O Nascimento de uma Nação

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre filme mudo de 1915. Para filmes mais recentes, veja Birth of a Nation (1983) ou The Birth of a Nation (2016).
O Nascimento de uma Nação
The Birth of a Nation
Cartaz original do filme.
 Estados Unidos
1915 •  p&b •  190 min 
Direção D. W. Griffith
Roteiro
  • D. W. Griffith
  • Frank E. Woods
Baseado em The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan,
de Thomas Dixon Jr.
Elenco Lillian Gish
Robert Harron
Mae Marsh
Miriam Cooper
Género
Idioma língua inglesa (intertítulos)

The Birth of a Nation (prt/bra: O Nascimento de uma Nação)[1][2][3][4] é um filme mudo estadunidense de 1915, dos gêneros drama histórico e guerra, dirigido por D. W. Griffith, com roteiro dele e Frank E. Woods baseado no romance The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan, de Thomas Dixon Jr., publicado em 1905 e adaptado para o teatro no ano seguinte.[5]

Lançado em 8 de fevereiro de 1915, o filme era originalmente apresentado em duas partes, separadas por um intervalo, e relata a vida de duas famílias durante a Guerra de Secessão (1861-1865) e a subsequente Reconstrução dos Estados Unidos (1865-1877): os Stonemans, nortistas pró-União, e os Camerons, sulistas pró-Confederação. O assassinato de Abraham Lincoln por John Wilkes Booth é dramatizado no filme.

O longa e o diretor Griffith foram muito elogiados pelo cineasta russo Sergei Eisenstein no livro "A Forma do Filme", no capítulo "Dickens, Griffith e nós", no qual compara a técnica de Griffith à do escritor Charles Dickens.[6]

Até o lançamento de The Big Parade (1925), O Nascimento de uma Nação era o filme mais lucrativo da história, tendo arrecadado mais de 10 milhões de dólares, contra um investimento de apenas 61 mil dólares — segundo depoimento da atriz Lilian Gish à Voz da América.[7]

Apesar do enorme sucesso comercial, o longa foi altamente criticado por retratar os afro-americanos (interpretados por atores brancos com as caras pintadas de negro) como ignorantess e sexualmente agressivos em relação às mulheres brancas, e também por apresentar a Ku Klux Klan (cuja fundação original é romantizada) como uma força heroica.[8][9] Os protestos contra O Nascimento de uma Nação foram generalizados[10], e o filme acabou banido de várias cidades. A queixa de que se tratava de um filme racista foi tão grande que inspirou D. W. Griffith a produzir Intolerância no ano seguinte.[11]

Acredita-se que o lançamento do filme tenha sido um dos fatores do ressurgimento da Ku Klux Klan em Stone Mountain, na Geórgia, naquele mesmo ano; o filme seria usado pela Ku Klux Klan como ferramenta de recrutamento até meados da década de 1970.[12]

Primeiro filme exibido na Casa Branca, O Nascimento de uma Nação é importante por suas inovações técnicas, embora tenha glorificado a escravatura e justificado a segregação racial, alinhado com o movimento denominado Lost Cause. Por outro lado, o filme garantiu o futuro dos longa-metragens e solidificou vários ícones da linguagem cinematográfica. Estreou em 8 de fevereiro de 1915, em Los Angeles, com o título de The Clansman, rebatizado três meses depois, antes de estrear em Nova Iorque, como O Nascimento de uma Nação, simbolizando que, antes da Guerra Civil, os Estados Unidos eram uma grande coalizão de estados antagonistas, e que a conquista do sul pelo norte finalmente fortaleceu a União.[13]

Enredo[editar | editar código-fonte]

Parte 1: Guerra de Secessão[editar | editar código-fonte]

O filme retrata duas famílias opostas: os nortistas Stonemans – que consiste do congressista abolicionista Austin Stoneman (baseado em Thaddeus Stevens, congressista durante a Reconstrução), seus dois filhos e sua filha Elsie – e os sulistas Camerons – família formada por duas filhas (Margaret e Flora) e três filhos, sendo mais notável deles um rapaz chamado Ben.

O filme é apresentado em duas partes divididas por um intervalo. A primeira parte apresenta duas famílias pré-guerra: os abolicionistas do norte Stoneman, que consistem no congressista Austin Stoneman, seus dois filhos e sua filha Elsie; e os escravistas do sul Camerons, uma família que inclui duas filhas (Margaret e Dora) e três filhos, notavelmente Ben Cameron.

Encapuzados da Ku Klux Klan seguram Gus, um negro que o cineasta, de maneira estereotipada, descreveu como "um renegado, um produto das doutrinas imorais espalhadas pelos republicanos".

Os garotos da família Stoneman fazem uma visita aos Camerons na propriedade deles do sul. O mais velho dos garotos da família Stoneman se apaixona por Margaret Cameron, enquanto Ben Cameron idolatra uma fotografia de Elise Stoneman. Quando a Guerra de Secessão começa, os garotos unem-se a seus respectivos exércitos.

Uma milícia negra (liderada por um branco) saqueia a casa dos Camerons, e as garotas da família quase são estupradas antes de serem salvas por soldados confederados. Enquanto isso, o filho mais novo de Austin e dois dos garotos da família Cameron são mortos na guerra. Ben Cameron é ferido e levado a um hospital do norte onde reencontra Elsie, que trabalha lá como enfermeira. Enquanto se recupera, Ben descobre que será enforcado. Elsie leva a mãe dele, que havia viajado para Washington para cuidar do filho, até Abraham Lincoln. A Sra. Cameron convence Lincoln a emitir um indulto para seu filho.

Lincoln é assassinado no Teatro Ford por um partidário da Confederação e, junto com ele, morre sua política conciliatória do pós-guerra. Austin Stoneman e outros congressistas radicais decidem punir o sul pela secessão, deixando-os com a difícil tarefa de reparar os danos causados pela guerra.[14]

Parte 2: Reconstrução[editar | editar código-fonte]

Em 1871, Austin Stoneman e seu protegido político, o mulato Silas Lynch, vão até o estado da Carolina do Sul para observarem pessoalmente a situação política do Sul. Durante as eleições, os negros fraudam a votação, evitando que os brancos cheguem até as urnas. Lynch é eleito vice-governador. Os membros da recém-eleita legislatura, em sua maioria negros, são mostrados em suas mesas na assembleia legislativa: um deputado tira os sapatos e coloca os pés para cima, enquanto outros comem e tomam bebida alcoólica. Eles aprovam leis exigindo que os civis brancos saludam os oficiais negros e permitindo o casamento inter-racial.

Enquanto isso, Ben Cameron, inspirado por crianças brincando de fantasmas, formula um plano para reverter a situação de perda de poder que os brancos sulistas estavam tendo devido à emancipação dos negros. Ele forma então a Ku Klux Klan, apesar de seu envolvimento no grupo deixar Elsie Stoneman enraivada. Como resultado, Elsie termina seu relacionamento com Ben como prova de lealdade aos ideais defendidos por seu pai.

Flora corre em direção ao precipício para evitar que o negro Gus a toque.

Gus, um matador profissional, antigo escravo que sente atração sexual por mulheres brancas, segue Flora Cameron quando ela vai buscar água e a pede em casamento. Assustada, ela corre para a floresta, sendo perseguida por Gus. Encurralada num precipício, Flora prefere se suicidar a deixar Gus chegar perto dela. Ben encontra a irmã à beira da morte. A Ku Klux Klan caça Gus e lincha-o, deixando seu corpo na porta da casa de Lynch.

Em resposta, Lynch ordena que a KKK seja reprimida. O pai de Ben é preso por carregar a vestimenta da KKK do filho, um crime punível com a morte. Ben e seus seguidores resgatam-no da prisão, e os Camerons fogem. Quando o vagão deles quebra, se refugiam numa pequena cabana, lar de dois soldados da antiga União, que concordam em escondê-los. Segundo o intertítulo do filme, "os ex-inimigos do Norte e do Sul se unem novamente em defesa de seu direito de primogenitura ariana".

Enquanto isso, Austin Stoneman deixa a Carolina do Sul, por medo de ser ligado à repressão de Lynch. Elsie, ao saber da prisão do Dr. Cameron, vai pedir a Lynch que o liberte. Lynch tenta forçar Elsie a se casar com ele. Austin retorna e inicialmente se mostra feliz quando Lynch lhe revela que pretende se casar com uma mulher branca. No entanto, Austin fica enraivado ao descobrir que a mulher em questão é a filha dele. Homens da KKK disfarçados ficam sabendo da situação de Elsie e partem em busca de reforços.

Os homens da Ku Klux Klan se reúnem com força total e, liderados por Ben, partem para recuperar o controle da cidade. Quando a notícia sobre Elsie chega até Ben, ele parte para resgatá-la. Lynch é capturado. Vitoriosos, os homens da KKK celebram nas ruas. Enquanto isso, a milícia de Lynch cerca a casa onde os Camerons estavam se escondendo, mas são retaliados a tempo por Ben e seus homens.

Na eleição seguinte, os negros são impedidos de sair de casa para votar por homens armados. O filme termina com a lua de mel dupla de Phil Stoneman e Margaret Cameron e Ben Cameron e Elsie Stoneman. Um grupo de pessoas é mostrado sendo oprimido por uma figura guerreira gigante que desaparece gradualmente. A cena muda para outro grupo, que encontra a paz sob a imagem de Cristo. O filme termina com um intertítulo dizendo: "Ousaremos sonhar com um dia dourado quando a bestial guerra decide não mais governar? Mas, ao invés, o príncipe gentil no Salão do Amor Fraterno, na Cidade da Paz?".

Elenco[editar | editar código-fonte]

Não creditados[editar | editar código-fonte]

Produção[editar | editar código-fonte]

O nascimento de uma nação foi pioneiro em várias técnicas como o close-up facial e a focalização profunda, que são consideradas fundamentais para a indústria atual de cinema. Também contém várias inovações cinemáticas, efeitos especiais e técnicas artísticas, incluindo uma sequência colorida no final. Por estas e outras razões, entrou no número 44 na Lista dos Maiores Filmes Americanos de Todos os Tempos do American Film Institute (AFI) em 1998.[carece de fontes?]

Quando Griffith começou a trabalhar em sua obra-prima, ele usou o livro The Clansman de Thomas Dixon como base para o roteiro. Ele concordou em pagar 10 000 dólares dos Estados Unidos pelos direitos autorais da obra, mas acabou ficando sem dinheiro e pôde pagar apenas 2 500 do prometido. Foi então que ele ofereceu a Dixon 25 porcento do lucro do filme nas bilheterias. Dixon aceitou relutantemente. Dixon se tornou o autor mais bem pago pela adaptação de uma obra em filme da história - chegando a receber mais de 3 milhões de dólares dos Estados Unidos.[carece de fontes?]

O orçamento inicial do filme era de 40 000 dólares dos Estados Unidos, mas o filme acabou por custar 110 000 (2 000 000 em valores atualizados para 2006). Como resultado, Griffith se pôs constantemente a procurar novas fontes de capital para terminar a produção de seu filme. Um tíquete para o filme custava o recorde de 2 dólares dos Estados Unidos (36 em 2006). O filme permaneceu o mais rentável de todos os tempos até o lançamento de Branca de neve e os sete anões pela Disney em 1937.[carece de fontes?]

Também vale notar que apesar do filme fazer uso de alguns atores afro-americanos, a maioria deles eram atores brancos com as caras pintadas de preto. Em particular, qualquer ator que iria fazer uma cena com uma atriz branca tinha que ser um ator branco com a cara pintada de preto. Por exemplo, a empregada de Cameron é um ator branco com a cara pintada de preto.[carece de fontes?]

Engenheiros de West Point deram conselhos técnicos nas cenas de batalha da Guerra Civil e providenciaram armamento.[15]

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Atualmente, apenas a instituição Filmsite.org mantém o filme como um dos 100 maiores filmes feitos nos Estados Unidos. O "Guia Ilustrado Zahar Cinema", publicado pela Jorge Zahar Editor, no Brasil, em 2009, de autoria de Ronald Bergan, coloca "O Nascimento de Uma Nação" entre os 100 melhores filmes, e, em sua página 398, diz: "marco no desenvolvimento da história do cinema, é até hoje um dos filmes mais controversos. Às inovações anteriores de Griffith, cortes intercalados, closes, dissolução e fusões, aqui amadurecidos, juntou-se a integração de relato íntimo e sucessão de eventos históricos reconstruídos: o assassinato de Lincoln e grandes massas de soldados em batalha".[16]

Influências políticas separatistas[editar | editar código-fonte]

A mensagem passada pelo filme é que a Reconstrução dos Estados Unidos foi um desastre, que os afro-americanos nunca poderiam ser reintegrados na sociedade como iguais, e que as ações violentas da Ku Klux Klan são justificáveis para restabelecer um governo honesto, disse o historiador do cinema da Universidade de Houston Steven Mintz.[17]

O nascimento de uma nação foi separatista. Protestos surgiram em Boston, Filadélfia e outras grandes cidades em resposta às distorções históricas contidas no filme, e o lançamento do filme foi negado em Chicago, Ohio, Denver, Pittsburgh, Saint Louis e Minneapolis. Foi dito que ele cria uma atmosfera que incentiva gangues de brancos a atacar negros. "Em Lafaytte, Indiana, um homem branco matou um adolescente negro após ver o filme," foi reportado pela série ganhadora do prêmio Peabody The Rise and Fall of Jim Crow.[18]

Décadas depois, sua influência destrutiva em influenciar o ódio racial não foi esquecida. Em 22 de fevereiro de 2000, em um artigo chamado "A Painful Present as Historians Confront a Nation's Bloody Past", a escritora do jornal escreveu no Los Angeles Times: "O final da primeira guerra trouxe uma crise econômica e a febre antivermelha que se estendeu para minorias e sindicatos. Apenas três anos antes, a defunta Ku Klux Klan voltou à vida com a ajuda do filme O nascimento de uma nação." [19]

"Os homens brancos eram conduzidos por um mero instinto de autopreservação... até que finalmente surgiu a grande Klu Klux Klan, um verdadeiro império do Sul, para proteger o país sulista". Essa frase utilizada no filme foi retirada do livro "História do povo estadunidense", escrito pelo presidente Woodrow Wilson.

O livro History of The American People de Woodrow Wilson é citado várias vezes em O nascimento de uma nação. O nascimento de uma nação estreou na Casa Branca a convite do Presidente Wilson mas, após vê-lo, Wilson escreveu que não aprovava a "produção infeliz".[20] O assessor de Wilson disse: "o presidente não tinha conhecimento da natureza do filme antes de apresentá-lo e em momento algum expressou sua aprovação." [21] No entanto, Wilson repetiu mostras privadas do O nascimento de uma nação na Casa Branca.

Referências

  1. «O Nascimento de uma Nação». Portugal: SapoMag. Consultado em 25 de abril de 2021 
  2. «O Nascimento de uma Nação». Portugal: CineCartaz. Consultado em 25 de abril de 2021 
  3. «O Nascimento de uma Nação». Brasil: AdoroCinema. Consultado em 25 de abril de 2021 
  4. «O Nascimento de uma Nação». Brasil: CinePlayers. Consultado em 25 de abril de 2021 
  5. «The Birth of a Nation (1915)». American Film Institute. Consultado em 25 de abril de 2021 
  6. EINSENSTEIN, Sergei, A Forma do Filme, Jorge Zahar Editor, 2002
  7. STAPLES, Donald E., The American cinema, Voice of America, Forum Series, 1972
  8. MJ Movie Reviews - Birth of a Nation, The (1915) by Dan DeVore
  9. Armstrong, Eric M. (26 de fevereiro de 2010). «Revered and Reviled: D.W. Griffith's 'The Birth of a Nation'». The Moving Arts Film Journal. Consultado em 13 de julho de 2011 
  10. Mass Moments: “The Birth of a Nation” Sparks Protest
  11. Top Ten - Top 10 Banned Films of the 20th Century - Top 10 - Top 10 List - Top 10 Banned Movies - Censored Movies - Censored Films
  12. A Birth of a Nation essays
  13. Russell Merritt, "Dixon, Griffith, and the Southern Legend." Cinema Journal, Vol. 12, No. 1. (Autumn, 1972).
  14. Griffith era seguidor da então dominante Escola Dunning, segundo a qual a Reconstrução dos Estados Unidos foi uma "era trágica", visão esta defendida por historiadores do início do século XX, como William Archibald Dunning and Claude G. Bowers. Stokes 2007, pp. 190–191.
  15. "When Hollywood's Big Guns Come Right From the Source" Katharine Q. Seelye, New York Times, 10 de junho de 2002
  16. BERGAN, Ronald, Guia Ilustrado Zahar Cinema, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2009
  17. http://www.digitalhistory.uh.edu/historyonline/slaveryfilm.cfm
  18. http://www.pbs.org/wnet/jimcrow/stories_events_birth.html
  19. http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/316.html
  20. Woodrow Wilson para Joseph P. Tumulty, 28 de abril de 1915 em Wilson, Papers, 33:86.
  21. Carta de J. M. Tumulty, secretário do Presidente Wilson, à NAACP de Boston.