Ir para o conteúdo

Sé (Salvador)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Representação da freguesia da Sé de Salvador em 1671

Geografia
País
Unidade federativa
Município
Coordenadas
Funcionamento
Estatuto
História
Fundação
Substituído por
Mapa
 Nota: Para a antiga catedral de Salvador, veja Antiga Sé da Bahia.

A , também chamada historicamente São Salvador da Sé ou freguesia da Sé, foi a mais antiga freguesia urbana de Salvador, na Bahia, correspondendo ao núcleo primitivo da cidade fundada em 1549 por Tomé de Sousa. Situava-se na Cidade Alta, em torno da antiga Sé da Bahia, da Praça da Sé, da Praça Municipal, do Terreiro de Jesus e das áreas vizinhas da Misericórdia, Rua Chile, Pelourinho e São Francisco.[1][2]

Criada em 1552, no início da organização eclesiástica da cidade, a freguesia da Sé tornou-se o centro religioso, administrativo, judicial, político e social de Salvador durante o período colonial e imperial.[3] Por se localizar no coração da antiga capital do Estado do Brasil, a Sé concentrou algumas das principais instituições da cidade, como a catedral primacial, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, o antigo paço municipal, casas de governo, edifícios religiosos, sobrados nobres, lojas, oficinas e espaços de circulação de trabalhadores livres, libertos e escravos.[4][1]

O nome da freguesia deriva da antiga catedral ou sé episcopal de Salvador, erguida a partir do século XVI e demolida em 1933. A memória do templo permaneceu na denominação da praça e da região, sendo actualmente evocada, entre outros elementos, pelo monumento da Cruz Caída, de Mário Cravo Júnior, instalado junto ao local da antiga igreja.[5]

História

[editar | editar código]

Fundação e formação da freguesia

[editar | editar código]
No centro, intramuralhas, a área da freguesia da Sé, na Cidade Alta, em 1630

Salvador foi fundada em 1549 para servir de sede do Governo-geral do Brasil, numa posição defensiva sobre a escarpa da Baía de Todos-os-Santos. O centro inicial da cidade formou-se na Cidade Alta, onde se estabeleceram os edifícios de governo, a câmara, a cadeia, os primeiros templos e as casas dos principais moradores. A UNESCO descreve o Centro Histórico de Salvador como exemplo eminente de estruturação urbana renascentista adaptada ao sítio colonial, com a Cidade Alta funcionando como bairro defensivo, administrativo e residencial sobre uma escarpa de cerca de 85 metros.[1]

A freguesia da Sé foi instituída em 1552 por D. Pedro Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, recebendo o nome da catedral que ali se estabeleceu.[3] A freguesia constituía o núcleo primitivo da antiga cidade do Salvador, começando nas portas de São Bento e estendendo-se até ao beco do Ferrão, onde se limitava com a freguesia do Passo. A leste e oeste, articulava-se com a orla da montanha e com as ladeiras que desciam para a Conceição da Praia.[6]

Durante os séculos XVI e XVII, a freguesia concentrou o poder eclesiástico e civil da capital colonial. Nela se localizavam a antiga Sé, a Santa Casa de Misericórdia, a área do paço, os caminhos para o colégio dos jesuítas e os acessos entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. Com o crescimento de Salvador, novas freguesias foram sendo desmembradas ou organizadas em torno de outros templos, como Vitória, Conceição da Praia, Santo Antônio Além do Carmo, São Pedro Velho, Santana e Passo, mas a Sé continuou a ocupar posição central na vida urbana.[7]

Centro religioso, político e administrativo

[editar | editar código]

A antiga Sé da Bahia foi uma das principais igrejas da América portuguesa. A primeira catedral provisória funcionou na capela de Nossa Senhora da Ajuda, até que se erguesse a sé definitiva. Ao longo do período colonial, a catedral foi espaço de solenidades religiosas e políticas, cerimónias públicas, festas litúrgicas, procissões, funerais de autoridades e ritos que reforçavam a posição de Salvador como sede episcopal e capital do Brasil colonial.[5]

Desenhos e planta da antiga Sé da Bahia, por Luís dos Santos Vilhena.

A freguesia reunia ainda edifícios civis e religiosos de grande importância. Nas suas proximidades ficavam o antigo paço, a casa de câmara e cadeia, a Santa Casa de Misericórdia, o colégio e igreja dos jesuítas — actual Catedral-Basílica Primacial de São Salvador —, igrejas de irmandades, conventos, sobrados, lojas e ruas comerciais. A proximidade entre poder religioso, governo, justiça, comércio e residências de elite tornou a Sé uma das áreas mais densas e simbólicas da Salvador colonial.[7][1]

O Terreiro de Jesus, contíguo à área da Sé, desenvolveu-se em torno do antigo colégio jesuíta e tornou-se um dos principais espaços públicos da Cidade Alta. A UNESCO inclui o Terreiro de Jesus, a Praça Municipal e o Largo de São Francisco entre os espaços públicos de origem quinhentista preservados no Centro Histórico de Salvador.[1]

Sociedade urbana e população

[editar | editar código]

No século XIX, a Sé continuou a ser uma freguesia de forte densidade social. A freguesia apresenta-se como um espaço urbano complexo, onde conviviam elites políticas e eclesiásticas, comerciantes, oficiais mecânicos, trabalhadores de ganho, libertos, escravos, pobres urbanos, mulheres chefes de domicílio, irmandades religiosas e população ligada aos serviços da cidade.[8]

A Sé teve papel relevante na história da população africana e afrodescendente de Salvador, com estudos sobre baptismos, inventários, trabalho urbano e comércio de escravos indicando que foi um dos espaços centrais de circulação, moradia, baptismo, compra, venda e contratação de pessoas negras livres, libertas e escravas na cidade.[9][10] Cecília Moreira Soares, ao estudar os baptismos de africanos na Sé no século XVIII, assinala a importância da freguesia para a construção de identidades africanas e católicas na Bahia.[9] Valney Mascarenhas de Lima Filho, por sua vez, analisou escrituras de compra e venda, procurações, passaportes de escravos e outros documentos da segunda metade do século XIX, com ênfase na actuação de negociantes de escravos na freguesia da Sé.[10]

A região também foi marcada por formas específicas de moradia e trabalho urbano. Ana de Lourdes Ribeiro da Costa estudou os chamados "cantos" e "lojas" de Salvador no século XIX, associados à presença de trabalhadores negros, carregadores, ganhadores e moradores pobres em áreas de grande circulação, incluindo pontos da freguesia da Sé e das ladeiras que articulavam a Cidade Alta e a Cidade Baixa.[11]

Transformações urbanas e demolições

[editar | editar código]
A antiga Sé da Bahia no início da década de 1930, pouco antes da sua demolição

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a freguesia da Sé foi profundamente afectada por projectos de modernização urbana. A área central de Salvador passou a ser alvo de reformas que procuravam alargar ruas, melhorar a circulação, instalar linhas de bonde, reorganizar praças e adaptar a cidade a novos padrões higienistas, viários e administrativos.[12]

A mais simbólica dessas intervenções foi a demolição da antiga Sé da Bahia, concluída em 1933, após longa controvérsia. O templo, que já se encontrava descaracterizado e em mau estado, foi destruído juntamente com quarteirões antigos para permitir a abertura de espaço urbano e a passagem de linhas de bonde. A demolição tornou-se um dos episódios mais citados da história da perda patrimonial em Salvador.[5][12]

Para efeitos administrativos civis, a antiga freguesia da Sé foi convertida em distrito pela Lei Municipal de 5 de agosto de 1892. O distrito de Sé continuou a figurar nas divisões administrativas de Salvador nas primeiras décadas do século XX, aparecendo nas divisões de 1911, 1933, 1936 e 1937. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, passando a Sé a figurar, no quadro territorial de 1939–1943, como uma das zonas do distrito-sede de Salvador.[13]

Embora tenha continuado a existir como referência histórica, religiosa e urbana, a Sé deixou de corresponder a uma freguesia administrativa no século XX, no contexto da substituição das antigas freguesias e distritos por zonas, subdistritos e bairros. Pelo Decreto-Lei Estadual n.º 10.724, de 30 de março de 1938, os distritos de Salvador foram reduzidos à categoria de zonas, figurando a Sé como uma das zonas do distrito-sede. A posterior Lei Municipal n.º 1.038, de 15 de junho de 1960, redefiniu a organização urbana de Salvador por subdistritos e bairros, consagrando uma nova divisão territorial distinta das antigas freguesias históricas.[13][14]

A criação da actual Praça da Sé resultou desse processo de demolições e remodelações. O vazio urbano aberto no local da antiga catedral alterou a paisagem histórica da freguesia, mas preservou, pelo nome e por monumentos posteriores, a memória da antiga igreja e da freguesia primitiva.[5]

Patrimonialização e situação contemporânea

[editar | editar código]

O antigo território da Sé integra actualmente o Centro Histórico de Salvador, inscrito em 1985 na lista do Património Mundial da UNESCO. O conjunto foi reconhecido pelos seus valores urbanísticos, arquitectónicos e históricos, pela preservação de traçados coloniais, pela concentração de igrejas, edifícios civis e espaços públicos dos séculos XVI a XIX, e pela sua relação com a convergência de culturas europeias, africanas e ameríndias.[1]

Na descrição da UNESCO, os principais sectores do Centro Histórico incluem a Sé, o Pelourinho, a Misericórdia, São Bento, Taboão, Carmo e Santo Antônio, destacando a conservação de espaços públicos de origem quinhentista, como a Praça Municipal, o Terreiro de Jesus e o Largo de São Francisco, todos associados à antiga centralidade da freguesia da Sé.[1]

Do ponto de vista administrativo contemporâneo, a Sé deve ser entendida sobretudo como uma área histórica e antiga freguesia, e não necessariamente como bairro autónomo nos limites actuais da legislação municipal. A legislação recente de Salvador reorganizou a cidade em bairros, absorvendo a antiga área central em categorias urbanas contemporâneas como Centro Histórico e zonas adjacentes.[15]

Arruamentos e praças

[editar | editar código]

Em meados do século XIX, a freguesia da Sé era subdividida em 26 quarteirões.[16] A sua malha urbana compreendia algumas das ruas, largos, becos, ladeiras e praças mais antigos de Salvador, articulando a área da antiga Sé, do Terreiro de Jesus, do Pelourinho, de São Francisco, da Misericórdia, do Palácio e das ligações entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.[17]

Uma "Nova divisão dos quarteirões da subdelegacia do Curato da Sé", de 1851, transcrita por Anna Amélia Vieira Nascimento, permite reconstituir os principais arruamentos então associados à freguesia. A divisão incluía, entre outros, os seguintes espaços:[17]

  • toda a rua Direita, desde as Portas do Carmo até ao Terreiro;
  • o largo do Pelourinho, o Maciel de Baixo e o Maciel de Cima;
  • o beco do Mota, a ladeira do Ferrão e a área de São Domingos;
  • a ladeira e a rua de São Miguel, até aos limites com a freguesia de Santana;
  • o beco do Açouguinho e o Cruzeiro de São Francisco;
  • a rua da Laranjeira e a área do hospital da Ordem Terceira de São Francisco;
  • a ladeira da Ordem Terceira de São Francisco, o convento e largo de São Francisco;
  • a ladeira de São Francisco das Verônicas;
  • a rua do Bispo e o Palácio do Arcebispo;
  • o largo do Terreiro, a rua Direita do Colégio e a área do antigo colégio jesuíta;
  • a rua da Oração, a rua do Tijolo e a ladeira do Saldanha;
  • o beco do Seminário, a rua dos Ossos e o beco dos Campelos;
  • a rua do Paço de José Pires e a rua do Saldanha;
  • a rua Direita da Misericórdia, a antiga Sé, a rua de D. José e a ladeira do Saboeiro;
  • a ladeira do Tijolo e o Caminho Novo;
  • a ladeira da Praça, até Guadalupe;
  • a rua do Saboeiro, a área do Saldanha e a roça dos Carvoeiros;
  • o largo da Praça, com a Casa da Câmara, o Palácio, a Relação, a Casa da Moeda, a escadinha da Relação e a ladeira da Misericórdia;
  • a rua Direita do Palácio, actual rua Chile;
  • a rua de Nossa Senhora da Ajuda, a ladeira do Aljube e a área detrás da Sé;
  • a rua do Pão de Ló e a rua do Ximenes;
  • a ladeira do Galvão, Vassouras, Tira-Chapéu, Valongo, Escadinha do Vidal e a ladeira detrás do Palácio;
  • a rua dos Carvoeiros, o beco do Chagas e a ladeira do Guadalupe;
  • a rua dos Capitães, o beco de Santa Clara, o beco do Galeão e a área da botica do Aduce;
  • a escadinha de D. Maria Pires, o Brocó, a rua do Curriachito e a quitanda de São Bento.

A freguesia abrangia, assim, uma área muito mais ampla do que a actual Praça da Sé, estendendo-se por parte significativa do núcleo histórico da Cidade Alta. Os seus arruamentos ligavam os principais espaços administrativos, religiosos e comerciais da Salvador oitocentista, incluindo a antiga Sé, a Santa Casa da Misericórdia, o Terreiro de Jesus, o Pelourinho, São Francisco, o Palácio, a Ajuda e as ladeiras de comunicação com a Cidade Baixa.[2]

Património e memória

[editar | editar código]

Entre os principais elementos patrimoniais associados à antiga freguesia da Sé encontram-se a Praça da Sé, o Terreiro de Jesus, a Catedral-Basílica Primacial de São Salvador, a Igreja e Convento de São Francisco, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, o Palácio Arquiepiscopal de Salvador, a Praça Thomé de Souza, o Palácio Rio Branco e a Cruz Caída. A região reúne ainda vestígios materiais e peças provenientes da antiga Sé da Bahia, conservados em instituições como o Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia.[5]

A perda da antiga catedral permanece central na memória urbana de Salvador. Desenhos, fotografias e estudos arquitectónicos permitem reconstituir parcialmente a sua aparência, enquanto a Praça da Sé e a Cruz Caída funcionam como marcos de lembrança da igreja demolida e do antigo centro eclesiástico da cidade.[5]

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 «Historic Centre of Salvador de Bahia». UNESCO World Heritage Centre. Consultado em 31 de maio de 2026
  2. 1 2 Nascimento 2007, pp. 53–54, 177–178.
  3. 1 2 Arqueologia no Pelourinho. Col: Série Registros, 3. Brasília: IPHAN. 1997
  4. Nascimento 2007, pp. 53–54, 112–117.
  5. 1 2 3 4 5 6 Lins, Eugênio de Ávila. «A antiga Sé da Bahia: uma referência para a arte luso-brasileira» (PDF). Porto: Universidade do Porto. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património. Consultado em 31 de maio de 2026
  6. Nascimento 2007, p. 53.
  7. 1 2 Nascimento 2007, pp. 53–54.
  8. Nascimento 2007, pp. 112–117.
  9. 1 2 Soares, Cecília Moreira. «Instruído na fé, batizado em pé: batismo de africanos na Sé da Bahia na primeira metade do século XVIII» (PDF). Afro-Ásia. Consultado em 31 de maio de 2026
  10. 1 2 Lima Filho, Valney Mascarenhas de (2025). «Entre escrituras e procurações: comerciantes de escravizados na freguesia da Sé em Salvador na segunda metade do século XIX». Revista Horizontes Históricos. 10 (1). Consultado em 31 de maio de 2026
  11. Costa, Ana de Lourdes Ribeiro da (1991). «Espaços negros: "cantos" e "lojas" em Salvador no século XIX». Caderno CRH: 18–34. Consultado em 31 de maio de 2026
  12. 1 2 Assunção, Gabriela Lira; Dantas, George Alexandre Ferreira (2018). «Demolições, debates e tentativas de preservação: aproximações a partir dos casos de Salvador e Recife (1910–1930)». urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana. 10 (2): 387–399. doi:10.1590/2175-3369.010.002.AO05. Consultado em 31 de maio de 2026
  13. 1 2 «Salvador, Bahia — histórico administrativo». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 31 de maio de 2026
  14. «O Processo de Delimitação dos Bairros de Salvador: Relato de uma Experiência». Consultado em 31 de maio de 2026
  15. «Lei municipal n.º 9.278, de 20 de setembro de 2017: dispõe sobre a delimitação e denominação dos bairros do Município de Salvador» (PDF). Prefeitura Municipal de Salvador. 20 de setembro de 2017. Consultado em 31 de maio de 2026
  16. Nascimento 2007, p. 46.
  17. 1 2 Nascimento 2007, pp. 177–178.

Bibliografia

[editar | editar código]
  • Nascimento, Anna Amélia Vieira (2007). Dez freguesias da cidade do Salvador: aspectos sociais e urbanos do século XIX. Salvador: EDUFBA. ISBN 9788523204594 

Bibliografia complementar

[editar | editar código]