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Gerônimo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Gerônimo
Goyaałé
Fotografia por Frank Rinehart, 1898
Nascimento
Morte
17 de fevereiro de 1909 (79 anos)

Forte Sill, Oklahoma, Estados Unidos
Local de sepultamentoCemitério dos Prisioneiros de Guerra Apaches, Forte Sill
CônjugeAlope, Ta-ayz-slath, Chee-hash-kish, Nana-tha-thtith, Zi-yeh, She-gha, Shtsha-she, Ih-tedda e Azul
Filho(a)(s)Chappo, Dohn-say
OcupaçãoLíder e curandeiro dos apaches bedonkohes
Assinatura

Gerônimo (Goyaałé, lit. "aquele que boceja", [kòjàːɬɛ́]; 16 de junho de 1829 – 17 de fevereiro de 1909) foi um proeminente líder militar e curandeiro do bando bedonkohe do povo apache ndendahe. De 1850 a 1886, Gerônimo uniu-se a membros de três outros bandos apaches centrais — os tchihende, os tsokanende (chamados de chiricahuas pelos estadunidenses) e os nednhi — para realizar numerosas incursões, bem como lutar contra as campanhas militares mexicanas e estadunidenses nos estados de Chihuahua e Sonora, no norte do México, e nos territórios estadunidenses do sudoeste do Novo México e do Arizona.

As incursões de Gerônimo e as ações de combate relacionadas foram parte do prolongado período das Guerras Apache, que se iniciou quando os estadunidenses continuaram a tomar terras, incluindo territórios apaches, após o fim da guerra com o México em 1848. A vida nas reservas confinava o povo apache, até então acostumado à liberdade de movimento, o que gerou profundo ressentimento pelas restrições impostas ao seu modo de vida tradicional.[2]

Gerônimo liderou fugas das reservas em tentativas de devolver seu povo ao antigo estilo de vida nômade. Durante seu último período de conflito, de 1876 a 1909, ele se rendeu três vezes e acabou aceitando o confinamento nas reservas apaches. Embora muito conhecido, Gerônimo não era um chefe de seu bando bedonkohe, mas um xamã, assim como Nokáy-doklini era entre os apaches ocidentais.[3][4] No entanto, por ser um líder soberbo em incursões e conflitos, frequentemente comandava grandes grupos de 30 a 50 guerreiros apaches.[4]

Em 1886, após uma intensa perseguição no norte do México pelas forças dos Estados Unidos, que se seguiu à sua terceira fuga da reserva em 1885, Gerônimo rendeu-se pela última vez ao tenente Charles B. Gatewood. Posteriormente, ele e outros 27 apaches foram enviados para se juntar ao restante da tribo chiricahua, que havia sido exilada anteriormente para a Flórida.[5] Enquanto o mantinha como prisioneiro, o governo dos Estados Unidos aproveitou-se da fama de Gerônimo entre os não-indígenas, exibindo-o em várias feiras e exposições. Em 1898, por exemplo, ele foi atração na Trans-Mississippi Exposition em Omaha, Nebraska; sete anos depois, o Gabinete de Assuntos Indígenas autorizou sua participação em um desfile na segunda posse do presidente Theodore Roosevelt. Ele morreu no hospital do Forte Sill em 1909, ainda como prisioneiro de guerra, e foi sepultado no Cemitério dos Prisioneiros de Guerra Apaches no próprio Forte Sill, junto aos túmulos de seus parentes e de outros apaches cativos.

Antecedentes

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Apache é o termo coletivo para vários grupos culturalmente relacionados de nativos estadunidenses residentes no sudoeste dos Estados Unidos. A atual divisão dos grupos apaches inclui os apaches ocidentais, yavapais, coyoteros, aravaipas, mojaves, chiricahuas, tontos, bylas, san carlos, mescaleros, jicarillas, lipans e apaches das planícies. As primeiras incursões apaches em Sonora e Chihuahua ocorreram no final do século XVII. Para conter os primeiros ataques aos assentamentos espanhóis, presídios foram estabelecidos em Janos (1685) em Chihuahua e em Fronteras (1690) no que é hoje o nordeste de Sonora, território então pertencente ao povo ópata. Em 1835, o México havia estipulado uma recompensa por escalpos apaches. Dois anos depois, Mangas Coloradas tornou-se o chefe principal e líder de guerra, iniciando uma série de ataques contra os mexicanos. As incursões apaches em vilas mexicanas eram tão numerosas e brutais que nenhuma área estava segura.[6] Somente entre 1820 e 1835, cerca de 5 000 mexicanos morreram em ataques apaches e 100 assentamentos foram destruídos.[7]

Durante as décadas de conflitos apaches-mexicanos e as guerras entre apaches e estadunidenses, as incursões haviam se enraizado no modo de vida apache, servindo tanto para propósitos estratégicos quanto econômicos.[8] Falando sobre o início do conflito espanhol e mexicano com os apaches, a historiadora Angie Debo afirma: "Assim os apaches foram empurrados para as montanhas, e as incursões às comunidades estabelecidas tornaram-se um modo de vida para eles, um empreendimento econômico tão legítimo quanto colher frutas ou caçar veados", havendo frequentemente uma sobreposição entre ataques por necessidade econômica e guerra aberta.[9] Os ataques iam desde o roubo de gado e saques até a captura e a morte de victims, às vezes sob tortura.[10] Os mexicanos e estadunidenses responderam com ataques de retaliação que não foram menos violentos e raramente se limitaram aos inimigos adultos individualmente identificados. As incursões e as retaliações alimentaram o fogo de uma violenta guerra de vingança que ecoava repetidamente entre apaches e mexicanos, e, mais tarde, entre apaches e estadunidenses. De 1850 a 1886, Gerônimo e outros líderes apaches realizaram ataques, mas Gerônimo foi movido por um profundo desejo de vingar o assassinato de sua família por soldados mexicanos, acumulando um histórico de brutalidade inigualável entre seus contemporâneos nesse período.[11] Sua notável habilidade de combate ao longo de 30 anos constitui a principal característica de sua figura histórica.[9]

Mesmo dentro de sua própria tribo chiricahua, muitos nutriam sentimentos mistos em relação a ele. Embora respeitado como um líder habilidoso e eficaz nas incursões e guerras, ele não era visto como alguém amigável, tampouco era amplamente popular entre os demais apaches.[4] Isso ocorreu principalmente porque ele se recusava a ceder às exigências do governo estadunidense, fazendo com que alguns apaches temessem as represálias americanas. Contudo, o povo apache maravilhava-se com os poderes de Gerônimo, que ele demonstrou em diversas ocasiões. Tais habilidades indicavam aos outros apaches que ele possuía dons sobrenaturais, os quais poderia usar para o bem ou para o mal. Em relatos de testemunhas oculares, Gerônimo era capaz de se inteirar de eventos distantes no exato momento em que ocorriam,[12] além de antecipar acontecimentos futuros.[13] Ele também demonstrava ter poderes de cura sobre outros membros da tribo.[14]

Biografia

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Gerônimo nasceu no bando bedonkohe dos apaches perto de Turkey Creek, um afluente do Rio Gila no atual estado do Novo México, que à época fazia parte do México, embora os apaches contestassem a reivindicação mexicana sobre a região.[1] Seu avô, Mahko, havia sido chefe dos apaches bedonkohes. Ele tinha três irmãos e quatro irmãs.[15]

Seus pais o criaram de acordo com as tradições apaches. Após a morte do pai, sua mãe o levou para viver com os tchihende, e ele cresceu entre eles. Gerônimo casou-se com uma mulher chamada Alope, do bando nedni-chiricahua, quando tinha 17 anos; eles tiveram três filhos. Ela foi a primeira de suas nove esposas.[16]

Massacre em Janos

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Em 5 de março de 1851, uma companhia de 400 soldados mexicanos de Sonora, liderada pelo coronel José María Carrasco, atacou o acampamento de Gerônimo nos arredores de Janos (conhecida como Kas-Ki-Yeh em apache), enquanto os homens estavam na cidade comercializando.[17][18] Carrasco alegou que havia seguido os apaches até Janos após eles terem realizado uma incursão em Sonora, levado gado e outros saques, e derrotado gravemente a milícia mexicana.[19][20] Entre os mortos no ataque de Carrasco estavam a esposa, os filhos e a mãe de Gerônimo.[21][22] A perda de sua família fez com que Gerônimo passasse a odiar todos os mexicanos pelo resto da vida; ele e seus seguidores atacavam e matavam frequentemente qualquer grupo de mexicanos que encontrassem.[9] Durante toda a sua vida adulta, a antipatia, suspeita e aversão de Gerônimo em relação aos mexicanos foram comprovadamente maiores do que em relação aos estadunidenses.[23]

Lembrando que na época seu bando estava em paz com os mexicanos, Gerônimo relatou o incidente da seguinte maneira:

No final de uma tarde, ao retornar da cidade, fomos recebidos por algumas mulheres e crianças que nos disseram que tropas mexicanas de outra cidade haviam atacado nosso acampamento, matado todos os guerreiros da guarda, capturado nossos pôneis, roubado nossas armas, destruído nossos suprimentos e matado muitas de nossas mulheres e crianças. Rapidamente nos separamos, escondendo-nos da melhor forma possível até o anoitecer, quando nos reunimos no local de encontro combinado – um matagal próximo ao rio. Silenciosamente chegamos um a um, sentinelas foram posicionadas, e quando todos foram contados, descobri que minha velha mãe, minha jovem esposa e meus três filhos pequenos estavam entre os mortos.[24]

Guerra com o México

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O chefe de Gerônimo, Mangas Coloradas (espanhol para "mangas vermelhas"), enviou-o ao bando de Cochise em busca de ajuda para se vingar dos mexicanos.[25] Foi durante este incidente que surgiu o nome Gerônimo. Essa denominação originou-se em uma batalha na qual, ignorando uma saraivada mortal de balas, ele atacou repetidamente soldados mexicanos com uma faca. A origem exata do nome é alvo de controvérsia entre os historiadores; alguns escrevem que se tratavam de apelos dos soldados a São Jerônimo ("¡Jerónimo!") por ajuda divina. A historiadora Angie Debo repete essa hipótese, mas especula também uma alternativa tida como improvável em termos fonéticos, de que poderia ser a pronúncia mais próxima que os soldados mexicanos conseguiam emitir dos sons guturais que compunham o seu nome verdadeiro.[26]

Ataques e contra-ataques com os mexicanos tornaram-se rotineiros. Em dezembro de 1860, 30 mineradores iniciaram um ataque surpresa a um acampamento de apaches bedonkohes na margem oeste do Rio Mimbres. Segundo o historiador Edwin R. Sweeney, os mineradores "mataram quatro índios, feriram outros e capturaram treze mulheres e crianças". Novos ataques por parte dos apaches se seguiram, incluindo incursões contra cidadãos e propriedades dos Estados Unidos.[27]

Em 1873, os mexicanos atacaram os apaches mais uma vez.[28] Após meses de combates nas montanhas, apaches e mexicanos decidiram por um tratado de paz em Casas Grandes.[28] Após concordarem com os termos, as tropas mexicanas ofereceram mezcal aos apaches e, enquanto estavam embriagados, os militares atacaram, matando 20 deles e capturando outros.[28] Os apaches viram-se forçados a recuar para as montanhas mais uma vez.[28]

Eu matei muitos mexicanos; não sei quantos, pois frequentemente eu não os contava. Alguns deles não valiam a pena contar. Já faz muito tempo desde então, mas ainda não tenho amor pelos mexicanos. Comigo, eles sempre foram traiçoeiros e maliciosos.

My Life: The Autobiography of Geronimo, 1905.

Apesar de estar em desvantagem numérica, Gerônimo lutou contra as tropas mexicanas e estadunidenses, tornando-se famoso por suas façanhas ousadas e inúmeras fugas de encarceramentos entre 1858 e 1886.[29] Uma dessas fugas, segundo a lenda, ocorreu nas Montanhas Robledo, no sudoeste do Novo México. A história conta que Gerônimo e seus seguidores entraram numa caverna enquanto soldados dos EUA aguardavam do lado de fora, mas ele nunca saiu de lá. Mais tarde, espalharam-se boatos de que Gerônimo havia sido visto do lado de fora, nas proximidades. A segunda entrada pela qual ele teria escapado nunca foi encontrada, e o local é hoje chamado de "Caverna de Gerônimo", embora não existam registros históricos ou orais conclusivos desse evento. Na verdade, há muitas histórias apócrifas desse tipo em que apaches entram em cavernas fugindo das tropas e desaparecem sem serem vistos saindo.[27]

Campanha de Gerônimo

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O conflito entre apaches e Estados Unidos foi um desdobramento direto de um conflito bem mais antigo entre apaches e mexicanos, que ocorria na mesma área geográfica geral desde o início da colonização espanhola no século XVII.

Gerônimo (Goyaałé), um apache bedonkohe, ajoelhado com um rifle, 1887.
Da direita para a esquerda: o líder apache Gerônimo, Yanozha (cunhado de Gerônimo), Chappo (filho de Gerônimo com sua segunda esposa) e Fun (meio-irmão de Yanozha) em 1886. Foto tirada por C. S. Fly.

Embora os apaches estivessem protegidos da violência da guerra enquanto viviam na reserva, a invalidez e as mortes por doenças como a malária eram muito mais prevalentes.[30] Por outro lado, as rações eram fornecidas pelo governo, embora, por vezes, a corrupção dos agentes indígenas fizesse com que os suprimentos ficassem perigosamente escassos.[31] O povo, que havia vivido como seminômade por gerações, detestava o sistema restritivo das reservas. Rebelando-se contra essa vida confinada, outros líderes apaches já haviam liderado seus bandos em "evasões" (fugas) das reservas.

Em três ocasiões – abril ou agosto de 1878;[32][33] setembro de 1881;[34] e maio de 1885[35][36] – Gerônimo liderou seu bando em fugas da reserva para retornar à vida nômade anterior, inevitavelmente associada a incursões e conflitos.[4] Após cada fuga, o grupo de Gerônimo cruzava o Arizona e o Novo México em direção ao México, matando e saqueando pelo caminho, e estabelecia uma nova base nas montanhas remotas e acidentadas da Sierra Madre Ocidental.[14] No México, ficavam protegidos da perseguição das forças armadas dos EUA. Os apaches conheciam intimamente o terreno hostil das serras,[37] o que os ajudava a iludir os perseguidores e os protegia contra ataques. As montanhas da Sierra Madre ficam na fronteira entre os estados mexicanos de Sonora e Chihuahua, permitindo aos apaches acesso rápido para saquear pequenas vilas, fazendas, caravanas, acampamentos de trabalhadores e viajantes em ambos os estados.[37] A partir do México, eles também realizavam ataques surpresa de volta aos Estados Unidos, muitas vezes buscando reabastecer o estoque de armas e munições. O historiador Robert Utley menciona um ataque específico em março de 1883, no qual o grupo de Gerônimo se dividiu: enquanto ele e Chihuahua saqueavam o vale do rio Sonora para recolher gado e provisões, Chatto e Bonito invadiram o sul do Arizona em busca de armas e cartuchos.[38] Nessas incursões em território estadunidense, os apaches moviam-se rapidamente, atacando fazendas isoladas, caravanas, mineradores e viajantes. Muitas vezes matavam todas as pessoas que encontravam para evitar detecção e atrasar a perseguição o máximo possível antes de cruzarem de volta a fronteira para o México.[38]

Essas fugas e o subsequente retorno às incursões e hostilidades fizeram com que os exércitos mexicano e estadunidense perseguissem os bandos apaches "renegados", visando capturá-los ou matá-los onde quer que fossem encontrados. Como o exército mexicano e as milícias de Sonora e Chihuahua eram incapazes de suprimir os vários bandos chiricahuas baseados nas montanhas da Sierra Madre, o México permitiu em 1883 que os EUA enviassem tropas para o seu território para continuar a caçada a Gerônimo e a outros líderes apaches.[39]

Os índios sempre tentaram viver pacificamente com os soldados brancos e colonos. Um dia, durante o tempo em que os soldados estava estacionados em Apache Pass, fiz um tratado com o posto. Isso foi feito apertando as mãos e prometendo sermos irmãos. Cochise e Mangus-Colorado fizeram o mesmo. Não sei o nome do oficial no comando, mas este foi o primeiro regimento que chegou a Apache Pass. Este tratado foi feito cerca de um ano antes de sermos atacados em uma tenda, conforme relatado acima. Poucos dias após o ataque em Apache Pass, nós nos organizamos nas montanhas e retornamos para lutar contra os soldados.

Geronimo's Story of His Life, Coming of the White Men, 1909.

O general Crook me disse: "Por que você deixou a reserva?" Eu disse: "Você me disse que eu poderia viver na reserva da mesma forma que as pessoas brancas viviam. Num ano, eu cultivei uma plantação de milho, colhi e armazenei, e no ano seguinte plantei aveia, mas quando a colheita estava quase pronta, você mandou seus soldados me prenderem e, se eu resistisse, me matarem. Se me tivessem deixado em paz, hoje eu estaria em boas condições, mas em vez disso, você e os mexicanos estão me caçando com soldados."

Geronimo's Story of His Life, in Prison and on the War Path, 1909.

Em 17 de maio de 1885, vários apaches – incluindo Nana, Mangus (filho de Mangas Coloradas), Chihuahua, Naiche, Gerônimo e seus seguidores – fugiram da Reserva Indígena de San Carlos no Arizona, após uma demonstração de força contra o oficial comandante da reserva, Britton Davis. O general responsável pelo Departamento do Arizona, George Crook, despachou duas colunas de tropas para o México: a primeira comandada pelo capitão Emmet Crawford e a segunda pelo capitão Wirt Davis. Cada uma era composta por uma tropa de cavalaria (geralmente cerca de quarenta homens) e cerca de 100 batedores apaches recrutados entre o próprio povo nativo.[40] Essas unidades apaches mostraram-se extremamente eficazes em localizar os esconderijos nas montanhas e em matar ou capturar os fugitivos.[41] Era profundamente perturbador para o grupo de Gerônimo perceber que membros da sua própria tribo estavam ajudando os soldados a encontrarem seus refúgios.[42] As tropas os perseguiram por todo o verão e outono atravessando Chihuahua e retornando pela fronteira para os EUA. Os apaches atacavam assentamentos continuamente, matando civis e nativos inocentes e roubando cavalos.[43] Com o passar do tempo, a persistente perseguição militar mexicana e estadunidense desanimou Gerônimo e outros líderes e causou um desgaste contínuo e irreparável nos membros de seus bandos, o que acabou minando a sua vontade de resistir e os levou à capitulação final.

O general Crook sofria imensa pressão do governo de Washington. Ele lançou uma segunda expedição ao México e, em 9 de janeiro de 1886, o capitão Crawford localizou Gerônimo e seu bando. Os batedores apaches atacaram na manhã seguinte, capturando a manada de cavalos e os equipamentos do acampamento. Os fugitivos ficaram desmoralizados e concordaram em negociar a rendição. Antes que as negociações pudessem ser concluídas, tropas mexicanas chegaram e confundiram os batedores apaches do exército estadunidense com os apaches inimigos. O governo mexicano acusava os batedores de aproveitarem a sua posição oficial para cometer furtos, roubos e assassinatos no México.[44] Eles atacaram e mataram o capitão Crawford. O tenente Maus, agora oficial superior, reuniu-se com Gerônimo, que concordou em encontrar o general Crook. Gerônimo definiu como ponto de encontro o Cânion dos Funis (Cañon de los Embudos), na Sierra Madre, a cerca de 86 mi (138 km) do Forte Bowie e 20 mi (32,2 km) ao sul da fronteira internacional, perto da divisa entre Sonora e Chihuahua.[43]

Foto de C. S. Fly de Gerônimo e seus guerreiros, tirada antes da rendição ao general Crook, em 27 de março de 1886, na Sierra Madre, México. As fotografias de Fly são as únicas imagens conhecidas de combatentes nativos ainda em campo aberto que não haviam se rendido aos Estados Unidos.[45]

Durante os três dias de negociações em março de 1886, o fotógrafo C. S. Fly tirou cerca de 15 exposições dos apaches em negativos de vidro de 8 por 10 polegadas.[46] Uma das fotos de Gerônimo com dois de seus filhos em pé ao lado foi feita a seu pedido. As imagens de Fly são as únicas fotografias existentes da rendição de Gerônimo.[45] Suas fotos, tiradas em 25 e 26 de março, são as únicas conhecidas de indígenas estadunidenses tiradas enquanto eles ainda estavam ativamente em guerra contra os Estados Unidos.[45] Entre os indígenas estava um menino branco, Jimmy McKinn, também fotografado por Fly, que havia sido sequestrado de seu rancho no Novo México em setembro de 1885.[47]

Acampado no lado mexicano da fronteira, Gerônimo concordou com os termos de rendição de Crook. Naquela mesma noite, porém, um soldado que vendia uísque ao grupo espalhou o boato de que todos seriam assassinados assim que cruzassem a fronteira. Temendo por suas vidas, Gerônimo, Nachite e 39 de seus seguidores escaparam sorrateiramente durante a madrugada. Crook trocou uma série de telegramas acalorados com o general Philip Sheridan defendendo as ações de seus homens até que, em 1º de abril de 1886, Crook enviou um telegrama pedindo para ser destituído do comando, pedido que foi aceito por Sheridan.[46]

Charles B. Gatewood, conhecido pelos apaches como Bay-chen-daysen, "Nariz Longo".

Sheridan substituiu Crook pelo general Nelson A. Miles. Em 1886, Miles escolheu o capitão Henry Lawton para comandar a Tropa B da 4ª Cavalaria no Forte Huachuca, e o primeiro-tenente Charles B. Gatewood para liderar a expedição que finalmente trouxe Gerônimo e seus seguidores de volta ao sistema de reservas pela última vez.[48] Lawton recebeu ordens para comandar operações ao sul da fronteira EUA-México, onde se acreditava que Gerônimo e um pequeno bando haviam se refugiado.[48] Lawton deveria perseguir, subjugar e trazer Gerônimo de volta aos Estados Unidos, vivo ou morto.[48]

O relatório oficial de Lawton, datado de 9 de setembro de 1886, resume as ações de sua unidade e atribui o crédito a vários de seus soldados pelos esforços empreendidos. Gerônimo deu a Gatewood o mérito por sua decisão de se render, pois ele já o conhecia bem, Gatewood falava um pouco de apache e respeitava e honrava as suas tradições e valores. Contudo, Gerônimo também reconheceu a tenacidade de Lawton em desgastá-los com uma perseguição implacável. Os fugitivos tiveram pouco ou nenhum tempo para descansar ou permanecer no mesmo lugar. Completamente exaustos, o pequeno bando de apaches retornou aos Estados Unidos com Lawton e rendeu-se oficialmente.

Prisioneiro de guerra

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Geronimo partindo para a Flórida de Fort Bowie, Arizona

Após a rendição, Gerônimo e outros apaches foram despachados de trem como prisioneiros de guerra. Eles foram inicialmente transferidos para o Forte Pickens, na Flórida, e suas famílias enviadas para o Forte Marion, no mesmo estado. O clima úmido, as péssimas condições das rações e o confinamento dizimaram grande parte da população apache por desnutrição e tuberculose.

Em 1887, as famílias do Forte Marion foram reunidas a Gerônimo e transferidas para o quartel de Mount Vernon, no Alabama. Lá permaneceram por sete anos em condições que continuavam precárias. Apenas em 1894, graças à intensa pressão pública e ao apelo de ativistas que denunciaram as altíssimas taxas de mortalidade, os apaches sobreviventes foram realocados para o Forte Sill, em Oklahoma, onde o clima lhes era menos hostil e receberam terras para cultivo agrícola.[5]

Apesar do seu status de prisioneiro vitalício, o governo dos Estados Unidos permitiu que Gerônimo capitalizasse sobre a sua reputação notória. Ele compareceu a diversas exibições de Wild West shows, lucrando com a venda de fotos, botões retirados das próprias camisas e artesanatos, como arcos e flechas, que ele mesmo produzia. Em 1898, exibiu-se na Exposição Trans-Mississippi em Omaha, Nebraska, e, em 1904, fez forte presença na Feira Mundial de St. Louis (Louisiana Purchase Exposition). Em 1905, foi escoltado por oficiais do Gabinete de Assuntos Indígenas até Washington, D.C., para montar a cavalo no desfile inaugural do presidente Theodore Roosevelt. Durante essa visita a Washington, Gerônimo reuniu-se com Roosevelt e implorou, sem sucesso, para que o governo permitisse o retorno do seu povo às terras natais no Arizona.

Em 11 de fevereiro de 1909, após uma viagem à cidade de Lawton, em Oklahoma, onde teria comprado álcool, Gerônimo foi arremessado de seu cavalo no caminho de volta para casa. Ele passou a noite inteira deitado no chão gelado antes de ser encontrado por amigos na manhã seguinte. O frio intenso fez com que contraísse um caso grave de pneumonia. Ele faleceu na manhã do dia 17 de fevereiro de 1909, ainda enquadrado como prisioneiro de guerra. Pouco antes de sua morte, ele confessou a um de seus sobrinhos seu profundo pesar pelas decisões passadas, afirmando: "Eu nunca deveria ter me rendido. Eu deveria ter lutado até ser o último homem vivo". Ele foi sepultado no Cemitério dos Prisioneiros de Guerra Apaches no Forte Sill, que viria a abrigar vários dos remanescentes chiricahuas.

Gerônimo como prisioneiro norte-americano em 1905.
Ta-ayz-slath, esposa de Geronimo, e criança.

Ao longo de sua vida de acordo com os costumes de seu povo, Gerônimo teve um total de nove esposas: Alope, Ta-ayz-slath, Chee-hash-kish, Nana-tha-thtith, Zi-yeh, She-gha, Shtsha-she, Ih-tedda e Azul[7].

Sua primeira esposa foi Alope, com quem ele se casou aos 17 anos e teve três filhos[7]. Ela e as crianças, juntamente com a mãe de Gerônimo, foram tragicamente assassinadas por tropas mexicanas no massacre em Janos em 1851, evento que marcou o início de sua longa campanha de vingança contra o México[7].

Após a perda de sua primeira família, Gerônimo casou-se novamente ao longo das décadas seguintes. Com Chee-hash-kish, ele teve dois filhos conhecidos que chegaram à juventude e idade adulta: o filho Chappo e a filha Dohn-say[7]. Ele também casou-se com Nana-tha-thtith, com quem teve uma criança; no entanto, mãe e filho também acabaram mortos durante os violentos confrontos com as forças mexicanas.

Gerônimo teve outros filhos com suas demais esposas, como Zi-yeh e Ih-tedda, mas a constante vida nômade em tempos de guerra, seguida pelas duras condições de confinamento e o clima do leste dos Estados Unidos quando se tornaram prisioneiros de guerra, resultaram na morte prematura de muitos de seus familiares e descendentes diretos.

Religião

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Embora criado fortemente fundamentado no xamanismo e nos ritos apaches, nos quais mantinha sua crença no curandeirismo, Gerônimo procurou entender outras formas espirituais em seus últimos anos no Forte Sill. Em 1903, ele foi batizado e ingressou na Igreja Reformada Holandesa. No entanto, quatro anos depois, a igreja optou por expulsá-lo por sua incapacidade (ou recusa) em abandonar o vício crônico em jogos de azar. Mesmo após a expulsão, ele continuou a comparecer ocasionalmente aos cultos e manteve um diálogo constante com os missionários cristãos que atuavam no acampamento até a sua morte.

Controvérsia do crânio

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Sepultura de Gerônimo no Fort Sill, Oklahoma, em 2005

Logo após a morte de Gerônimo, surgiu um boato que persiste até hoje de que, em 1918, o túmulo do líder apache teria sido profanado por estudantes da Universidade Yale, supostamente membros da influente sociedade secreta Skull and Bones. Entre os apontados como participantes do roubo figurava Prescott Bush, avô do ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Segundo a lenda, o grupo teria desenterrado o crânio, fêmures e alguns apetrechos fúnebres de Gerônimo para exibi-los como troféus na sede da sociedade ("A Tumba"), em New Haven, Connecticut.

Em 2009, o centenário de sua morte reacendeu a polêmica, levando um grupo de cerca de vinte descendentes de Gerônimo a protocolar uma ação judicial formal contra o governo federal, a universidade e a fraternidade, na tentativa de recuperar os supostos restos mortais roubados e repousá-los em terras apaches. Em 2010, no entanto, um juiz federal rejeitou o processo, afirmando que a legislação referente à repatriação de restos indígenas (NAGPRA) não se aplicava ao caso sob as condições processadas, e que as provas não eram conclusivas o suficiente para confirmar a veracidade do roubo histórico.

Referências

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  10. Utley 2012, p. 1, 130.
  11. Utley 2012, p. 1.
  12. Utley 2012, p. 140.
  13. Utley 2012, p. 130–131.
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  43. 1 2 Hurst, James. «Geronimo's surrender – Skeleton Canyon, 1886». Consultado em 18 de setembro de 2015. Arquivado do original em 26 de agosto de 2015
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Bibliografia

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Leitura complementar

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  • Bigelow, John Lt. On the Bloody Trail of Geronimo Nova Iorque: Tower Books, 1958.
  • Brands, H.W. The Last Campaign: Sherman, Geronimo and the War for America Doubleday, 2022.
  • Brown, Dee. Enterrem Meu Coração na Curva do Rio. Nova Iorque: Holt, Rinehart & Winston, 1970.
  • Carter, Forrest. Watch for Me on the Mountain. Delta. 1990. – Também publicado como Cry Geronimo.
  • Davis, Britton. "The Truth about Geronimo" New Haven: Yale University Press, 1929.
  • Faulk, Odie B. The Geronimo Campaign. Oxford University Press: Nova Iorque, 1969.
  • Killblane, Richard E. "Arizona Tiger Hunt", Wild West, Dezembro de 1993.
  • Killblane, Richard E. "Geronimo's Final Surrender", Wild West, Fevereiro de 1994.
  • Opler, Morris E. & French, David H. Myths and tales of the Chiricahua Apache Indians. [1941] Lincoln: University of Nebraska Press, 1994.
  • Reilly, Edward. "Geronimo: The Warrior", Public Domain Review, 2011.

Ligações externas

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