Heurística

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Heurísticas são processos cognitivos empregues em decisões não racionais, sendo definidas como estratégias que ignoram parte da informação com o objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida [1].   Heurísticas Rápidas e Frugais (fast and frugal heuristics) correspondem a um conjunto de heurísticas propostas por Gigerenzer e que empregam tempo, conhecimento e computação mínimos para fazer escolhas adaptativas em ambientes reais [2].

Existem três passos cognitivos fundamentais na selecção de uma heurística: (1) procura, as decisões são tomadas entre alternativas e por esse motivo há uma necessidade de procura activa; (2) parar de procurar, a procura por alternativas tem que terminar devido as capacidades limitantes da mente humana; (3) decisão, assim que as alternativas estiverem encontradas e a procura for cessada, um conjunto final de heurísticas são chamadas para que a decisão possa ser tomada [2]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Heurística tem origem no termo grego εὑρίσκω, que significa "encontrar" ou "descobrir" . Tem a mesma origem da palavra eureca (εὕρηκα), que significa "encontrei".

Uso gramatical[editar | editar código-fonte]

A palavra heurística aparece em mais de uma categoria gramatical:

  • como substantivo, identifica a arte ou a ciência do descobrimento.
  • quando aparece como adjetivo, refere-se a coisas mais concretas, como estratégias heurísticas, regras heurísticas ou silogismos e conclusões heurísticas.

Aplicabilidade[editar | editar código-fonte]

A capacidade heurística é uma característica humana que do lado positivo pode ser descrita como a arte de descobrir e inventar ou resolver problemas mediante a experiência (própria ou observada), somada à criatividade e ao pensamento lateral ou pensamento divergente. Como descrito acima, seja de forma deliberada ou não, heurísticas são procedimentos utilizados quando um problema a ser encarado é por demais complexo ou traz informações incompletas.

De forma inconsciente é praticada sem que muitas vezes os indivíduos se deem conta do processo. No geral, pode ser considerada como um atalho aos processos mentais, sendo assim uma medida que preserva e conserva energia e os recursos mentais. A heurística pode funcionar efetivamente na maioria das circunstâncias em que é aplicada conscientemente.[3][4]

Do lado negativo, é um processo geralmente aplicado de forma automática, inconsciente e portanto sujeito a inúmeros vieses e padronização de erros. Um exemplo de atalho mental aplicado desta forma é o julgamento de um indivíduo com base no estereótipo do grupo ao qual pertence, o que em geral resulta em erros sistemáticos.[5]
Por ser uma forma automática, é muito difícil mesmo para profissionais experientes monitorá-la e às vezes até evitá-la (inclusive quando estão conscientes dela), dada à naturalidade com que, quando somos confrontados com questões de resolução difícil, perguntas e respostas heurísticas mais fáceis vem à mente. Especialmente se associadas a outras heurísticas ao longo do tempo, como a do Afeto.[3][4]

Tipos de heurística[editar | editar código-fonte]

Existem vários tipos de heurísticas conhecidas e catalogados, aplicadas em várias situações. Entre as principais estão:[3]

  • Heurística do reconhecimento: é uma das heurísticas mais simples pois tem por base a recaptação de memorias e o reconhecimento de alternativas. Assim que uma alternativa é reconhecida a procura por alternativas para. A decisão é tomada pela alternativa que se reconhece. Para a utilização desta heurística é necessário ser parcialmente ignorante (less-is-more effect), ou seja, a ausência parcial de reconhecimento é essencial para que se faça uma inferência acertada utilizando esta heurística [6]
  • Heurística Take-the-best: Take-the-best faz parte de um grupo de heurísticas denominadas heurísticas One-reason, onde uma única razão é suficiente para a tomada de decisão. Na Take-the-best as alternativas têm diferentes pesos e são avaliadas passo a passo através da comparação entre várias pistas que são utilizadas para as diferenciar. Desta forma, a procura é feita aleatoriamente através de várias pistas; a procura para assim que for encontrada uma pista que possa ser utilizada para discriminar entre as duas alternativas; a pista que descrimina é utilizada para inferir acerca da decisão a tomar [1]
  • Heuristica Tallying: Tallying faz parte de um grupo de heurísticas denominadas heurísticas Trade-off, onde as alternativas são avaliadas como tendo todas o mesmo peso na tomada de decisão. Na heurística Tallying, todas as alternativas têm o mesmo peso e por isso a decisão baseia-se simplesmente em contar o número de pistas a favor de uma alternativa e a favor de outra alternativa. A alternativa com o maior numero de pistas é que é escolhida na tomada de decisão [2][1]
  • heurísticas de julgamento; processos de julgamentos ou previsões parciais baseados em similaridade e enquadramento, muitas vezes sem se dar conta disso.
  • heurística de afeto; processo no qual as pessoas deixam que suas simpatias, antipatias e afinidades pessoais determinem suas crenças e ações.[7]
  • Heurística 3D ou de ilusão de óptica; processo automático de substituição quando por ex. se interpreta um objeto bidimensional por um tridimensional.[8]
  • heurística de disponibilidade; processo de julgar a frequência de dados segundo a facilidade com que similaridades vêm à mente, dada à limitada capacidade de manter concentração/atenção e empreender considerável esforço mental ao mesmo tempo.[9]
  • heurística de avaliabilidade; processo no qual as tomadas de decisão são feitas e mudam conforme o quadro dado. Por ex. um julgamento ou tomada de decisão mediante avaliação conjunta dos elementos/fatores envolvidos tende a ser diferente de uma decisão tomada baseada numa avaliação isolada dos mesmos elementos.[10]

Heurísticas de Pólya[editar | editar código-fonte]

A popularização do conceito deve-se ao matemático húngaro George Pólya e ao seu livro "A arte de resolver problemas". Estudando muitos testes matemáticos de sua juventude, quis saber como os matemáticos chegavam a estas conclusões. O livro contém a classe heurística da prescrição que tentou ensinar aos seus alunos de matemática. Quatro exemplos extraídos do livro ilustram o conceito:

  • se não puder compreender um problema, monte um esquema;
  • se não puder encontrar a solução, tente fazer um mecanismo inverso para tentar chegar à solução (engenharia reversa);
  • se o problema for abstrato, tente propor o mesmo problema num exemplo concreto;
  • tente abordar primeiro um problema mais geral (o paradoxo do inventor: o propósito mais ambicioso é o que tem mais possibilidade de sucesso).

As técnicas heurísticas não asseguram as melhores soluções, mas somente soluções válidas, aproximadas; e não raro não é possível justificá-las de imediato em termos estritamente lógicos a validade do resultado.

É útil neste respeito recordar a distinção entre três tipos de estratégias para a definição dos problemas:

  • busca às cegas,
  • estratagema heurístico; baseado na intuição real ou percebida (consciente ou inconsciente) e;
  • busca racional; usando um sistema ou forma de raciocínio, explicável do ponto de vista lógico formal.

As heurísticas de Pólya são procedimentos estratégicos deliberados,[11] do tipo que utilizam conscientemente a intuição, sendo seus usuários em geral conscientes de suas limitações.

Heurísticas em ciência da computação[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Heurística (computação)

Em ciência da computação, em especial otimização, inteligência computacional por exemplo, heurística representa algo sem precedentes. Infelizmente a maioria dos algoritmos desenvolvidos para resolver problemas gerados pela aplicação da matemática e física à realidade são ineficientes para casos de dimensão real. Heurísticas e metaheurísticas têm sido a saída, ver por exemplo busca gulosa (Greedy Search) ou mesmo GRASP.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c Gigerenzer, Gerd; Wolfgang. (2011-01-01). "Heuristic Decision Making". Annual Review of Psychology 62 (1): 451–482. DOI:10.1146/annurev-psych-120709-145346. PMID 21126183.
  2. a b c Gigerenzer, Gerd; Todd, Peter M.; Group, ABC Research (2000-09-01). Simple Heuristics That Make Us Smart (em English) 1 edition ed. Oxford University Press [S.l.] ISBN 9780195143812. 
  3. a b c Ibidem Kahneman 2012
  4. a b Ibidem Taleb 2012
  5. Lewicki, Saunders & Minton "Fundamentos da Negociação" McGraw-Hill 2001 - pág.148, 3º parágrafo ISBN 0072312858
  6. Goldstein, Daniel G.; Gerd. (2002-01-01). "Models of ecological rationality: the recognition heuristic". Psychological Review 109 (1): 75–90. ISSN 0033-295X. PMID 11863042.
  7. Ibidem Kahneman 2012, pág.133
  8. Ibidem Kahneman 2012, págs.129 à 131
  9. Ibidem Kahneman 2012, págs 165-66
  10. Ibidem Kahneman 2012, Parte 4 - Capítulo 33
  11. Ibidem Kahneman 2012, pág.127 penúltimo parágrafo

Ver também[editar | editar código-fonte]