René Schérer

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René Schérer
Nascimento 25 de novembro de 1922 (96 anos)
Tulle, França
Nacionalidade Flag of France.svg Francesa
Ocupação Filósofo, professor de universidade
Magnum opus Émile perverti (1974)
Principais interesses Fenomenologia, Filosofia da comunicação, Hospitalidade, Utopia, Pedagogia da diferença, Pedofilia, Infância, Educação sexual, Liberação sexual, Homossexualidade
Ideias notáveis Utopia da Compenetração, Pederastia como elemento essencial da pedagogia, Homossexualidade como prática subversiva

René Schérer (nascido em Tulle, França, em 25 de novembro de 1922) é um academista e filósofo francês, professor emérito da Universidade de Paris 8. É o irmão menor do cineasta Éric Rohmer. É um dos pensadores associados à renovação filosófica de Maio do 68. Defensor nos anos 70 de uma reinvenção da pedagogia e da relação criança-adulto, a sua obra aproxima-se à de Gilles Deleuze e Michel Foucault, conservando a sua singularidade. Voz francesa da "pedagogia da diferença", é artífice de uma crítica profunda à educação ocidental, definida como uma ação que manipula a criança levando-a à castração; a pedagogia deve, para Schérer, tutelar os direitos e facilitar uma liberação da corporeidade e da sexualidade da criança, através de uma prática formativa anticonformista e subversiva. Essas ideias ficam particularmente exprimidas no seu ensaio Émile perverti, publicado em 1974.

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Antigo aluno do lycée Edmond-Perrier de Tulle e da Escola Normal Superior de Paris, René Schérer foi primeiro professor de filosofia no ensino secundário. Em 1960 defendeu na Universidade de Paris a sua tese de doutoramento Structure et fondement de la communication humaine : essai critique sur les théories contemporaines de la communication. Em 1964 publicou o seu primeiro livro, Husserl : sa vie, son œuvre e, no ano seguinte, a sua tese em forma condensada. Ele vai reeditar novamente a sua tese em 1971 numa versão rearranjada e com o título Philosophies de la communication, versão revisada que terá adotado, depois do Maio do 68, um enfoque mais marxista e revolucionário.[1]

Em 1962 teve como aluno a Guy Hocquenghem, que se tornou mais tarde o seu colega na universidade, colaborando com ele na redação de várias obras.[2] René Schérer participa mais tarde no Front Homosexuel d'Action Révolutionnaire (FHAR), do qual Guy Hocquenghem é outra das figuras.[3][4]

Os seus primeiros trabalhos exprimem um conhecimento da filosofia alemã e de pensadores como Edmund Husserl, Emmanuel Kant, G. W. F. Hegel e Max Stirner, e têm nomeadamente como objeto a fenomenologia de Husserl ou de Heidegger.[5]

A publicação em 1967 da obra Le nouveau monde amoureux, texto inédito até então de Charles Fourier, no qual esse último defende a livre expressão dos desejos de todos, constitui uma etapa fundamental no itinerário intelectual de René Schérer, que dedica a seguir vários estudos a Fourier. Em Charles Fourier ou la Contestation globale, Schérer considera que o pensamento utópico de Fourier não depende do ”irrealizável” mas do “ainda não realizado”. O pensamento de Fourier é o ponto de partida, para René Schérer, de uma série de estudos sobre os assuntos da utopia e a infância, nos quais defende a ideia de uma “utopia da compenetração, isto é a criação de uma sociedade na qual a expressão e a satisfação das atrações mais diversas e singulares se realizaria num clima de aprovação e de felicidade mútua”.[6]

No contexto posterior ao Maio do 68, René Schérer dá aulas nomeadamente na Universidade de Vincennes, da qual é uma das suas figuras mais importantes, junto com Gilles Deleuze, Michel Foucault, Félix Guattari, François Châtelet ou Georges Lapassade.[7][8]

Entre os assuntos tratados por René Schérer figura o da hospitalidade, que ele concebe não só como uma ética, mas como “um modo de ser que assenta numa erótica”. Para ele, a hospitalidade é uma prática que se opõe à razão de Estado e à lógica de Nação e que transgride as diferenças de classe, de idade, de raça e de sexo. A hospitalidade é concebida por ele como “erótica e subversiva”.[9]

Sobre a infância, René Schérer desenvolve um pensamento na linha do conceito de “tornar-se criança” de Gilles Deleuze: a criança e o adulto enriquecem-se mutuamente numa “compenetração” que constitui uma alternativa à educação herdada de Rousseau, na qual a criança seria formadora do adulto tanto como adulto é formador da criança. Os trabalhos de René Schérer têm também como objeto, mas de maneira mais adicional, a homossexualidade, que ele concebe ante todo, com uma proximidade teórica a Gilles Deleuze e Guy Hocquenghem, como uma prática subversiva, num quadro revolucionário.[10]

Em 1974, Schérer publica o ensaio Émile perverti, ou Des rapports entre l’éducation et la sexualité (título que faz referencia ao Emílio, ou Da Educação, de Jean-Jacques Rousseau), onde se distancia da tradição pedagógica, denuncia a “ação infantilizadora” da escola.[11]

Em 1976 dirige com Guy Hocquenghem o número 22 da revista Recherches, titulado Co-Ire : album systématique de l’enfance, que se inspira parcialmente nos seus seminários de Vincennes dedicados à infància.[12] A obra recebe comentários elogiosos de Michel Foucault e François Châtelet. Pelo seu lado, o filósofo Roger-Pol Droit considera que essa publicação marca o apogeu do discurso liberalizador sobre a sexualidade infantil e a pedofilia dos anos 70.[13]

Em 1978 Schérer é um dos signatários, junto com inúmeros intelectuais, de uma petição ao Parlamento francês que pede a liberação de pedófilos presos e uma revisão do Código penal que reconheça aos menores de 15 anos (idade de consentimento na França) a capacidade para consentir relações sexuais.[14]

Em 1982, René Schérer e Gabriel Matzneff, testemunhas da defesa no processo contra o pedófilo Jacques Dugué, são incriminados no 'caso do Coral'. René Schérer é indiciado sob acusações de corrução de menores,[15]

A realizadora Franssou Prenant dedicou-lhe em 2007 um filme documentário, Le Jeu de l'oie du Professeur Poilibus.[16]


Publicações[editar | editar código-fonte]

  • Husserl, sa vie, son oeuvre (com Arion Lothar Kelkel), Paris: PUF, col. «Philosophes», 1964.
  • Structure et fondement de la communication humaine, Paris: SEDES, 1966.
  • La Phénoménologie des « Recherches logiques » de Husserl, Paris: PUF, 1967.
  • Charles Fourier ou la Contestation globale, Paris: Seghers, 1970. Reedição Séguier, 1996.
  • Philosophies de la communication, S.E.E.S., 1971.
  • Charles Fourier, l'ordre subversif (com Jean Goret), Paris: Aubier, 1972.
  • Heidegger ou l’Expérience de la pensée (com Arion Lothar Kelkel), Paris: Seghers, 1973.
  • Émile perverti ou Des rapports entre l’éducation et la sexualité, Laffont, 1974. Reedição Désordres-Laurence Viallet, 2006.
  • « Co-Ire : album systématique de l’enfance » (com Guy Hocquenghem), revista Recherches, n.º 22, 1976.
  • Une érotique puérile, Paris: Galilée, 1978.
  • L’Emprise. Des enfants entre nous, Paris: Hachette, 1979.
  • L’Âme atomique. Pour une esthétique d’ère nucléaire (com Guy Hocquenghem), Paris: Albin Michel, 1986.
  • Pari sur l’impossible. Études fouriéristes, Saint-Denis: Presses Universitaires de Vincennes, 1989.
  • Zeus hospitalier. Éloge de l’hospitalité, Paris: Armand Colin, 1993. Reedição La Table ronde, 2005.
  • Utopies nomades. En attendant 2002, Paris: Séguier, 1998 (reed. Les Presses du réel, 2009).
  • Regards sur Deleuze, Paris: Kimé, 1998.
  • Un parcours critique : 1957–2000, Paris: Kimé, 2000.
  • L’Écosophie de Charles Fourier, Paris: Economica, 2001.
  • Enfantines, Paris: Anthropos, 2002.
  • Hospitalités, Paris: Anthropos, 2004.
  • Vers une enfance majeure, Paris: La Fabrique, 2006.
  • Passages pasoliniens (com Giorgio Passerone), Villeneuve-d'Ascq: Presses universitaires du Septentrion, 2006.
  • Après tout. Entretiens sur une vie intellectuelle (com Geoffroy de Lagasnerie), Paris: Cartouche, 2007.
  • Pour un nouvel anarchisme, Paris: Cartouche, 2008.
  • Nourritures anarchistes. L’anarchisme explosé, Paris: Hermann, 2009

Presentações e edição de textos[editar | editar código-fonte]

  • Edmund Husserl, Recherches logiques (tradução e presentação, com Hubert Elie e Ariel Lothar Kelkel), Paris: PUF, 4 vol., 1958-1963.
  • Charles Fourier, Charles Fourier, l'attraction passionnée (seleção de textos e presentação), Paris: J.-J. Pauvert, 1967.
  • Charles Fourier, Trois Textes sur la civilisation (prefácio), Paris: Aubier, 1972.
  • Gabriel Tarde, Fragments d'histoire future (prefácio), Paris: Séguier, 1998.
  • Gabriel Tarde, La Logique sociale (prefácio), Le Plessis-Robinson: Institut Synthélabo pour le progrès de la connaissance, col. «Les Empêcheurs de penser en rond», 1999.

Sobre a obra[editar | editar código-fonte]

  • Maxime Foerster, Penser le désir : à propos de René Schérer, éditions H&O, 2007, ISBN 9782845471542.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Maxime Foerster, Penser le désir : autour de René Schérer, H&0, 2007, pp. 17-18.
  2. Bourg, Julian.French pedophiliac discours of the 1970s, em Between Marx and Coca-Cola: youth cultures in changing European societies, 1960-1980, Berghahn Books, 2005, PP. 208-209.
  3. Alessandro Avellis, Alessandro. La Révolution du désir (2006).
  4. Martel, Frederic. Le rose et le noir : les homosexuels en France depuis 1968, Seuil, 2000, p. 248.
  5. Foerster, ídem., pp. 18-21.
  6. Foerster, ídem., pp. 25-31.
  7. (em francês) « L’utopie est un mode de vivre »[ligação inativa], L’Humanité, 28 de setembro de 2007.
  8. Foerster, ídem., pp. 11-12.
  9. Foerster, ídem., pp. 78-83.
  10. Foerster, Maxime. Penser le désir : autour de René Schérer, H&0, 2007, pp. 55-57.
  11. René Schérer, Émile perverti, Laurence Viallet-éditions du Rocher, edição de 2006, p. 56.
  12. Bourg, Julian. French pedophiliac discours of the 1970s, em Between Marx and Coca-Cola: youth cultures in changing European societies, 1960-1980, Berghahn Books, 2005, page 209
  13. Roger-Pol Droit, De la subversion par la sexualité à la reconnaissance des droits de l'enfant, Le Monde, 1 de março de 2001.
  14. Texto da petição (em francès), Le Monde. Ipce.
  15. Trois nouvelles inculpations de l'affaire du "lieu de vie" Coral, Libération, 20 de outubro de 1982.
  16. Le jeu de l’oie du professeur Poilibus[ligação inativa], Documentário em Grand écran, catálogo.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]