Sé (Salvador)
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A Sé, também chamada historicamente São Salvador da Sé ou freguesia da Sé, foi a mais antiga freguesia urbana de Salvador, na Bahia, correspondendo ao núcleo primitivo da cidade fundada em 1549 por Tomé de Sousa. Situava-se na Cidade Alta, em torno da antiga Sé da Bahia, da Praça da Sé, da Praça Municipal, do Terreiro de Jesus e das áreas vizinhas da Misericórdia, Rua Chile, Pelourinho e São Francisco.[1][2]
Criada em 1552, no início da organização eclesiástica da cidade, a freguesia da Sé tornou-se o centro religioso, administrativo, judicial, político e social de Salvador durante o período colonial e imperial.[3] Por se localizar no coração da antiga capital do Estado do Brasil, a Sé concentrou algumas das principais instituições da cidade, como a catedral primacial, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, o antigo paço municipal, casas de governo, edifícios religiosos, sobrados nobres, lojas, oficinas e espaços de circulação de trabalhadores livres, libertos e escravos.[4][1]
O nome da freguesia deriva da antiga catedral ou sé episcopal de Salvador, erguida a partir do século XVI e demolida em 1933. A memória do templo permaneceu na denominação da praça e da região, sendo actualmente evocada, entre outros elementos, pelo monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Júnior, instalado junto ao local da antiga igreja.[5]
História
[editar | editar código]Fundação e formação da freguesia
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Salvador foi fundada em 1549 para servir de sede do Governo-geral do Brasil, numa posição defensiva sobre a escarpa da Baía de Todos-os-Santos. O centro inicial da cidade formou-se na Cidade Alta, onde se estabeleceram os edifícios de governo, a câmara, a cadeia, os primeiros templos e as casas dos principais moradores. A UNESCO descreve o Centro Histórico de Salvador como exemplo eminente de estruturação urbana renascentista adaptada ao sítio colonial, com a Cidade Alta funcionando como bairro defensivo, administrativo e residencial sobre uma escarpa de cerca de 85 metros.[1]
A freguesia da Sé foi instituída em 1552 por D. Pedro Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, recebendo o nome da catedral que ali se estabeleceu.[3] A freguesia constituía o núcleo primitivo da antiga cidade do Salvador, começando nas portas de São Bento e estendendo-se até ao beco do Ferrão, onde se limitava com a freguesia do Passo. A leste e oeste, articulava-se com a orla da montanha e com as ladeiras que desciam para a Conceição da Praia.[6]
Durante os séculos XVI e XVII, a freguesia concentrou o poder eclesiástico e civil da capital colonial. Nela se localizavam a antiga Sé, a Santa Casa de Misericórdia, a área do paço, os caminhos para o colégio dos jesuítas e os acessos entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. Com o crescimento de Salvador, novas freguesias foram sendo desmembradas ou organizadas em torno de outros templos, como Vitória, Conceição da Praia, Santo Antônio Além do Carmo, São Pedro Velho, Santana e Passo, mas a Sé continuou a ocupar posição central na vida urbana.[7]
Centro religioso, político e administrativo
[editar | editar código]A antiga Sé da Bahia foi uma das principais igrejas da América portuguesa. A primeira catedral provisória funcionou na capela de Nossa Senhora da Ajuda, até que se erguesse a sé definitiva. Ao longo do período colonial, a catedral foi espaço de solenidades religiosas e políticas, cerimónias públicas, festas litúrgicas, procissões, funerais de autoridades e ritos que reforçavam a posição de Salvador como sede episcopal e capital do Brasil colonial.[5]

A freguesia reunia ainda edifícios civis e religiosos de grande importância. Nas suas proximidades ficavam o antigo paço, a casa de câmara e cadeia, a Santa Casa de Misericórdia, o colégio e igreja dos jesuítas — actual Catedral-Basílica Primacial de São Salvador —, igrejas de irmandades, conventos, sobrados, lojas e ruas comerciais. A proximidade entre poder religioso, governo, justiça, comércio e residências de elite tornou a Sé uma das áreas mais densas e simbólicas da Salvador colonial.[7][1]
O Terreiro de Jesus, contíguo à área da Sé, desenvolveu-se em torno do antigo colégio jesuíta e tornou-se um dos principais espaços públicos da Cidade Alta. A UNESCO inclui o Terreiro de Jesus, a Praça Municipal e o Largo de São Francisco entre os espaços públicos de origem quinhentista preservados no Centro Histórico de Salvador.[1]
Sociedade urbana e população
[editar | editar código]No século XIX, a Sé continuou a ser uma freguesia de forte densidade social. A freguesia apresenta-se como um espaço urbano complexo, onde conviviam elites políticas e eclesiásticas, comerciantes, oficiais mecânicos, trabalhadores de ganho, libertos, escravos, pobres urbanos, mulheres chefes de domicílio, irmandades religiosas e população ligada aos serviços da cidade.[8]
A Sé teve papel relevante na história da população africana e afrodescendente de Salvador, com estudos sobre baptismos, inventários, trabalho urbano e comércio de escravos indicando que foi um dos espaços centrais de circulação, moradia, baptismo, compra, venda e contratação de pessoas negras livres, libertas e escravas na cidade.[9][10] Cecília Moreira Soares, ao estudar os baptismos de africanos na Sé no século XVIII, assinala a importância da freguesia para a construção de identidades africanas e católicas na Bahia.[9] Valney Mascarenhas de Lima Filho, por sua vez, analisou escrituras de compra e venda, procurações, passaportes de escravos e outros documentos da segunda metade do século XIX, com ênfase na actuação de negociantes de escravos na freguesia da Sé.[10]
A região também foi marcada por formas específicas de moradia e trabalho urbano. Ana de Lourdes Ribeiro da Costa estudou os chamados "cantos" e "lojas" de Salvador no século XIX, associados à presença de trabalhadores negros, carregadores, ganhadores e moradores pobres em áreas de grande circulação, incluindo pontos da freguesia da Sé e das ladeiras que articulavam a Cidade Alta e a Cidade Baixa.[11]
Transformações urbanas e demolições
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Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a freguesia da Sé foi profundamente afectada por projectos de modernização urbana. A área central de Salvador passou a ser alvo de reformas que procuravam alargar ruas, melhorar a circulação, instalar linhas de bonde, reorganizar praças e adaptar a cidade a novos padrões higienistas, viários e administrativos.[12]
A mais simbólica dessas intervenções foi a demolição da antiga Sé da Bahia, concluída em 1933, após longa controvérsia. O templo, que já se encontrava descaracterizado e em mau estado, foi destruído juntamente com quarteirões antigos para permitir a abertura de espaço urbano e a passagem de linhas de bonde. A demolição tornou-se um dos episódios mais citados da história da perda patrimonial em Salvador.[5][12]
Para efeitos administrativos civis, a antiga freguesia da Sé foi convertida em distrito pela Lei Municipal de 5 de agosto de 1892. O distrito de Sé continuou a figurar nas divisões administrativas de Salvador nas primeiras décadas do século XX, aparecendo nas divisões de 1911, 1933, 1936 e 1937. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, passando a Sé a figurar, no quadro territorial de 1939–1943, como uma das zonas do distrito-sede de Salvador.[13]
Embora tenha continuado a existir como referência histórica, religiosa e urbana, a Sé deixou de corresponder a uma freguesia administrativa no século XX, no contexto da substituição das antigas freguesias e distritos por zonas, subdistritos e bairros. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, figurando a Sé como uma das zonas do distrito-sede. A posterior Lei Municipal n.º 1.038, de 15 de junho de 1960, redefiniu a organização urbana de Salvador por subdistritos e bairros, consagrando uma nova divisão territorial distinta das antigas freguesias históricas.[13][14]
A criação da actual Praça da Sé resultou desse processo de demolições e remodelações. O vazio urbano aberto no local da antiga catedral alterou a paisagem histórica da freguesia, mas preservou, pelo nome e por monumentos posteriores, a memória da antiga igreja e da freguesia primitiva.[5]
Patrimonialização e situação contemporânea
[editar | editar código]O antigo território da Sé integra actualmente o Centro Histórico de Salvador, inscrito em 1985 na lista do Património Mundial da UNESCO. O conjunto foi reconhecido pelos seus valores urbanísticos, arquitectónicos e históricos, pela preservação de traçados coloniais, pela concentração de igrejas, edifícios civis e espaços públicos dos séculos XVI a XIX, e pela sua relação com a convergência de culturas europeias, africanas e ameríndias.[1]
Na descrição da UNESCO, os principais sectores do Centro Histórico incluem a Sé, o Pelourinho, a Misericórdia, São Bento, Taboão, Carmo e Santo Antônio, destacando a conservação de espaços públicos de origem quinhentista, como a Praça Municipal, o Terreiro de Jesus e o Largo de São Francisco, todos associados à antiga centralidade da freguesia da Sé.[1]
Do ponto de vista administrativo contemporâneo, a Sé deve ser entendida sobretudo como uma área histórica e antiga freguesia, e não necessariamente como bairro autónomo nos limites actuais da legislação municipal. A legislação recente de Salvador reorganizou a cidade em bairros, absorvendo a antiga área central em categorias urbanas contemporâneas como Centro Histórico e zonas adjacentes.[15]
Arruamentos e praças
[editar | editar código]Em meados do século XIX, a freguesia da Sé era subdividida em 26 quarteirões.[16] A sua malha urbana compreendia algumas das ruas, largos, becos, ladeiras e praças mais antigos de Salvador, articulando a área da antiga Sé, do Terreiro de Jesus, do Pelourinho, de São Francisco, da Misericórdia, do Palácio e das ligações entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.[17]
Uma "Nova divisão dos quarteirões da subdelegacia do Curato da Sé", de 1851, transcrita por Anna Amélia Vieira Nascimento, permite reconstituir os principais arruamentos então associados à freguesia. A divisão incluía, entre outros, os seguintes espaços:[17]
- toda a rua Direita, desde as Portas do Carmo até ao Terreiro;
- o largo do Pelourinho, o Maciel de Baixo e o Maciel de Cima;
- o beco do Mota, a ladeira do Ferrão e a área de São Domingos;
- a ladeira e a rua de São Miguel, até aos limites com a freguesia de Santana;
- o beco do Açouguinho e o Cruzeiro de São Francisco;
- a rua da Laranjeira e a área do hospital da Ordem Terceira de São Francisco;
- a ladeira da Ordem Terceira de São Francisco, o convento e largo de São Francisco;
- a ladeira de São Francisco das Verônicas;
- a rua do Bispo e o Palácio do Arcebispo;
- o largo do Terreiro, a rua Direita do Colégio e a área do antigo colégio jesuíta;
- a rua da Oração, a rua do Tijolo e a ladeira do Saldanha;
- o beco do Seminário, a rua dos Ossos e o beco dos Campelos;
- a rua do Paço de José Pires e a rua do Saldanha;
- a rua Direita da Misericórdia, a antiga Sé, a rua de D. José e a ladeira do Saboeiro;
- a ladeira do Tijolo e o Caminho Novo;
- a ladeira da Praça, até Guadalupe;
- a rua do Saboeiro, a área do Saldanha e a roça dos Carvoeiros;
- o largo da Praça, com a Casa da Câmara, o Palácio, a Relação, a Casa da Moeda, a escadinha da Relação e a ladeira da Misericórdia;
- a rua Direita do Palácio, actual rua Chile;
- a rua de Nossa Senhora da Ajuda, a ladeira do Aljube e a área detrás da Sé;
- a rua do Pão de Ló e a rua do Ximenes;
- a ladeira do Galvão, Vassouras, Tira-Chapéu, Valongo, Escadinha do Vidal e a ladeira detrás do Palácio;
- a rua dos Carvoeiros, o beco do Chagas e a ladeira do Guadalupe;
- a rua dos Capitães, o beco de Santa Clara, o beco do Galeão e a área da botica do Aduce;
- a escadinha de D. Maria Pires, o Brocó, a rua do Curriachito e a quitanda de São Bento.
A freguesia abrangia, assim, uma área muito mais ampla do que a actual Praça da Sé, estendendo-se por parte significativa do núcleo histórico da Cidade Alta. Os seus arruamentos ligavam os principais espaços administrativos, religiosos e comerciais da Salvador oitocentista, incluindo a antiga Sé, a Santa Casa da Misericórdia, o Terreiro de Jesus, o Pelourinho, São Francisco, o Palácio, a Ajuda e as ladeiras de comunicação com a Cidade Baixa.[2]
Património e memória
[editar | editar código]Entre os principais elementos patrimoniais associados à antiga freguesia da Sé encontram-se a Praça da Sé, o Terreiro de Jesus, a Catedral-Basílica Primacial de São Salvador, a Igreja e Convento de São Francisco, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, o Palácio Arquiepiscopal de Salvador, a Praça Thomé de Souza, o Palácio Rio Branco e a Cruz Caída. A região reúne ainda vestígios materiais e peças provenientes da antiga Sé da Bahia, conservados em instituições como o Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia.[5]
A perda da antiga catedral permanece central na memória urbana de Salvador. Desenhos, fotografias e estudos arquitectónicos permitem reconstituir parcialmente a sua aparência, enquanto a Praça da Sé e a Cruz Caída funcionam como marcos de lembrança da igreja demolida e do antigo centro eclesiástico da cidade.[5]
Galeria
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 «Historic Centre of Salvador de Bahia». UNESCO World Heritage Centre. Consultado em 31 de maio de 2026
- 1 2 Nascimento 2007, pp. 53–54, 177–178.
- 1 2 Arqueologia no Pelourinho. Col: Série Registros, 3. Brasília: IPHAN. 1997
- ↑ Nascimento 2007, pp. 53–54, 112–117.
- 1 2 3 4 5 6 Lins, Eugênio de Ávila. «A antiga Sé da Bahia: uma referência para a arte luso-brasileira» (PDF). Porto: Universidade do Porto. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património. Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ Nascimento 2007, p. 53.
- 1 2 Nascimento 2007, pp. 53–54.
- ↑ Nascimento 2007, pp. 112–117.
- 1 2 Soares, Cecília Moreira. «Instruído na fé, batizado em pé: batismo de africanos na Sé da Bahia na primeira metade do século XVIII» (PDF). Afro-Ásia. Consultado em 31 de maio de 2026
- 1 2 Lima Filho, Valney Mascarenhas de (2025). «Entre escrituras e procurações: comerciantes de escravizados na freguesia da Sé em Salvador na segunda metade do século XIX». Revista Horizontes Históricos. 10 (1). Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ Costa, Ana de Lourdes Ribeiro da (1991). «Espaços negros: "cantos" e "lojas" em Salvador no século XIX». Caderno CRH: 18–34. Consultado em 31 de maio de 2026
- 1 2 Assunção, Gabriela Lira; Dantas, George Alexandre Ferreira (2018). «Demolições, debates e tentativas de preservação: aproximações a partir dos casos de Salvador e Recife (1910–1930)». urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana. 10 (2): 387–399. doi:10.1590/2175-3369.010.002.AO05. Consultado em 31 de maio de 2026
- 1 2 «Salvador, Bahia — histórico administrativo». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ «O Processo de Delimitação dos Bairros de Salvador: Relato de uma Experiência». Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ «Lei municipal n.º 9.278, de 20 de setembro de 2017: dispõe sobre a delimitação e denominação dos bairros do Município de Salvador» (PDF). Prefeitura Municipal de Salvador. 20 de setembro de 2017. Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ Nascimento 2007, p. 46.
- 1 2 Nascimento 2007, pp. 177–178.
Bibliografia
[editar | editar código]- Nascimento, Anna Amélia Vieira (2007). Dez freguesias da cidade do Salvador: aspectos sociais e urbanos do século XIX. Salvador: EDUFBA. ISBN 9788523204594
Bibliografia complementar
[editar | editar código]- Arqueologia no Pelourinho. Col: Série Registros, 3. Brasília: IPHAN. 1997
- Lins, Eugênio de Ávila. «A antiga Sé da Bahia: uma referência para a arte luso-brasileira» (PDF). Porto: Universidade do Porto. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património
- Costa, Ana de Lourdes Ribeiro da (1991). «Espaços negros: "cantos" e "lojas" em Salvador no século XIX». Caderno CRH: 18–34
- Assunção, Gabriela Lira; Dantas, George Alexandre Ferreira (2018). «Demolições, debates e tentativas de preservação: aproximações a partir dos casos de Salvador e Recife (1910–1930)». urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana. 10 (2): 387–399. doi:10.1590/2175-3369.010.002.AO05
- Lima Filho, Valney Mascarenhas de (2025). «Entre escrituras e procurações: comerciantes de escravizados na freguesia da Sé em Salvador na segunda metade do século XIX». Revista Horizontes Históricos. 10 (1)
