Clube Militar

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Clube Militar
A Casa da República
Lema "Democracia - Soberania - Unidade Nacional - Patriotismo"
Fundação 26 de junho de 1887 (134 anos)
Estado legal Em atividade
Propósito incentivar as manifestações cívicas e patrióticas e interessar-se pelas questões que firam ou possam ferir a honra nacional e militar
Sede Rio de Janeiro e Cabo Frio
Presidente Gen Div Eduardo José Barbosa[1]
Primeiro presidente Marechal Deodoro da Fonseca
Fundadores Gen Thomaz Cavalcante de Albuquerque (principal)
Sítio oficial http://clubemilitar.com.br/

O Clube Militar, fundado em 26 de junho de 1887, é uma associação de direito privado sem fins lucrativos, de caráter representativo, assistencial, social, cultural, esportivo e recreativo, localizado no Rio de Janeiro e com atuação em todo território nacional. No dia 19 de maio de 2018 o atual vice-presidente do Brasil, General Mourão, foi aclamado presidente do clube, tendo deixado o cargo em ocasião de sua posse como vice-presidente.[2][3][4]

O atual presidente, Jair Bolsonaro, também é sócio do clube, assim como grande parte dos seus ministros militares, como o ministro da defesa General Fernando Azevedo e Silva.[5][6] Após anos de esquecimento no cenário político, com a onda popular voltada ao militarismo que elegeu Bolsonaro, o Clube Militar volta a ter sua importância no cenário político nacional. O clube é um importante apoiador do atual presidente, com o atual presidente do clube afirmando que há uma clara perseguição ao Bolsonaro.[7][8]

Desde a fundação do Clube, 3 de seus presidentes também foram presidentes do Brasil, Marechal Deodoro, Marechal Hermes da Fonseca e o Marechal Eurico Gaspar Dutra. Quase 70 anos depois um presidente do Clube Militar volta ao alto escalão do executivo federal, com o General Hamilton Mourão.[9]

Fundação[editar | editar código-fonte]

Com o fim da Guerra do Paraguai e as crises e conflitos militares que se espalhavam pelo país, a classe militar via a necessidade de buscar uma maior organização para um melhor debate e defesa de seus interesses. No dia 2 de junho de 1887, na casa do major Serzedelo Correia, se reuniram oficiais da marinha e do exercito no que seria uma das primeiras reuniões preparatórias para a criação do Clube Militar.[10][11]

No dia 26 de junho de 1887, em uma sala no clube naval, cedida pelo presidente do clube, Custódio José de Mello, foi realizada a assembleia que criou oficialmente o Clube Militar. A assembleia de 26 de junho foi realizada sob a presidência de Marechal José Antônio Correia Câmara, e secretariada por Custódio de Mello e pelo Tenente Coronel Carlos Frederico da Rocha, na qual o Visconde de Pelotas proferiu elogios a Deodoro e encerrou conclamando os presentes a, de pé, aclamarem o Marechal Deodoro presidente do Clube Militar.[12][13]

Participação na história[editar | editar código-fonte]

Movimento abolicionista[editar | editar código-fonte]

Os oficiais que formavam o Clube Militar eram abertamente abolicionistas, o que desagradava o imperador que por vezes tentou dificultar o funcionamento do clube.[12][14]

O clube se opôs as punições dadas ao Ten Cel Sena Madureira por homenagear Francisco Nascimento, jangadeiro abolicionista.[15]

Em outubro de 1887, o presidente do Clube Militar, Marechal Deodoro da Fonseca escreveu uma carta destinada à princesa regente dona Isabel, reclamando contra o emprego de soldados na captura de escravos fugitivos, e afirmando que o Exército não se prestava ao papel de “capitão-do-mato”.[16]

Proclamação da República[editar | editar código-fonte]

A insatisfação dos militares para com o império já vinha de longe; entre os anos de 1883 e 1887 ocorreu a chamada Questão Militar, uma série de conflitos entre militares e políticos do império que acabou acirrando ainda mais a rixa entre militares e monarquistas.[17][18]

No dia 9 de novembro de 1889 o corria no Clube Militar, sob a presidência de Benjamin Constant, pois Deodoro estava doente, uma reunião para tratar das desavenças com o visconde de Ouro Preto, na reunião, Benjamin Constant criticou duramente os atos do governo acusando-o de hostilidades contra o exercito e pediu aos demais membros do clube plenos poderes para "tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com a honra e a dignidade"; sem saber da conspiração que se passava no Clube Militar, o imperador D.Pedro II festejava em um grande baile na Ilha Fiscal no que ficou conhecido como último baile do império.[12][19]

No dia 11 de novembro, Rui Barbosa, Benjamin Constant, Aristides Lobo e Quintino Bocaiúva se reuniam a Marechal Deodoro, em sua casa, para decidir como se daria a queda do império. No dia 15 de novembro, Deodoro e outros membros do Clube Militar se dirigiram ao Ministério da Guerra onde todos os membros foram depostos e a república proclamada.[20][21]

Após a proclamação da república do Brasil, Marechal Deodoro assumiu a presidência do Brasil, tornando-se o primeiro presidente da república.[22]

Revolta da vacina[editar | editar código-fonte]

Em meio a insatisfação popular com as medidas do governo que levaram a uma série de protestos que ficaram conhecidos como Revolta da Vacina, o vice-presidente do Clube Militar, Tenente-Coronel Lauro Nina Sodré e Castro, com o apoio de parte da diretoria do clube e sem o conhecimento do presidente do clube, orquestrou uma série de ataques para derrubar o presidente Rodrigues Alves, após graves confrontos que levaram a morte do General Travassos e a prisão do Major Gomes de Castro pelo seu comandante Hermes da Fonseca o golpe contra o presidente Rodrigues Alves foi derrotado. Logo depois o tenente coronel Lauro Nina Sodré e Castro reassumiu o cargo de vice-presidente do Clube Militar.[23][24][25]

O petróleo é nosso[editar | editar código-fonte]

O Clube Militar fez forte presença na campanha "O petróleo é nosso", a maioria dos sócios, nacionalistas, defendiam o monopólio do petróleo e a criação da Petrobras. Tinha ainda aqueles que se opunham a criação da Petrobras e defendiam a abertura da exploração de petróleo para o mercado estrangeiro, como é o caso do General Juarez Távora, que fazia contraste com o General Horta Barbosa que defendia o monopólio estatal.[26][12][27]

Golpe de Estado no Brasil em 1964[editar | editar código-fonte]

O Clube Militar foi um importante apoiador do movimento que deu início a ditadura militar brasileira; em meio a acusações de um golpe comunista por parte de João Goulart que estava em viagem oficial à China no momento da renúncia de Jânio Quadros, o exército, com o apoio do Clube Militar, impediu Jango de voltar ao Brasil, e após um período de negociação, foi permitido seu retorno ao país com a mudança para um regime parlamentarista. Um plesbicito, em 1963, restaurou o regime presidencialista. Logo depois, com as elites e a classe média conservadora temendo que um golpe comunista estivesse próximo, ocorreu no Rio de Janeiro a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, manifestação interpretada pelos militares como um aval popular para a deposição de João Goulart. Com o apoio de parte classe média e da Igreja Católica, em 15 de abril de 1964, o golpe militar levou ao poder Castello Branco, que ao assumir o cargo de Presidente do Brasil declarou que iria permanecer no poder até que o suposto risco comunista fosse cessado no Brasil, assim caracterizando o Golpe Militar de 1964.[28][29]

No dia seguinte ao golpe militar as sedes do Clube Militar foram atacadas por manifestantes pro Jango, sendo os manifestantes afastados com tiros para o alto.[30][31]

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

No dia 19 de fevereiro de 2021, O Clube Militar emitiu uma nota assinada pelo general da reserva Eduardo José Barbosa, posicionando-se contra a prisão do deputado Daniel Silveira por divulgar ataques ao STF, e apresentando outros questionamentos. O clube declarou que "parcela da população tem saudades do Regime Militar instaurado a partir de 1964" e alegou que deputado foi preso por ser apoiador do presidente Jair Bolsonaro. Aloizio Mercadante respondeu que o Clube Militar merece uma "resposta vigorosa (...) é dever de todos os democratas a construção de uma ampla frente democrática para combater o fascismo e fazer uma defesa incondicional do estado de direito (...) A democracia é um sistema tão flexível e generoso, que até os que a negam e que a agridem cotidianamente podem se eleger presidente ou deputado. Mas, as forças do atraso e do autoritarismo seguem testando seus limites, saudosos de um passado de dor, de violência e de ditadura, que não pode ser reescrito e que não voltará".[32]

Para sua coluna no UOL, o jornalista Chico Alves escreveu um artigo respondendo um a um dos nove "questionamentos" apresentados na nota do Clube Militar.[33]

Referências

  1. «Atual Diretoria». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  2. «Sob Mourão Clube Militar quer formar candidatos de farda». O Globo. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  3. «General Mourão é o NOVO PRESIDENTE do Clube Militar.». Sociedade Militar. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  4. «Resumo». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  5. «"Tenho acesso direto aos assessores de Mourão", diz presidente do Clube Militar». apublica.org. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  6. «MILITARES NO PRÓXIMO GOVERNO». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  7. «presidente-do-clube-militar-diz-que-ha-uma-clara-perseguicao-contra-bolsonaro». Estadão. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  8. «Clube Militar convoca sócios para atos pró-Bolsonaro». UOL. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  9. «Clube Militar retorna ao centro do poder com o governo Jair Bolsonaro». Amazonas Atual. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  10. «1Fundação do Clube Militar em 26 Jun 1887 Domingo, noClube Naval» (PDF). FAHIMTB. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  11. «Fundação – 1887». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  12. a b c d «CLUBE MILITAR». FGV. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  13. «Biblioteca Clube Militar». redebie. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  14. «Abolição – 1888». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  15. «CRISE DO SEGUNDO REINADO E O MOVIMENTO ABOLICIONISTA». Pro Enem. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  16. «Proclamação da República - Questão Militar». UOL. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  17. «Questão Militar». projetomemoria.art.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  18. «República – 1889». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  19. «Após anos de ostracismo, Clube Militar volta ao centro do poder com Bolsonaro». UOL. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  20. «Deodoro da Fonseca». Estadão. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  21. «O Exército e a República». EB. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  22. «República brasileira nasceu com marechal de longa trajetória monarquista». Folha de S.Paulo. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  23. «Revolta da Vacina». FGV. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  24. «A Revolta da Vacina: insurreição no Rio de Janeiro (1904)». Fundação Joaquim Nabuco. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  25. «A Revolta da Vacina». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  26. «Horta Barbosa». FGV. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  27. «Petróleo – Petrobrás». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  28. «Clube Militar dá apoio ao Clube Naval». Jornal do Brasil. 31 de março de 1964. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  29. «Revolução de 1964 - Os 31 dias de Março e os primeiros dias de Abril». wirelessbrasil.org. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  30. «GUANABARA HORA A HORA» (PDF). O Cruzeiro. 10 de abril de 1964. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  31. «Democracia em Perigo». clubemilitar.com.br. Consultado em 19 de novembro de 2019 
  32. «Mercadante defende "resposta vigorosa" a declaração de Clube Militar». Metrópoles. 20 de fevereiro de 2021. Consultado em 20 de fevereiro de 2021 
  33. Chico Alves (21 de fevereiro de 2021). «Respostas à nota do Clube Militar sobre o caso Daniel Silveira». UOL. Consultado em 23 de fevereiro de 2021