Escorpião
Escorpião
| |||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Ocorrência: Siluriano Inferior-Recente, 430–0 Ma | |||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||
| |||||||||||
| Famílias | |||||||||||
| Akravidae Bothriuridae Buthidae Caraboctonidae Chactidae Chaerilidae Euscorpiidae Hemiscorpiidae Iuridae Microcharmidae Pseudochactidae Scorpionidae Superstitioniidae Vaejovidae | |||||||||||
Escorpiões (da ordem Scorpiones) são aracnídeos predadores com oito patas, um par de pinças (chamadas de quela) e uma cauda segmentada e estreita, frequentemente curvada caracteristicamente sobre o dorso e sempre terminando em um ferrão. A história evolutiva dos escorpiões remonta a 435 milhões de anos. Eles vivem principalmente em desertos, mas se adaptaram a uma ampla gama de condições ambientais e podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. Existem mais de 2 500 espécies descritas, com 22 famílias extantes (vivas) reconhecidas até o momento. A sua taxonomia está sendo revisada para levar em conta os estudos genômicos do século XXI.
Os escorpiões alimentam-se principalmente de insetos e outros invertebrados, mas algumas espécies caçam vertebrados. Eles usam suas pinças para imobilizar e matar a presa ou para evitar a sua própria predação. A picada venenosa é usada para ataque e defesa. Durante o cortejo, o macho e a fêmea seguram as pinças um do outro e "dançam" enquanto o macho tenta posicionar a fêmea sobre sua bolsa de esperma. Todas as espécies conhecidas são vivíparas e a fêmea cuida dos filhotes enquanto seus exoesqueletos endurecem, transportando-os nas costas. O exoesqueleto contém produtos químicos fluorescentes e brilha sob luz ultravioleta.
A grande maioria das espécies não representa uma ameaça séria para os seres humanos, e adultos saudáveis geralmente não precisam de tratamento médico após uma picada. Cerca de 25 espécies (menos de um por cento) possuem veneno capaz de matar um ser humano, o que acontece frequentemente em partes do mundo onde eles vivem, principalmente onde o acesso ao tratamento médico é improvável.
Os escorpiões aparecem na arte, folclore, mitologia e marcas comerciais. Motivos de escorpião são tecidos em tapetes kilim para proteção contra sua picada. Escórpio é o nome de uma constelação; o signo astrológico correspondente é "Escorpião". Um mito clássico sobre Escórpio conta como o gigantesco escorpião e seu inimigo Órion tornaram-se constelações em lados opostos do céu.
Outros nomes e etimologia
[editar | editar código]
1 = Cefalotórax ou prossoma;
2 = Pré-abdômen ou mesossoma;
3 = Cauda ou metassoma;
4 = Pinças ou pedipalpos;
5 = Pernas;
6 = Peças bucais ou quelíceras;
7 = Tenazes ou quelas;
8 = Garras móveis ou tarsos;
9 = Garras fixas ou manus;
10 = Ferrão ou aguilhão;
11 = Télson (ânus no segmento anterior);
12 = Abertura dos pulmões foliáceos
Também é conhecido por lacrau ou alacrau. O nome escorpião é derivado do latim scorpio/scorpionis. Lacrau vem do árabe al-'aqrab.
Existem registros científicos de que os escorpiões existem há mais de 400 milhões de anos. Segundo pesquisas, foram eles os primeiros artrópodes a conquistar o ambiente terrestre. Nesta adaptação, foi-lhes muito útil a carapaça de quitina que compõe o seu exoesqueleto e que evita a evaporação excessiva.
Atualmente, já estão catalogadas cerca de 1 600 espécies e subespécies distribuídas em 116 gêneros diferentes em todo o mundo. No Brasil existem cerca de 160 espécies.
Existem escorpiões em todos os continentes, exceto na Antártida. Encontramos espécies nos Alpes suíços e Europa em geral, no México, Estados Unidos e Canadá, na América do Sul em geral, entre lixo e entulhos das pequenas e grandes cidades, na Floresta Amazônica (Brasil), na Oceania, no norte do Mediterrâneo, no Oriente Médio, na Índia, no norte e sul da África e Ásia. Suas cores variam do amarelo palha ao negro total, passando por tons intermediários, como o amarelo-avermelhado, vermelho-amarronzado, marrom e tons de verde ou mesmo de azul.
Distribuição geográfica
[editar | editar código]Os escorpiões são encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. Eles são incomuns entre os grupos de animais, pois são mais diversificados nas regiões subtropicais do que nas tropicais, e também são menos comuns perto dos pólos.[1] A Nova Zelândia e algumas ilhas da Oceania tiveram, no passado, pequenas populações de escorpiões introduzidos, mas eles foram exterminados.[1][2] Algumas espécies estão na Lista Vermelha da IUCN; Afrolychas braueri é classificado como criticamente ameaçado (2012), Isometrus deharvengi como ameaçado (2016) e Chiromachus ochropus como vulnerável (2014).[3][4][5]
Os escorpiões são geralmente xerófilos, vivendo principalmente em desertos, mas podem ser encontrados em praticamente todos os habitats terrestres, incluindo montanhas de alta altitude, cavernas e zonas entremarés. Eles estão praticamente ausentes de ecossistemas boreais, como a tundra, a taiga de alta altitude e os cumes das montanhas.[6][7] A altitude mais elevada alcançada por um escorpião é de 5.500 metros nos Andes, para o Orobothriurus crassimanus.[8] No que diz respeito aos microhabitats, os escorpiões podem ser terrestres, arborícolas, rupícolas ou arenícolas. Algumas espécies, como Vaejovis janssi, são versáteis e utilizam qualquer habitat na ilha Socorro, na Baixa Califórnia, enquanto outras, como Euscorpius carpathicus, endêmico da zona litorânea dos rios da Romênia, ocupam nichos especializados.[9][10]
Vida, alimentação e hábitos
[editar | editar código]As diferentes espécies de escorpiões têm tempos de vida muito diferentes e o tempo de vida real da maioria das espécies não é conhecido. A gama do tempo de vida parece situar-se entre os 4 a 25 anos, tendo sido 25 anos o tempo de vida máximo registado para a espécie H. arizonensis.
Preferem viver em áreas com uma temperatura entre 20 °C e 37 °C, mas sobrevivem em temperaturas de 0 °C a 56 °C. Perfeitamente adaptados às condições climatéricas do deserto, suportam uma amplitude térmica diária na ordem dos 40 °C. Escorpiões do gênero Scorpiops, alguns da família bothriurid que vivem na Patagônia e pequenos Euscorpius da Europa central podem sobreviver à temperaturas de inverno que chegam a -25ºC (−13 °F). Em Repetek (Turcomenistão) vivem sete espécies de escorpião (das quais a Pectinibuthus birulai é endêmica) em temperaturas que variam de -31ºC a 51ºC.

São animais carnívoros e têm geralmente hábitos de sair de noite, quando caçam e se reproduzem. Detectam suas presas por vibrações no ar, no solo e sinais químicos, todos detectados por sensíveis pelos distribuídos principalmente nas suas pinças e patas. Sua alimentação é baseada em principalmente em insetos e aranhas, mas podem se alimentar de outros escorpiões (o canibalismo é uma prática comum entre todos os aracnídeos), lagartos e até pequenos roedores e pássaros. Os escorpiões conseguem comer quantidades imensas de alimento, mas conseguem sobreviver com 10% da comida de que necessitam, podendo passar até um ano sem comer e consumindo pouquíssima água, quase nada durante sua vida inteira.
Usam seu veneno normalmente para imobilizar a presa, mas também serve para pré digerir os órgãos internos e vísceras do animal. Em seguida, usam suas quelíceras (pequeno par de "presas" na parte frontal do prossoma) para dilacerar sua comida enquanto os sucos digestivos do intestino são regurgitados para fazer uma digestão externa, que então é sugada sob a forma líquida. Qualquer matéria sólida indigestível (pelo, exoesqueleto, etc) é preso por cerdas na cavidade pré-oral, o que é ejetado pelo escorpião. Ou seja, assim como as aranhas, eles não conseguem ingerir material sólido.
Os predadores naturais do escorpião são aves, alguns répteis (cobras e alguns lagartos), algumas aranhas, formigas, entre outros. Na natureza, o tamanho é essencial para determinar quem é presa ou predador.
Reprodução
[editar | editar código]
A reprodução da grande maioria das espécies é sexuada, exigindo a intervenção de machos e fêmeas. Porém, algumas espécies possuem reprodução monoica (também chamada partenogênese), ou seja, não exige a presença de machos. Neste processo, óvulos não fertilizados dão origem a embriões vivos. Na reprodução sexuada, tal como em outras espécies, há uma dança nupcial que antecede o acasalamento. O macho limpa o chão com os pentes e deposita aí uma cápsula contendo espermatozóides (espermatóforo). De seguida, arrasta a fêmea para cima dos espermatozóides a fim de que ela os receba.
Há espécies de escorpiões que são vivíparas (Se desenvolvem dentro do corpo da fêmea em uma placenta), mas a maioria é ovovivípara (se desenvolvem em um ovo dentro do corpo da fêmea, que eclode internamente). Podem gerar de 6 a 90 filhotes e o tempo de gestação varia com a temperatura, espécie e alimentação da mãe, podendo estar entre 2 meses e 2 anos. Os filhotes nascem completamente brancos e por meio de parto, através de uma fenda genital. Eles ficam colados ao dorso materno por cerca de 10 a 14 dias até completar-se a primeira muda (quanto mais jovem o escorpião, mais mudas ele fará) até que consigam obter seu próprio alimento sozinhos. A idade adulta é alcançada com cerca de um ano de vida.
Características
[editar | editar código]
O corpo dos escorpiões é dividido em prossoma e opistossoma, sendo esse dividido em mesossoma e metassoma.
- O prossoma possui segmentos fundidos em um escudo cefálico em forma de carapaça, é a região anterior, onde se encontram os olhos, quelíceras, pedipalpos terminados em quelas (pinças) e pernas.
- O opistossoma é a região alongada do corpo, subdividida em mesossoma, com sete segmentos, e metassoma, com cinco segmentos. No primeiro segmento do mesossoma apresenta um gonóporo recoberto por um opérculo genital, no segundo segmento se encontra um apêndice sensorial único dentre os aracnídeos chamado pente. Do terceiro ao sexto segmento do mesossoma apresentam, cada um, um par de pulmões foliáceos.[11] O metassoma não apresenta apêndices. Respectivamente se encontra no fim do metassoma uma estrutura cilíndrica com um espinho na ponta, chamada telson, contendo duas glândulas de veneno e o aguilhão (o ferrão).
Os artrópodes possuem esqueleto externo (um exoesqueleto), uma estrutura dura, quitinosa, que reveste seu corpo, sem antenas, com quatro pares de patas torácicas e um par de palpos. Respiram por meio de filotraqueias, pulmões foliares, como páginas de um livro.

Algumas espécies atingem dimensões da ordem dos 30 cm e chegam a capturar até pequenos vertebrados (lagartos, rãs e roedores).
Os escorpiões diferem dos outros aracnídeos por terem palpos compridos, além da característica cauda longa e perigosa. Os palpos funcionam como pinças grandes e poderosas, que podem ser usadas para segurar e dominar suas presas. São muito sensíveis ao tato e ao deslocamento do ar, devido à presença de cerdas muito longas e finas. Os escorpiões também podem possuir maior número de olhos que outros aracnídeos, algumas espécies chegando a possuir até seis pares, embora não seja comum.

A divisão dos tagmas em Scorpiones se diferencia da maioria dos outros aracnídeos por apresentar prossoma, mesossoma e metassoma. O opistossoma é bastante segmentado, chegando a apresentar doze segmentos. O opistossoma divide-se em mesossoma, com sete segmentos, e metassoma, porção formada pelos cinco segmentos posteriores. Estes constituem a cauda, juntamente com o télson, o último segmento.[11] A cauda termina como um aguilhão e é através deste ferrão que o escorpião inocula sua peçonha. No prossoma localizam-se os dois olhos medianos, na saliência cômoro ocular, e os olhos laterais, de cada lado da carapaça. Alguns escorpiões podem brilhar quando expostos à luz ultravioleta (UV), adquirindo uma cor verde-fluorescente,[12][13] pois seu exoesqueleto é fotossensível. O exoesqueleto do escorpião é muito sensível à radiação ultravioleta.[14]
Veneno e toxicidade
[editar | editar código]O ferrão do escorpião (chamado de telson), além de servir para agarrar a presa, defender-se, e no acasalamento, inocula na presa um veneno. Este veneno contém uma série de substâncias cuja composição química não está bem definida, porém contém neurotoxinas, histaminas, serotonina, enzimas, inibidores de enzimas, e outras. Parece, segundo os pesquisadores, que as neurotoxinas agem sobre as células nervosas da presa, com uma certa especificidade, dependendo do tipo de animal.
É interessante saber que a toxicidade do veneno de um escorpião pode ser comparada com o tamanho de seus pedipalpos (o equivalente ao braço humano do escorpião); quanto mais robustos os pedipalpos, menos o escorpião utiliza-se do veneno para com suas presas e quanto menores eles forem, mais o veneno do escorpião pode ser letal às suas presas.
O veneno de escorpiões do tipo Tityus serrulatus, que parece ser o veneno mais tóxico de todos os escorpiões da América do Sul, age sobre o sistema nervoso periférico dos humanos, causando dor, pontadas, aumentando a pulsação cardíaca e diminuindo a temperatura corporal. Estes sintomas, devido ao seu peso corporal, são mais acentuados em crianças, e devido às condições físicas, aos idosos. Todos os escorpiões são venenosos, porém apenas 25 espécies podem ser mortais aos humanos. Sua ferroada assemelha-se em grau de toxicidade da ferroada de uma abelha.
O tratamento consiste na aplicação local da ferroada de um anestésico (lidocaína a 2%) e soro antiescorpiônico (obtido de escorpiões vivos). O tratamento deve ser hospitalar, de preferência com a apresentação do escorpião para facilitar o diagnóstico e o tratamento.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ a b Polis, Gary (1990). The Biology of Scorpions. Stanford University Press. ISBN 978-0-8047-1249-1. OCLC 18991506.
- ↑ «Critter of the Week The Pseudoscorpion!». RNZ (em inglês). 6 de abril de 2018. Consultado em 5 de setembro de 2022
- ↑ Justin Gerlach (Terrestrial Invertebrates Red List Authority (TIRLA)) (1 de dezembro de 2012). «IUCN Red List of Threatened Species: Afrolychas braueri». IUCN Red List of Threatened Species. Consultado em 3 de janeiro de 2025
- ↑ Deharveng, L.; Bedos, A. (2016). "Isometrus deharvengi". IUCN Red List of Threatened Species. 2016: e.T89656504A89656508. doi:10.2305/IUCN.UK.2016-1.RLTS.T89656504A89656508.en.
- ↑ Gerlach, J. (2014). "Chiromachus ochropus". IUCN Red List of Threatened Species. 2014: e.T196784A21568706. doi:10.2305/IUCN.UK.2014-1.RLTS.T196784A21568706.en.
- ↑ Polis, Gary (1990). The Biology of Scorpions. Stanford University Press. ISBN 978-0-8047-1249-1. OCLC 18991506.
- ↑ Howard, Richard J.; Edgecombe, Gregory D.; Legg, David A.; Pisani, Davide; Lozano-Fernandez, Jesus (2019). "Exploring the Evolution and Terrestrialization of Scorpions (Arachnida: Scorpiones) with Rocks and Clocks". Organisms Diversity & Evolution. 19 (1): 71–86. Bibcode:2019ODivE..19...71H. doi:10.1007/s13127-019-00390-7. hdl:10261/217081. ISSN 1439-6092.
- ↑ Stockmann, Roland; Ythier, Eric (2010). Scorpions of the World. N. A. P. Editions. ISBN 978-2913688117.
- ↑ Ramel, Gordon. "The Earthlife Web: The Scorpions". The Earthlife Web. Arquivado do original em 9 de outubro de 2019. Acessado em 8 de abril de 2010.
- ↑ Gherghel, I.; Sotek, A.; Papes, M.; Strugariu, A.; Fusu, L. (2016). "Ecology and Biogeography of the Endemic Scorpion Euscorpius carpathicus (Scorpiones: Euscorpiidae): a Multiscale Analysis". Journal of Arachnology. 44 (1): 88–91. doi:10.1636/P14-22.1. S2CID 87325752.
- ↑ a b Brusca, Richard C.; Brusca, Gary J. (2007). Invertebrados. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. pp. 693–694
- ↑ «'Brilho' de escorpiões sob luz UV os ajuda a evitar predadores e a encontrar abrigo; entenda». G1. 10 de outubro de 2024. Consultado em 20 de agosto de 2025
- ↑ Valverde, Osmairo (1 de janeiro de 2012). «Biólogos descobriram o motivo pelo qual escorpiões brilham na luz UV». Jornal Ciência. Consultado em 20 de outubro de 2013. Arquivado do original em 14 de novembro de 2013
- ↑ «Escorpiões podem 'enxergar' com o corpo inteiro, diz estudo». Veja. 2 de janeiro de 2012. Consultado em 20 de outubro de 2013
Bibliografia
[editar | editar código]- Polis, Gary (1990). The Biology of Scorpions. [S.l.]: Stanford University Press. ISBN 978-0-8047-1249-1. OCLC 18991506
- Pryke, L. M. (2016). Scorpion. [S.l.]: Reaktion Books. ISBN 978-1-78023-625-4
- Stockmann, Roland; Ythier, Eric (2010). Scorpions of the World. [S.l.]: N. A. P. Editions. ISBN 978-2-913688-11-7
- Stockmann, Roland (2015). «Introduction to Scorpion Biology and Ecology». In: Gopalakrishnakone, P.; Possani, L.; F. Schwartz, E.; Rodríguez de la Vega, R. Scorpion Venoms. [S.l.]: Springer. pp. 25–59. ISBN 978-94-007-6403-3
Ligações externas
[editar | editar código]- Biologia, Habitat, Nutrição e Medidas Preventivas dos Escorpiões
- Arachnology
- Arachnid Photo Gallery (The American Arachnological Society)
- Instituto Butantã