Anais (Tácito)

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Anais (em latim: Annales) é o título de uma obra histórica escrita por Tácito que relata a vida de quatro imperadores, os que sucederam a César Augusto. As partes da obra que chegaram até a atualidade tratam de grande parte dos governos de Tibério e de Nero.

Provavelmente o título Annales não fosse o original dado por Tácito à obra, mas derive do fato de ele escrever a obra tratando a história de ano em ano. O título original talvez fosse Ab excessu divi Augusti ("Desde a morte do divino Augusto").

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

Os Anais foram a obra final de Tácito. Escreveu ao menos 16 livros, mas os livros 7-10 perderam-se, bem como parte dos livros 5, 6, 11 e 16. O livro 6 acaba com a morte de Tibério e os livros do 7 ao 12 cobriam presumivelmente os governos de Calígula e de Cláudio. Os demais livros tratam do governo de Nero, provavelmente até a sua morte em junho de 68, ou até final desse ano, para depois se juntar às Historiae. A segunda parte do livro 16 perdeu-se (termina narrando os eventos de 66)[1] . Não se sabe se Tácito completou a obra ou decidiu terminá-la antes de outros trabalhos que planejasse escrever; faleceu antes de poder trabalhar nas histórias de Nerva e Trajano e do período de Augusto e os começos do império, que havia prometido escrever.

Annales 15.44, onde Tácito menciona a condenação de Jesus sob Pôncio Pilatos.

Assim como já tinha escrito nas Historiae, Tácito sustém a sua tese em relação à necessidade do principado. Se por um lado elogia Augusto por ter garantido a paz no estado romano após anos de guerra civil, por outro amostra as desvantagens da vida sob o domínio dos Césares. Da história do Império Romano forma parte o ocaso definitivo da liberdade política da aristocracia senatorial, que Tácito via moralmente decaída, corrupta e servil com os desejos do soberano. Ainda nesta obra, como já sustivera em Agrícola, Tácito opõe-se a que elijam um inútil martírio através do suicídio[2] . Ao descrever o suicídio de Petrônio, Tácito sublinha deliberadamente o irônico câmbio dos modelos filosóficos realizado por este homem.

Contudo, contra este tétrico contexto, uma parte da classe política continuou exercitando honestamente o seu próprio poder sobre as províncias e guiando o exército com rectidão. A historiografia trágica, cheia de eventos dramáticos, tem um peso importante nos Annales. Tácito usa os componentes trágicos da história para penetrar nos ânimos das personagens e iluminar as suas paixões e ambiguidades. As paixões dominantes nas personagens são as políticas (exceto, talvez, no caso de Nero). Todas as classes sociais, sem exceções, têm estes defeitos: ambição, desejo de poder e de prestígio pessoal, e muitas vezes inveja, hipocrisia e presunção. Todos os demais sentimentos, exceto a ambição, vanidade e avarícia, têm uma importância secundária[3] .

Nos Anais, Tácito desenvolveu ulteriormente o estilo de descrição que tinha usado nas Historiae. Talvez o retrato melhor que faz seja o de Tibério, feito de maneira indireta, emergem progressivamente no curso da narração, com observações e comentários. O retrato moral tem a precedência sobre o físico; há também retratos paradoxais.[4] O mais significativo destes é o de Petrônio, cuja fascinação está nas suas contradições. A debilidade da sua vida está em oposição com a energia e a competência que demonstrou nos deveres públicos. Petrônio afrontou a morte como um último prazer, dando contemporaneamente prova de autocontrole, coragem e firmeza. Opôs-se ao uso estoico do suicídio teatral, tanto que falava com os amigos enquanto morria, de argumentos fúteis. Tácito não faz dele um modelo a seguir e assim sugestiona implicitamente que a sua grandeza de ânimo foi mais sólida que a mostrada por tantos "mártires" estoicos[5] .

Estilo[editar | editar código-fonte]

Embora seja uma simplificação, é correto reconhecer que o estilo de Tácito nos Annales parte das normas gramaticais e de composição dos autores da República Tardia, primeiro entre todos Cícero. Descrito como peregrino, arcaico e solene, Tácito atinge o seu estilo pessoal através de raras embora não únicas formas gramaticais, elipses frequentes (especialmente das formas auxiliares do verbo esse), circunlocuções criativas e dições que se estendem até os limites do léxico latino. Em comparação com as Historiae, os Annales são menos fluidos, muito mais concisos e severos. Há até mesmo uma predileção maior pelas incongruências. As formas verbais pouco harmônicas refletem os eventos discordantes que narram e a ambiguidade das personagens que descrevem. Há muitas metáforas "violentas" e usos audazes da personificação. O estilo poético, especialmente o de Virgílio, é usado com frequência. Por exemplo, a descrição da expedição de Germânico ao lugar da Batalha da floresta de Teotoburgo na procura dos restos das legiões destruídas de Públio Quintílio Varo recalca o estilo usado por Virgílio na descrição do descenso de Eneias ao mundo ultraterreno.

Contudo, o estilo muda. Do livro 13 em diante, Tácito usa um estilo mais tradicional, mais próximo dos cânones do estilo clássico. Sua prosa torna-se mais rica e elevada, menos concisa, menos áspera e insinuante. Ao escolher entre sinônimos, Tácito prefere o uso de expressões normais e pouco afetadas. Provavelmente o governo de Nero seja tratado com menos solenidade porque cronologicamente é mais próximo do tempo da redação da obra, enquanto a idade de Tibério seja considerada como mais próxima à velha República. A falta de pormenores que às vezes emergem nos livros 15 e 16 induziu alguns a suster que as versões que chegaram à atualidade não fossem a versão definitiva, mas um rascunho pendente de revisão.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ARICI, AZELIA, (ed). Annali di Tacito, UTET, Turim 1983, ISBN 88-02-02665-3
  • MARQUES, J. B. 2012. Públio (Gaio) Cornélio Tácito. In: Parada, Maurício (Org.). Os Historiadores: Clássicos da História. Rio de Janeiro: PUC-Rio/Vozes, v. 1, p. 88-106. ISBN 978-85-326-4284-4
  • MELLOR, R. 2011. Tacitus' Annals. Oxford: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-515193-0
  • WALKER, B. 1952. The Annals of Tacitus: A Study in the Writing of History. Manchester. ISBN 978-0-71-900061-4

Referências

  1. JOLY, Fabio Duarte. 2004. Tácito e a metáfora da escravidão. Sâo Paulo: Edusp, p. 44.
  2. Tac. Agr., 42.
  3. Santoro L'oir, F. 2006. Tragedy, Rhetoric, and the Historiography of Tacitus' Annals. Ann Arbor, Mich.
  4. CAMPOS, Rafael da Costa. 2010.A caracterização de Tibério César Augusto como personagem política nos Anais de Tácito. Mare Nostrum, v. 01, p. 11-25.
  5. Tac. Ann., XVI, 18-19.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em espanhol, cujo título é «Anales (Tácito)»., e por sua vez,
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em italiano, cujo título é «Annales (Tacito)».

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • CORNÉLIO TÁCITO, Anales, ed. Ch.D. Fisher, Oxford, Clarendon Press, 1906.
Annales The Latin Library (comprovado 17-05-2009). (em latim)
Annales .- Perseus Project (comprovado 17-05-2009). (em inglês) (em latim)