Fritigerno

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Fritigerno
Governante tervíngio
fl. década de 360-378
Religião cristianismo ariano

Fritigerno (em latim: Fritigernus) foi um líder gótico tervíngio do século IV, ativo na fronteira romana do Danúbio e nas províncias dos Bálcãs durante o reinado dos imperadores Valente (r. 364–378) e Teodósio (r. 378–395). Rival do governante tervíngio Atanarico, é melhor conhecido como aquele que derrotaria um exército romano liderado pelo próprio Valente na batalha de Adrianópolis de 378.

Vida[editar | editar código-fonte]

Retrato de Atanarico segundo o livro de 1782 Retratos dos Reis de Espanha desde Atanarico até nosso monarca católico Dom Carlos III
Panorama político do Danúbio Inferior no século IV. As incursões hunas resultaram na migração dos tervíngios em direção à fronteira romana no Danúbio e sua subsequente incorporação em solo romano

As origens e infância de Fritigerno são desconhecidas. Aparece pela primeira vez no final da década de 360, no contexto das lutas entre o juiz tervíngio Atanarico e a porção oriental do Império Romano sob o imperador Valente (r. 364–378). Nessa época Fritigerno emergiu como rival de Atanarico e advogado da política pró-romana e pró-cristã, uma vez que, segundo o historiador Sozômeno, era católico e, portanto, opôs-se à perseguição deflagada contra os cristãos sob Atanarico.[1] Fritigerno possuía estatuto de rei (reiks em gótico) ou duque (em latim: dux) e como tal era um comandante militar com estatuto para realizar conversações diplomáticas com outros nobres góticos.[2] É impossível precisar a data dos eventos da guerra civil decorrente com as fontes sobreviventes, embora Ian Hughs estime que Fritigerno foi derrotado em batalha em 372, o que levou-o a solicitar ajuda militar de Valente.[3] O imperador atendou ao pedido e em retribuição o godo converteu-se com seus seguidores, pagãos e cristãos, ao arianismo. Os aliados conseguiram a vitória[4] [5] e aparentemente a guerra foi concluída antes da chegada dos hunos em 375/376.[1]

Em meados da década de 370, as invasões hunas criaram novos distúrbios entre os tervíngios, com os invasores pressionando-os militarmente e obrigando os grutungos, outro ramo dos godos, a dirigiram-se à fronteira tervíngia. Apesar de sua derrota na guerra civil, Atanarico ainda era comandante da maior parte dos tervíngios e reuniu um exército para confrontar os invasores. Aproveitando-se disso, Fritigerno recusou-se a enviar reforços para a expedição.[6] Isso acarretaria na derrota das forças de Atanarico, que foram forçadas a retirar-se para a Caucalândia, enquanto ao mesmo tempo gerou uma crise decorrente da devastação huna. Essa devastação, por sua vez, foi agravada pela devastação decorrente dos conflitos anteriores. No verão de 376, Fritigerno persuadiu muitos dos seguidores de Atanarico para abandoná-lo e então propôs aos tervíngios que solicitassem ajuda aos romanos. Alavivo, outro nobre tervíngio, é mencionado nas fontes como líder da negociação, possivelmente por possuir um estatuto aristocrático maior.[7] Ele conseguiu a permissão de Valente para assentarem-se no império,[8] segundo Amiano Marcelino, como deditícios ("suplicantes" ou "rendidos"),[a] porém não antes de assegurar que seu povo seria inteiramente convertido ao arianismo antes de cruzar o Danúbio.[9]

Segundo a resposta de Valente, que por esta época estava estacionado em Antioquia, os godos seriam assentados na Mésia e Dácia Ripense e receberiam assistência romana durante a migração através do rio e antes de tornarem-se auto-suficientes e serem capazes de prover sua própria comida. Por estar em guerra com o Império Sassânida, Valente esperava poder recrutar boa parte dos tervíngios como soldados para fortificar as cidades orientais,[10] bem como esperava-se que os demais seriam assentados como fazendeiros e então pagariam impostos.[11] O plano, contudo, acabou frustrado. Os imigrantes atravessaram próximo de Durostoro (atual Silistra, na Bulgária)[12] e seu número excedeu enormemente a quantidade prevista (Michael Frassetto estima 80 000 indivíduos,[13] enquanto Kelly DeVries estima 200 000[14] ), tornando insuficiente os suprimentos recolhidos (DeVries sugere suprimentos para 50 000 pessoas[14] ), situação agravada pela demora de quase dois meses para a chegada da resposta imperial do Oriente. Além disso, tirando proveito da consequente fome sentida pelos recém-chegados, os oficiais romanos Lupicino e Máximo conseguiram muito dinheiro com a venda de miúdas quantidades de alimentos e carcaças de cachorros pelo preço da escravização de crianças tervíngias,[10] inclusive aquelas de origem nobre.[15]

Soldo do imperador Valente (r. 364–378)
Soldo de Graciano (r. 367–383)

Como forma de controlar os contingentes tervíngios inquietos, Lupicino ordenou que as tropas da Trácia fossem direcionadas à escolta dos imigrantes para um acampamento nas cercanias de Marcianópolis.[16] Aproveitando-se disse, os taifalos da Valáquia uniram-se aos grutungos de Farnóbio para tentarem forçar passagem pelo Danúbio, embora acabariam derrotados pelo general Frigérido.[17] [18] [19] Outro grupo grutungo liderado por Alateu e Safrax, os regentes do rei infante Viderico, também aproveitou-se da situação e entrou em contato com Fritigerno,[15] que segundo Marcelino alegadamente atrasou a marcha para permitir o encontro; Ian Hughs desconsidera essa afirmação, alegando que o atraso deveu-se a enorme quantidade de famílias, o que incluiria crianças e idosos.[16] Em Marcianópolis, provavelmente no outono de 376,[20] Lupicino convocou Fritigerno e Alavivo para um banquete reconciliatório. Durante a reunião um grupo de godos famintos atacou as proximidades do assentamento e o oficial romano, interpretando como um golpe, mandou seus homens matarem os guardas dos líderes tervíngios. Em meio a confusão, Alavivo foi morto enquanto Fritigerno conseguiu fugir.[4]

Fritigerno formou um exército com o qual começou a saquear vilas e fazendas próximas a cidade e incendiaram tudo em seu caminho. No começo de 377, Lupicino reuniu todas as tropas disponíveis para suprimir a revolta, mas foi severamente derrotado pelos rebeldes 9 milhas do acampamento em Marcianópolis, quase custando sua vida e destruindo o exército provincial trácio inteiro.[21] [22] [23] Isso abriu caminho para a depredação das províncias balcânicas sem oposição pelos meses subsequentes[11] e motivou os mineiros trácios, os romanos subalternos sobretaxados e os escravos de origem goda a unirem-se à revolta,[24] bem como um destacamento romano de origem tervíngia liderado por Colias e Suérido que auxiliou Fritigerno num cerco mal-sucedido contra Adrianópolis.[25] Apesar disso, Ian Hughs considera que o pequeno número de tervíngios registrados como batalhando ao lado dos rebeldes nas batalhas subsequentes é fruto duma cisão, em parte provavelmente pelo receio a seu líder, que no passado foi pró-romano e, na mentalidade de alguns líderes tribais, poderia ter estado envolvido no assassinato de Alavivo em Marcianópolis.[26]

Diocese da Trácia ca. 400, o palco do conflito com os tervíngios de Fritigerno
Soldo de Teodósio, o Grande (r. 378–395)

Os rebeldes novamente enfrentariam os romanos na Batalha nos Salgueiros, quando derrotaram um exército conjunto do Oriente e Ocidente.[27] Apesar desta nova vitória, Fritigerno viu-se numa situação delicada. Os romanos com sucesso cortaram as rotas de suprimentos dos tervíngios no triângulo entre o Danúbio, os Bálcãs e o mar Negro. Nesta situação crítica, ele conseguiu convencer os grutungos de Alateu e Safrax a unirem-se à causa tervíngia.[26] [28] Nos meses subsequentes, ambos os lados continuaram realizando ações militares na Trácia e províncias vizinhas. Em junho de 378, um destacamento gótico foi obrigado a retroceder perante a pressão romana, um fato acelerado pela reconvocação das tropas por Fritigerno, que estava estabelecendo nova base em Cábila.[29] Ao longo de 378, Valente e o imperador romano ocidental Graciano (r. 367–383) reuniram um exército de infantaria e cavalaria de 30 000 a 40 000 soldados para lidar com a ameaça. Valente, contudo, não quis esperar Graciano para que ambos liderassem suas forças e recusou-se a atender os esforços de Fritigerno para alcançar um acordo pacífico, preferindo dirigir-se contra o inimigo no começo de agosto.[11]

Em 9 de agosto Valente encontrou-se com os godos na Batalha de Adrianópolis,[4] que mostraria-se uma derrota decisiva, custando a vida do imperador e vários oficiais e generais, bem como a destruição de do exército reunido.[11] Apesar de sua vitória esmagadora, Fritigerno foi incapaz de aproveitar-se da situação e gradualmente perdeu relevância no cenário geral. No rescaldo da batalha, o líder gótico enfrentou divisões dentre os soldados em suas fileiras e foi incapaz de deter os raides encabeçados pelos godos para obtenção de pilhagem que se seguiram imediatamente após Adrianópolis. Os romanos, por sua vez, agora sob comando conjunto de Graciano e Teodósio, o Grande (r. 378–395), tomaram medidas para evitar a destruição gótica em curso como, por exemplo, a destruição do efetivo gótico presente nas fileiras romanas e a admissão dos partidários de Atanarico.[30]

Em resposta a isso, os godos voltaram-se para Fritigerno, que teve seus poderes aumentados e então coordenou ataques contra o Império Romano na Macedônia, Epiro, Tessália e Acaia.[4] Além disso, Fritigerno foi capaz de arquitetar uma conspiração que provocaria o exílio de Atanarico. Em despeito dessa atitude retalhadora, Fritigerno novamente desaparece das fontes pelos anos subsequentes, sendo presumível que esta omissão tenha sido reflexo da ação romana. Apesar de serem militarmente incapazes de derrotá-lo completamente, os romanos souberam utilizar seu poderio para mantê-lo na defensiva e sua habilidade diplomática para reafirmar Atanarico como soberano dos godos e amigo imperial ao reconvocá-lo em 381, quando foi recebido pessoalmente por Teodósio diante de Constantinopla em 11 de janeiro e então sepultado ricamente após sua morte em 25 de janeiro. Em 382, quando romanos e godos assinam um tratado que formaliza a permanência dos últimos nas terras imperiais e o fim da guerra, Fritigerno não é mencionado.[30]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Para Herwig Wolfram e outros historiadores a afirmação de Amiano Marcelino baseia-se num acordo estabelecido pelo imperador Constâncio II (r. 337–361) com os sármatas limigantes em 359. Pelo descrito por Marcelino, Wolfram conclui que a dedição (em latim: deditio , lit. "rendição" e "capitulação") subentendia o desarmamento, recepção com estatuto de colono, assentamento em áreas estabelecidas pelo imperador e recrutamento ilimitado.[31] O historiador Ian Hughs, por outro lado, desconsidera a possibilidade deles terem sido admitidos como deditícios uma vez que o acordo estabelecido não faz menção a questão do desarmamento.[32] Wolfram deduz que mesmo embora o Império Romano não possuísse uma estrutura na região da Trácia capaz de abarcar todos os indivíduos como colonos, certamente que o desarmamento foi aventado, muito embora as autoridades romanas locais foram incapazes de fazer os migrantes a fazerem isso.[33]

Referências

  1. a b Frassetto 2013, p. 262
  2. Wolfram 1997, p. 81
  3. Hughs 2013, p. 112; 123
  4. a b c d Martindale 1971, p. 374
  5. Wolfram 1990, p. 64
  6. Hughs 2013, p. 149
  7. Wolfram 1990, p. 72
  8. Curran 1998, p. 95
  9. Hughs 2013, p. 151-152
  10. a b Hughs 2013, p. 153-154
  11. a b c d Frassetto 2013, p. 263
  12. Wolfram 1990, p. 119-120
  13. Frassetto 2013, p. 262-263
  14. a b DeVries 2007, p. 4
  15. a b Wolfram 1990, p. 119
  16. a b Hughs 2013, p. 154
  17. Nort 2007, p. 202
  18. Wolfram 1990, p. 123
  19. Martindale 1971, p. 324
  20. Burns 1994, p. 26
  21. Penrose 2005, p. 268-269
  22. Curran 1998, p. 98
  23. Gibbon 2008, p. 364
  24. Wolfram 1990, p. 120
  25. Wolfram 1990, p. 120-121
  26. a b Hughs 2013, p. 156
  27. Wolfram 1990, p. 121-122
  28. Wolfram 1990, p. 122
  29. Wolfram 1990, p. 123-124
  30. a b Frassetto 2013, p. 263-264
  31. Wolfram 1990, p. 118
  32. Hughs 2013, p. 153
  33. Wolfram 1990, p. 118-119

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Burns, Thomas S.. Barbarians Within the Gates of Rome: A Study of Roman Military Policy and the Barbarians, Ca. 375-425 A.D.. [S.l.]: Indiana University Press, 1994. ISBN 0253312884
  • Curran, John. In: Cameron, Averil. The Cambridge Ancient History: Volume XIII. The Late Empire, A.D. 337—425. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. ISBN 978-0-521-30200-5
  • DeVries, Kelly; Smith, Robert Douglas. Medieval Weapons: An Illustrated History of Their Impact. [S.l.]: ABC-CLIO, 2007. ISBN 1851095268
  • Frassetto, Michael. Early Medieval World, The: From the Fall of Rome to the Time of Charlemagne. [S.l.]: ABC-CLIO, 2013. ISBN 1598849964
  • Gibbon, Edward. The History of the Decline and Fall of the Roman Empire. [S.l.]: Cosimo, Inc., 2008. vol. 2. ISBN 1605201227
  • Hughs, Ian. Imperial Brothers: Valentinian, Valens and the Disaster at Adrianople. [S.l.]: Pen and Sword, 2013. ISBN 1848844174
  • Martindale, J. R.; A. H. M. Jones. The Prosopography of the Later Roman Empire, Vol. I AD 260-395. [S.l.: s.n.], 1971.
  • Nort, Richard M. Van. The Battle of Adrianople and the Military Doctrine of Vegetius. [S.l.: s.n.], 2007. ISBN 0549257985
  • Penrose, Jane. Rome and her Enemies: An Empire Created and Destroyed by War. [S.l.]: Osprey Publishing, 2005. ISBN 1841769320
  • Wolfram, Herwig. History of the Goths. [S.l.]: University of California Press, 1990. ISBN 9780520069831