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Ivan Turguêniev

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Ivan Turgueniev
Ivan Turgueniev, 1875
Nome completoIvan Sergeievitch Turgueniev
Nascimento
Morte
3 de setembro de 1883 (64 anos)

NacionalidadeRusso
Alma materUniversidade de Berlim (1841), Faculdade de Filosofia na Universidade Estatal de São Petersburgo, Universidade Imperial de Moscou, Universidade Humboldt de Berlim
OcupaçãoEscritor
Magnum opusPais e Filhos
Assinatura

Ivan Sergeiévitch Turguêniev (em russo: Иван Сергеевич Тургенев; Oriol, 9 de novembro de 1818Bougival, 3 de setembro de 1883) foi um romancista, poeta, escritor de contos e novelas, tradutor, dramaturgo e divulgador da literatura russa no Ocidente.

Sua primeira grande publicação, uma coletânea de contos intitulada Memórias de um caçador (1852), foi um marco do realismo russo, e seu romance Pais e Filhos é considerado uma das obras mestras da ficção russa do século XIX.[1]

Vida e obra

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Oriundos de uma família de proprietários rurais abastados, Ivan e seus irmãos Nikolai e Serguéi, foram criados por sua mãe, uma mulher muito educada, mas autoritária, na propriedade da família, Spasskóie-Lutovinovo, que foi concedida ao seu ancestral Ivan Ivánovitch Lutovinov por Ivan, o Terrível.[2]

Spasskóie-Lutovinovo, a propriedade rural de Ivan Turguêniev.

Em 1827, a família mudou para Moscovo, onde o jovem Ivan estudou, acabando por ingressar na Universidade de São Petersburgo, na época a mais conceituada do império russo, no ano de 1834. Lá cursou filosofia e, por altura da precoce obtenção do seu bacharelato, aos dezanove anos de idade, publicou uma primeira colectânea de poemas.[1]

Partiu então para a Alemanha, com o intuito de prosseguir os seus estudos na Universidade de Berlim, onde permaneceu até 1841, tendo debatido sobretudo com as ideias de Hegel, professor e reitor daquela universidade. Regressou depois à Rússia e, após ter obtido a licenciatura pela Universidade de Moscovo, ocupou um cargo junto do Ministério da Administração Interna.[3][4]

Em 1843 publicou o primeiro livro digno de atenção por parte da crítica, Parasha, e conheceu o grande amor da sua vida, uma cantora de ópera de nacionalidade espanhola, casada, de nome Pauline Viardot.[1] O relacionamento entre ambos prolongou-se até à velhice, com o consentimento e a cumplicidade do marido da solista.[3][4]

Após o aparecimento de obras como Razgovor (1843), Pomeshchik (1846) e Dnevnik Lishnego Cheloveka (1850), Turguêniev estabeleceu definitivamente a sua reputação como escritor em 1852, ao publicar Zapiski Okhotnika (Memórias de um caçador)[1][5] Composta por vários contos, a obra girava em torno de um jovem aristocrata que vai descobrindo a verdade e a sabedoria na vida dos camponeses que trabalham na sua propriedade. Conta-se que o livro contribuiu grandemente para que o Czar Alexandre II da Rússia tomasse a decisão de libertar os servos por toda a Rússia e que, antes dele, o próprio Turguêniev o havia feito nos seus domínios, desobrigando cerca de cinco mil servos.[3][4]

Em 1852, quando seus primeiros grandes romances da sociedade russa ainda estavam por vir, Turgenev escreveu um obituário para Nikolai Gogol, destinado à publicação na Gazeta de São Petersburgo. A passagem-chave diz: "Gogol está morto... Que coração russo não é abalado por essas três palavras?... Ele se foi, aquele homem que agora temos o direito (o amargo direito, dado a nós pela morte) de chamar de grande. O censor de São Petersburgo não aprovou isso e proibiu a publicação, mas o censor de Moscou permitiu que fosse publicado em um jornal daquela cidade. O censor foi demitido; mas Turgenev foi responsabilizado pelo incidente, preso por um mês e depois exilado em sua propriedade rural por quase dois anos. Foi nessa época que Turgenev escreveu seu conto Mumu ("Муму") em 1854. A história conta a história de um camponês surdo e mudo que é forçado a afogar a única coisa no mundo que lhe traz felicidade, seu cachorro Mumu. Como seus esboços de um esportista (Записки охотника), este trabalho visa as crueldades de uma sociedade servil. Este trabalho foi posteriormente aplaudido por John Galsworthy, que afirmou: "nenhum protesto mais emocionante contra a crueldade tirânica foi escrito em termos de arte".[3][4]

Tornou-se o primeiro escritor russo a celebrizar-se na Europa Ocidental, também graças ao aparecimento dos romances Rúdin (1856), Ninho de nobres (1859) e Na véspera (1860).[6]

A publicação de Ottsy i Deti (Pais e filhos), em 1862, romance que relatava o conflito de um jovem estudante de Medicina, Evguêni Bazárov, que recusa tanto o conservadorismo das gerações mais velhas, como o radicalismo desenfreado da juventude. Turguêniev apodou o protagonista de "nihilista", cunhando assim o termo.[3][4]

Ivan Turguêniev caçando (1879), por Nikolai Dmitriev-Orenburgsky.

O aparecimento da obra deu origem a grande controvérsia, o que fez com que o autor preferisse abandonar a Rússia. Partiu para a Alemanha, passou por Londres, e acabou por se estabelecer em Bougival, nos arredores Paris, junto do casal Viardot, onde veio a falecer.[3][4]

Em meados da década de 1860, Turguêniev foi colaborador da revista literária Época e também se encontra colaboração da sua autoria na revista A Leitura[7] (1894-1896).

Turguêniev nunca se casou, mas teve alguns casos com servas de sua família, um dos quais resultou no nascimento de sua filha ilegítima, Paulinette.[3][4]

Turguêniev recebe doutorado honorário em Oxford, 1879.

Seu amigo literário mais próximo era Gustave Flaubert, com quem compartilhava idéias sociais e estéticas similares. Ambos rejeitaram as visões políticas extremistas de direita e esquerda, e tinham uma visão de mundo sem julgamento, embora um pouco pessimista. Suas relações com Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski foram muitas vezes tensas, pois os dois, por várias razões, ficaram desanimados com a aparente preferência de Turguêniev pela Europa Ocidental.[3][4]

Turguêniev, ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele foi considerado agnóstico.[8]

Dostoiévski parodiou Turguêniev em seu romance Os demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se tornar um jovem radical. No entanto, em 1880, o discurso de Dostoiévski na inauguração do monumento a Pushkin provocou uma espécie de reconciliação com Turguêniev, que, como muitos na plateia, foi levado às lágrimas pelo eloquente tributo de seu rival ao espírito russo.[3][4]

Em 1879, foi-lhe conferido o grau honorário de Doutor em Direito Civil pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.[3][4]

Em janeiro de 1883, um agressivo tumor maligno (lipossarcoma) foi removido de sua região suprapúbica, mas nessa época o tumor apresentava metástase em sua medula espinhal, causando-lhe intensa dor nos últimos meses de vida. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, uma complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo, em São Petersburgo.[3][4]

Turgenev no final de sua carreira.

A pureza artística de Turgenev fez dele o favorito de romancistas da próxima geração, como Henry James e Joseph Conrad, ambos os quais preferiam Turgenev a Tolstoi e Dostoiévski. James, que escreveu nada menos que cinco ensaios críticos sobre a obra de Turgenev, afirmou que "seu mérito de forma é de primeira ordem" (1873) e elogiou sua "delicadeza requintada", que "faz com que muitos de seus rivais pareçam nos segurar, em comparação, por meios violentos, e nos apresentar, em comparação, a coisas vulgares" (1896).[9] Vladimir Nabokov, notório por sua rejeição casual de muitos grandes escritores, elogiou a "prosa musical plástica fluida" de Turguêniev, mas criticou seus "epílogos elaborados" e "manuseio banal de enredos". Nabokov afirmou que Turgenev "não é um grande escritor, embora agradável", e o classificou em quarto lugar entre os prosadores russos do século XIX, atrás de Tolstói, Gogol e Anton Chekhov, mas à frente de Dostoiévski.[10] Suas ideias idealistas sobre o amor, especificamente a devoção que uma esposa deve mostrar ao marido, foram cinicamente referidas pelos personagens de "Uma História Anônima" de Tchekhov. Isaiah Berlin aclamou o compromisso de Turgenev com o humanismo, o pluralismo e a reforma gradual em vez da revolução violenta como representando os melhores aspectos do liberalismo russo.[11]

1993 Moeda russa de 1 rublo comemorando o 175º aniversário do nascimento de Turgenev
Ivan Turguêniev, foto de Félix Nadar (1820-1910).

Algumas obras

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  • 1857 - Рудин (Rudin) - Rúdin
  • 1859 - Дворянское гнездо (Dvoryanskoye Gnezdo) - Um ninho de nobres
  • 1860 - Накануне (Nakanune) - Na véspera
  • 1862 - Отцы и дети (Ottsy i Deti) - Pais e filhos (Barcarena, Editorial Presença, 2023)
  • 1867 - Дым (Dym) - Fumo (Lisboa, Relógio D'Água, 2009), ou Fumaça
  • 1871 - Вешние воды (Veshinye Vody) - O Duelo (São Paulo, Clube do Livro, 1975) / Águas da Primavera (Lisboa, Relógio D'Água, 2010)
  • 1877 - Новь - Terras Virgens

Contos e Novelas

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  • 1846 - Жид (O judeu)
  • 1850 - Дневник лишнего человека (Dnevnik Lishnego Cheloveka) - O diário de um homem supérfluo
  • 1852 - Записки охотника (Zapiski Okhotnika) - Memórias de um caçador
  • 1854 - Муму - Mumu
  • 1855 - Яков Пасынков - Yakov Pasynkov
  • 1855 - Фауст - Fausto
  • 1858 - Ася - Ássia
  • 1860 - Первая любовь (Pervaia Liubov) - O Primeiro Amor (Lisboa, Relógio D'Água, 2008)
  • 1866 - Собака (O cão fantasma)
  • 1868 - Бригадир - O brigadeiro
  • 1868 - История лейтенанта Ергунова - A história do tenente Ergunov
  • 1870 - Странная история - Uma história estranha
  • 1870 - Степной король Лир (Stepnoy Korol' Lir) - O rei Lear da estepe
  • 1871 - Стук… Стук… Стук!.. - Toc… toc… toc!..
  • 1874 - Пунин и Бабурин - Punin e Baburin
  • 1876 - Часы - O relógio
  • 1877 - Рассказ отца Алексея - A história do padre Alexei
  • 1881 - Песнь Торжествующей Любви (Pesn' Torzhestvuiushchei Liubvi) - O Canto do Amor Triunfante
  • 1882 - Клара Милич - Clara Militch
  • 1843 - Неосторожность - Imprudência
  • 1845 – Безденежье (Bezdenezhye) - Sem dinheiro
  • 1846 – Завтрак у предводителя (Zavtrak u predvoditelya) - Café da manhã com os líderes
  • 1847 - Где тонко, там и рвется
  • 1848 – Нахлебник (Nakhlebnik) - O comensal
  • 1849 - Холостяк
  • 1850 – Разговор на большой дороге (Razgovor na bolshoy doroge) - Uma conversa na estrada
  • 1850 – Провинциалка (Provintsialka) - A provinciana
  • 1850 - Месяц в деревне (Mesiats v Derevne) - Um mês no campo
  • 1852 – Вечер в Сорренто (Vecher v Sorrento) - Uma noite em Sorrento
Sepultura no Cemitério de Volkovo.
  • 1843 - Параша - Parasha
  • 1844 - Поп - O pope
  • 1845 - Разговор - Conversa
  • 1845 - Графиня Донато - Condessa Donato
  • 1845 - Андрей - Andrei
  • 1846 - Помещик - O proprietário
  • 1847 - Филиппо Стродзи - Filippo Strodzi
  • 1850 - Кнут - Cnute
Turguêniev, 1880.

Bibliografia

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  • Maurice Partuier - Une amitie' litteraire: Prosper Merimee et Ivan Tourgueniev. (Hachette ed., 1952).
  • Turgenev and Russian Culture; ed. por J. Andrew, D. Offord, R. Reid (2008).
  • The Novels of Ivan Turgenev: Symbols and Emblems por Richard Peace.
  • ALLEN, Elizabeth. Beyond Realism: Turgenev’s Poetics of Secular Salvation. Califórnia: Stanford University Press, 1992.
  • ANTONIASSE, S. "Aspectos da tradução de Diário de um homem supérfluo". Tradterm, v. 28 (2016): Literatura russa em tradução. Disponível em: revistas.usp.br
  • ANTONIASSE, S. "O duelo nas obras de Turguêniev e Flaubert." RUS - Revista de Literatura e Cultura Russa, v. 6, n.6 (2015). Disponível em: revistas.usp.br
  • BRIGGS, Anthony D. "Ivan Turgenev and the workings of coincidence". In: The Slavonic and East European Review, vol. 58. N. 2 (Abr. 1980), pp. 195-211.
  • COSTLOW, Jane Tussey. Worlds within worlds: the novels of Ivan Turgenev. Princeton: Princeton University Press, 1990.
  • FARJADO, J. "Questões culturais e lexicais na tradução de Ivan Turguêniev". Tradterm, v. 28 (2016): Literatura russa em tradução. Disponível em: revistas.usp.br
  • FINCH, Chauncey E. “Turgenev as a Student of the Classics.” The Classical Journal, vol. 49, no. 3, 1953, pp. 117–122. Disponível em: jstor.org.
  • FREEBORN, Richard. Turgenev: the novelist's novelist. Londres: Oxford University Press, 1960.
  • HODGE, Thomas P. “The ‘Hunter in Terror of Hunters’: A Cynegetic Reading of Turgenev's ‘Fathers and Children.’” The Slavic and East European Journal, vol. 51, no. 3, 2007, pp. 453–473. Disponível em: jstor.org.
  • LO GATTO, E. La literatura rusa moderna. Buenos Aires: Editorial Losada, 1972. MAGARSHACK, David. Turgenev: a life. Londres: Faber & Faber, 1954.
  • PHELPS, William Lyon. “Turgenev”. Essays on russian novelists. Nova York: The Macmillan Company, 1911.
  • SANTOS, Vitor Cei. "Nietzsche e Turguêniev: para uma genealogia do niilismo". REEL - Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, s. 2, ano 7, n. 9, p. 1-12, 2011.Disponível em: periodicos.ufes.br
  • TURGUÊNIEV, I. Pais e filhos . São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
  • WILSON, Edmund. "Turguêniev e a gota vivificante". Onze ensaios: literatura, política, história. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 220- 265.
  • WOODWARD, James B. “Typical images in the later tales of Turgenev”. The slavic and east european journal, vol. 17, No. 1 (Primavera, 1973), pp. 18-32. Disponível em: jstor.org
  • ZÚÑIGA, J. E. Las inciertas passiones de Iván Turguéniev. Madri: Alfaguara, 1996.
  • Zviguilsky, Alexandre. Gustave Flaubert - Ivan Tourguéniev: correspondance. Paris: Flammarion, 1989.

Referências

  1. a b c d «Ivan Turguêniev». UOL - Educação. Consultado em 9 de novembro de 2012 
  2. «Brasão de armas de Lutovinov por Todos armoriais russos de Casas Nobres do Império Russo. Parte 8, 25 de janeiro de 1807 (em russo).». gerbovnik.ru. Consultado em 9 de novembro de 2022 
  3. a b c d e f g h i j k Henri Troyat - Tourgueniev. (Flammarion Ed., 1985).
  4. a b c d e f g h i j k CECIL, David. “Turgenev”. In: Poets and story-tellers. New York: The Macmillan Company, 1949, pp. 123-138.
  5. «Editora 34». www.editora34.com.br. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  6. «Editora 34». www.editora34.com.br. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  7. «A leitura: magazine litterario [1894-1896]». hemerotecadigital.cm-lisboa.pt. Consultado em 9 de novembro de 2022 
  8. Harold., Bloom, (2003). Ivan Turgenev. Philadelphia: Chelsea House Publishers. pp. 95 – 96. ISBN 9780791073995. OCLC 50906104 
  9. See Henry James, European Writers & The Prefaces (The Library of America: New York, 1984).
  10. See Vladimir Nabokov, Lectures on Russian Literature (HBJ, San Diego: 1981).
  11. Chebankova, Elena (2014). «Contemporary Russian liberalism» (PDF). Post-Soviet Affairs. 30 (5): 341–69. doi:10.1080/1060586X.2014.892743. hdl:10.1080/1060586X.2014.892743Acessível livremente. Consultado em 7 de dezembro de 2018. Cópia arquivada (PDF) em 22 de setembro de 2017 

Ligações externas

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