Sobreturismo

O sobreturismo ou turismo excessivo (também conhecido por hiperturismo, excesso de turismo ou turismo massivo) é o congestionamento ou a sobrelotação provocada pelo excesso de turistas, resultando em conflitos com os residentes locais. A Organização Mundial do Turismo define o sobreturismo como "o impacto do turismo num destino, ou partes dele, que influencia excessivamente a qualidade de vida percebida pelos cidadãos e/ou a qualidade das experiências dos visitantes de forma negativa". Esta definição mostra como o sobreturismo pode ser observado tanto entre os residentes locais, que veem o turismo como um fator perturbador que sobrecarrega cada vez mais a vida quotidiana, como entre os visitantes, que podem considerar o elevado número de turistas um incómodo.[1][2][3][4]
O termo era apenas utilizado raramente antes de 2017, mas é agora a expressão mais comummente utilizada para descrever os impactos negativos atribuídos ao turismo.[5]
Caraterização
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O crescimento do turismo pode levar a conflitos entre residentes, viajantes, visitantes diários e turistas noturnos. Embora atualmente se dê muita atenção ao sobreturismo nas cidades, este também pode ser observado em destinos rurais ou em ilhas. A Organização Mundial do Turismo (OMT) descobriu que a perceção de sobrelotação pode levar os residentes locais a protestar contra o turismo. O crescimento excessivo de visitantes pode levar a efeitos negativos para os residentes locais, especialmente durante picos turísticos temporários ou sazonais. Por conseguinte, a capacidade de carga de um destino turístico é também medida em termos de capacidade de carga social e do comportamento dos turistas.[6][7][8]
O sobreturismo é por vezes erroneamente equiparado ao turismo de massas. O turismo de massas envolve grandes grupos de turistas que vêm para o mesmo destino. Embora isto possa levar ao sobreturismo, existem muitos destinos que acolhem milhões de visitantes, mas que não são considerados como sofrendo de sobreturismo (por exemplo, Londres). Os turistas utilizam frequentemente infraestruturas e serviços concebidos para os moradores. Se a capacidade de carga da infraestrutura e dos serviços que os turistas necessitam de utilizar for ultrapassada, a prestação de serviços centrar-se-á nas prioridades dos turistas. Os residentes podem ser forçados a utilizar a prestação de serviços destinada aos turistas.[5][9]
Na década de 1990, os residentes de Espanha, Grécia, Malta e França começaram a opor-se ao turismo de massas, que era visto como fordista. Nas zonas rurais da América do Sul, as preocupações ambientais foram o principal fator para o aumento do descontentamento e das campanhas sociais contra os empreendimentos imobiliários turísticos. No México e na América Central, os protestos veementes foram desencadeados pela especulação imobiliária turística, juntamente com a exploração dos trabalhadores e até mesmo pela desapropriação ou deslocação dos residentes locais.[10]
Em 2017, a Europa assistiu a uma onda de protestos por parte dos residentes em cidades como Barcelona, Veneza e Palma de Maiorca. Os problemas decorrentes do sobreturismo começaram a ser discutidos em publicações académicas, mas ainda não existe uma definição comummente aceite do fenómeno.[11]
Causas
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O sobreturismo é observado principalmente, mas não exclusivamente, quando o número de visitantes num destino, ou partes dele, cresce rapidamente num curto espaço de tempo. Além disso, é mais comum em áreas onde os visitantes e residentes partilham um espaço físico. Nos últimos anos, os desenvolvimentos no turismo e fora dele aumentaram o contacto entre residentes e visitantes e tornaram os impactos do turismo mais visíveis. Para além do crescimento geral do número de turistas, os problemas associados ao turismo excessivo foram exacerbados pelos seguintes desenvolvimentos.[12][13][5][1]
Facilitadores do sobreturismo
[editar | editar código]O turismo excessivo tornou-se um fenómeno generalizado. Os governos e as organizações de marketing de destinos (destination marketing organization, DMO) estão a tentar resolver o problema. Os fatores que facilitam o sobreturismo incluem um maior número de turistas, a acessibilidade das viagens, uma mentalidade dominada pelo desejo de crescimento económico, o foco a curto prazo no turismo, a concorrência por serviços e comodidades locais e a falta de controlo sobre as reservas turísticas.[14]
Atualmente, há mais turistas do que nunca na história do mundo. Em 1950, o número de turistas internacionais foi estimado em 25 milhões. Em 1963, Walter Christaller publicou sobre os efeitos negativos do turismo. Em 1987, seguiu-se Jost Krippendorf, à medida que as viagens turísticas internacionais aumentavam. Em 2016, o número de turistas ultrapassou os mil milhões, um aumento de 50 vezes em relação a 1950. A cobertura mediática sobre o sobreturismo tem-se centrado na Europa, que suporta o peso das chegadas de turistas, com 50 por cento, e no Sudeste Asiático, que sustenta 25 por cento das chegadas de turistas. Segundo a OMT, registaram-se 25 milhões de chegadas internacionais em 1950, que aumentaram para 1,3 mil milhões em 2017. Prevê-se que o sector do turismo internacional cresça 3,3% anualmente, até 2030, altura em que se prevê que 1,8 mil milhões de turistas atravessem as fronteiras.[14][15]
Fatores que contribuem para o sobreturismo
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A ascensão das companhias aéreas de baixo custo (low-cost carriers, LCCs), a disponibilidade de serviços de autocarros expressos (intercity coach service) baratos e a popularidade das viagens de cruzeiro são consideradas como tendo contribuído para as queixas sobre o turismo excessivo. Na literatura académica, a política governamental, as ambições dos prestadores de serviços nos destinos turísticos, bem como a influência das redes sociais, são consideradas facilitadoras do sobreturismo.[11]
A Airbnb e serviços de alojamento em linha (online) semelhantes foram acusados de desencadear um aumento de turistas devido aos preços mais baixos, em comparação com hotéis ou outros estabelecimentos. A Airbnb afirma que tenta encaminhar os hóspedes para destinos menos movimentados. Há também a questão de o Airbnb estar a levar a menos oportunidades de habitação acessível para os residentes, ao aumento dos preços das rendas e à perda da comunidade social dentro dos bairros.[16][17][18]
A economia da experiência (experience economy) e as mudanças nos padrões de estilo de vida têm sido responsabilizadas pelo aumento da utilização de instalações de lazer, contribuindo para uma monocultura de instalações de hospitalidade.[16][17][18]
O Decrescimento Turístico como Resposta Política
[editar | editar código]O decrescimento turístico surgiu como uma estrutura para lidar com o turismo excessivo que vai para além das ferramentas convencionais de gestão da procura. Ao contrário de uma simples recessão económica no turismo, o decrescimento refere-se a uma redução deliberada e planeada da atividade turística, dando prioridade à sustentabilidade ecológica e à comunidade em detrimento do bem-estar e do volume de visitantes. Büscher e Fletcher, no artigo de Hall, Lundmark e Zhang de 2021, foram dos primeiros a propor sistematicamente o decrescimento como um caminho para o turismo sustentável. Os críticos de abordagens como os impostos turísticos e as taxas de entrada argumentam que tais medidas geram principalmente receitas, em vez de reduzir significativamente o número de visitantes ou as emissões de carbono. Os defensores do decrescimento defendem, em vez disso, medidas como a proibição da construção de novos hotéis, a limitação da chegada de navios de cruzeiro e a proibição aos arrendamentos de curta duração (alojamentos locais). Alguns destinos agiram de acordo com estes princípios: Amesterdão fechou o seu terminal de cruzeiros e Dubrovnik impôs limites ao número de passageiros diários dos navios de cruzeiro. A resistência às políticas de decrescimento resulta, muitas vezes, da dependência económica das indústrias e dos governos locais em relação às receitas do turismo, ilustrando a tensão crescente entre as prioridades económicas de curto prazo e a sustentabilidade económico-social de longo prazo.[19][20][21][22][23]
Recuperação do Turismo Pós-Pandemia e Aumento do Turismo Excessivo
[editar | editar código]A pandemia de COVID-19 praticamente paralisou o turismo internacional em 2020 e 2021, levando alguns académicos e decisores políticos a defender uma “ressurreição” estrutural do turismo global no sentido de uma maior sustentabilidade. No entanto, quando as restrições de viagem se tornaram menos rigorosas e mais geríveis em 2022 e 2023, a procura turística aumentou rapidamente, regressando aos níveis pré-pandemia em quase todos os destinos. De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT) das Nações Unidas (ONU), as chegadas de turistas internacionais em 2023 atingiram aproximadamente 88% dos níveis de 2019, estando prevista a recuperação total para 2024. Esta recuperação pós-pandemia intensificou as pressões do turismo excessivo em pontos turísticos consolidados e introduziu novos. O Japão, por exemplo, sofreu de sobrelotação em locais como o Monte Fuji e o distrito de Gion, na prefeitura de Quioto, levando as autoridades locais a introduzir barreiras aos visitantes e restrições de acesso. Em vez de provocar uma mudança estrutural na governação do turismo, a pandemia revelou-se apenas uma interrupção temporária das tendências de crescimento preexistentes.[24][25][26][27][28]
O turismo excessivo está intimamente ligado ao conceito da "Tragédia dos Comuns", uma teoria criada pelo ecologista Garrett Hardin em 1968. Esta teoria descreve, em última análise, como os recursos partilhados são propensos à degradação quando os indivíduos agem no seu próprio interesse, sem uma gestão coordenada. Os destinos turísticos, concretamente os seus bens patrimoniais naturais e culturais, funcionam como recursos de utilização comum da Humanidade. Todos partilham amplamente estes recursos e podem ser esgotados pelo uso excessivo. Os académicos observam que tanto o turismo excessivo como a Tragédia dos Comuns evoluíram de estruturas rígidas para estruturas mais contextuais e normativas, reconhecendo que a plataforma apropriada para o turismo é socialmente construída e varia significativamente entre os tipos de destino. Os indivíduos raramente se apercebem da sua própria contribuição para o problema da sobrelotação; a governação eficaz do turismo excessivo requer uma intervenção coletiva ou reguladora, em vez de depender apenas do acaso comportamental individual.[29][28][30]
Exemplos
[editar | editar código]Desde 2017, vários meios de comunicação publicam listas de destinos que não são recomendados devido a um número excessivo de turistas.[31][32][33]
Antártica
[editar | editar código]De acordo com a CNN, os ambientalistas estão preocupados com o efeito do turismo na Antártida, que aumentou constantemente durante a década de 2010. O número total de visitantes à Antártida, registado pela Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida (International Association of Antarctica Tour Operators, IAATO) na época de verão de 2023-24, foi de 122.072. As embarcações exclusivas para cruzeiros (ou seja, embarcações que não desembarcam passageiros) representaram 35% dos visitantes.[34]
Aruba
[editar | editar código]Em Aruba, o químico oxibenzona presente nos protetores solares está a prejudicar os recifes de coral e a vida marinha. Em 2019, foi apresentada uma proposta de lei denominada "Escolha Zero", que inclui a proibição da importação, venda ou distribuição de produtos plásticos descartáveis e produtos que contenham oxibenzona.[35]
Áustria
[editar | editar código]Hallstatt, na Áustria, em 2020 tinha 780 cidadãos e mais de 10.000 visitantes por dia, chegando principalmente em autocarros de turismo, parando brevemente para fotografias e seguindo rapidamente. Os cidadãos queixaram-se de turistas que entravam em casas e jardins privados para tirar fotografias ou aplaudiam funerais no cemitério da igreja. Em 2020, a cidade implementou um sistema para limitar a entrada de autocarros.[36][37][38][39][40][41]
Butão
[editar | editar código]Em 2018, o Butão instituiu uma taxa de 200 a 250 dólares por dia para os turistas devido a preocupações com o turismo excessivo.[41]
Canadá
[editar | editar código]A província da Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, recebe milhões de turistas todos os verões, sobrecarregando as infraestruturas locais e a oferta de habitação. Os grupos de defesa locais instaram o Governo Provincial a limitar o número de turistas para evitar o turismo excessivo.[42]
China
[editar | editar código]A Grande Muralha da China, na China, foi danificada pelo turismo excessivo.[43]
Croácia
[editar | editar código]Dubrovnik, na Croácia, ficou tão sobrecarregada pelo turismo em 2017 que a UNESCO considerou retirá-la da lista do Património Mundial. A cidade limitou o número de visitantes autorizados a subir às suas muralhas e, em 2017, planeava limitar o número de navios de cruzeiro que poderiam atracar. Em 2020, consideravam limitar o número de novos restaurantes autorizados a abrir.[44][45][46]
Equador
[editar | editar código]As Ilhas Galápagos, no Equador, foram incluídas na lista de 2017 da Fodor’s de locais a não visitar devido aos danos ambientais causados pelo turismo excessivo. A partir de 2017, os visitantes são obrigados a contratar um guia.[47][48][49]
Finlândia
[editar | editar código]Em Rovaniemi, na Lapónia, na Finlândia, os residentes queixaram-se do turismo excessivo durante a época de inverno, o que é especialmente visível em relação à Aldeia do Pai Natal.[50][51][52]
França
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Em Paris, na França, os trabalhadores do Louvre entraram em greve devido ao que consideravam condições perigosamente sobrelotadas.[53]
Grécia
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Em Santorini, na Grécia, os visitantes dos navios de cruzeiro estavam limitados a 8.000 por dia devido ao excesso de turismo depois de anos em que a ilha de 15.000 habitantes recebia até 18.000 turistas por dia.[54]
Alemanha
[editar | editar código]O Zugspitze, na Alemanha, tem sido assolado pelo excesso de turismo, especialmente devido aos turistas que chegam de teleférico.[55]
Os Alpes Europeus registam um aumento de acidentes e mortes, uma vez que muitos turistas subestimam a dificuldade das rotas de montanha e praticam montanhismo com equipamento insuficiente ou com baixa condição física e resistência.[56]
Havai
[editar | editar código]No Havai, nos EUA, está demonstrado que a degradação dos corais se agrava em áreas com maior concentração de turistas.[57]
Islândia
[editar | editar código]A área de Fjaðrárgljúfur, na Islândia, foi encerrada depois de o videoclipe de "I'll Show You", de Justin Bieber, a ter tornado tão popular que o governo teve de alterar as infraestruturas para restringir os turistas.[58][59][60]
O turismo na Islândia é predominantemente baseado na natureza e, por isso, apresenta o desafio de proteger o ambiente com o aumento do turismo no país. A utilização excessiva das áreas naturais pode causar danos duradouros e possivelmente permanentes na vegetação, nos solos e na paisagem. Com o rápido crescimento, há também uma falta de infraestruturas na ilha para suportar totalmente o aumento do turismo, juntamente com uma população já existente. Isto causa mais problemas, como o trânsito em estradas que podem ser difíceis de percorrer.[58][59][60]
Índia
[editar | editar código]Em 2019, o Taj Mahal, na Índia, começou a multar os visitantes que permanecem por mais de três horas. A CNN, em 2017, considerou as multidões "implacáveis".[61][62][63]
Indonésia
[editar | editar código]Bali, na Indonésia, planeava, em 2020, uma taxa turística de 10 dólares.[64]
Irão (Irã)
[editar | editar código]O excesso de turismo em Abyaneh, no Irão (Irã), é frequentemente noticiado.[65]
Curdistão Iraquiano
[editar | editar código]O Curdistão Iraquiano é a região mais visitada do Iraque, especialmente durante o Newroz. Turistas de todo o Iraque e do mundo vêm ao Newroz. Em Duhok, três pessoas foram detidas por planearem queimar 200 pneus para a fogueira do Newroz, em 2022. Em Akre, cidade famosa pelas suas celebrações do Newroz, alguns habitantes decidiram queimar tochas de madeira em vez de pneus.[66]
Itália
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Veneza, na Itália, enfrenta um declínio populacional devido ao excesso de turismo. Em 2019, a Forbes classificou-a como um dos "destinos mais notoriamente sobrecarregados de turismo" do mundo. A CNN, em 2017, considerou as multidões "opressivas". Em 2018, a cidade testou a utilização de torniquetes na Praça de São Marcos para controlar o número de visitantes. Em 2020, a taxa turística diária era de 11 dólares.[67][68][69][70][71]
Em 2018, Capri testou formas de limitar o turismo de um dia. Cinque Terre recebeu 2,5 milhões de visitantes em 2015, e as autoridades locais tentaram limitar o número de visitantes a 1,5 milhões em 2016, mas uma reação negativa resultou na revogação desta medida. A CNN, em 2017, afirmou que os turistas de cruzeiro, que fazem passeios de algumas horas sem gastar dinheiro, são culpados pelos danos ambientais. As autoridades de Roma tornaram ilegal sentar-se nas Escadarias da Praça de Espanha, com multas até 448 dólares, devido aos danos causados pelos turistas.[67][68][69][70][71]
Na década de 2010, o Lago Braies tornou-se uma área de turismo excessivo, recebendo até 17.000 visitantes num único dia de verão em 2020; a partir de 2023, verificaram-se restrições de acesso de veículos.[72]
O governo de Florença está atualmente a proibir novos imóveis para arrendamento de curta duração (alojamento local) no centro histórico da cidade, que é Património Mundial da UNESCO. A administração municipal argumenta que o aumento da disponibilidade de arrendamento de curta duração através de plataformas como o Airbnb, que servem os turistas, tornou a habitação inacessível para os residentes locais.[73]
O Lago de Como, há muito um destino popular, também sofreu pressões significativas de turismo excessivo, amplificadas pelo apelo das celebridades e pela visibilidade nas redes sociais. A área registou 4,8 milhões de dormidas em 2023, levando a uma forte pressão sobre os transportes públicos e as infraestruturas rodoviárias, principalmente durante a época alta. Este influxo ocorre num ambiente hidrogeologicamente frágil. À semelhança de Florença, o boom das rendas de curta duração inflacionou os preços dos imóveis, tornando a habitação menos acessível para os residentes locais e contribuindo para o despovoamento em algumas aldeias à beira do lago. As estratégias de gestão que estão a ser implementadas ou consideradas incluem limites de visitantes em atrações populares como a Villa del Balbianello e discussões sobre a introdução de impostos turísticos ou taxas de entrada.[73][74][75][76][77]
Japão
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As autoridades de Quioto, no Japão, instituíram uma multa de 92 dólares para os turistas que fotografassem gueixas sem permissão e proibiram a visita de turistas a alguns becos.[78][79][80][81][82]
O fim das restrições de viagem relacionadas com a COVID-19 e a desvalorização do iene japonês impulsionaram um aumento recorde do turismo estrangeiro. Em resposta ao aumento de turistas estrangeiros no Monte Fuji, a prefeitura de Yamanashi estabeleceu um limite diário de 4.000 pessoas e começou a cobrar uma taxa de entrada de 2.000¥. Também na prefeitura de Yamanashi, foi instalada uma barreira de ecrã para bloquear a vista do Monte Fuji atrás de uma loja de conveniência Lawson em Fujikawaguchiko, popular entre os fotógrafos, devido aos incómodos causados pelos turistas na área. Em 2023, o distrito de Shibuya, em Tóquio, restringiu as celebrações do Dia das Bruxas (Halloween) e da Véspera de Ano-Novo no cruzamento de Shibuya (que não se realizavam desde 2019 devido à COVID-19 e a questões de segurança) devido a problemas de embriaguez pública causados pelo excesso de turismo, e introduziu uma lei em 2024 que proíbe o consumo público de álcool das 18h às 5h durante todo o ano (a partir do final de outubro e do final de dezembro).[78][79][80][81][82][83][84]
Em 2024, algumas autoridades japonesas consideraram instituir um sistema de preços diferenciados, no qual os turistas estrangeiros pagariam mais do que os residentes em determinadas atrações turísticas para combater os efeitos do excesso de turismo.[85][86][87]
A reação pública contra o excesso de turismo no Japão foi citada pelos analistas como um fator por detrás dos ganhos do partido ultraconservador Sanseitō nas eleições para a Câmara dos Conselheiros do Japão em 2025.[85][86][87]
Nepal
[editar | editar código]O Monte Evereste, no Nepal, tornou-se tão sobrecarregado pelo turismo que os alpinistas morrem de mal de altitude devido aos atrasos causados pela sobrelotação. Em 2020, o governo nepalês planeava limitar as permissões àqueles que tinham escalado outro pico nepalês de 6.500 metros (21.325 pés).[88]
Países Baixos
[editar | editar código]Amesterdão, nos Países Baixos, instituiu uma taxa turística diária em 2019, eliminou os passeios oficiais pelo Distrito da Luz Vermelha em 2020, e lançou uma campanha de marketing "Fique Longe".[89][90][91]
Palau
[editar | editar código]O governo de Palau, uma nação insular do Pacífico cujo turismo representa 85% do seu PIB, propôs desde 2017 um projeto de lei para transformar o país num destino exclusivamente de luxo, permitindo apenas hotéis de cinco estrelas e estimulando os gastos pessoais dos visitantes — com foco na qualidade em vez da quantidade —, a fim de conter o excesso de turismo.[92]
Peru
[editar | editar código]Em 2019, o Peru limitava o número de visitantes a Machu Picchu a 5.000 por dia, mas a UNESCO acredita que este limite deveria ser reduzido para metade. A partir de 2014, os turistas estrangeiros passaram a ser obrigados a contratar um guia. Em 2020, o sítio arqueológico planeava emitir 5.940 bilhetes por dia, mais do dobro dos 2.500 recomendados pela UNESCO para a preservação das ruínas.[93][94][95]
Portugal
[editar | editar código]O sobreturismo em Portugal é severo tem-se tornado um dos principais problemas do país devido ao crescimento muito rápido da atividade turística e à sua concentração territorial em alguns destinos urbanos, costeiros e insulares. Em 2024, Portugal atingiu novos máximos nos principais indicadores turísticos, com 80,4 milhões de dormidas, 31,6 milhões de hóspedes e 27,7 mil milhões de euros em receitas, sendo que cerca de metade das dormidas se concentrou apenas no Algarve e na Grande Lisboa. Esta concentração ajuda a explicar por que razão os impactos do turismo são sentidos de forma desigual: enquanto muitas regiões procuram ainda atrair visitantes, zonas como Lisboa, Porto, Algarve, Madeira, Sintra e alguns pontos dos Açores enfrentam pressões sobre habitação, mobilidade, espaço público, recursos naturais e qualidade de vida dos residentes.[96][97][98][99][100]
Em Lisboa, o sobreturismo está sobretudo associado à concentração de visitantes no centro histórico, à expansão do alojamento local e à transformação de edifícios residenciais em unidades de curta duração. Bairros centrais têm sido particularmente afetados pela combinação entre turismo urbano, gentrificação e turistificação, com perda de habitação permanente, substituição de comércio tradicional e aumento dos conflitos entre usos residenciais e usos turísticos. A pressão turística não se limita à presença física de visitantes nos espaços públicos; manifesta-se também na reorganização económica dos bairros, na alteração da vizinhança e na fragilização das redes sociais locais. Por isso, Lisboa tem adotado medidas de contenção do alojamento local e tem discutido instrumentos adicionais, incluindo limitações mais fortes em zonas residenciais e revisão das taxas turísticas.[96][97][98][99][100]
No Porto e em Sintra, o sobreturismo apresenta características distintas, mas igualmente relacionadas com a pressão sobre centros históricos de elevada atratividade patrimonial. No Porto, a Baixa, a Ribeira, a Sé, a Vitória, Miragaia, Cedofeita e Bonfim foram afetadas pelo crescimento do turismo urbano, pela reabilitação acelerada do edificado e pela multiplicação de arrendamentos de curta duração (alojamento local), alojamentos turísticos, restaurantes, bares e serviços orientados para visitantes. Em Sintra, o problema é mais marcado pela sobrecarga diária de visitantes num espaço urbano e patrimonial de menor dimensão, com longas filas, poluição, trânsito intenso e perda de comércio essencial para residentes, incluindo supermercados e farmácias. A pressão é particularmente visível em atrações como o Palácio Nacional da Pena, a Quinta da Regaleira, o Palácio de Monserrate, o Castelo dos Mouros, o Palácio Nacional de Sintra, que chega a receber cerca de 5.000 visitantes por dia, contribuindo para congestionamento rodoviário, filas nos monumentos e conflitos entre mobilidade turística e vida quotidiana dos moradores. A Paisagem Cultural de Sintra, classificada como Património Mundial pela UNESCO, tornou-se assim um exemplo especialmente sensível de pressão turística, por concentrar património, natureza, tráfego automóvel e fluxos de excursões num território com capacidade física limitada.[96][97][98][99][100]
No Algarve, o sobreturismo relaciona-se sobretudo com a forte sazonalidade do turismo balnear, a concentração da procura nos meses de verão e a dependência económica regional do setor turístico. A região continua a concentrar a maior quota de dormidas do país, mas essa intensidade turística agrava problemas estruturais como pressão sobre a água, artificialização da faixa costeira, aumento temporário da população, congestionamento em zonas balneares e dependência de produtos turísticos de “sol e mar”. A crise hídrica tem tornado este debate mais sensível, uma vez que o Algarve enfrenta episódios persistentes de seca e necessidade de investimento em dessalinização, reutilização de águas residuais e melhoria de infraestruturas. Assim, o sobreturismo algarvio não se expressa apenas em excesso de visitantes, mas também na tensão entre modelo económico, capacidade ambiental e sustentabilidade de recursos essenciais.[101][102][103]
Nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o sobreturismo assume uma dimensão especialmente ligada à fragilidade dos territórios insulares. Na Madeira, o crescimento turístico tem exercido pressão sobre trilhos, levadas, miradouros, estradas, áreas naturais e infraestruturas urbanas, levando à adoção de medidas como taxas e sistemas de reserva em percursos pedestres populares. A literatura sobre a Madeira sublinha a necessidade de gerir preventivamente a saturação turística, diversificando fluxos e promovendo turismo rural ou de natureza em moldes mais sustentáveis. Nos Açores, embora o fenómeno seja geralmente menos intenso do que em Lisboa, Porto, Algarve ou Madeira, existem riscos semelhantes em locais ambientalmente sensíveis, como lagoas, miradouros, zonas costeiras, trilhos e áreas protegidas, onde o aumento rápido da procura pode comprometer ecossistemas frágeis e a experiência dos residentes e visitantes. Nestes territórios, o desafio central consiste em evitar que o sucesso turístico ultrapasse a capacidade social, ambiental e infraestrutural das ilhas.[104][105][100]
Espanha
[editar | editar código]Em Barcelona, Espanha, manifestantes protestaram em praias turísticas e outros bairros com grande fluxo turístico, e surgiram grafitos (graffitis) anti-turismo. Em 2013, 9 milhões de visitantes percorriam o Parque Güell anualmente, e as autoridades limitaram a entrada no parque a 800 pessoas por hora. O The New Yorker afirmou: "A transformação do Parque Güell de um espaço público partilhado numa zona cultural ocupada quase exclusivamente por turistas é entendida por alguns residentes preocupados de Barcelona como uma história sobre o futuro da própria cidade". De acordo com Albert Arias, geógrafo do governo de Barcelona, a venda de bilhetes foi "uma solução muito má", que "reconhece um problema que rodeia o espaço público". O Airbnb contribuiu para o excesso de turismo, com algumas zonas da cidade registando uma queda de 45% na população residente entre 2007 e 2019 devido aos investidores que compraram imóveis para utilizar como arrendamento de curta duração (alojamento local) através da plataforma. Em 2017, o turismo tornou-se uma das principais preocupações das autoridades municipais, com um inquérito a mostrar que 60% dos residentes acreditavam que Barcelona tinha "atingido ou excedido" a sua capacidade de acomodar o turismo. Em 2020, Barcelona planeava limitar os navios de cruzeiro. Em abril de 2020, uma proposta para uma mudança radical na organização da cidade, o Manifesto para a Reorganização da Cidade após a COVID-19, foi publicada em Barcelona pelo arquiteto e teórico urbano Massimo Paolini, assinada por 160 académicos e 300 arquitetos. O Manifesto é radicalmente crítico em relação à turistificação e mercantilização da cidade, propondo: "eliminar os navios de cruzeiro", "manter as dimensões atuais do aeroporto", "estimular o decrescimento turístico" e "eliminar qualquer investimento para promover a marca Barcelona".[106][107][108][109][110][111][112]
Outras áreas sobreturísticas em Espanha incluem as Canárias, Málaga, Maiorca, e Alicante.[113][114][115][116][112]
Tailândia
[editar | editar código]Maya Bay, na Tailândia, foi encerrada ao público depois de o turismo excessivo ter causado problemas ambientais. O Parque Nacional Ao Phang Nga foi listado em 2017 na lista da Fodor's de locais a não visitar em 2018 devido ao turismo excessivo.[117][118][119]
Reino Unido
[editar | editar código]Na Escócia, a Ilha de Skye aconselhou os visitantes a não irem a não ser que tivessem alojamento reservado.[120][121][122]
Em Inglaterra, em 2024, o conselho de turismo do Condado de Thanet, que gere uma área turística popular em Kent, sugeriu que o condado cobrasse um imposto turístico, mas a proposta foi recusada.[120][121][122]
Algumas cidades e vilas de Cotswolds também registaram um grande número de visitantes. Isto causou problemas aos residentes de locais como Bourton-on-the-Water e Bibury, que enfrentam congestionamentos causados pelo sobreturismo e pelo estacionamento excessivo de forasteiros. Em março de 2024, os autocarros foram proibidos em Bourton-on-the-Water.[120][121][122]
Vietname (Vietnã)
[editar | editar código]Em Hanói, no Vietname (Vietnã) em outubro de 2019, um comboio (trem) teve de fazer uma paragem de emergência por causa de turistas nos carris a tirar selfies.[123]
Brasil
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No Brasil, este fenômeno é muitas vezes visto como algo ruim, por acabar criando uma grande valorização para esses locais, trazendo maiores custos aos moradores dessas regiões, além de impactos ambientais e socioculturais.[124][125][126]
Muitos interligam esse grande excesso do turismo de determinados locais ao advento das redes sociais, com uns dos principais deles sendo o Instagram, devido aos usuários poderem realizar o compartilhamento de fotos em locais exóticos; com isso incentivando outros usuários a irem nessas localidades, seja com finalidade de um turismo convencional, ou apenas para compartilharem fotos desses locais para conseguirem altos níveis de popularidade.[127][128][129]
Medidas de ação contra o sobreturismo
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Em setembro de 2018, a Organização Mundial do Turismo (OMT) publicou um relatório sobre o sobreturismo e como lidar com ele. O relatório destaca a importância de olhar para o turismo num contexto local e detalha 11 estratégias para lidar com o sobreturismo:[1]
- Aumentar a dispersão física das multidões entre diferentes atrações dentro de um destino (por exemplo, incentivando visitas às zonas rurais e do interior em vez das zonas urbanas e do litoral);
- Aumentar a dispersão temporal dos turistas (por exemplo, incentivando visitas fora de época alta);
- Promover novos itinerários e atrações de especial interesse;
- Fazer um uso eficaz das regulamentações sobre o turismo;
- Adaptar as atividades a segmentos específicos do mercado turístico;
- Garantir que as comunidades e os residentes beneficiam todos do turismo;
- Criar experiências benéficas tanto para turistas como para residentes;
- Expandir a infraestrutura;
- Envolver os residentes locais na formulação de políticas de turismo inteligente (smart tourism);
- Comunicar com os turistas sobre os potenciais impactos do turismo nas comunidades;
- Utilizar os dados para monitorizar e responder a problemas relacionados com o sobreturismo.
A empresa de consultoria McKinsey & Company sugere que, para evitar o sobreturismo, é necessário concentrar-se em quatro prioridades:[1][2][3][4]
- Construir uma base de factos abrangente e atualizá-la regularmente.
- Estabelecer uma estratégia de crescimento sustentável através de um planeamento rigoroso e de longo prazo.
- Envolver todos os setores da sociedade: comercial, público e social.
- Encontrar novas fontes de financiamento.
Além disso, as relações públicas e a comunicação sistemáticas são essenciais. Os objetivos, as medidas, os sucessos e os fracassos da gestão do turismo local devem ser tornados transparentes aos habitantes para que todas as instituições relevantes se envolvam.[1]
Ver também
[editar | editar código]- Gentrificação
- Turistificação
- Arrendamento (locação) de curta duração
- Airbnb
- Impactos do turismo
- Discriminação de preços
- Concorência desleal
- Especulação imobiliária
- Crise da habitação
- Bolha imobiliária
- Bolha habitacional
- Usura (crime)
- Agiotagem
- Extorsão
- Extorsão indireta
- Consumo conspícuo
- Lazer conspícuo
- Lei suntuária
- Turismo sustentável
- Tragédia dos Comuns
- Bem de Veblen
- Desindustrialização
- Tarifas de congestionamento
- Ecoturismo
- Armadilha para turistas
Referências
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Ligações externas
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- O Problema do Turismo "Instagramável" (Canal Elementar).