Uíge

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Uíge
Localidade de Angola Angola
(Cidade e Município)
AO-Uige.png
Dados gerais
Gentílico uigense
Província Uíge
Características geográficas
Área 58 698 km²
População 493 529[1] hab. (2014)
Angola - Uíge.svg
Uíge está localizado em: Angola
Uíge
Localização de Uíge em Angola
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Dados adicionais
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Projecto Angola  • Portal de Angola

Uíge é uma cidade e província situada no extremo norte de Angola. Tinha, como capital na época colonial, a cidade de Carmona. Esta designação foi criada em 1955 como homenagem ao ex-presidente da república portuguesa (Óscar Carmona), falecido aos 18 de abril de 1951. A cidade manteve este nome até à independência de Angola em 1975. Nessa altura, o nome "Carmona" foi substituído por "Uíge", seu nome inicial.[2]

O território do Uíge, tem uma extensão de 58 698 quilômetros quadrados e uma distáncia a cerca de 317 quilômetros até Luanda (capital angolana).

História[editar | editar código-fonte]

Período pré-colonial[editar | editar código-fonte]

A História de Angola em geral apresenta ainda bastantes lacunas, pois as poucas fontes escritas são manifestamente insuficientes e a arqueologia está pouco desenvolvida. A deficiente informação sobre o período pré-colonial obriga a que as referências mais antigas sejam geralmente relacionadas com a chegada ou fixação dos portugueses à região.

Período colonial[editar | editar código-fonte]

Os contactos com os portugueses permitiram aos Bakongo a abertura ao Atlântico e com isso desenvolveu-se o tráfico de escravos. Porém, as boas relações com Portugal foram muitas vezes dificultadas por tensões resultantes do tráfico de escravos. Por sua vez, as influências de missionários católicos manteve-se até ao século XVII, mas a sua actividade conheceu um grande declínio até à segunda metade do século XIX, e, quando foi reactivada, passou a ter concorrência dos protestantes da Igreja Baptista, que passaram a ter grande influência na formação de elites letradas e líderes comunitários. Em 29 de Outubro de 1665, teve lugar, em Ambuíla, a batalha que seria fatal para o Reino do Congo. Nela, foi morto o rei dom António e, com ele, perto de cinco mil homens, entre os quais muitos dos seus colaboradores. A cabeça do rei foi enterrada com solenidade de monarca cristão na Igreja da Nazaré, em Luanda, onde, ainda hoje, se encontram azulejos alusivos à batalha de Ambuíla.

Conferência de Berlim (1884-1885)[editar | editar código-fonte]

Após a Conferência de Berlim, foi criado o distrito do Congo, cuja primeira capital foi a província de Cabinda. O comércio continuou a jogar papel determinante na economia da região de Maquela no início do século XX, e as quitandas eram descritas no princípio do século como algo mais que locais de compras e vendas. Na realidade, elas estavam organizadas numa lógica parecida com a dos centros comerciais modernos desde os bens de origem agropecuária até artigos manufacturados e armas. As quitandas representavam, também, espaços de sociabilidade, de troca de informação e de distracção. Nessa época, teve início a ocupação comercial do interior do Congo, antecedendo, em algumas regiões, a ocupação militar e administrativa.

Num local onde hoje se encontra a cidade do Uíge, foi criado, pelos portugueses, um posto militar (Portaria 60 de 6 de abril de 1917). Em 1923, o posto passou a sede da circunscrição e, mais tarde, ao de conselho do Bembe. A importância crescente da cultura do café e a subida do seu preço no mercado internacional, provocaram alterações radicais na economia do distrito do Congo. A cultura do café passou então a marcar a história de quase toda a província. Porém, factos como a usurpação de terras férteis, o trabalho forçado nas plantações dos colonos, o pagamento de impostos injustos, a obrigatoriedade da cultura do café e prejuízo a alimentares, contribuíram para a revolta popular em 1961 que abrangeu praticamente todo o noroeste de Angola. A revolta foi violenta e os portugueses responderam com uma violência que atingiu inocentes. Em muitas localidades da província, encontram-se monumentos nos sítios que, apesar da sua modéstia, assinalam as vítimas da repressão de 1961.

A revolta provocou importantes mudanças na política colonial portuguesa. Uma delas foi a reforma legislativa que abrangeu a concessão de terras, o trabalho forçado, a organização administrativa, o poder tradicional, os impostos e os mercados rurais. A contraofensiva portuguesa, aliada a intensa propaganda psicológica, provocou o regresso de grande parte da população que se havia refugiado nas matas ao convívio com os portugueses. Foram criadas as aldeias da paz em pontos estratégicos e teve início um novo tipo de relacionamento com os cafeicultores nativos, que representou um importante incentivo à produção de café e contribuía para atenuar a ação dos nacionalistas. A estratégia deu alguns resultados, pois ainda hoje muitas populações valorizam a melhoria da sua condição económica e social na altura.

Ramo de café

Certos agricultores nativos chegaram a produzir mais de vinte toneladas de café comercial e a possuir 50 trabalhadores permanentes, "algo que alguns portugueses não conseguiam". A província do Uíge chegou a produzir 74 mil toneladas de café comercial nos primeiros anos da década de 1970 quando a produção nacional havia atingido o máximo de 180 mil toneladas.[3] O município do Dange, com as suas 21 500 toneladas, era o maior produtor de Angola. Depois de Dange, os municípios mais produtivos eram os do Uíge, com 17 950, e do Songo, com 14 350 toneladas.[4][5]

Estrada do Uíge para Luanda

A estrada de Luanda para Carmona, era também designada como estrada do café. Isso porque a grande produção da província era o café, havendo grandes fazendas em diversos locais que o traziam para o mercado de Carmona onde era vendido e depois transportado para Luanda. Por ser zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores bailundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela União das Populações de Angola (UPA) para começar os massacres em Março de 1961 no município de Quitexe. A fixação dos portugueses no território do Uíge só começou a ser efectiva após a Conferência de Berlim, que terminou em 1886, e a memória colectiva captada em quase todos os municípios, principalmente a sul e leste, regista a presença permanente dos militares portugueses apenas a partir do início do século XX. Todavia, há registos históricos que referem a concessão da exploração das minas de cobre de Mavoio, no Bembe, em 1857, que chegou a permitir a exportação de um importante quantitativo de minério, antes do seu encerramento devido às dificuldades de transporte para o Ambriz.[6]

Desde 1877, Carmona formava parte do Congo Português, que incluía, também, a província de Cabinda e os territórios situados entre os rios Loge, Zaire e Kuango. Em 14 de julho, desembarcou o seu primeiro governador, Neves Ferreira.[7] Em 1917, a sede de Cabinda se situava em Maquela do Zombo e, em 1961, se cria o distrito do Uíge, com sede em Carmona, permanecendo assim durante a colonização portuguesa até 1975.[8]

Período republicano[editar | editar código-fonte]

Uíge foi a província mais castigada durante a Guerra Civil Angolana (1975-2002), que durou 26 anos. Suas casas foram destruídas e suas infraestruturas foram seriamente abaladas, fazendo, do Uíge, uma das províncias mais pobres de Angola. Nos anos 1970, devido à grande riqueza que o café proporcionou, Carmona era uma cidade próspera, com muitas infraestruturas que outras cidades não tinham. Tinha um aeroporto, aeroclube, piscina, colégio, escola técnica, uma delegação do Banco de Angola, Rádio Clube do Uíge, Grande Hotel do Uíge, Clube Recreativo do Uíge, Hospital e todos os serviços públicos.[9]

Os grupos etnolinguísticos[editar | editar código-fonte]

Grupo bakongo

A população do Uíge é geralmente conectada com a comunidade etnolinguística dos Bakongo, segundo a terminologia usada pelo Ministério da Cultura. Historicamente, o grupo dos Bazombo ou Bambata, habitantes da região de Mbata referenciada com o actual território de Maquela do Zombo e parte da Damba, distinguiu-se pela sua propensão para o comércio. Essa especialização dos Bazomba é, ainda hoje, um dos seus traços mais característicos, com base em mercados e em verdadeiras instituições conhecidos por quitandas, cujo nome original era nzandu ("lugar neutro").

Talvez se possa afirmar que esta característica dos Bazombo identifica uma área cultural distinta dentro do território angolano, ocupada pelos Bakongo.

População dos grupos Bakongos

Para o comércio, passou a ser extensiva para outros subgrupos dos Bakongo, influenciando a organização de mercados rurais pelo governo português logo após os acontecimentos de 1961 bem como o desenvolvimento do comércio informal depois da independência de Angola.

A conectação de grande parte da região do Uíge tal como a do Zaire com os Bakongo, poderá ter origem nas grandes migrações dos povos bantu,[10] talvez antes do final do primeiro milênio e na posterior fundação do Reino do Congo. Por outro lado, os movimentos de populações ao longo das últimas décadas associados às guerras e casamentos interculturais trouxeram, à região, pessoas oriundas de outros Territórios.

Geografia[editar | editar código-fonte]

A província do Uíge situa-se no norte de Angola, ocupando uma superfície de 62 424 quilómetros quadrados e faz fronteira com a República Democrática do Congo; a leste, com a província do Zaire; a Oeste, com a do Bengo; a sudoeste, com a do Kwanza Norte; e, a Sul, com a província de Malanje.

Divisão da Cidade e Classes Sociais[editar | editar código-fonte]

A cidade do Uíge está dividia em bairros. Cada bairro resulta dum aglomerado de zonas, quarteirões e blocos regidos por um Soba. Os bairros da cidade do Uíge são tipicamente habitados por pessoas de diferentes classes sociais.

São de mencionar os bairros nas diferentes regiões:

Norte[editar | editar código-fonte]

Papelão: é um bairro suburbano com habitantes vindos de vários municípios da província e tem uma alta concentração de angolanos regressados da República Democrática do Congo. Tem habitações convencionais, na sua maioria construídas de tijolo queimados de barro e é predominante uma classe baixa composta por pequenos comerciantes informais, camponeses e alguns funcionários públicos. Há também uma pequena classe média a crescer neste bairro mas ainda representa uma minoria.

Gai: este bairro representa uma continuidade do Bairro Papelão, alberga o quartel General da região Militar Norte, e o centro de processamento e distribuição de gás natural da cidade. É possível observar uma crescente classe média ao longo da estrada que atravessa este bairro. Não se trata de uma classe média nova, mas de habitantes que abandonam as casas no centro da cidade e vão para este bairro.

Sul[editar | editar código-fonte]

Kindenuko: tal como o Gai, é muito habitado pela classe média dos que abandonam o centro da cidade devido a degradação dos prédios e subida do arrendamento. É ainda muito reduzida a sua densidade populacional. Mas está crescendo de forma acelerada, albergando o SIAC e um novo projecto urbanístico que irá transformar o seu aspecto.

Kapesu: é um bairro extremamente pobre e em condições degradadas. Habitado por uma maioria de classe baixa, apresentando um elevado índice de delinquência juvenil (mais comum em adolescentes) e outros fenómenos sociais que influenciam negativamente a sua imagem. Tem uma baixa densidade de população que é proveniente das províncias do sul de Angola (deslocados da guerra civil).

Gigi: é uma ligação entre o Kapesu e Kindenuku. Os seus habitantes também apresentam duas características: por um lado uma classe média e do outro uma classe extremamente pobre. Há também um índice crescente e persistente de delinquência juvenil.

Leste[editar | editar código-fonte]

Kandombe: é um bairro antigo, conhecido também por Cidade Alta, e encontra-se dividido em: velho e novo.

Velho: parte dos términos do Centro da Cidade, juntos da antiga fábrica de bebidas conhecida por Bangola, e se estende por uma grande parte da região leste. É composto por uma classe média (cerca de 10%), uma classe meio-baixa (cerca de 30%) e a última muito baixa. O facto de apresentar um comércio intenso e um tráfego agitado, influencia no seu crescente crescimento populacional acompanhado de um alto índice de delinquência juvenil e de adultos também.

Novo: esta parte do bairro é mais proeminente e é habitado intensamente pela classe média. Tem muitas casas de lazer e é muito distanciado da cidade, tornando rara a presença de estranhos no interior.

Pedreira: é um bairro crescente, seus babitantes fazem parte de uma classe social meio-baixa e também classe média. As casas são construídas de tijolo de barro queimado. Tem uma região muito distanciada denominada por Paviterra em que residem muitos habitantes recentemente provenientes dos outros municípios. Neste bairro, está situada a esquadra central do Uíge.

Piscina: encontra-se na extensão do Kandombe Velho e da Pedreira. É um pequeno bairro dividido em várias zonas e que são denominadas pelos próprios moradores. É habitado por uma classe baixa e com uma cultura típica de alguns municípios como Negage, Sanza, Buengas, Bungo e Alto-cauale.

Kilamba Kiaxi: um pedaço de terra suburbano e habitado pela classe baixa e muitas vezes confundido com o Piscina, Popular ou Kandombe. Tem uma cultura fundida destes três bairros citados.

Oeste[editar | editar código-fonte]

Paco e Bens: é um bairro recente que encontra-se em constante crescimento. É onde está o Aeroporto ' Manuel Quarta Punza. Habitado de forma proporcionalmente directa pela classe média e baixa.

Ana Paula: um pequeno lote organizado de casas urbanizadas e que parece um condomínio habitado pela classe alta e média. Mas ao seu redor cresce uma classe média e baixa.

Condo e Bens: é um bairro a ser construído recentemente resultado das ocupações de terrenos autorizadas pela Administração Municipal. Mas cresce de forma desorganizada e desurbanizada, onde está a Universidade Kimpa Vita.

Centro da cidade e periferia[editar | editar código-fonte]

O Centro da Cidade: é uma extensão de terra de cerca 6 quilómetros ao quadrado. É o centro financeiro da cidade com uma rede de bancos comerciais e de investimentos. É também a sede do Governo Provincial do Uíge, frente ao Largo do Governo em que o torno dele estão o Órgão de Justiça Militar, Palácio dos Ministérios, Correios de Angola, Direcções Provincial das Finanças, Agricultura, Geologia e Minas e outros.

Nele, estão os principais hotéis, hospedarias, edifícios residéncias, escritórios, lojas e supermercados. É a única parte da cidade em que verifica-se uma Urbanização mais bem cuidada. A cidade tem pouco saneamento e a energia é regular mas com cortes constantes.

Economia[editar | editar código-fonte]

Não existem dados oficiais divulgados sobre o seu desenvolvimento económico. No entanto, é possível verificar sua pouca produtividade industrial e agrícola.

Mas pode-se verificar que nas classes mais baixas, cerca 90% da população uigense sobrevive por cerca de 2 dólares estadunidenses por dia. Com a inflação actual, esta situação tende a piorar visto que os preços dos bens flutuam todos os dias e, às vezes, mesmo em horas do mesmo dia.

Comércio[editar | editar código-fonte]

Os principais pontos de comércio são os mercados informais da féira, no Sudeste da Cidade. Mercados que garantem o sustento de milhares de famílias da cidade, caracterizado pelo comércio a retalho e de consumo final. A presença de cidadãos mauritanianos no comércio de bens de consumo final, é visível em todos os bairros da cidade. O comércio é alimentado pela cidade de Luanda.

Educação[editar | editar código-fonte]

No campo educacional, Uige conta com várias escolas primárias, secundárias e do ensino médio. São mais conhecidas as escolas primárias, como: Fantsagre (escola n°1), escola n°68, escola n°107, escola n°20, 11 de Novembro, 17 de setembro e a escola Engenheiro José Eduardo dos Santos.

Ensino médio: das escolas do ensino médio, é mais conhecida no Uíge como a Escola de Formação de Professores; situada no centro da cidade, que forma futuros Professores para as áreas de matemática e física, biologia, química, geografia, história, magistério primário e ensino da Língua Inglesa. Cursos que se podem dar continuidade no ensino superior pelo Instituto Superior de ciências da educação; situado na rua do café. O Instituto médio de administração e gestão do Uíge (Instituto médio Politécnico) e a escola do 2 ciclo do ensino secundário, estão divididas em vários núcleos espalhados pelos bairros periféricos e têm servido para a formação de quadros nesta cidade.

Quanto ao ensino superior, encontra-se no extremo Oeste, cerca de 8 quilômetros da cidade, que é a Universidade Kimpa Vita (nome dado em homenagem à profetisa negra Mama Kimpa Vita). Nesta Universidade, há uma escola superior politécnica do Uíge com os cursos de engenharia, informática, agrária, enfermagem, contabilidade e gestão.


Referências

  1. http://www.citypopulation.de/php/angola-admin.php?adm2id=0301
  2. «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Cidade de Carmona". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 2014-11-28. 
  3. Uíge, simbólicamente como Terras dos Bagos vermelho.
  4. Instituto de Investigação Científica de Angola, Luanda e Granado, António Coxito (1949
  5. Dicionário Corográfico Comercial de Angola, edição do Autor, Luanda.
  6. Ver Milheiros, Mário (1972) – Índice Histórico-Corográfico de Angola,
  7. O Kongo Português foi organizado por Decreto de 31 de maio de 1887.
  8. 9-CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA DA PROVÍNCIA ANTES DA INDEPENDÊNCIA NACIONAL[1]
  9. Cidade do Uíge,1970
  10. Migrações Bantus em diversas partes de África

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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