Carlos von Koseritz

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Carlos von Koseritz
Nascimento 7 de junho de 1830
Dessau
Flagge Herzogtum Anhalt.svg Ducado de Anhalt-Dessau
(Confederação do Reno)
Morte 30 de maio de 1890 (59 anos)
Nacionalidade Brasileira
Ocupação empresário, político, jornalista, tradutor e escritor

Carlos von Koseritz (Dessau, 7 de junho de 1830 - Porto Alegre, 30 de maio de 1890) foi um empresário, político, jornalista e escritor teuto-brasileiro.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos na Europa[editar | editar código-fonte]

Nascido Carl Julius Christian Adalbert Heinrich Ferdinand von Koseritz, ele era filho do major e barão Karl von Koseritz e de sua esposa Wilhelmine von Koseritz.

Frequentou uma escola destinada a atividades marítimas, a qual logo abandonou por falta de vocação. Mais tarde, Koseritz ingressou no Exército para uma campanha contra a Dinamarca, sendo seu corpo de exército dissolvido no final da guerra.[1]

Chegada ao Brasil[editar | editar código-fonte]

Veio para o Brasil, em 1851, como grumete do navio Heinrich, o mesmo que trouxe um contigente mercenários alemães, os Brummer, recrutados para lutar na Guerra contra Oribe e Rosas.[1][2] Ao chegar ao Rio de Janeiro fugiu, engajando-se no contingente Brummer.[2]

Muitos destes mercenários desertaram com a conivência das autoridades. Cerca de vinte por cento morreram de frio, por desnutrição ou doenças decorrentes da carência alimentar. Apenas 450 aguardaram o término do contrato engajados no exército. Eles permaneceram no Rio Grande do Sul, atraídos pelos núcleos alemães no Sul e pelas novas colônias que se abriram depois de 1850, onde receberam terras. Os Brummer exerceram influência nos locais onde se estabeleceram, trabalhando como comerciantes, diretores de colônias, agrimensores, professores ou agricultores.

Primeiros anos em Pelotas e Rio Grande[editar | editar código-fonte]

Koseritz é um dos que se dispersaram e viveram sem dinheiro. Aceitou emprego como cozinheiro, jornaleiro e acaba ficando doente. Vivendo na miséria em Pelotas, e doente acabou recolhido à Santa Casa de Misericórdia, onde após se recuperar conheceu Telêmaco Bouliech, de quem se tornou muito amigo e com quem fundou um colégio.[1] Trabalhou como guarda-livros, professor particular e, mais tarde, como médico leigo. Sua escolaridade dava-lhe conhecimentos que o povo não tinha e sua têmpera, de muito estudo e dedicação, despertava a admiração de todos.[1]

Como conseqüência lógica de seus ideais, Carlos von Koseritz passou a colaborar com os jornais locais, como O Noticiador. Na tipografia deste jornal, em 1857, publica seu primeiro livro, de fins didáticos, Resumo da História Universal.[2] Envolveu-se na política local, por meio de embates diários na imprensa, contra os progressistas, o partido dominante de Pelotas. Quando Domingos José de Almeida, criou seu próprio jornal em 1858, chamado Brado do Sul, considerado o primeiro jornal diário da cidade, convidou Koseritz dirigi-lo.[2] Koseritz ainda se ligou aos intelectuais pelotenses, tais como os escritores Bernardo Taveira Júnior e Lobo da Costa.

Por causa de de seu envolvimento político, Koseritz mudou-se para Rio Grande, onde redigiu o jornal O Povo e colaborou com o Eco do Sul. Também fundou lá um estabelecimento de instrução primária e secundária: o Ateneu Rio-Grandense.

Casado em 1855 com a brasileira Zeferina Barbosa. Aproveitava o tempo para escrever sobre filosofia, literatura, política e economia e para inteirar-se dos acontecimentos de sua época. A vida passou a ficar difícil quando Koseritz resolveu polemizar com os políticos locais. A polícia fechou o jornal e alguns desafetos lhe atacaram violentamente, dando-lhe uma surra. Desfalecido, foi levado para o hospital pela esposa. Assim, Koseritz acaba sendo obrigado a abandonar o jornal e o magistério e muda-se para Porto Alegre, em 1864, onde é convidado a ser representante das colônias alemãs no Rio Grande do Sul e onde se naturalizou em 1865.

Vida em Porto Alegre[editar | editar código-fonte]

Logo após sua chegada à capital da província, nasce sua primeira filha, Carolina Koseritz, que viria a ser sua companheira inseparável por toda a vida.

Em Porto Alegre, colaborou com os jornais Jornal do Commercio, Rio Grandense e A Reforma.[1] A partir de 1864, foi redator do Deutsche Zeitung, jornal alemão que seria a porta para seus novos projetos e conquistas.[1] Neste jornal suas posições anticatólicas foram tão exarcebadas que foram diretamente causadoras da fundação do jornal jesuíta Deutsches Volksblatt, em 1871, que buscava se contrapor aos ataques de Koseritz. Também pregou constantemente um maior envolvimento dos descendentes de alemães na política brasileira, além de pressionar o governo por melhores condições para os imigrantes.[3]

Em 1870, durante a Guerra franco-prussiana desliga-se de A Reforma por defender a Alemanha, contra o dono do jornal, Gaspar da Silveira Martins, francófilo.[1]

Em 1872, publica o livro Roma perante o Século, um manifesto contra o novo dogma da Igreja Católica que dava poderes de infalibilidade ao papa. Tal publicação rende-lhe a excomunhão da Igreja Católica. Já maço e estudioso da filosofia espírita, Koseritz não se abala com a decisão papal e entra para a Igreja Evangélica. Foi opositor ferrenho dos jesuítas e condenava todo fervor o religioso católico.

Fundou em 1876 o jornal A Acácia, redigido em português e direcionado à leitores da maçonaria, seu princípio era "cada homem esclarecido tem que tornar-se maçom e em toda parte onde ainda não há loja tem que ser criada uma", o jornal porém sobreviveu por pouco tempo. No mesmo ano também publica o Koseritz Volkskalender, um almanaque popular, em forma de revista, que surgia sempre no começo do ano e era aguardado com expectativa, pois trazia artigos variados, como literatura, folclore, paleontologia, ciências, cultura gaúcha e agricultura, com informações práticas para os colonos alemães.

Depois cria a Gazeta de Porto Alegre, em 1º de janeiro de 1879 que circulou por 5 anos e meio.[1]

Em 1881, Koseritz lança-se no que seriam seus maiores projetos: a Exposição Brasileira-Allemã. O grande objetivo da Exposição era divulgar os produtos brasileiros para os enviados dos principais mercados da Alemanha e, em contrapartida, apresentar aos brasileiros os produtos fabricados pelos alemães. Várias províncias remeteram seus principais produtos, destinados à possível exportação para o mercado alemão. Seria a primeira Exposição Internacional em todo o Império.

Para organizar a exposição se contrapôs ao cônsul alemão Wilhelm Ter Brüggen, que também era um dos proprietários do Deutsche Zeitung e parte do seu conselho de administração.

Apesar do sucesso de público que teve a Exposição, Koseritz enfrentou também a má vontade dos comerciantes alemães de Porto Alegre, que receavam a aproximação entre o público e seus fornecedores, temendo que soubessem dos preços reais das mercadorias que vendiam. Sofreu ataques dos jornais, dizendo que tirava vantagens financeiras da Exposição e que fora por pura camaradagem que escolhera a chácara de seu amigo Carlos Trein para a realização do evento. Quando o Deutsche Zeitung, por influência de Ter Brüggen, publica um artigo contra a exposição, Koseritz pede demissão e lança seu próprio jornal, o Koseritz Deutsche Zeitung.

Para imensa tristeza de Koseritz, o pavilhão onde se realizava a exposição fora criminalmente incendiado e ele perdeu toda a sua coleção etnográfica, mas não se deixou abater.

Em 1883, elegia-se deputado provincial e tornava-se o porta-voz dos imigrantes alemães. Foi deputado por quatro mandatos e um dos que mais ocuparam a tribuna. Mesmo assim, não parou de produzir, escrevia vários livros, nas mais diferentes áreas de interesse: romances, poesias, peças teatrais, economia, etnologia, livros didáticos, traduções e manuais para imigração. Tudo que lhe despertava o interesse era estudado com afinco e virava um livro.

Ao lado da filha preferida Carolina, engajou-se na Emancipação dos Escravos, e em 1884, Porto Alegre tornou-se uma das primeiras cidades as libertar seus negros.

Apesar de monarquista convicto, aceitou a República, não combateu e nem conspirou contra o novo regime, porém, queria plena e total liberdade para criticar os procedimentos do governo, que, no seu ponto de vista, “não deveria, em nome da honra do país, restringir a livre expressão do pensamento”.

Mas suas intenções não foram bem recebidas pelo Partido Republicano Rio-grandense. Desde antes da Proclamação da República, Koseritz e os líderes republicanos gaúchos Assis Brasil e Júlio de Castilhos duelavam através de seus jornais. Sendo os republicanos os novos governantes do estado e Koseritz o redator chefe do jornal do Partido Liberal, este acabou preso e humilhado, diante das filhas e esposa. Passou uma semana em prisão domiciliar, com guardas armados dentro de sua casa.

Resfriados os ânimos políticos, os soldados se foram e Koseritz sentiu-se imensamente triste. Resolveu afastar-se, temporariamente, do Rio Grande do Sul, a fim de procurar ares mais salubres para suas filhas, que ficaram doentes com tantos sofrimentos.

Na véspera de sua partida, escreveu uma carta de despedida ao povo rio-grandense e narrou os fatos de sua prisão. Após assinar e datar, sentiu uma dor muito forte no peito e caiu no chão. Morreu nos braços de sua filha Carolina, no dia 30 de maio de 1890.

O que melhor descreve Carlos Von Koseritz são as palavras de seu biógrafo Guilhermino César:

“Apesar de seu constante interesse pelas atividades literárias, não obstante os seus pendores de novelista, e mal grado, ainda, a exemplar atuação político-partidária que desenvolveu, o que avulta na personalidade de Koseritz, e de fato a caracteriza, é a paixão das idéias.
Combativo, ardente, ainda no mais aceso das discussões, soube dar-lhes o traço ideológico que é o segredo dos espíritos de boa categoria. Nunca esgrimia em vão. Pode, assim, enfrentar com galhardia temas rebarbativos, diante dos quais assentava em bases lógicas a cidadela de sua dialética.
Pouco maneiroso, às vezes álgido e seco, esse prussiano manejava um estilo cortante no trato das questões que interessavam à inteligência.
Quando, porém, se tratava de discutir no plano afetivo, desde que a causa fosse do sentimento e não da razão, aí se transmutava o cacto agreste em flor humilde e delicada”.

Papel na política[editar | editar código-fonte]

Enquanto deputado, Koseritz trabalha com afinco a favor da educação bilíngüe nas colônias, da construção de estradas e de melhorias na navegação entre Rio Grande e Porto Alegre e das ligações entre as regiões coloniais e a capital da província, fora contra os privilégios de alguns empresários gaúchos, contra os impostos extorsivos à colônia alemã e a favor da integração dos imigrantes na vida nacional. Tomara para si a bandeira do teuto-brasileirismo e tornara-se o principal representante do germanismo nacional.

O teuto-brasileirismo seria um meio-termo para a afetividade: o amor à tradição de onde se veio e o amor à terra na qual se vive.[4] Koseritz pregava que os imigrantes alemães e seus descendentes deveriam integrar-se ao Brasil através da política, lutar e participar do desenvolvimento da pátria que tinham escolhido e na qual seus filhos haviam nascido; entretanto deveriam manter a língua e os costumes alemães.[5]

Era absolutamente enfático na desvinculação com relação ao império alemão e concebia como fundamental a participação da sua etnia na construção do Brasil, porque seriam portadores de uma qualidade.[4] Porém tal característica somente poderia continuar existindo a partir da preservação da cultura que fazia o indivíduo germânico ser diligente e trabalhador.[4]

Obras publicadas[editar | editar código-fonte]

Capa do Resumo de História Universal
  • Resumo da História Universal, Pelotas, 1856
  • A donzela de Veneza, Pelotas, 1859
  • Um drama no mar, Rio Grande: Tip. do Echo do Sul, 1863 [6]
  • Beschreibung der Provinz Rio Grande do Sul, Rudolstadt, 1863
  • Resumo da economia nacional: especialmente aplicado às circunstâncias atuais do país, Porto Alegre: Typ. do Jornal do Comércio, 1870 [7]
  • Roma perante o século, Porto Alegre, 1871
  • Rom von dem Tribunal des Jahrhundersts, Porto Alegre, 1872
  • A Igreja e o Estado, Porto Alegre, 1873
  • Laura, também um perfil de mulher, Rio Grande: Tipografia J. J. R. da Silva, 1875
  • Rathschläge für Auswanderer, Berlin, 1881
  • Rückliblick auf die brasilianische Politik der letzen zwanzing Jahre, Porto Alegre, 1882
  • Bosquejos etnológicos, Porto Alegre, 1884
  • A terra e o homem, Porto Alegre, 1884
  • Bilder aus Brasilien, Leipzig, 1885
  • Alfredo d'Escragnolle Taunay; esboço característico, traduzido do alemão. Rio de Janeiro: G. Leuzinger & Filhos, 1886 [8].
  • Laura, também um perfil de mulher, 2. ed. Porto Alegre: Tip. Livraria Americana, 1887.
  • Impressões da Itália, Porto Alegre, 1888
  • Imagens do Brasil, tradução de Bilder aus Brasilien por Afonso Arinos de Melo Franco, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1941

Foi um dos membros do corpo diretivo luso-brasileiro da Revista de Estudos Livres [9] (1883-1886).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g h PORTO, Aurélio (1934). O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul. [S.l.]: Estabelecimento Gráfico Santa Teresinha 
  2. a b c d SPALDING, Walter. Construtores do Rio Grande. Livraria Sulina, Porto Alegre, 1969, 3 vol., 840pp.
  3. BECKER, Klaus. Imprensa em língua alemã (1852-1889), in Enciclopédia Rio-Grandense. Porto Alegre, 1956.
  4. a b c BONOW, Stefan Chamorro (2011). «A desconfiança sobre os indivíduos de origem germânica em Porto Alegre durante a Primeira Guerra Mundial: cidadãos leais ou retovados?». Porto Alegre: PUCRS. Consultado em 2 de fevereiro de 2013 
  5. MOTTER, Ana Elisete (1998). As relações entre as bancadas teuta e luso-brasileira na Assembleia Legislativa Provincial Rio-Grandense. Unisinos (Dissertação (Mestrado)). São Leopoldo: Faculdade de História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos 
  6. Artigo na revista Mafuá
  7. Worldcat
  8. Worldcat
  9. Pedro Mesquita (22 de outubro de 2013). «Ficha histórica: Revista de estudos livres (1883-1886)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 17 de abril de 2015