Casa da Sabedoria

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Manuscrito da época do Califado Abássida.

A Casa da Sabedoria ou Casa do saber (em árabe: بيت الحكمة‎; transl.: Bayt al-Hikmah) foi uma biblioteca e centro de traduções estabelecido à época do Califado Abássida, em Bagdá, no Iraque.[1] Foi uma instituição chave no "Movimento de das traduções", tendo sido considerada como o maior centro intelectual durante a Idade de Ouro do Islã.

A Casa da sabedoria foi fundada pelo califa Harun al-Rashid, que culminou no seu filho Mamun, que reinou durante 813-833 e ao que lhe é acreditada a instituição. A Mamun também lhe é adjudicado o fato de ter atraído muitos eruditos conhecidos para compartir informação, ideias e cultura à Casa da sabedoria baseada em Bagdá entre os séculos IX e XIII; vários dos mestres muçulmanos mais eruditos fizeram parte deste importante centro educacional. Visavam traduzir livros do persa para o árabe, além de preservar os livros existentes.[2]

Durante o reino de Mamun, foram estabelecidos observatórios, e a Casa tornou-se o centro de estudo indiscutido das humanidades e das ciências no Islão medieval, incluindo matemáticas, astronomia, medicina, alquimia e química, zoologia e geografia e cartografia. Baseados em textos persas, indianos e gregos, incluindo Pitágoras, Platão, Aristóteles, Hipócrates, Euclides, Plotino, Galeno, Sushruta, Charaka, Aryabhata e Brahmagupta, os estudiosos acumularam uma grande coleção de saber mundial, e desenvolveram sobre essas bases as suas próprias descobertas. Bagdá era conhecida como a cidade mais rica do mundo e centro de desenvolvimento intelectual do momento, tinha uma população de mais de um milhão de habitantes, a mais povoada da época.[3]

História[editar | editar código-fonte]

Fundação e origens[editar | editar código-fonte]

Sob o Califado Abássida muitos trabalhos gregos, chineses e de outras línguas como o sânscrito foram traduzidos para o árabe. Foram construídas grandes bibliotecas, e os intelectuais perseguidos pelos imperadores bizantinos foram acolhidos.[4] Também se traduziram trabalhos na Academia de Gundishapur, durante a Conquista muçulmana da Pérsia.

Em 750, a dinastia abássida substituiu os Omíadas como dinastia governante do império islâmico e, em 762, o califa Al-Mansur (que reinou durante 754-775) construiu Bagdá e tornou-a a capital (a anterior capital fora Damasco). A dinastia abássida tinha fortes traços persas,[4] e adotaram muitas práticas do Império Sassânida -entre elas, o de traduzir trabalhos estrangeiros, exceto que agora os trabalhos eram traduzidos para o árabe. Para este fim, Al-Mansur fundou um palácio-biblioteca, modelado segundo a Biblioteca Imperial Sassánida.

O conceito de "catálogo de biblioteca" foi introduzido na Casa da sabedoria e em outras bibliotecas islâmicas medievais, nas quais os livros se organizavam por gêneros e categorias específicas.[5] Nesta academia, tradutores, cientistas, escribas, autores, homens de letras e escritores costumavam reunir-se cada dia a fim de traduzir, ler, escrever, debater e dialogar. Muitos manuscritos e livros sobre vários assuntos científicos e em diversos idiomas foram traduzidos na Casa da sabedoria.

As atividades da biblioteca eram patrocinadas por uma grande quantidade de papelarias, que se duplicaram em livrarias, que chegaram a vender milhares de livros por dia. Esta indústria foi possível graças à abundância de papel (warraga).

Período de Al-Ma'mun[editar | editar código-fonte]

Sob a proteção do califa Mamun (reinou entre 813-833), a Casa da sabedoria assumiu novas funções relacionadas às matemáticas e à astrologia. O foco de interesse mudou dos textos persas para os gregos.

Sábios notáveis pertencentes a esta época foram o poeta e astrólogo Sahl ibn Haroun, al-Khwarizmi (780–850), os irmãos Banū Mūsā, Sind ibn Ali e al-Kindi (801–873). O erudito cristão Hunayn ibn Ishaq (809–873) foi nomeado pelo califa como responsável pelos trabalhos de tradução. O tradutor mais renomeado foi o sabeu Thabit ibn Qurra (826–901). As traduções realizadas durante este período foram superiores às anteriores.

A Casa da sabedoria floresceu com os sucessores de Mamun, al-Mutasim (reinou durante 833-842) e Al-Wathiq (reinou durante 842-847), mas declinou no reinado de al-Mutawakkil (847-861) que, ao contrário dos seus predecessores, que seguiam a seita Mu'tazili, era seguidor do Islão ortodoxo e visava evitar a expansão da filosofia grega, uma das principais ferramentas da teologia Mu'tazili.

A Casa da sabedoria adquiriu reputação como centro de aprendizagem, se bem que as universidades -no sentido moderno- ainda não existiam, pela qual a transmissão do conhecimento se levava a cabo diretamente entre mestre e aluno. As Maktab[6] desenvolveram-se na cidade por volta do século IX, e no século XI, Nizam al-Mulk fundou a al-Nizamiyya de Bagdá.[7]

Os tradutores mais importantes desse período foram, de acordo com Delisle, [8] os seguintes:

Cquote1.svg Os mais antigos tradutores de textos científicos e filosóficos remontam ao século VIII: Yûhannâ Mâsawaih, Ibn al-Bitrîq e Ibn Jibrîl. No século seguinte, os nomes de al-Hajjâj ibn Matar, Ibn Lûqâ (820-912), Ibn Nâ'ima al-Himsî (c.835) e Ibn Qurra (834-901) figuram de forma preeminente. No século IX, Ishâq ibn Hunayn e Hubaysh al-A'sam, filho e sobrinho de Hunayn ibn Ishâq, respectivamente, trabalharam sob sua supervisão. Mais tarde, Yahyâ ibn 'Adî e Mattâ ibn Yûnis se dedicaram à revisão das traduções anteriores. Cquote2.svg

Destruição pelos mongóis[editar | editar código-fonte]

Assim como as restantes bibliotecas de Bagdá, a Casa da sabedoria foi destruída durante o cerco de Bagdá, em 1258, pelos mongóis. Perto de 400 000 manuscritos foram resgatados por Nasir al-Din al-Tusi antes do cerco,[9] e levados para Maragheh.

Outras casas da sabedoria[editar | editar código-fonte]

Outros lugares também foram chamados de "Casa da Sabedoria":

  • Um instituto de pesquisa em Bagdá chamado Bait al-Hikma.

Referências

  1. Iraq: The 'Abbaside Caliphate, Encyclopædia Britannica
  2. Josef W. Méri, Jere L. Bacharach, Medieval Islamic Civilization: An Encyclopedia, Ed. Routledge, 2006, ISBN 0-415-96690-6, p. 451.
  3. George Modelski, World Cities: –3000 to 2000, Washington DC: FAROS 2003. ISBN 0-9676230-1-4. Ver também Evolutionary World Politics Homepage.
  4. a b Wiet. Baghdad
  5. Micheau, Françoise. Título não preenchido. Favor adicionar. [S.l.: s.n.]. 988–991 pp. em: Harv, Morelon, Rashed. 1996, pp. 985–1007.
  6. Escolas.
  7. Universidade.
  8. pág. 126 de DELISLE, Jean; WOODSWORTH, Judith. Os tradutores na história. Trad. de Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 2003.
  9. George Saliba, 'Islamic science and the making of the European Renaissance', p.243

Ver também[editar | editar código-fonte]