Reino da Abecásia

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აფხაზეთის სამეფო
Aphkhazetis Samepo

Reino da Abecásia

Reino

Labarum.svg
ca. 786 – 1008 Sakartvelo - drosha.svg
Localização de Abecásia
Reino da Abecásia ca. 1001/1008
Continente Europa
Região Cáucaso
Capital Cutaisi
Governo Monarquia feudal
Rei
 • 767/8–811/2 Leão II (primeiro)
 • 916/7–960 Jorge II (apogeu)
 • 976–978 Teodósio III (último)
Período histórico Alta Idade Média
 • ca. 786 Fundado por Leão II
 • 1008 Incorporada ao Reino da Geórgia por Bagrate III
 • século XI Invasões dos turcos seljúcidas
Atualmente parte de

Reino da Abecásia (em georgiano: აფხაზეთის სამეფო; transl.: Aphkhazetis Samepo), conhecido também como Reino dos Abecásios (აფხაზთა სამეფო), é um nome de um estado feudal localizado na região do Cáucaso fundado na década de 780 e que perdurou até a unificação de todos os reinos georgianos no Reino da Geórgia em 1008.

Questão historiográfica[editar | editar código-fonte]

A literatura sobre os primeiros anos do reino foi inicialmente dominada por fontes georgianas e bizantinas e recebeu o suporte de registros arqueológicos e epigráficos.

O problema do Reino da Abecásio, particularmente na questão da natureza de sua família reinante e sua composição étnica é um importante ponto de controvérsia entre os modernos estudiosos georgianos e abecásios, o que só se reforçou pela relativa ausência de relatos sobre estes temas nas fontes primárias. A maior parte dos estudiosos abecásios alegam que o reino foi formado como resultado da consolidação do poder dos antigos abecásios na região, o que lhes teria permitido estender seu domínio para as regiões vizinhas. Os historiadores georgianos discordam e alguns alegam que o reino seria completamente georgiano.

A maior parte dos estudiosos internacionais concorda que é extremamente difícil julgar a identidade étnica dos vários segmentos da população[1] local principalmente por que os termos "Abecázia" e "abecásios" eram utilizados sempre sentido amplo na época — e, por algum tempo, depois dela — e abrangia toda a população do reino, fossem georgianos (incluindo mingrélios, lazes e suanos com suas distintas línguas aparentadas do georgiano) e possivelmente modernos abecásios (povos abasgos, apsílios e zígios)[2]. É provável que uma parte importante (ou até majoritária) da população falante do georgiano, incentivada por reis abecásios a eliminar o domínio cultural e político dos bizantinos, tenha resultado na substituição do grego pelo georgiano como língua cultural e literária na região[2][3].

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Cruz de Jorge II, que conduziu o reino durante o seu apogeu e cuja morte iniciou o declínio que terminaria com a incorporação da Abecásia ao Reino da Geórgia.
século X.

Abecásia — Abásgia nas fontes clássicas — era um principado vassalo do Império Bizantino localizado na costa do Mar Negro no que é hoje a porção noroeste do estado não reconhecido da República da Abecázia (oficialmente parte da Geórgia) e se estendia para o norte até o território do moderno Krai de Krasnodar da Rússia, com capital em Anacopia. O território era governado por um arconte hereditário que funcionava efetivamente como um vice-rei bizantino. Com uma população majoritariamente cristã, a cidade de Pítipo (moderna Pitsunda) e Soterópolis eram sés arcebispos subordinados diretamente ao patriarca de Constantinopla[4]. Os árabes, perseguindo príncipes georgianos em fuga — os irmãos Mir de Egrisi e Archil de Cártlia —, invadiram a Abecásia em 736. Disenteria e inundações, a teimosa resistência do arconte Leão I e de sua esposa cartliana e o apoio de aliados egrísios conseguiram repelir os invasores. Leão depois se casou com a filha de Mir e seu sucessor, Leão II, explorou a união para conquistar Egrisi (Lázica) na década de 770. Presumivelmente considerado como um estado sucessor da Lázica, esta nova entidade política continuou a ser chamada de Egrisi por fontes georgianas ("Vidas dos Reis Georgianos", de Leonti Mroveli, por exemplo) e armênias (como a "História da Armênia", de João V, o Historiador).

A vitoriosa defesa contra os árabes e novas conquistas territoriais deram aos príncipes abecásios poder suficiente para reivindicar mais autonomia de seus mestres bizantinos. Por volta de 786, Leão conseguiu a independência plena com a ajuda dos cazares, assumindo o título de "rei dos abecásios" e transferindo sua capital para a cidade georgiana ocidental de Cutatisi (moderna Cutaisi). De acordo com anais georgianos, Leão subdividiu seu reino em oito ducados: a própria Abecásia, Sucumi, Bedia, Guria, Racha e Takveri, Svanécia, Argveti, and Kutatisi[5].

O período mais próspero do Reino da Abecásia foi entre 850 e 950. Nos primeiros anos do século X, o território do reino se estendia, segundo as fontes bizantinas, ao logo da costa do Mar Negro por 300 milhas gregas, indo da fronteira do Tema da Cáldia até a foz do rio Nicópsis, com o Cáucaso Maior por trás. As tendências cada vez mais expansionistas do reino aumentaram o território para o leste. Começando com Jorge I (r. 872/3–878/9), os reis abecásios controlavam também Cártlia (regiões central e leste da Geórgia) e influenciavam a política interna da Geórgia e dos bagrátidas armênios. Por volta de 908, o rei Constantino III (r. 898/9–916/7) anexou as regiões vizinhas do Emirado de Tbilisi, controlado pelos árabes. Seu filho, Jorge II (r. 916/7–960) marcou o auge do poder e prestígio do Reino da Abecásia. Por um curto período de tempo, a Cachétia, na Geórgia oriental, e Hereti, na fronteira georgiano-albanesa também reconheceram a suserania abecásia. Como aliado temporário dos bizantinos, Jorge II patrocinou as atividades missionárias de Nicolau Místico na Alânia.

Os sucessores de Jorge, porém, não conseguiram manter o poder e a integridade territorial do reino. Durante o reinado de Leão III (r. 960–969), a Cachétia e Hereti sucederam. Uma desastrosa guerra civil e revoltas feudais, iniciadas durante o reinado de Demétrio III (r. 969–976), levaram o reino à completa anarquia sob a liderança de um desafortunado monarca, Teodoro III, o Cego (r. 976–978). Nesta época, o príncipe bagrátida Bagrate III, filho de sua irmã, ocupou o trono da Abecásia (Teodoro não teve filhos) com a ajuda de seu pai adotivo, David III de Tao. Em 1008, Bagrate herdou o trono depois da morte de seu pai natural, Gurgenes, como "rei dos reis dos georgianos", efetivamente reunificando os dois reinos através de uma sucessão dinástica no novo Reino da Geórgia.

Invasão seljúcida[editar | editar código-fonte]

A segunda metade do século XI foi marcada pela desastrosa invasão dos turcos seljúcidas que, já no final da década de 1040, conseguiram construir um vasto império nômade na Ásia central e na Pérsia. Em 1071, os exércitos turcos destruíram as forças reunidas de bizantinos, armênios e georgianos na Batalha de Manziquerta e, em 1081, toda a Armênia, Anatólia, Mesopotâmia, Síria e a maior parte da Geórgia estavam sob controle seljúcida ou arrasados.

Apenas a Abecásia e as regiões montanhosas da Svanécia, Racha e Khevi-Khevsureti não reconheceram a suserania seljúcida, servindo como um refúgio relativamente seguro para os fugitivos. No final de 1099, David IV da Geórgia parou de pagar tributos aos turcos e colocou a maior parte das terras georgianas, com exceção de Tbilisi e Ereti, sob se controle e manteve a Abecásia e Svanécia como bases principais. Entre 1105 e 1124, os exércitos georgianos liderados por ele realizaram uma série de campanhas vitoriosas contra os turcos e liberaram não apenas o resto da Geórgia, mas também a região cristã de Gixi-Cabala area, no Xirvam ocidental, e uma grande porção da Armênia.

Reis da Abecásia[editar | editar código-fonte]

Bagrate III da Geórgia era "Bagrate II da Abecásia" também.
Afresco no Mosteiro de Ghélati.

A maior parte dos reis abecásios, com exceção de João e Adarnase dos Shavliani (de suposta origem suana), vieram da dinastia que é por vezes conhecida na historiografia como "Leônidas" (em função do nome do primeiro rei, Leão) ou Anosidas (por causa do príncipe Anos, de quem eles alegavam descender). Cyril Toumanoff liga o nome de Anos a uma família nobre abecásia, os Achba ou Anchabadze[6]. Por convenção, os números reais dos reis abecásios continuam a numeração dos arcontes da Abásgia. Há também algumas inconsistências sobre as datas dos reinados. A cronologia a seguir segue a obra de Toumanoff.

Casa dos Anosidas/Leônidas (Achba/Anchabadze)[editar | editar código-fonte]

Casa de Shavliani[editar | editar código-fonte]

Casa dos Anosidas/Leonidas (Achba/Anchabadze)[editar | editar código-fonte]

Dinastia Bagrationi (Geórgia reunificada)[editar | editar código-fonte]

  • Bagrate II (Bagrate III da Geórgia), 978–1014

Referências

  1. Graham Smith, Edward A Allworth, Vivien A Law et al., pages 56-58.
  2. a b Graham Smith, Edward A Allworth, Vivien A Law et al., pages 56-58; Abkhaz, de W. Barthold V. Minorsky, na Enciclopédia do Islã
  3. The Georgian-Abkhaz State (summary), by George Anchabadze, in: Paul Garb, Arda Inal-Ipa, Paata Zakareishvili, editors, Aspects of the Georgian-Abkhaz Conflict: Cultural Continuity in the Context of Statebuilding, Volume 5, August 26–28, 2000.
  4. Annuario Pontificio 2013 (Libreria Editrice Vaticana, 2013, ISBN 978-88-209-9070-1), p. 975
  5. Vakhushti Bagrationi, The History of Egrisi, Abkhazeti or Imereti, part 1.
  6. Rapp, pages 481-484.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Alexei Zverev, Ethnic Conflicts in the Caucasus 1988-1994, in B. Coppieters (ed.), Contested Borders in the Caucasus, Brussels: VUBPress, 1996 (em inglês)
  • Graham Smith, Edward A Allworth, Vivien A Law, Annette Bohr, Andrew Wilson, Nation-Building in the Post-Soviet Borderlands: The Politics of National Identities, Cambridge University Press (September 10, 1998), ISBN 0-521-59968-7 (em inglês)
  • S. H. Rapp, Studies In Medieval Georgian Historiography: Early Texts And Eurasian Contexts, Peeters Bvba (September 25, 2003) ISBN 90-429-1318-5 (em inglês)
  • Georgiy I Mirsky, G I Mirskii, On Ruins of Empire: Ethnicity and Nationalism in the Former Soviet Union (Contributions in Political Science), Greenwood Press (January 30, 1997) ISBN 0-313-30044-5 (em inglês)
  • Ronald Grigor Suny, The Making of the Georgian Nation: 2nd edition (December 1994), Indiana University Press, ISBN 0-253-20915-3, página 45 (em inglês)
  • Robert W. Thomson (tradutor), Rewriting Caucasian History: The Medieval Armenian Adaptation of the Georgian Chronicles: The Original Georgian Texts and Armenian Adaptation (Oxford Oriental Monographs), Oxford University Press, USA (June 27, 1996), ISBN 0-19-826373-2 (em inglês)
  • Toumanoff C., Chronology of the Kings of Abasgia and other Problems // Le Museon, 69 (1956), S. 73-90. (em inglês)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]