João II de Jerusalém

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Disambig grey.svg Nota: Para outras pessoas de mesmo nome, veja João II.
Disambig grey.svg Nota: Para o rei de Jerusalém, veja João I de Chipre.

João II (ca. 356 - 10 de janeiro de 417 d.C.) foi um patriarca de Jerusalém entre 387 e 417; João II acedeu ao trono episcopal de Jerusalém com a morte de Cirilo de Jerusalém em 386/7 d.C. Ele foi o autor, de acordo com um crescente número de estudiosos[1], das cinco "catequeses mistagógicas" tradicionalmente atribuídas ao seu antecessor, São Cirilo.

João foi educado pelos eremitas do deserto de Nítria, no Egito, e era um simpatizante das ideias universalistas e alegóricas de Orígenes[2].

Vida[editar | editar código-fonte]

A autoridade de João foi duramente questionada, duas vezes, por Jerônimo, que então era o abade em Belém.

1. Polêmica com Jerônimo sobre Orígenes[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Origenismo

A primeira vez foi no contexto da polémica com os seguidores de Orígenes e em grande parte foi narrada no tratado dedicado à São Pamáquio "Contra Ioannes Hierosolymitanum"[3] ("Contra João de Jerusalém"), assim como em diversas outras cartas de Jerônimo (números 51, 82 e 86)[4]. Ele o acusou de apoiar as ideias origenistas, então consideradas heréticas[2].

As doutrinas origenistas que foram atribuídas a João são[5]:

  • Que o Filho não vê o Pai;
  • Que as almas estão confinadas em corpos terrenos, como numa prisão;
  • Que o diabo pode ser salvo;
  • Que a carne com que Deus vestiu Adão e Eva eram corpos humanos;
  • Que o corpo, na ressurreição dos mortos, não terão sexo definido;
  • Que as descrições do Paraíso são alegóricas: árvores significam anjos e os rios, as virtudes terrenas;
  • Que as águas acima e abaixo do firmamento são anjos e demônios;
  • Que a imagem de Deus foi totalmente perdida na Queda do homem;

João ignorou completamente as acusações de origenismo e deu garantias sobre sua fé na Trindade: porém, é provável que João de fato tenha tido um pendor origenista[6].

A causa imediata desta crise foi a visita de Epifânio, bispo de Salamina (Chipre), a Jerusalém em 394 d.C. Epifânio pregou, na Igreja da Ressurreição, um sermão dirigido ao origenismo e que, acredita-se, era também dirigido a João. Após algumas cenas improváveis, Epifânio aconselhou Jerônimo e seus amigos a se separarem de seu bispo. Para serem totalmente independentes dele, Epifânio ordenou Paulínio (irmão de Jerônimo) padre. Epifânio também tentou defender suas ações irregulares (pois contrariavam o bispo local), mas João apelou para Alexandria contra Jerônimo e seus aliados, acusando-os de cismáticos. O bispo de Alexandria, Teófilo, de imediato tomou as dores de João. A disputa assim se prolongou por quase quatro anos em que, após algumas tentativas de reconciliação e demonstrações de amargura que chegaram, na prática, a excomungar Jerônimo e seus aliados, a disputa encerrou, talvez pela intervenção de Teófilo[5]. A disputa se reiniciou quando Jerônimo criticou profundamente a recepção preparada por João para alguns dos 400 monges origenistas de Nitria, espalhados pelos desertos do Egito por Teófilo (cinquenta destes monges foram até Constantinopla em 401 e encontraram lá também uma cordial acolhida por parte de São João Crisóstomo, patriarca da cidade[2].

2. Polémica sobre Pelágio[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Pelagianismo

O segundo ataque feroz contra João iniciou-se em 414 d.C. por Jerônimo e dizia respeito à Pelágio. Apoiado por um discípulo latino de Santo Agostinho chamado Paulo Orósio, Jerônimo tomou a dianteira na luta contra o diácono Pelágio, que fora então recebido em Jerusalém sem ter sido explicitamente pelo Concílio de Dióspolis (415 d.C.), local. Temos uma carta do Papa Inocêncio I censurando João por ter permitido que os pelagianos provocassem distúrbios em Belém e o exorta a ser mais cuidadoso com sua diocese no futuro: esta carta[7] está datada do ano 417, o ano da morte tanto de João quanto de Inocêncio, e é provável que João nunca a tenha recebido. Embora as fontes sejam mais dispersas, a acusação de arianismo parece ser um pouco simplista e é provável que não tenhamos toda informação necessária para entender a situação.

Em 415 d.C., dois anos antes de sua morte, ele foi provavelmente envolvido diretamente na descoberta (invenção) das relíquias de Santo Estevão[8]:99.

Visita de Gregório de Nissa[editar | editar código-fonte]

Durante o seu episcopado, Gregório de Nissa peregrinou até a Terra Santa. Ele ficou profundamente chocado com as eternas discussões entre os cristãos na Cidade Santa e escreveu uma carta na qual ele alertava, de forma urgente, para que os cristãos não visitassem a Jerusalém[2].

Obras[editar | editar código-fonte]

De acordo com o escritor eclesiástico do século V d.C., Genádio de Marselha, João "...escreveu um livro contra aqueles que disparataram seus estudos, onde ele mostra que ele segue o gênio de Orígenes e não suas crenças""[9].

Por conta de sua Damnatio memoriae, as obras de João II não eram preservadas em geral sob seu nome mas, além da "Catequese Mistagógica", é muito provável que algumas homilias em grego koiné, georgiano ou armênio devem ser atribuídas a ele, assim como já aconteceu na primeira metade do século XX com suas homilias sobre a "Festa dos anjos"[10] e noutra sobre a "Dedicação da Igreja do Sagrado Sião"[11].

Dedicação da Igreja do Sagrado Sião[editar | editar código-fonte]

De acordo com M. van Esbrœck [8]:134, João de Jerusalém mostrou grande inteligência em entender e incluir a minoria judaico-cristã de Jerusalém. Um dos atos que ratificou a reconciliação entre as comunidades grega e judaico-cristãs foi a consagração do Igreja de Monte Sião [12] em 394 d.C.: a homilia que João proferiu foi preservada em armênio e não tinha sido publicada até 1973[2][11].

O novo edifício no Monte Sião provavelmente substituiu uma sinagoga judaico-cristã[12]. O dia da consagração, no ano de 394 d.C., foi 15 de setembro, que neste ano - muito provavelmente - correspondia[8]:112[12] ao décimo dia de Tishrei, a data tradicional da festa judaica do Yom Kippur: de fato, a ideia central da homilia de João está ligada à celebração do Kippur[8]:109, através da benção do altar, simbolizado pelo "Kaporet" ("Santo lugar" - «Pois havia um tabernáculo preparado, o primeiro em que estava o candeeiro e a mesa e os pães da proposição, e este se chama o Santo lugar» (Hebreus 9:2))[2][12].

Na primeira parte desta homilia mística e alegórica, a purificação dos lábios («Com a brasa tocou-me a boca e disse: Eis que esta brasa tocou os teus lábios; já se foi a tua iniqüidade e perdoado está o teu pecado» (Isaías 6:7)), associada com a purificação do Kippur, teria o poder de legitimizar a descrição da descida do Espírito Santo no edifício da Igreja, símbolo de toda a Igreja. Na segunda parte, João propõe uma tipologia da experiência mística descrevendo sete círculos celestiais acessíveis pela mediação do Kaporet. No oitavo círculo, há a vinda do Espírito Santo como o noivo da alma assim que ele entra no "cenáculo" («Quando entraram, subiram ao cenáculo, onde assistiam Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o zelote e Judas, filho de Tiago.» (Atos 1:13))[8]:114. Esta homilia inclui mais de trezentas alusões à versos bíblicos (incluindo também o apócrifo II Esdras) e tem nítida influência de textos como a Ascensão de Isaías. João também endereça quatro vezes o monge Porfírio, futuro bispo de Gaza, que provavelmente estava presente à cerimônia[2].

Ver também[editar | editar código-fonte]

João II de Jerusalém
(387 – 417)
Precedido por: PatriarchsCross.svg
Lista sucessória dos patriarcas de Jerusalém
Sucedido por:
Cirilo 41.º Práulio


Referências

  1. Bradshaw, Paul F. (2002). The Search for the Origins of Christian Worship. [S.l.: s.n.] 113 páginas. ISBN 0-19-521732-2 
  2. a b c d e f g «A História da Igreja de Jerusalém» (em inglês). More Who is Who. Consultado em 26 de maio de 2012 
  3. Jerónimo de Estridão. To Pammachius Against John of Jerusalem. Texto completo (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  4. Letter 51. From Epiphanius, Bishop of Salamis, in Cyprus, to John, Bishop of Jerusalem. (em inglês). [S.l.: s.n.]  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda), Letter 82. To Theophilus Bishop of Alexandria (em inglês). [S.l.: s.n.]  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda) e Letter 86. To Theophilus (em inglês). [S.l.: s.n.]  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  5. a b Philip Schaff (1892). Jerome: The Principal Works of St. Jerome (em inglês). New York: Christian Literature Publishing Co. 
  6. Jurgens, W. A. (1979). The Faith of the Early Fathers (em inglês). [S.l.: s.n.] 201 páginas. ISBN 0-8146-1007-2 
  7. Letter 137. From Pope Innocent to John, Bishop of Jerusalem (em inglês). [S.l.: s.n.]  |nome1= sem |sobrenome1= em Authors list (ajuda)
  8. a b c d e M. van Esbrœck (1984). «Jean II de Jérusalem». Analecta Bollandiana (em francês) (102) 
  9. Genádio de Marselha. «31». Post-Nicene Fathers. De scriptoribus ecclesiasticis (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  10. M. van Esbroeck (1971). «Dans une Homily géorgienne sur les Archanges». Analecta Bollandiana (em francês) (89): 155-176 
  11. a b M. van Esbrœck (1973). «Une homélie sur l'Église attribuée à Jean de Jérusalem». Le Muséon (em francês) (86): 283-304 
  12. a b c d Bargil Pixner (Maio/Junho 1990). «The Church of the Apostles found on Mount Zion». Biblical Archaeology Review (em inglês) (16.3)  Verifique data em: |ano= (ajuda)

References[editar | editar código-fonte]

  • Piédagnel - P. Paris, Cyrille de Jérusalem, Catéchèses mystagogiques, SC 126 (1966) et 126bis (1980) (em francês)
  • P. Nautin, La lettre de Théophile d’Alexandrie à l’Église de Jérusalem et la réponse de Jean de Jérusalem (juin-juillet 396), Revue d'histoire ecclésiastique, 96 (1974), p. 365-394 (em francês)
  • F.J. Leroy, Pseudo-chrysostomica: Jean de Jérusalem. Vers une résurrection littéraire ?, dans Studia patristica, 10 (TU 107), Berlin, 1970, p. 131-136 (em francês)