Arquitetura românica em Portugal
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A Arquitetura românica em Portugal, tal como o românico em toda a Europa, tinha como principal função a construção de castelos, fortificações e também igrejas.
Durante a Reconquista cristã, de que nasceu Portugal, a arte peninsular não muçulmana continuava, na maior parte, os velhos modelos visigóticos, quer revestindo as formas moçárabes duma arte popular, do cristão submetido, a qual fundia elementos da tradição hispano-visigótica com os de origem cordovesa, quer adquirindo características ainda mais originais no reino das Astúrias, onde a remota arte visigótica se esfumara com a influência carolíngia, lombarda e romana.
Os templos cristãos de então eram pesados, com paredes muito grossas, poucas aberturas e iluminação. A planta era normalmente em cruz latina, com três naves, duas laterais mais pequenas, e uma central mais larga; eram separadas por arcadas ou grossas colunas de pedra. A cobertura era feita em abóbada de berço ou de arestas.
Anexados à igreja estavam o campanário (torre sineira), o baptistério e por vezes claustros fortificados, que para além de terem a sua função religiosa serviam de refúgio para os populares durante ataques à povoação.
Um dos melhores expoentes do românico em Portugal é a Sé Velha de Coimbra, cuja construção data do século XII.
Introdução
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| “ | "O exemplo da arte românica portuguesa é precisamente um daqueles em que o abuso da noção de influência mais arrisca falsear os julgamentos." "L'exemple de l'art roman portugais est précisément l'un de ceux où l'abus de la notion d'influence risque le plus de flausses les jusgements" |
” |
— G. Gaillard | ||
Foi nas zonas recentemente anexadas ao território português, e por isso mais abertas à influência estrangeira, locais onde o mecenato real e eclesiástico era mais forte, que se estabeleceram comunidades monásticas francesas e artistas estrangeiros, onde as suas obras (como as de Coimbra e Lisboa) encontraram as formas mais artisticamente completas do românico. À medida que se expandia, tornou-se mais localizado e fundiu-se com as técnicas e soluções construtivas regionais anteriores.[1]
A construção de edifícios românicos ganhou impulso após 1095, quando o Conde Henrique de Borgonha tomou posse do Condado de Portugal. O Conde Henrique chegou a Portugal com nobres e monges beneditinos da Abadia de Cluny, que era chefiada pelo irmão de Henrique, Hugo. Os beneditinos e outras ordens religiosas acabaram por dar um grande impulso à arquitetura românica em Portugal ao longo do século XII. Exemplos de tais igrejas monásticas e paroquiais rurais, a maioria delas construídas nos séculos IX e século X com características artísticas da Alta Idade Média e anteriores à difusão da arquitetura românica, são a Igreja de São Pedro de Rates, um dos melhores edifícios iconográficos deste estilo em Portugal, as igrejas do mosteiro de Paço de Sousa, Santa Maria de Airães e a mosteiro de São Pedro de Ferreira, entre outras.[1]
As suas comunidades seguiram inicialmente a regra beneditina, mas foram depois profundamente influenciadas pelas reformas monásticas do século XI, principalmente a reforma beneditina, que se reflete na adoção de características arquitetónicas do recém-criado românico, criando algumas soluções decorativas e arquitetónicas regionais muito ricas.[2]
Arquitetura pré-românica: arte moçárabe
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A arte moçárabe refere-se não só ao estilo artístico dos moçárabes (de musta'rab, que significa 'arabizado'), os cristãos ibéricos que viviam no al-Andalus e que adoptaram alguns costumes árabes sem se converterem ao islamismo, conservando a sua religião e uma certa autonomia eclesiástica e judicial, mas também às mesmas comunidades que migraram para norte, para os Reinos Cristãos, trazendo consigo um fenómeno arquitectónico em que se fundiram elementos artísticos cristãos e islâmicos.[3] Embora as comunidades moçárabes tenham mantido algumas das igrejas visigóticas anteriores à ocupação islâmica para a prática dos seus ritos religiosos, a extensão deste património artístico visigótico é difícil de determinar,[4] uma vez que a maioria dos monumentos do período anterior se perderam. No entanto, os edifícios sobreviventes parecem agarrar-se tenazmente às tradições da arquitetura do Visigótica, com poucas ou nenhumas características de islâmica. Tudo isto os inclui no conceito amplo de arquitetura pré-românica. Para além desta possível ligação visigótica, a arquitetura moçárabe em Portugal entrou também em contacto com a arte asturiana, identificada com as criações artísticas produzidas durante o século IX, concretamente nos territórios que compunham o Reino das Astúrias.[5] No entanto, esta actividade artística, em geral (e a arquitetura em concreto) não se limitou a esta zona nem a este século, mas abrangeu toda a península setentrional e continuou no século seguinte.
O exemplo mais excepcional da arquitectura moçárabe em Portugal é a igreja de São Pedro de Lourosa,[6][7] perto de Coimbra. Não há dúvida de que esta igreja rural foi fundada por volta de 912 d.C. (950 da Era Hispânica, correspondendo a 912 da Era Cristã), segundo uma inscrição autêntica encontrada num dos braços do transepto.[8] Apesar de algumas referências asturianas às gravuras da igreja, as influências dos modelos arquitetónicos preferidos pelos moçárabes são bem visíveis na modulação da cantaria e principalmente nos elementos decorativos das cornijas (uso da chambrana) e no desenho dos arcos em ferradura, típicos do estilo moçárabe e da Espanha romana.[9] A sua estrutura, de estilo basílico, compreende um pequeno transepto que separa o coro do corpo principal do edifício (nártex) e uma fiada de três arcos sobrepostos suportados por colunas que separam a nave central das naves laterais. Durante as obras de restauro realizadas em meados do século XX, foram encontrados diversos elementos arquitetónicos que terão pertencido a uma igreja visigótica anterior.[10]
Outros exemplos de monumentos moçárabes em território português são a capela de São Pedro de Balsemão em Lamego,[11] Catedral de Idanha-a-Velha,[12] com uma influência mais visigótica mas ainda utilizada pela comunidade moçárabe da região, a Igreja de São Gião,[13] seguinte Nazaré, e a abside única do antigo mosteiro de Castro de Avelãs[14] (Bragança), que apresenta não só um sabor moçárabe, mas também uma profunda fusão com elementos arquitetónicos asturiano-leoneses.[15] A maioria dos estudiosos datou a sua construção de finais do século XII e inícios do século XIII, embora novos achados arqueológicos tenham contestado esta data e a tenham situado no século XI.[16]
- Exemplos de arte moçárabe em Portugal
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Fachada com nártex da igreja de São Pedro de Lourosa.
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Arcos em ferradura de estilo moçárabe na igreja de São Pedro de Lourosa.
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Arco e câmara em ferradura na capela de São Pedro de Balsemão (Lamego).
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Capitéis coríntios da época visigótica na capela de São Pedro de Balsemão.
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Originária do período visigótico, apresenta algumas características menores moçárabes (e mais tarde românicas e góticas) (Idanha-a-Velha).
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Motivos vegetalistas moçárabes na igreja de São Gião.
Ascensão e desenvolvimento do estilo românico em Portugal (séculos XI a XIII)
[editar | editar código]A arquitectura românica em Portugal surge no final do século XI, integrada num fenómeno mais amplo de difusão cultural e religiosa europeia para a Península Ibérica, fortemente associado às Reformas cluniacenses e à implantação de novas ordens religiosas. Este processo relaciona-se diretamente com a chegada a território português dos beneditinos da Abadia de Cluny (após 1086), dos Cistercienses (1140–1144, como em São João de Tarouca, Lamego), dos Cónegos Regrantes da Ordem de Santo Agostinho (após 1131), bem como das ordens militares-religiosas dos Hospitalários (1121) e dos Templários (1126). Estas instituições desempenharam um papel determinante na renovação litúrgica, na reorganização do território e na difusão de modelos arquitectónicos românicos, introduzindo influências oriundas da Borgonha, da Península Ibérica e até da Terra Santa, como se observa no Castelo de Tomar e na charola templária construída por Gualdim Pais.[17][18]
Embora existam edifícios com características românicas anteriores, foi apenas a partir do segundo quartel do século XII que o românico adquiriu verdadeira expressão em Portugal. Este relativo desfasamento face a outras regiões europeias explica-se, em grande medida, pela instabilidade política e militar decorrente da Reconquista e pela consequente reorganização geográfica e administrativa do território. Um dos aspectos mais significativos do românico peninsular — e particularmente do português — é, assim, a estreita relação entre a sua difusão, a ocupação do solo e a estruturação do espaço senhorial e paroquial. As ordens monásticas, como os Beneditinos e os Cistercienses, implantaram-se inicialmente em pontos estratégicos do território, escolhendo locais altos ou próximos de cursos de água, como em São João de Tarouca ou em São Pedro das Águias, articulando os mosteiros com as aldeias e com a economia rural.[19]
O auge do estilo românico ocorreu num contexto histórico particularmente favorável. A partir do século X, após o estabelecimento dos Vikings na Normandia em 911 e o cessar das constantes invasões, o Ocidente europeu viveu um período de relativa estabilidade, que permitiu o crescimento económico, o retorno ao cultivo de terras anteriormente abandonadas, o aumento populacional e o aperfeiçoamento de técnicas construtivas. Estas condições foram determinantes para o florescimento do românico, permitindo que as construções religiosas fossem mais duráveis, utilizando pedra e cobrindo as naves com abóbadas de arco, em substituição aos telhados de madeira e aos planos baixos das igrejas anglo-saxónicas anteriores.[20]
A expansão do românico acompanha o avanço da Reconquista de norte para sul, apresentando uma densidade progressivamente decrescente à medida que o território era conquistado. Este fenómeno explica a forte concentração de edifícios românicos no Entre-Douro-e-Minho, em Coimbra e nas Beiras, contrastando com a quase inexistência de vestígios românicos no sul de Portugal. A implantação das ordens religiosas deve ser entendida neste contexto: beneficiárias de amplos privilégios concedidos pela monarquia e pela nobreza, estas instituições contribuíram decisivamente para a defesa do território, mas sobretudo para a sua organização social, económica e espiritual, como evidenciado no Mosteiro de São Pedro de Ferreira, no Castelo de Tomar e nas abadias Cistercienses, que combinavam funções religiosas, defensivas e agrícolas.[21][17]
As primeiras igrejas românicas do norte de Portugal caracterizam-se por soluções construtivas simples, consistindo geralmente numa nave única coberta por estrutura de madeira e numa cabeceira rectangular, evoluindo posteriormente para cabeceiras semicirculares e soluções mais complexas, como se observa na Igreja de Fontarcada. Outras obras emblemáticas incluem a Igreja de São Cristóvão de Rio Mau e a Igreja de Santa Eulália do Mosteiro de Arnoso, que ilustram a assimilação gradual do modelo românico europeu no contexto português.[21]
A afirmação do românico coincide com o reinado de D. Afonso Henriques (1139–1185), figura central na consolidação da independência portuguesa e herdeiro de uma matriz cultural borgonhesa, enquanto membro da Casa de Borgonha. Durante o seu reinado foram iniciadas ou profundamente transformadas algumas das mais importantes construções românicas do país, nomeadamente a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra, a Sé do Porto e a Sé de Viseu, bem como o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, concebido como panteão régio. Nos casos do Castelo de Tomar e da Sé do Porto, observa-se ainda a presença de elementos defensivos, como torres e contrafortes, integrando funções militares e religiosas num mesmo edifício.[22][23]
Fundado em 1131, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra apresentava já em meados do século XII a nave e as cabeceiras concluídas, revelando soluções estruturais e decorativas inovadoras no contexto português. A qualidade do projecto sugere a intervenção de um mestre estrangeiro ou, pelo menos, profundamente conhecedor da arquitectura românica da Borgonha, com paralelos evidentes em edifícios como Abadia de Cluny, Tournus, Paray-le-Monial ou Romainmôtier.[17]
Predominantemente religiosa, a arquitectura românica portuguesa desenvolveu-se sobretudo no contexto das paróquias rurais e dos mosteiros fundados ou reformados ao longo dos séculos XII e XIII. Os bispos, frequentemente por iniciativa régia, foram os principais promotores destas construções, que assumiram um papel estruturante na paisagem, na organização do território e na afirmação simbólica do novo reino. Neste sentido, o prestígio da arquitectura românica está intimamente ligado ao processo de formação e consolidação do Reino de Portugal, reforçado pela presença dos Cistercienses em vales férteis, como em São João de Tarouca, e pela orientação estratégica das abadias templárias e beneditinas.[17]
O contexto europeu em que o românico se consolidou foi marcado pelo fortalecimento do poder papal, pela expansão cristã, pelo crescimento populacional e pela estabilidade económica, que permitiu a realização de grandes empreendimentos arquitectónicos. As Cruzadas (séculos XI a XIII) e a Reconquista criaram um clima de unidade religiosa e fervor devocional, enquanto as reformas monásticas de Cluny e de Cîteaux, bem como a intervenção de figuras como Bernardo de Claraval, estabeleceram modelos de vida religiosa estrita e inspiraram a construção de igrejas, mosteiros e catedrais como expressão de fé e de poder simbólico. Através da pedra, do arco e da abóbada, a arquitectura românica tornou-se o primeiro estilo artístico verdadeiramente independente, autónomo e unificado na Europa cristã, refletindo a combinação de técnica, espiritualidade e organização social que caracterizou o período.[24] Pierre Pierrard descreve este momento como um tempo em que “o tranquilo esplendor atesta ter existido um tempo em que os homens encontraram na sua fé o equilíbrio necessário à produção de obras-primas. Porque nunca mais, na história do mundo cristão ocidental, brotarão ao mesmo tempo tantas e tão perfeitas flores de pedra; nunca mais se encontrará a soma de uma técnica perfeita, uma vida religiosa activa, uma poesia interior e tanto equilíbrio psicológico.” A arquitectura, construída sobre a pedra — o material mais nobre — tornou-se o canal pelo qual o homem iniciou o seu diálogo com Deus, consolidando a centralidade da fé na vida social e cultural medieval, com exemplos paradigmáticos em construções templárias, cistercienses e beneditinas em todo o território português.[25]
- Detalhes da catedral de Braga
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Planta com três naves e teto de madeira.
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Corredor lateral e seus arcos.
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Fachada norte com portal românico.
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Capela de São Geraldo.
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Detalhe do tímpano e colunas do portal sul.
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Capela de Nossa Senhora de Loreto com pinturas murais.
Características gerais
[editar | editar código]Igrejas, organização do espaço litúrgico
[editar | editar código]A arquitetura românica portuguesa caracteriza-se maioritariamente por igrejas de planta longitudinal. A arquitetura românica de função religiosa em Portugal caracteriza-se igualmente pela diversidade de soluções construtivas, resultantes da conjugação entre tradição local, influências externas e condicionantes materiais. A maioria das igrejas românicas portuguesas apresenta uma composição simples, baseada na articulação de dois volumes retangulares — nave e cabeceira —, embora existam exceções de maior monumentalidade, como as sés de Braga, Porto e Lisboa e o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.[26][27]
A única igreja de planta centralizada que se conserva é a charola românica do Convento de Cristo, em Tomar, uma construção da Ordem dos Templários, explicável pelo número reduzido de pessoas a que se destinava e pela ligação simbólica da Ordem ao templo de planta circular do Santo Sepulcro de Jerusalém.[28]
A reconstituição do interior dos templos românicos é difícil devido às profundas alterações sofridas ao longo do tempo, sendo apenas através da documentação possível entrever o seu aspeto. A multiplicação dos altares, fenómeno desenvolvido nesta época, bem como a presença de alfaias litúrgicas, lâmpadas, relicários e tapeçarias coloridas, ambientavam o interior das igrejas. As pias baptismais apresentavam tipologias elementares, de contorno redondo ou quadrado, geralmente sem decoração ou com motivos de grande simplicidade, como exemplificam as pias de Vilar de Nantes e Outeiro Seco, no concelho de Chaves. Tal como as imagens, as pias baptismais, por serem consideradas santas, eram destruídas e enterradas no pavimento das igrejas quando substituídas.[29]
Apesar da existência de vestígios de pintura sobre capitéis, frisos e cachorros na Sé de Braga, no Mosteiro de Ermelo (Arcos de Valdevez), em Rio Mau (Vila do Conde) e na igreja matriz de Sernancelhe (Viseu), não se conhece qualquer vestígio de pintura mural figurativa sobre reboco, situação que contrasta com a prática generalizada da pintura mural no românico europeu.[30]
O altar-mor constituía sempre o principal foco visual e simbólico da igreja. Na época românica localizava-se no primeiro tramo da capela-mor, deixando livre a circulação em seu redor, especialmente na parte oriental, conforme evidenciam as ábsides. Em igrejas de interiores mais sumptuosos, como a Sé Velha de Coimbra, o altar era realçado por baldaquino e dossel apoiado em quatro colunas, do qual pendia uma pomba de prata destinada à reserva eucarística.[31]
Imagens, artes do altar e escultura arquitetónica
[editar | editar código]A partir do século XII, o arranjo das grandes igrejas passou a solicitar imagens e retábulos dispostos sobre o altar, iniciando-se o costume de prestar culto diante de imagens devotas esculpidas. Contudo, a estatuária devocional portuguesa do século XII é mal conhecida, sendo escassos os exemplares conservados. Apesar de a produção ter sido menor do que na época gótica, a documentação medieval garante a existência de esculturas devocionais e de retábulos esculpidos em pedra.[32]
As referências a majestades, representações da Virgem entronizada com o Menino segundo o modelo da Sedes Sapientiae, muitas vezes executadas em madeira, são numerosas na documentação, embora grande parte tenha desaparecido devido a mudanças de gosto e de devoção. Determinações sinodais ordenavam que esculturas antigas ou degradadas fossem quebradas e enterradas em solo sagrado, nas cabeceiras ou nos adros das igrejas.
Entre os escassos exemplares de escultura devocional românica conservados contam-se o Anjo da Anunciação da Sé do Porto, parcialmente destruído, a escultura em calcário representando São João Evangelista, hoje no Museu Nacional de Machado de Castro, o grupo da Anunciação da igreja paroquial de Carrazeda de Montenegro (Valpaços–Vila Real) e as Majestades do Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães. Estas obras revelam influências da escultura do Centro e Oeste de França, bem como do estaleiro de Mestre Mateus no Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela, denunciando soluções já proto-góticas.[33]
A escultura românica portuguesa apresenta igualmente um património muito escasso no domínio da ourivesaria e da torêutica, embora a documentação do século XII refira a existência de frontais de altar, cálices, cruzes e retábulos, como a tabula de super altare com a iconografia da Anunciação da Sé de Coimbra e um conjunto escultórico do Calvário registado em documento de cerca de 1180.[34]
No românico português não se encontram amplos programas iconográficos. A escultura arquitetónica evidencia a conceção do portal axial como Porta do Céu ou Pórtico da Glória, com um claro sentido apotropaico, expresso por signos como o nó de Salomão, o pentalfa e discos helicoidais, bem como pela presença de animais míticos e terríficos.[35]
A escultura românica portuguesa caracteriza-se pela escassez de temas figurativos religiosos e pela abundância de capitéis vegetalistas, frequentemente explicada pela influência da tradição moçárabe.[36]
Embora a Maiestas Domini esteja presente em vários tímpanos, a sua associação ao tetramorfo ocorre apenas em São Pedro de Rates, São Salvador de Ansiães e Sepins. O tímpano de Sepins, esculpido em calcário, destaca-se pela qualidade da modelação.[37]
Escultura funerária e função litúrgica
[editar | editar código]No âmbito da escultura funerária destaca-se o túmulo de Egas Moniz, conservado na igreja do Mosteiro de Paço de Sousa. O conjunto é composto por dois cenotáfios de épocas distintas, sendo o mais antigo, datável de meados do século XII, um dos primeiros testemunhos escultóricos da narrativa da sua gesta. O cenotáfio mais tardio, datado de meados do século XIII, apresenta relevo perspectivado e movimento, constituindo um momento significativo na evolução da escultura funerária portuguesa.[38]
A personalização das sepulturas iniciou-se no século XI através de simples letreiros identificativos, prática inicialmente reservada às elites eclesiásticas e civis. Na segunda metade do século XII generalizou-se o uso de epitáfios, frequentemente acompanhados da figuração de uma espada ou de um cálice, conforme a condição social do defunto.[39]
Organização do território, regionalização e distribuição geográfica
[editar | editar código]A distribuição geográfica e a cronologia da arquitetura românica portuguesa estão intimamente ligadas à organização do território. A precocidade e erudição do românico em cidades como Coimbra e Lisboa explicam-se pelo patrocínio régio, pela presença de comunidades monásticas estrangeiras e pela atuação de artistas forâneos. O românico afirmou-se primeiramente na área de Braga e posteriormente em Coimbra, onde assumiu um caráter mais europeu.[40]
À medida que se expandiu, o românico português regionalizou-se, incorporando soluções construtivas e decorativas pré-existentes, particularmente visíveis nas reformas de igrejas monásticas do Entre-Douro-e-Minho e da região de Lamego, originalmente adaptadas à liturgia moçárabe.
O românico português apresenta maior densidade no Entre-Douro-e-Minho, acompanhando um habitat disperso e uma organização paroquial pulverizada, que se traduzem, em termos arquitetónicos, numa rede densa de igrejas de pequena escala, adaptadas a comunidades locais restritas. Coimbra foi o núcleo urbano com maior concentração de construções românicas. Em Trás-os-Montes, o românico é mais rarefeito, refletindo um habitat aglomerado e menor densidade populacional. Nas Beiras e no antigo bispado de Lamego, o românico apresenta exemplos significativos, frequentemente tardios e regionalizados.[41]
Arquitetura militar, civil, pontes e vias
[editar | editar código]Os castelos da época românica caracterizam-se por uma arquitetura defensiva baseada na espessura e altura dos muros. A introdução da torre de menagem, derivada da domus fortis, constituiu a principal inovação do século XII. No Norte de Portugal predominam estruturas mais elementares, enquanto no Sul se verificam soluções mais avançadas, associadas à fronteira islâmica e à atuação das ordens militares.[42]
A Ordem dos Templários, sob a liderança de Gualdim Pais, desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento da arquitetura militar portuguesa, introduzindo técnicas como o alambor, de origem oriental, visível em castelos como Castelo de Pombal, Castelo de Tomar e Castelo de Almourol.[43]
No domínio da arquitetura civil destaca-se a domus fortis, residência senhorial fortificada adotada por pequenas linhagens em ascensão social. Composta por uma torre quadrangular ameada e edifícios anexos, simbolizava o poder senhorial e estruturava a ocupação do território, sobretudo no Norte e Centro de Portugal.[44]
A construção de pontes na época românica esteve intimamente ligada à renovação da rede viária medieval. Desde finais do século XI, a edificação de pontes passou a ser considerada uma obra de piedade, sendo frequentemente mencionada em testamentos régios, nobiliárquicos e eclesiásticos. As pontes românicas distinguem-se pela robustez dos alicerces, grandes arcos, talhamares desenvolvidos e soluções em cavalete, resistindo melhor ao tempo e às cheias do que muitas pontes romanas.[45]
Capitéis
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Os capitéis constituem um dos elementos mais frequentes da escultura arquitetónica românica, assumindo simultaneamente uma função estrutural e decorativa. Na arquitetura românica portuguesa, estes elementos localizam-se sobretudo nas colunas das arcadas, portais e cabeceiras, sendo um dos principais suportes de ornamentação escultórica.[46]
Grande parte dos capitéis românicos apresenta inspiração na ordem coríntia, visível sobretudo na adoção de motivos vegetalistas. No entanto, estes motivos surgem frequentemente simplificados e estilizados, afastando-se dos modelos clássicos, devido à perda de contacto direto com protótipos antigos, à adaptação às condições técnicas e materiais da época medieval e à integração em programas decorativos específicos.[47]
Do ponto de vista formal, o capitel românico conserva a solução clássica de transição entre a coluna de secção circular e o elemento superior de secção quadrangular. Esta transição era frequentemente obtida a partir de um bloco prismático, com corte dos cantos inferiores, originando uma base octogonal e um topo quadrado.[48] Esta forma permitia a aplicação de diferentes tipos de decoração escultórica e assegurava a estabilidade estrutural da coluna.
A escultura dos capitéis românicos portugueses foi fortemente condicionada pelo uso predominante do granito como material de construção. A dureza desta pedra dificultava a execução de pormenores finos e profundos, refletindo-se num tratamento escultórico mais esquemático, com volumes compactos, relevo pouco pronunciado e estilização das folhas.[49]
O repertório decorativo inclui elementos complexos derivados do mundo clássico e do léxico helenístico: o kalathos, corpo central do capitel; o ábaco, quadrado e decorado com sulcos e molduras; folhas angulares da imma folia e da summa folia; palmeta com lóbulos e terminação em borla; e motivos liriformes, compostos por pedúnculos vegetalistas que se cruzam ou se elevam para enquadrar rosetas ou flores de diversas formas. Em alguns capitéis, surgem ainda variantes como o Duplo S e flores estilizadas, raramente figurativas.[50]
O capitel corintizante, em particular, constitui um exemplo de liberdade ornamental que influenciou a escultura românica portuguesa. A sua difusão no território nacional concentra-se sobretudo na região centro e sul, incluindo Baixo Alentejo, Lisboa, Santarém, Beja, Évora, Alcácer do Sal, Mértola e Conímbriga. Esta distribuição sugere a ação de ateliers itinerantes, que levavam os modelos ornamentais ao longo das vias romanas, como a que ligava Olisipo a Emerita Augusta.[51]
O capitel corintizante adapta elementos clássicos: as volutas são substituídas por folhas alongadas nos ângulos do corpo, enquanto as faces centrais do kalathos apresentam esquemas decorativos variados, sem seguir padrões rígidos. As folhas inferiores e angulares mantêm-se como matriz comum, mas a introdução de palmetas, motivos liriformes e flores estilizadas evidencia uma reelaboração formal que combina rigor estrutural e liberdade decorativa, permitindo múltiplas variantes locais e temporais. Este modelo evolui desde o século I até ao final do período romano, e a sua influência persiste na arte românica portuguesa.[52]
No contexto românico, os capitéis assumem também função narrativa e simbólica. Predomina a ornamentação vegetalista, mas surgem capitéis figurativos com cenas bíblicas, animais reais ou fantásticos, atividades do quotidiano medieval, músicos, acrobatas, cenas agrícolas, cavaleiros, clérigos e camponeses. Estas imagens refletem a vida económica, social e hierárquica da Idade Média, integrando-se na cultura visual dos edifícios românicos e na sua função educativa e simbólica.[53][54]
Assim, os capitéis românicos portugueses constituem um repertório decorativo e iconográfico diversificado, marcado por influências clássicas, adaptação às condições materiais, liberdade ornamental e estreita relação com a cultura visual medieval, revelando tanto a continuidade da tradição romana como a criação de linguagens formais e simbólicas próprias do Românico em Portugal.[55]
Sé de Braga
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A Sé de Braga permanece como um sinal distintivo de marcação religiosa conquistado no conturbado período da Reconquista. Sendo o primeiro monumento românico português, a catedral deriva do modelo de Compostela, mas adaptada à sua função de metropolita e não de templo de peregrinação. Por esta razão, a sua planta foi desenhada como uma igreja de três naves, com transepto e cabeceira composta originalmente apenas por capela-mor e absidíolos, sem o deambulatório característico dos santuários de peregrinos[56][57].
Restaurada a diocese em 1070, os conflitos sobre a jurisdição eclesiástica entre os arcebispados de Braga e Compostela acabariam por ser resolvidos a favor da independência de Braga, enquanto se mantinha pendente, até ao século XVIII, a difícil questão da primazia com Toledo. Em Portugal, a afirmação do arcebispo de Braga acompanhou o processo de reorganização do território, em termos políticos e religiosos, desenvolvendo o protagonismo da diocese nortenha[58].
A catedral é o farol da cristandade e o núcleo onde se concentram todas as atenções. À primeira Sé do período condal sucedeu, a partir do século XII, outro edifício tecnicamente mais arrojado, que absorveu traços da construção anterior e projetou a força dos modelos beneditinos cluníacos. Esta estrutura apresentava três naves com cobertura de madeira e arcos-diafragma entre os tramos, além de uma cabeceira abobadada[58][59]. Do século XII preservam-se ainda o portal principal, modificado nos séculos XV e XVI, e a porta lateral, conhecida como Porta do Sol, que apresenta decoração típica da época.
Este românico de Braga irradiou por toda a região de Entre Douro e Minho, sobretudo nos elementos decorativos, influenciando igrejas de três naves como as de Travanca, o Mosteiro de Pombeiro e São Pedro de Rates[60]. Define-se ainda outro grupo importante, dos séculos XII e XIII, com as igrejas de Paço de Sousa, Roriz, Cete e Fonte Arcada, caracterizadas pelas arcaturas torreadas e o emprego alternado de colunas cilíndricas ou prismáticas, com especial lavor nos ábacos e plintos[58]. Na zona raiana, sob influência do românico da Galiza, destacam-se a Igreja de Nossa Senhora da Orada, Igreja de São Fins de Friestas e o Convento de Ganfei, notável pela sua escultura de capitéis[61].
Ao longo dos tempos, a Sé foi alvo de vigorosas campanhas de atualização. Nos inícios do século XVI, sob os auspícios de D. Diogo de Sousa (1505-1532), a Sé ganhou uma dimensão urbanística de grande relevância. A ela passou a dirigir-se a Rua do Cabido, eixo central do protagonismo do arcebispo, desembocando na galilé de três arcos protegida por uma magnífica grade de ferro[62].
Nesta obra, com abóbadas em estrela de quatro pontas, fabricou-se um novo portal com arco conupial, suprimindo dois arcos do século XII, mas mantendo a estrutura decorativa que teria fortíssima repercussão no românico rural do Norte. A projeção da capela-mor (1509) deve-se também à iniciativa de D. Diogo de Sousa e à perícia do arquiteto João de Castilho, que ali construiu a primeira abóbada de combados em Portugal[62][63].
Mais tarde, o arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles redefiniu a fachada com as duas torres e o zimbório sobre o cruzeiro, obras a cargo de Manuel Fernandes da Silva. Ao longo dos séculos, o espaço foi engrandecido com mobiliário, pintura, talha e azulejo, além de um programa tumular de excelência que acompanhou a vida da Catedral[64].
Sé do Porto
[editar | editar código]A planta da Sé do Porto é de três naves com transepto. Vários vestígios românicos são visíveis em todo o monumento como nas bases das torres e na fachada do transepto. Nos arredores da cidade, a igreja de Santa Marinha de Águas Santas, de uma só nave, com ábside quadrangular e absídiolo, distingue-se pelos portais, as frestas e os capitéis esculpidos.
- Detalhes da catedral do Porto
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A abóbada de canhão da nave é sustentada por grossas colunas pesadas.
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Pouquíssimas e estreitas aberturas que conferem um ambiente sombrio, típico do estilo românico.
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Vista do cruzeiro.
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Vitral que representa a Virgem Maria e vários santos.
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Capela de São João Evangelista.
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Vista exterior da catedral mostrando suas imponentes torres, grande ábside e cruzeiro curto.
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Vista a partir do centro da cidade.
Românico no Vale do Sousa e Baixo Tâmega
[editar | editar código]O românico em Portugal caracteriza-se por forte regionalização, afastando-se do repertório decorativo francês e das formas mais eruditas de construção. No Vale do Sousa e na bacia do Baixo Tâmega, desenvolveu-se uma corrente conhecida como Românico nacionalizado, influenciada tanto pela tradição pré-românico local quanto por modelos do Românico de Coimbra e da Sé do Porto[65].
A Igreja do Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, em Penafiel, constitui um exemplo nuclear desta corrente. Destaca-se pelo cuidado no arranjo dos portais, a profusão de escultura decorativa e a adoção de colunas prismáticas, bases bulbiformes, padrões vegetalistas talhados a bisel e longos frisos interiores e exteriores inspirados na arquitetura visigótica e moçárabe[66].
A partir do século XIII, muitas igrejas da região apresentam uma cronologia tardia, embora com origens fundacionais anteriores. Entre estas destacam-se as igrejas de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses), Boelhe (Penafiel), Rosém (Marco de Canaveses), São Miguel de Entre-os-Rios (Penafiel), Cabeça Santa (Penafiel) e Abragão (Penafiel). Estas construções seguem modelos semelhantes de escultura e de arranjo de portais[67].
Entre os elementos característicos do românico do Vale do Sousa e Baixo Tâmega encontram-se os capitéis do portal principal de São Gens de Boelhe e do Salvador de Cabeça Santa, arcaturas sob imposta de São Vicente de Sousa (Felgueiras), frisos fitomórficos e planos executados a bisel no Salvador de Paço de Sousa, bem como o uso de palmetas torcidas aplicadas em capitéis[68].
A presença de artistas itinerantes é evidenciada em igrejas como o Salvador de Cabeça Santa, cujos portais e capitéis apresentam semelhanças com a Igreja de Cedofeita (Porto) e com a Sé do Porto[69]. Outras igrejas, como São Miguel de Entre-os-Rios, inserem-se no chamado 'Românico de resistência', marcado por contextos de reorganização político-militar durante o reinado de Afonso III de Leão e Castela, visando à fixação da população no Vale do Douro[70].
A região do Baixo Tâmega estava inserida na Civitas Anegiae, território de importância estratégica na Reconquista cristã, fortificado por castelos como o Castelo de Aguiar, o Alto do Castelo em Campo, e o Castelo de Broalhos. A fragmentação territorial do século XI, acompanhada pelo Encastelamento, evidenciou o crescimento da nobreza rural e do Regime senhorial[71].
A aristocracia local, incluindo as famílias Riba Douro, Sousa e Maia, manteve direitos de padroado sobre mosteiros e igrejas, financiando construções e assegurando proteção e cerimónias fúnebres[72]. Entre os mosteiros da região, destacam-se o Mosteiro de São Pedro de Ferreira, com capitéis influenciados pelo Alto Minho, portal com palmetas da Sé de Braga e arquivoltas comparáveis a modelos de Zamora e Salamanca[73], e o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, em Felgueiras, cujo portal axial apresenta aduelas esculpidas e influência bracarense[74].
A Igreja do Salvador de Unhão, em Felgueiras, apresenta um portal com capitéis vegetalistas de grande qualidade, miscigenando influências de Braga e do Vale do Sousa[75]. A Igreja de São Vicente de Sousa e a Igreja de Santa Maria de Airães seguem a tradição do Mosteiro de Paço de Sousa[76]. A Igreja de São Mamede de Vila Verde e o Mosteiro de São Pedro de Cête, em Paredes, constituem exemplos de românico de resistência, mantendo padrões românicos até ao século XIV, mesmo com reformas góticas[77].
Pequenas ermidas, como a Ermida de Nossa Senhora do Vale, refletem a devoção local e a continuidade dos motivos românicos até finais do século XV ou inícios do século XVI[78]. Em Lousada, a Igreja de Santa Maria de Meinedo e o Salvador de Aveleda mantêm padrões construtivos e decorativos românicos, evidenciando a longa permanência do estilo[79].
Entre os elementos de arquitetura civil, destacam-se memoriais funerários, como o Marmoiral de Irivo e o Marmoiral de Sobrado, associados a cortejos fúnebres de personalidades, como D. Mafalda de Portugal, filha de D. Sancho I de Portugal[80], e a Torre de Vilar, um exemplo de domus fortis, residência senhorial fortificada que simboliza poder e autoridade, implantada em vales férteis do Vale do Sousa[81].
A permanência prolongada do românico na região do Vale do Sousa, aliada ao gosto pela decoração vegetalista e geométrica, constitui uma das suas características mais marcantes, demonstrando a importância social, política e religiosa da arquitetura medieval nesta região[82].
Domus Municipalis de Bragança
[editar | editar código]Na cidade de Bragança ergue-se, a Domus Municipalis, simples e admirável exemplar da arquitectura românica civil. [2][ligação inativa]
Sé Velha de Coimbra e Sé de Lisboa
[editar | editar código]O Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, apesar da profunda transformação que sofreu com o estilo manuelino, conserva ainda vestígios da sua primitiva construção românica. Contudo, é a Sé Velha de Coimbra que se apresenta como um exemplar típico deste período, organizada em três naves, com a central coberta por uma abóbada de berço, um transepto pouco pronunciado e uma cabeceira composta por ábside e absídiolos semicirculares[83]. A escultura dos seus capitéis é reconhecida como a mais representativa do românico em Portugal.
A Sé de Coimbra irmana-se com a de Lisboa, que lhe é posterior, possivelmente devido à intervenção dos mesmos mestres, Roberto e Bernardo, que terão trabalhado em ambas as obras em meados do século XII. O monumento de Lisboa, além de possuir mais um tramo e torres imponentes, apresenta arcos e pilares num românico tecnicamente mais evoluído, mantendo o caráter de igreja-fortaleza típico da Reconquista[84].
- Detalhes da catedral de Coimbra
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Abóbada de canhão com uma galeria alta arqueada.
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Coimbra é a única grande catedral de Portugal que ainda mantém o ábside semicircular do românico original.
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Os claustros foram construídos numa transição entre o românico e o gótico, como se observa nos arcos ogivais.
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Sua fachada norte com janelas e colunas estreitas.
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Corredores laterais sustentados por abóbada de aresta e paredes decoradas com azulejos mudéjares do século XVI.
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Abóbada de canhão da nave central sustentada por arcos redondos.
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Detalhe da porta principal com suas colunas e arcos esculpidos intrincadamente.
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Capitel coríntio decorado com figuras antropomórficas.
Românico na Estremadura
[editar | editar código]Na Estremadura encontramos ainda as igrejas de S. João do Alporão, em Santarém, monumento de transição para o gótico; S. Pedro de Leiria e Sta. Maria de Alcácer do Sal (1217).
Fim do Românico e adopção do Gótico
[editar | editar código]Quando a Reconquista chegou ao sul do país, o românico estava a terminar. A planta da Sé de Évora é de três naves com transepto muito saliente e tradicional lanterna no cruzeiro. É, no entanto, o mais nacional dos monumentos portugueses, pois assimilou as formas eruditas às tradicionais populares. A Ordem de Cister trouxe, com a sua reforma, uma arte mais austera com o emprego de arcos apontados e abóbadas de berço quebrado, como em São João de Tarouca, o primeiro mosteiro da ordem fundado em 1140.
Igrejas menores, como as de Santa Maria de Fiães, Santa Maria de Aguiar e Santa Maria do Bouro, filiam-se neste grupo, em que se impõe, pelas dimensões, o mosteiro de Alcobaça. A cabeceira, com deambulatório e capelas radiantes de abóbadas de berço, é antiga, ao lado das construções dos arcos botantes exteriores. Ao longo da sua construção medieval, o mosteiro de Alcobaça ilustra a passagem da arquitectura cisterciense do românico para o gótico.
Ver também
[editar | editar código]- Arquitetura românica
- Monumentos religiosos de Portugal
- Românico em Portugal
- Rota do Românico do Vale do Sousa
Referências
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Ligações externas
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