Uíge
Uíge
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| Localidade de Angola (Cidade e Município) | |||
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| Dados gerais | |||
| Fundada em | 6 de abril de 1917 (108 anos) | ||
| Gentílico | uigeense | ||
| Província | Uíge | ||
| Características geográficas | |||
| Área | 2 500 km² | ||
| População | 581 835[1] hab. (2018) | ||
| Localização de Uíge em Angola | |||
| Dados adicionais | |||
| Sítio | [[1]] | ||
| Projecto Angola • Portal de Angola | |||
Uíge é uma cidade e município, capital da província do Uíge.[2] É a localidade mais populosa da província, o centro econômico regional, além de ser a melhor dotada de infraestruturas.
Segundo as projeções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população de 581 835 habitantes e área territorial de 2 500 km², sendo o município mais populoso da província.[1]
Etimologia
[editar | editar código]O nome do município deriva da primitiva localidade do Uíge, onde em 1917, oficialmente a 1 de julho, foi fundado um posto militar, de modo a fomentar o assentamento populacional na região, por ordem do capitão-mor do Bembe, Manuel Joaquim Pereira , que viria a ser a sede da circunscrição do Bembe a partir de 1923 e posteriormente sede do concelho do mesmo nome.[3]
Há várias explicações para o nome Uíge, que comporta também as grafias Uíje (língua portuguesa arcaica) e Wizi (língua congo), onde a principal vertente diz vir de uma expressão da língua congo "wizidi", que significa "chegada", em alusão aos primeiros portugueses que se fixaram na região. Outra vertente correlaciona o nome ao rio Uíge.[3]
Na época colonial, a cidade detinha o nome de "Carmona", dado em 1955 como homenagem ao ditador do Estado Novo Português Óscar Carmona, falecido aos 18 de abril de 1951 A cidade manteve este nome até à independência de Angola em 1975. Nessa altura, o nome "Carmona" foi substituído por "Uíge", seu nome inicial.[4]
História
[editar | editar código]Não há registros históricos de aldeamentos no local onde atualmente encontra-se a cidade do Uíge antes da expedição lusitana feita pelo alferes Júlio Tomáz Berberan,[5] entre 1916 e 1917. O registro existe a partir da própria expedição, que encontrou um povoado na área.[3]
Período colonial
[editar | editar código]A iniciativa de formação de uma localidade na região da cidade do Uíge partiu do governador colonial Massano de Amorim. O governador comissionou, em 1916, o alferes Tomás Berberan a ir ao soba Banzo, do povoado do Candombe (atualmente bairro do Candombe Velho), com o intuito de solicitar formalmente a instalação de um posto militar ali. O soba Banzo achou boa a proposta, visto a promessa de aumento do comércio na área, autorizando a construção de um posto militar avançado.[3]
Tomás Berberan procurou informar o parecer favorável do soba ao governador Massano de Amorim, que por determinação da portaria nº 60, de 6 de abril de 1917 formalizou a construção do posto militar local onde se encontrava o antigo povoado do Candombe e hoje é a cidade do Uíge.[3] Em 1923, o posto passou a sede da circunscrição e, mais tarde, ao de conselho do Bembe.
Em 1946 o governo colonial decide transferir a capital do distrito do Congo (atual província do Uíge) da cidade de Maquela do Zombo para a ainda denominada vila do Uíge.[6]
Em 1955, a até então vila do Uíge passou a designar-se vila Marechal Carmona, em homenagem ao ditador do Estado Novo Português Óscar Carmona, e; em 1955 é finalmente elevada à categoria de cidade, mais apropriada a sedes de distritos.[7]
A 30 de maio de 1962 a cidade de Carmona foi feita Comendadora da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (ComTE).[8]
Período das guerras
[editar | editar código]Entre as décadas de 1950 e 1970, devido à grande riqueza que o café proporcionou, Uíge era uma cidade com muitos equipamento públicos que outras cidades não dispunham. Tinha um aeroporto, um aeroclube, uma piscina, um colégio, uma escola técnica, uma agência do Banco de Angola, a Rádio Clube do Uíge, o Grande Hotel do Uíge, o Clube Recreativo do Uíge, um Hospital e todos os serviços públicos. No entanto, havia uma clara segregação e desigualdade de acesso, com as populações brancas sendo as que tinham condições e recursos para utilizar tais infraestruturas, com as populações negras ficando segregadas às periferias empobrecidas.[9]
De 1961 até o ano de 1976, com a ascenção do nacionalismo em função das enormes disparidades socieconômicas locais, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) disputavam o controle das redondezas cidade com as tropas portuguesas, com a FNLA conseguindo mais sucesso nos primeiros anos, justamente durante os ataques ao norte de Angola em 1961, sem, contudo, tomar efetivamente a cidade.[10] Portugal conseguiu retomar e garantir a região circundante de Uíge graças à sua rede de bases militares e a geografia desafiadora da província.[10] Em função da desproporcionalidade dos ataques da FNLA em 1961, e da forte presença militar portuguesa, a partir desta data o MPLA manteve um forte apelo de mobilização política-popular entre as populações negras da cidade, no intuito de compensar sua dificuldade de operar militarmente na região.[10]
A iminência do Acordo do Alvor fez os movimentos partirem para guerra total, fazendo com que ocorressem embates fratricidas, o início da Guerra Civil Angolana (1975-2002).[11] Em fevereiro de 1975, com extenso apoio da República do Zaire, Uíge caiu sob domínio da FNLA.[11] A FNLA e as tropas estrangeiras foram expulsas pelas tropas do novo Estado angolano no final de 1975, com a cidade permenecendo sob relativa calmaria durante o final da década de 1970 e durante toda a de 1980.[11] A conquista pelo Estado angolano também permitiu a cidade recuperar o nome de Uíge, e livrar-se do nome colonial.[7][12]
O relaxamento militar para a realização das eleições de 1992 foi aproveitado pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) para tomar Uíge, com a localidade sendo uma das mais castigadas pelas ações unitenses, tendo suas casas destruídas e suas infraestruturas e economia seriamente abaladas desde então.[13] Enormes batalhas aconteceram entre 1993 e 1994, com o governo angolano conseguindo retomar a cidade.[14]
Pós-guerras
[editar | editar código]A reforma administrativa-territorial de 2024 reorganizou o município do Uíge, criando as vilas-comunas de Luanga, Casseche e Cancungo.[2]
Geografia
[editar | editar código]Demografia
[editar | editar código]A população do município do Uíge é composta por uma fração etnolinguística de relativa maioria de congos, em especial de subgrupos zombos. A despeito dessa relativa maioria de congos-zombos, existem populações de ambundos, chócues, ovimbundos, além de estrangeiros quinxassa-congoleses.[15] Por outro lado, os casamentos interculturais compõem uma massa grande de miscigenados angolanos.
Subdivisões
[editar | editar código]O município é constituído pela comuna-sede, equivalente à cidade do Uíge, e ainda pelas comunas de Luanga, Casseche e Cancungo.[2] Já a cidade do Uíge está dividia em muitos bairros; esses bairros, por sua vez, são organizados em zonas, a saber:
- Zona Norte
Composto principalmente pelos bairros de Paco e Bens, Mucondo, Papelão, Bem-Vindo e Gai. Nesta zona estão o Quartel General da Brigada,[16] e o centro de processamento e distribuição de gás natural da cidade.
- Zona Sul
Composto pelos bairros de Quindenuco, Quiôngua, Capesu e Gigi. Abriga o SIAC e um o projecto urbanístico de Catapa.
- Zona Centro-Leste
É a área de povoamento mais antiga da urbe, pois ali localiza-se o bairro do Candombe Velho (ou Cidade Alta), além dos bairros do Candombe Novo, Pedreira, Paviterra, Piscina, Quilamba Quiaxi, Bemba-Gango e Popular. Nesta zona está situada a Esquadra Central do Uíge.
- Zona Oeste
É onde encontram-se os bairros Paco-Aeroporto, Ana Paula, Condo e Bens, Centralidade do Quilomoso, além do próprio bairro do Centro. Neste último bairro estão o centro financeiro, a sede do Governo Provincial do Uíge, a Justiça Militar, o Palácio dos Ministérios, os Correios de Angola, além das Direcções Provinciais das Finanças, Agricultura, Geologia e Minas e outros.
Economia
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Não existem dados oficiais e indicadores estatísticos divulgados sobre o produto interno bruto da municipalidade, nem mesmo de padrões de participação de setores econômicos, ou ainda dados sobre desigualdade e desenvolvimento socioeconômico.
O município ainda registra grandes produções agrícolas e pecuárias, de maneira relevante no café, no cacau e na mandioca, e; na criação de gado e aves, para corte, leite e ovos.
Já o setor industrial é vocacionado para a atividade agroindustrial, de processamento de carnes, leite, couro e ovos, além de beneficiamento de alimentos secos, bebidas e construção civil.
O comércio enquadra-se nas atividades formais, onde vê-se os mercados, lojas e centros de compras, competindo com um imenso comércio informal, realizado nas ruas e mercados populares. Mesmo com essa característica, o município uigeense é, de longe, o maior centro atacadista da província.
Nos serviços, o município do Uíge dispõe de grande oferta em matéria financeira, administrativa, além de especializados como entretenimento, saúde e educação.
Infraestrutura
[editar | editar código]Abastecimento de água
[editar | editar código]O abastecimento de água potável na cidade é assegurado pela Empresa de Águas e Saneamento do Uíge (EASU-EP), que sustenta o sistema por captações subterrâneas e do rio Loé,[17] sendo a água bombeada por eletrobombas para os reservatórios.[17]
Comunicações
[editar | editar código]Do ponto de vista de comunicação, os serviços disponíveis são os telefónicos — telefonia fixa e móvel — ofertados pelas operadoras Angola Telecom, Movicel e Unitel;[18] serviços de rádio com frequência da Rádio Uíge (retransmissora da Rádio Nacional de Angola)[19] e da Rádio Ecclesia;[20] televisivo, com repetidores da Televisão Pública de Angola e da TV Zimbo;[19] Correios de Angola, com serviços de correio e telégrafo,[19] e; serviço de internet disponível pelas operadoras Multitel e ZAP.[21] Nas mídias impressas, ainda há o tradicional Jornal de Angola e o jornal regional Nkanda.[22][23]
Educação
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No campo educacional, Uíge sedia as estruturas da Universidade Kimpa Vita, e do Instituto Superior de Ciências da Educação do Uíge, que oferta cursos de licenciatura e pós-graduação aos habitantes da cidade.[24]
Energia eléctrica
[editar | editar código]O fornecimento de energia eléctrica na cidade é garantido pelas línhas de transmissão de alta e média tensão da Rede Nacional de Transporte de Electricidade (RNT-EP), que disponibiliza energia da Central Hidroelétrica de Capanda para o Uíge.[25] A eletricidade é distribuída a nível residencial e comercial pela Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE).[25]
Saúde
[editar | editar código]No âmbito da saúde, a cidade dispõe dos centros de referência Hospital Geral-Provincial do Uíge[26] e Hospital Municipal Ana Paula dos Santos, além de diversas clínicas e centros de saúde.[27]
Segurança
[editar | editar código]O sistema de segurança pública do Uíge é garantido por um batalhão da Polícia Militar das Forças Armadas Angolanas,[28] por um destacamento permanente da Polícia Nacional,[29] por uma delegacia de polícia do Serviço de Investigação Criminal[30] e por um quartel do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros.[31]
Embora não tenha papel de força de segurança pública convencional, na cidade está a sede da Brigada de Engenharia e Construção (BECON) do Exército Angolano.[32]
Transportes
[editar | editar código]Por meio da rodovia EN-220 Uíge tem acesso às localidades de Songo, ao norte, e; Negage, ao sudeste. Outra rodovia é a EN-120, que dá acesso ao Quitexe, ao sul.[33]
A cidade também é servida pelo Aeroporto Manuel Quarta Mpunza, com oferta reativa de voos.[34]
Cultura e lazer
[editar | editar código]O Uíge tem duas festividades católicas de grande relevo, sendo a Procissão de São Francisco de Assis[35] e a Procissão do Corpo e Sangue de Cristo.[36] Ambas as manifestações religiosas são capitaneadas pela Diocese Católica do Uíge. Há, ainda, a Diocese Anglicana do Cristo Rei do Uíge.[37]
A principal prática esportiva da cidade é o futebol, tanto que duas equipas locais jogam nos campeonatos nacionais, a saber: Agremiação Desportiva Stad'Uíge e Santa Rita de Cássia Futebol Clube.[38]
Referências
- ↑ a b Aurelio Schmitt (3 de fevereiro de 2018). «Município de Angola: Censo 2014 e Estimativa de 2018». Revista Conexão Emancipacionista
- ↑ a b c «Lei n.° 14/24 de 5 de Setembro» (PDF). Imprensa Nacional de Angola. Diário da República (171): 9800–10505. 5 de setembro de 2024. Consultado em 29 de dezembro de 2024
- ↑ a b c d e Jaques Mpova Nzuze Tomás (2015). Harmonização gráfica da toponímia da província do Uíje. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa
- ↑ «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Cidade de Carmona". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 28 de novembro de 2014
- ↑ Armando Carneiro. «Honra e glória ao fundador do Uíge: Júlio Thomáz Berberan». Consultado em 14 de julho de 2020
- ↑ Carlos Rodolfo Pinto (Julho de 2011). «Pobreza no meio rural em Angola: contribuição para a sua caracterização no município do Negage». Luanda: Universidade Católica de Angola. Revista CEIC - Centro de Estudos e Investigação Científica
- ↑ a b Governo da Província do Uíge (1996). Caracterização da província do Uíge (PDF). [S.l.]: Governo de Angola. Cópia arquivada (PDF) em 5 de dezembro de 2020
- ↑ «Cidadãos Nacionais Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Cidade de Carmona". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 30 de dezembro de 2020
- ↑ Relatório sobre a Cidade do Uíje. [S.l.]: Governo do Distrito do Uíje. 1970
- ↑ a b c José Freire Antunes (1995). A Guerra de África (1961-1974). [S.l.]: Círculo de Leitores. p. 17, 22, 23 e 26
- ↑ a b c Stephen Weigert (24 de outubro de 2011). Angola: A Modern Military History, 1961-2002 2011th ed. [S.l.]: Palgrave Macmillan. p. 283
- ↑ Jose Vieira. Portugal na encrucillada colonial: unha ollada histórica (I). Nueva Revolución. 2025.
- ↑ «Angolan Civil War - 1994». Human Rights Watch reports. 1994
- ↑ Unita acusa ataques e rejeita acordo. Folha de S. Paulo. 18 de novembro de 1994.
- ↑ «Migrações Bantus». Infopédia. Consultado em 30 de julho de 2025
- ↑ «Chefe do Estado Maior General das FAA avalia prontidão da tropa na Região Militar Norte». Secretaria do Conselho de Ministros. 11 de junho de 2025
- ↑ a b «Relatório e Contas - Exercício findo em 31 de dezembro de 2020» (PDF). Empresa de Águas e Saneamento do Uíge. 2023
- ↑ «Mapa de cobertura 3G / 4G / 5G da UE - Uige, Uíge, Angola». nPerf.com. 2025
- ↑ a b c «Rádio Uíge». Rádio Nacional de Angola. 2025
- ↑ «Jornalistas dos órgãos privados no Uíge acusam autoridades de os marginalizar». VOA Português. 28 de outubro de 2011
- ↑ «Multitel: aposta em tecnologia de ponta leva qualidade e segurança ao mercado». Ver Angola. 13 de setembro de 2019
- ↑ Xavier António (26 de junho de 2021). «Edições Novembro lança hoje Jornal "Nkanda" em Mbanza Congo». Jornal de Angola
- ↑ Victor Mayala (28 de junho de 2021). «"Nkanda" ultrapassa expectativas». Jornal de Angola
- ↑ «Lista das Instituições de Ensino Superior Públicas e Privadas» (PDF). Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação. 13 de dezembro de 2022
- ↑ a b «Projecto de electrificação da província do Uíge». Ossi-Yeto. 2022
- ↑ «Sobre o HGU». Hospital Geral do Uíge. 2025
- ↑ «Estágios profissionalizantes na área Social ajudam jovens estudantes». Unicef. 25 de janeiro de 2022
- ↑ Alfredo Luindula António (1 de julho de 2013). A Polícia Militar das Forças Armadas Angolanas: Criação, Implementação e Emprego (PDF). [S.l.]: Academia Militar - Direção de Ensino
- ↑ «Comandos Provinciais». Portal da Polícia Nacional de Angola. 2020
- ↑ «Contactos». Serviço de Investigação Criminal. 2025
- ↑ «Novo Comandante Provincial Adjunto para Protecção Civil no Uíge». Ministério do Interior. 2022
- ↑ José Mendonça da Luz; João Matias (2013). «As Forças Armadas dos PALOP - Forças Armadas angolanas: natureza, contingentes e estruturas» (PDF). Janus
- ↑ «Estudo sobre o estado das rodovias do Uíge». República de Angola - Ministério dos Transportes. 2018
- ↑ «Presidente da República inaugura aeroporto Manuel Quarta Punza». Mundamba. 29 de maio de 2014
- ↑ «Uíge: Procissão com imagem marca festividades de S. Francisco de Assis». Portal Angop. 8 de outubro de 2016
- ↑ «Uíge: Procissão marca solenidade do Corpo e Sangue de Cristo». Portal Angop. 7 de junho de 2015
- ↑ «Anglican Communion: Member Church». Anglican Communion Website (em inglês). Consultado em 30 de março de 2025
- ↑ «Stad'Uíge pode disputar Liga Nacional». Jornal dos Desportos. 10 de janeiro de 2015
