos também vos faço graça, que são forçados daquelles seus consoantes. Eu trato cousas correntes, sou muito clara. Folgo de aprazer a todos. Direis vós que não he muito boa manha de dona honrada: direi que portugueses sois. Finalmente a mim nunca me aprouve escuridões, nem fallo senão pera que me entendão, quem al quiser não falle, e tirará de trabalho a si, e a outrem.". [3]

Saída da corte[editar | editar código-fonte]

Um dos factos mais interessantes da vida de Sá de Miranda, que tem prendido a atenção dos biógrafos e cuja explicação continua mais ou menos escondida entre hipóteses e dúvidas, é o seu abandono da corte, a fuga do povoado, o abrigo à sombra das florestas, o domicílio no Minho.

Qual o motivo de tão violenta resolução? Qual a causa do ostracismo do poeta, tão apreciado nos serões do paço?

Os biógrafos apontam várias razões. Uma das possíveis causas da sua retirada para o Minho estará relacionada com a chegada da corte a Coimbra no ano de 1527. Sá de Miranda encontrava-se na cidade do Mondego tendo sido, provavelmente, ele a fazer a oração de chegada a el-rei D. João III. Por essa altura Sá de Miranda assistiu à representação da comédia de Gil Vicente sobre a divisa da cidade de Coimbra. No prólogo, Gil Vicente, descrevendo a nobreza de Coimbra, omite os Sás e só fala dos Melos. Ora, filho do cónego Gonçalo Mendes de Sá e de Inês de Melo, Sá de Miranda, homem culto que assistira em Itália a artísticas representações dramáticas, sentiu-se mal entre os numerosos admiradores de Gil Vicente. Assim da crítica desfavorável de Sá de Miranda e dos comentários que dela resultaram no meio intriguista da corte, nasceram o ódio a Gil Vicente, a indisposição de Sá de Miranda, e as discussões mais ou menos violentas entre os seus respectivos admiradores. Aborrecido e desgostoso, Sá de Miranda retirou-se para Buarcos.

Logo que a corte se retirou para Almeirim, Sá de Miranda recolheu, como parece, à sua terra. Gil Vicente voltou a atacar Sá de Miranda na farsa «O Clérigo de Beira» representada na corte em 1529: «filho de clérigo és, nunca bom feito farás». Este ataque tão violento e os aplausos dos favoritos agravaram profundamente a ofensa e o poeta retirou-se para o Minho.

No Minho — O casamento[editar | editar código-fonte]

Sá de Miranda não veio, como erradamente se diz, logo para Duas Igrejas porque a mercê da Comenda só data de 1534. Se até aqui a vida do poeta do Neiva está ensombrada de dúvidas, entre 1530 e 1558, ano do seu falecimento, pode, em grande parte, documentar-se.

O primeiro documento data de 1530 e trata-se de uma escritura lavrada no dia 3 de Maio, na Casa de Crasto, onde se encontrava temporariamente com a sua mulher, através da qual efectua a compra de metade da quinta de Barrio em Fiscal, Amares. A 20 de Julho de 1531, numa quinta que era pertença de sua mulher, a quinta da Torre em Penela (actual S.Tiago de Arcozelo) é elaborada outra escritura de transmissão de propriedades. Daqui se conclui que, antes de 1530, já o poeta era casado com Briolanja de Azevedo. Ora sendo certo que D. Briolanja teve a Quinta da Torre, em Penela (dentro dos limites do extinto concelho de Penela esta quinta situava-se na freguesia de São Tiago de Arcozelo, a que esteve anexa à freguesia de Marrancos. Pertenceu aos senhores do Paço de Marrancos e à casa de Codeçosa) aqui residiu com o poeta até à mercê da comenda de Duas Igrejas.

Comenda de Duas Igrejas[editar | editar código-fonte]

Quando casou, Sá de Miranda ainda não era comendador. Nessa época, ser comendador da Ordem de Cristo representava uma elevada posição, nobreza, fidalguia, privilégios e isenções, de que o interessado não prescindia e de que os oficiais públicos se não esqueciam por cortesia e por dever de ofício, principalmente nos contratos de compra e venda para justificar o não pagamento de sisa. Ora o primeiro documento que refere o título de comendador a Sá de Miranda, data de 1535 e trata-se de um autógrafo do poeta relacionado com a compra de uns moinhos em Caldelas. Assim, é certo que nessa altura já o poeta do Neiva tinha fixado domicílio em Duas Igrejas.

A quinta da comenda das Duas Igrejas situava-se na margem esquerda do rio Neiva e foi esta a residência do poeta até 1552. Aqui passou os anos mais felizes da sua vida, na doce companhia de D.  Briolanja, criando e educando os filhos; aqui o visitaram seus amigos e os admiradores do seu talento e do seu carácter. Foi aqui, bem junto do rio Neiva, que Francisco Sá de Miranda concebeu e compôs a maior e melhor parte da sua obra literária. A écloga Aleixo, que tem servido de explicação para o ostracismo do poeta, foi composta em Duas Igrejas e é a sua primeira poesia clássica, como afirma Sá de Miranda na Epístola a Antonio Pereira, senhor de Basto.

D. Manuel de Portugal, comendador de Vimioso, igualmente poeta e que viria a ser o mecenas de Luís de Camões, foi o primeiro imitador dele, e as suas íntimas relações com Sá de Miranda explicam-se facilmente, sabendo-se que aquele ilustre fidalgo foi comendador de São Pedro de Calvelo e que esta comenda é vizinha da de Duas Igrejas e também banhada pelo rio Neiva.

Na Casa da Tapada[editar | editar código-fonte]

Como já foi referido, em 3 de Maio de 1530, o poeta do Neiva adquiriu metade da quinta do Bárrio, em Fiscal. Com posteriores aquisições e a outra metade da quinta em 1550 viria a constituir a quinta da Tapada. Continuando a residir em Duas Igrejas, o domicílio do poeta na Tapada só pode documentar-se desde 28 de Abril de 1552

Mas não foi longa nem feliz a vida do poeta do Neiva no seu derradeiro domicílio. A casa que edificara com tanto carinho, a sua quinta cercada, o carinho que lhe dedicou, foram impotentes para assegurar um fim de vida tranquilo e descuidado. Desgostos, receios, cuidados e desventuras, precipitavam-se entre a velhice e a enfermidade.

Não foram, nem podiam ser, numerosas as produções de Sá de Miranda, neste curto e doloroso período, que devia ser o derradeiro da sua vida. Mas foi na Tapada, na decadência do poeta, que este recebeu os melhores testemunhos de admiração dos continuadores da reforma literária por ele empreendida: António Ferreira e Diogo Bernardes.

Em 1552, ou princípios de 1553, enviou ao príncipe D. João, e a seu pedido, o terceiro caderno de poesias (já antes tinha enviado dois), desta vez mais conformes à nova escola italiana.

Mas, a partir de 1552 os desgostos sucederam-se, na Casa da Tapada: neste mesmo ano dá-se a morte do seu desventurado amigo Bernardim Ribeiro; no ano seguinte morre o filho Gonçalo, vítima de uma emboscada em Ceuta; em 2 de Janeiro de 1554 morreu o príncipe D. João, herdeiro do trono, um grande amigo e devoto admirador das obras do poeta a quem Sá de Miranda dedicou uma elegia (poesia fúnebre); em 1555 morre D. Briolanja de Azevedo, sua mulher, que não pôde resistir à dor sofrida pela perda de seu filho. Sá de Miranda que, hora a hora, pressentia a nova punhalada, sofreu resignado o duro golpe; em 1557 morreu el-Rei D. João III por quem Sá de Miranda teve sempre a maior veneração, a quem foi sempre leal e grato, porque o monarca, bondoso e ilustrado, teve, desde moço, grande afeição ao poeta do Neiva. A mercê da comenda de Duas Igrejas, a carta que Sá de Miranda lhe dirigiu, após o abandono da corte, e a dedicatória da fábula do Mondego sobejam para confirmar as boas relações que a morte de D. João III aniquilou e foi preso.

Depois da morte de D. Briolanja, Francisco de Sá de Miranda viveu com o seu filho Jerónimo, ainda menor, na quinta da Tapada, dando mostras de bom administrador (também da quinta da comenda de Duas Igrejas) e aumentando seus bens.

O fim da vida do poeta[editar | editar código-fonte]

Os desgostos sofridos, o peso dos anos, os insultos da enfermidade foram a pouco e pouco enfraquecendo o corpo do varão prudente e forte que, reconhecendo o seu estado, promoveu o casamento de seu filho Jerónimo para assegurar a conservação da casa da Tapada. Concertado esse casamento, Sá de Miranda escreveu o seu último testamento que não viria a assinar porque, muito provavelmente, a morte o terá surpreendido.

A morte antecipou-se às festas do casamento de seu filho tendo a escritura antenupcial sido lavrada na casa da Taipa, em Cabeceiras de Basto, no dia 14 de Janeiro de 1559.

Morte e sepultura[editar | editar código-fonte]

A data da morte de Sá de Miranda, indicada com tanta precisão e firmeza pelos seus biógrafos, é inexacta. Não faleceu a 15 de Março de 1558, como se tem afirmado, porquanto em 2, 13 e 16 de Maio desse mesmo ano o poeta ainda efectuou compras de certas propriedades, como provam as respectivas escrituras. Também não é certo que o poeta tenha morrido na casa da Tapada. Sá de Miranda ainda deveria manter as suas necessárias e costumadas visitas à comenda de Duas Igrejas. Velho e enfermo pode ter cometido a imprudência de percorrer os longos e arruinados caminhos, os escabrosos atalhos que tantas vezes pisara até Duas Igrejas. Quiçá, saudades dos tempos felizes e da sua fonte inspiradora. Numa dessas viagens poderá ter sido surpreendido pela morte, o que se poderá depreender do soneto fúnebre que Diogo Bernardes lhe dedicou:

/É este o Neiva do nosso Sá de Miranda,/

Inda que tam pequeno, tam cantado?/

É este o monte que foi às musas dado/

Enquanto nele andou quem nos ceos anda?/

/O claro rio onde chorar me manda/

Saudosa lembrança do passado?/

O monte, o vale, o bosque, o verde prado/

Onde suspira Apolo, Amor se abranda?/

/Aqui na tenra flor, na pedra dura/

Escrevi, ninfas, e no cristal puro/

Estes versos que Febo me inspirou/

/Aqui cantava Sá, daqui seguro,/

Livre do mortal peso ao ceo voou:/

Pastores: vinde adorar a sepultura!/

O facto de não ter feito aprovar o seu testamento leva a crer que a morte veio de surpresa. A notícia da morte do poeta do Neiva contristou os seus amigos e admiradores e provocou manifestações mais ou menos eloquentes dos poetas da nova escola italiana em homenagem ao seu introdutor e ao prestigioso mestre de tão preclaros cantores.

Resta esta dúvida: a primitiva sepultura seria em Duas Igrejas ou, levado em andas, enterrar-se-ia na igreja de Carrazedo. Ora, a capela de Nossa Senhora da Apresentação, onde o poeta se encontra sepultado, foi mandada construir pelo filho Jerónimo por vontade expressa no seu testamento de 30 de Setembro de 1581, já o poeta havia falecido havia mais de vinte anos. O seu filho, pedia, nesse testamento, que os ossos de seus pais fossem trasladados para essa capela.

A poesia[editar | editar código-fonte]

Poema de Sá de Miranda em Azulejos na Casa do Barreiro, Gemieira, Ponte de Lima.

Para Sá de Miranda, a poesia não é uma ocupação para ócios de intelectual ou de salões, como para os poetas que o antecederam, mas uma missão sagrada. O poeta é como um profeta, deve denunciar os vícios da sociedade, sobretudo da Corte, o abandono dos campos e a preocupação exagerada do luxo, que tudo corrompe, deve propor a vida sadia em contacto com a «madre» natureza, a simplicidade e a felicidade dos lavradores.

A ele se aplicam perfeitamente os seus versos da Carta a D. João III: «Homem de um só parecer, / dum só rosto e d'ua fé, / d'antes quebrar que torcer / outra cousa pode ser, mas da corte homem não é.»

A sua linguagem é elíptica, sóbria, densa, forte, trabalhada, hermética, difícil de entender e às vezes demasiado dura. Mesmo assim, Sá de Miranda é o escritor do século XVI mais lido depois de Camões. A sua verticalidade e a sua coerência impuseram-se.

Sá de Miranda concebeu as primeiras comédias clássicas portuguesas (Estrangeiros e Vilhalpandos), cuja recepção pelo público, habituado aos autos (de Gil Vicente sobretudo), não foi das melhores. Se os aspectos criticados por Sá de Miranda e a sua intenção moralizadora o aproximam muito de Gil Vicente, o escritor afasta-se deste último pelas formas e o tom em que vaza as suas críticas.

Sá de Miranda deixou uma importante obra epistolográfica e uma série de éclogas, entre outros textos. A sua obra foi publicada postumamente, em 1595.

Influenciou decisivamente escritores seus contemporâneos e posteriores, como António Ferreira, Diogo Bernardes, Pero Andrade de Caminha, Luís de Camões, D. Francisco Manuel de Melo ou ainda, mais recentemente, Jorge de Sena, Gastão Cruz e Ruy Belo, entre outros, manifestando alguns textos destes autores nítida intertextualidade com textos mirandinos, sobretudo com o tão conhecido soneto «O Sol é grande, caem co'a calma as aves».

Antecipa temáticas como a dos conflitos do eu, de maneira um pouco semelhante ao que faria Fernando Pessoa, como nos versos: Comigo me desavim,/Sou posto em todo perigo;/Não posso viver comigo/Nem posso fugir de mim.

Referências

  1. Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez (na Imprensa Nacional, 1859), p. 53.
  2. José Maria da Costa e Silva, Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes, Volume 2 (na Imprensa Silviana, 1851), Capítulo II, p. 8.
  3. MONTEIRO,Clóvis - Esboços de história literária - Livraria Acadêmica - Rio de Janeiro - 1961 - Pg.17

Fonte biográfica principal[editar | editar código-fonte]

  • Machado, José de Sousa (1929), O Poeta do Neiva, Notícias Biográficas e Genealógicas, Braga, Livraria Cruz.