Segunda Fitna

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Segunda Fitna
Parte das Guerras civis islâmicas
Data 683685 ou 680692
Local Arábia, Síria e Iraque
Desfecho Vitória omíada
Combatentes
Omíadas Apoiantes de Abdullah ibn al-Zubair Alidas
Principais líderes

A Segunda Fitna ou Segunda Guerra Civil Islâmica foi um período de desordem política e militar generalizada pelo qual passou o império islâmico durante o início do dinastia omíada, a seguir à morte do seu fundador, o califa Muawiya I. Há alguma discordância entre os estudiosos quanto aos limites temporais exatos do conflito. Alguns encaram o fim do reinado de Muawiya em 680 d.C. como a marca do início do período, enquanto outros situam esse início em 683, a seguir à morte do califa Yazid I, filho de Muawiya. De forma semelhante, o fim é datado de 685 (ascensão ao poder de Abd al-Malik ibn Marwan) a 692 (morte de Abdullah ibn al-Zubair e término da revolta por ele protagonizada), conforme os autores; contudo, as datas mais usadas são 683—685. Foi um período complexo no mundo muçulmano, que envolveu diversos eventos que possivelmente não estavam todos diretamente ligados entre si.[nt 1]

Derrota dos Alidas; batalha de Karbala[editar | editar código-fonte]

O primeiro califa omíada Muawiya I foi sucedido pelo seu filho Yazid após a sua morte em 680. Os primeiros opositores de Yazid foram os Alidas (descendentes de Ali), apoiantes de Hussein ibn Ali, neto do Profeta Maomé e filho do califa Ali, que tinha morrido assassinado. Hussein e os seus partidários tinham-se refugiado em Meca após a vitória de Muawiya sobre os Alidas. Hussein e os seus apoiantes mais próximos, entre eles o seu meio-irmão Al-Abbas ibn Ali, foram mortos pelas tropas de Yazid na batalha de Karbala, na qual se destacou Umar ibn Sa'ad, que matou Hussein, e Ubayd Allah ibn Ziyad. A batalha é frequentemente citada como o evento que marcou a rutura definitiva entre as seitas xiita e sunita do Islão, e que até à atualidade é comemorada todos os anos pelos xiitas no dia da Ashura.[nt 1]

Início da rebelião de ibn al-Zubair e dos carijitas[editar | editar código-fonte]

A seguir a estes acontecimentos, Yazid enfrentou outra revolta, liderada por Abdullah ibn al-Zubair, filho de um sahabi (companheiro de Maomé) al-Zubair ibn al-Awwam e de Asmaa bint Abu Bakr. A rebelião de ibn Zubair foi vista por muitos como uma tentativa de regresso à aos valores originais da primitiva comunidade islâmica, e foi bem recebida por vários setores que estavam descontentes com o regime omíada por várias razões.[nt 1]

Ibn al-Zubair proclamou o seu califado em 680 e apelou à deposição de Yazid, para o que contou com o apoio dos Ansar de Medina, liderados por Abdallah ibn Handhala, e dos Coraixitas, liderados por Abdallah ibn Muti. Em 683 e nesse mesmo ano Yazid enviou contra ele Muslim ibn Uqba al-Murri (el Borni), que derrotou os medinenses na batalha de al-Harra, travada em 27 de agosto de 683.[nt 2]

A morte de Muslim não impediu as suas tropas, cujo comando passou para Hussein ibn Numayr al-Sakuni, de cercarem Meca, onde se encontrava ibn al-Zubair, a partir de 24 de setembro de 683.[nt 2] [carece de fontes?] Durante o cerco a Caaba foi bombardeada com pedras, que fizeram com que um dos lados se desmoronasse e assolada por um fogo.[1] A notícia da súbita morte de Yazid, ocorrida a 11 de novembro, chegou aos sitiantes a 26 de novembro. Embora o filho doente de Yazid Muawiya II tenha sido imediatamente proclamado califa pela corte omíada de Damasco, a autoridade omíada praticamente colapsou nas províncias e fraquejava até na Síria, a pátria dos Omíadas, o que levou Hussein ibn Numayr a negociar com ibn al-Zubair, oferecendo-se para reconhecê-lo como califa, colocando como contrapartidas a que ibn al-Zubair lhe concedesse um perdão e que o acompanhasse até à Síria. Ibn al-Zubayr recusou esta última condição, pois isso colocava-o sob o controlo das elites sírias, pelo que Hussein e o seu exército retiraram para a Síria.[nt 3]

Ibn al-Zubair proclama-se então Amir al-Mu'minin ("emir dos crentes" ou "comandante dos fiéis"), sendo reconhecido pelos oponentes dos omíadas na Síria, Egito, Iraque e Arábia.[nt 2] No entanto, viu-se isolado nas regiões de Tihama e do Hejaz[1] quando estalou a revolta dos Banu Bakr carijitas, que estabeleceram um estado independente no centro da Arábia em 684.[nt 1] Seguiram-se outros levantamentos carijitas no Iraque e Irão, enquanto que os Alidas xiitas se revoltaram em Kufa sob a liderança de al-Mukhtar ibn Abi-Ubayd ath-Thaqafi para vingar a morte de Hussein e promover outro dos filhos de Ali como candidato a califa.[nt 2]

Ascensão de Marwan ibn Hakim e Abd al-Malik; supressão dos carijitas[editar | editar código-fonte]

Na Síria, Marwan ibn Hakim, primo de Muawiya I, foi declarado califa após a morte de Muawiya II em 684.[nt 1] O novo monarca omíada derrotou os rebeldes qaisitas (Banu Qais) na batalha de Marj ar-Rahit, travada perto de Damasco em julho ou agosto de 684. Esta vitória e a revolta dos Alidas em Kufa colocam ibn al-Zubair na defensiva.[nt 2]

Marwan morre em 685, sendo sucedido à frente do Califado Omíada pelo seu filho Abd al-Malik.

Entretanto, em Baçorá Al-Muhal·lab coloca-se ao serviço de Mussab ibn al-Zubair, irmão de Abdullah ibn al-Zubair, e juntos conseguem derrotar al-Mukhtar em Kufa em 687. Contudo, Mussab e os Iraquianos eram, na prática independentes de Abdullah ibn al-Zubair.[nt 2]

Por sua vez, os carijitas ocupam a província de Barhein (atual al-Haasa no oriente da Arábia Saudita), Hadramaute e o Iémen (687–688) e Ta’if (688–689). Em 691 os omíadas recuperam o controlo do Iraque. No mesmo ano, as tropas omíadas comandadas por Abd al-Malik derrotam Mussab ibn al-Zubair na batalha de Maskin (ou de Dayr al-Jathaliq), travada nas margens do rio Dujayl ("pequeno Tigre"), afluente ocidental do Tigre.[2] [nt 2]

Derrota de ibn al-Zubair: cerco de Meca de 692[editar | editar código-fonte]

Seguidamente, Abd al-Malik ordenou a um dos comandantes da batalha, o jovem al-Hajjaj ibn Yussuf, um militar brilhante e implacável que depois se tornaria o governador mais proeminente do Califado, que saísse de Kufa e marchasse contra Abd-Allah ibn al-Zubair, que se tinha mantido em Meca enquanto os seus partidários combatiam noutras partes do império muçulmano. Abd al-Malik oferecia o seu perdão a ibn al-Zubair caso este se rendesse. Al-Hajjaj seguiu para a região de Ta’if, onde entrou sem oposição e chegou a Meca, onde ibn al-Zubair se recusou a render-se, o que levou al-Hajjaj a cercar a cidade.[3]

Abd al-Malik tinha dado instruções a al-Hajjaj ibn Yusuf para que forçasse Meca a render-se pela fome caso as negociações falhassem, mas que evitasse um banho de sangue na cidade santa. No entanto, al-Hajjaj perdeu a paciência e pediu reforços e permissão para tomar a cidade pela força, um pedido que foi atendido pelo califa omíada. Irado por ser impedido de fazer a Hajj (peregrinação a Meca), al-Hajjaj bombardeou a cidade, indo ao ponto de alvejar a Caaba e os seus peregrinos durante a peregrinação. O cerco durou sete meses, durante os quais 10 000 homens, entre eles dois dos filhos de ibn al-Zubair, desertaram para o lado dos sitiantes. Ibn al-Zubair e os apoiantes que lhe permaneceram leais, incluido o seu filho mais novo, foram mortos quando combatiam perto da Caaba, em outubro de 962. O cerco saldou-se em milhares de habitantes inocentes mortos.[nt 4]

Segundo as crónicas árabes, Ibn al-Zubair teria perdido o ânimo com a chegada das tropas de al-Hajjaj, tendo-se pedido conselho à sua velha mãe acerca de capitular. A intrépida anciã, filha de Abu Bakr, respondeu-lhe — «se estás consciente dos teus direitos, morrerás como um herói!». Inspirado pela coragem da mãe, o filho vestiu a sua armadura, enfrentou os sitiantes, morrendo em combate com a espada na mão.[3]

Notas

  1. a b c d e Trechos baseados no artigo «Second Fitna» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
  2. a b c d e f g Trechos baseados no artigo «Segona fitna» na Wikipédia em catalão (acessado nesta versão).
  3. Trechos baseados no artigo «Siege of Mecca (683)» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
  4. Trechos baseados no artigo «Al-Hajjaj ibn Yusuf» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).

Referências

  1. a b Dīnawarī
  2. Saunders 1965, p. 74
  3. a b Saunders 1965, p. 75

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Armstrong, Karen (2002, 2004) (em inglês), Islam: A Short History, Nova Iorque: The Modern Library, ISBN 0-8129-6618-X 
  • Dīnawarī, Abū Ḥanīfa (em árabe), al-Akhbâr al-tiwâl, p. 264