Dhammapada

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O Dhammapada, Darmapada ou Caminho do Dharma (em páli: Dhammapada; em sânscrito: Dharmapada[1] ) é um escrito budista tradicionalmente considerado como tendo sido composto pelo próprio Buda. Está contido no cânon páli Teravada. É o mais conhecido e traduzido texto budista. Compõe-se de máximas em forma de versos agrupados em 423 estrofes[2] . Apesar de sua popularidade, seus méritos literários são motivo de polêmica[3] .

Etimologia[editar | editar código-fonte]

"Darmapada" é a forma aportuguesada de Dharmapada, termo sânscrito que significa "versículos do darma". Dhammapada é a forma páli para o termo[4] .

História[editar | editar código-fonte]

O Dhammapada, do Tipitaka páli, é considerado uma das mais populares obras da literatura teravada[5] . Segundo a tradição, os versos do Dhammapada foram ditados pelo Buda em várias ocasiões.[6] A maior parte dos versos está relacionada a ética.[7] O texto é parte do Khuddaka Nikaya do Sutta Pitaka, embora mais da metade dos versos esteja presente em outra parte do cânon páli.[8] Um quarto ou quinto comentário da era cristã atribuído a Buddhaghosa inclui 305 histórias que dão o contexto das máximas.

A versão em páli do Darmapada foi registrada, pela primeira vez, na forma escrita (até então, era preservada exclusivamente por via oral) entre os anos 88 e 76 a.C., no Ceilão, juntamente com todo o restante do cânone páli[9] . Embora a edição em páli seja a mais conhecida, outras versões também existem:[10]

  • uma versão Dharmaguptaka em gandarês escrita em alfabeto kharosthi[11]
  • secções de uma versão lokottaravada
  • uma versão sammatiya em sânscrito híbrido budista, conhecida como Dharmapada Patna
  • um texto mula-sarvastivada provavelmente relacionado conhecido como Udānavarga[12] em
    • três versões sânscritas
    • uma tradução tibetana, popular no budismo tibetano tradicional
    • quatro trabalhos chineses intitulados Fajiu jing; um destes aparenta ser uma versão expandida da tradução do páli e não foi tradicionalmente muito popular.

Comparando o Darmapada páli, o Darmapada gandarês e o Udanavarga, Brough (2001) nota que os textos têm, em comum, de 330 a 340 versos, 16 títulos de capítulos e uma mesma estrutura subjacente. Ele sugere que os três textos têm um "ancestral comum" e ressalta que não existe evidência de que um dos três textos possa ter sido o "Darmapada primitivo" a partir do qual os outros dois teriam sido escritos.[13]

Organização[editar | editar código-fonte]

O Darmapada páli contém 423 estrofes em 26 capítulos (listados abaixo em português e, em parênteses, em páli).[14] [15]

I. Os versos gêmeos (Yamaka-vaggo) (veja o trecho abaixo)
II. Do merecimento (Appamāda-vaggo)
III. Pensamento (Citta-vaggo)
IV. Flores (Puppha-vaggo)
V. O tolo (Bāla-vaggo)
VI. O sábio (Paṇḍita-vaggo)
VII. O venerável (Arahanta-vaggo)
VIII. Os milhares (Sahassa-vaggo)
IX. Diabólico (Pāpa-vaggo)
X. Punição (Daṇḍa-vaggo) (veja o trecho abaixo)
XI. Idade avançada (Jarā-vaggo)
XII. O eu (Atta-vaggo)
XIII. O mundo (Loka-vaggo)
XIV. O Buda — The Awakened (Buddha-vaggo) (veja o trecho abaixo)
XV. Felicidade(Sukha-vaggo)
XVI. Prazer (Piya-vaggo)
XVII. Raiva (Kodha-vaggo)
XVIII. Impureza (Mala-vaggo)
XIX. O justo (Dhammaṭṭha-vaggo)
XX. O caminho (Magga-vaggo) (veja o trecho abaixo)
XXI. Miscelânea (Pakiṇṇaka-vaggo)
XXII. O curso para baixo (Niraya-vaggo)
XXIII. O elefante (Nāga-vaggo)
XXIV. Sede (Taṇhā-vaggo) (veja o trecho abaixo)
XXV. O mendicante (Bhikkhu-vaggo)
XXVI. O Brāhmana (Brāhmaṇa-vaggo)

Trechos[editar | editar código-fonte]

As seguintes traduções para o português são baseadas em Müller (1881). O texto páli é da edição do Sri Lanka Tripitaka Project.[16]

Capítulo I. Versos Gêmeos (Yamaka-vaggo)[editar | editar código-fonte]

1. Tudo o que nós somos é resultado do que nós pensamos: é baseado em nossos pensamentos, é feito de nossos pensamentos. Se um homem fala ou age com um pensamento malévolo, a dor lhe segue, como a roda segue as patas do boi que puxa a carroça. Manopubbagamā dhammā manoseṭṭhā manomayā
Manasā ce paduṭṭhena bhāsati vā karoti vā
Tato na dukkhamanveti cakka'va vahato pada.
2. Tudo o que nós somos é resultado do que nós pensamos: é baseado nos nossos pensamentos, é feito de nossos pensamentos. Se um homem fala ou age com um pensamento puro, a felicidade lhe segue, como uma sombra que nunca lhe abandona. Manopubbagamā dhammā manoseṭṭhā manomayā
Manasā ce pasannena bhāsati vā karoti vā
Tato na sukhamanveti chāyā'va anapāyinī.
5. Porque o ódio nunca cessa através do ódio: o ódio cessa através do amor, esta é a única regra. Na hi verena verāni sammantīdha kudācana
Averena ca sammanti esa dhammo sanantano.

Capítulo X. Punição (Daṇḍa-vaggo)[editar | editar código-fonte]

131. Aquele que, procurando pela sua própria felicidade, pune ou mata seres que também desejam a felicidade, não irá nunca encontrar felicidade após a morte. Sukhakāmāni bhūtāni yodaṇḍena vihisati
Attano sukhamesāno pecca so na labhate sukha.
132. Aquele que, procurando sua própria felicidade, não pune ou mata seres que também procuram a felicidade, irá encontrar felicidade após a morte. Sukhakāmāni bhūtāni yodaḍena na hisati
Attano sukhamesāno pecca so labhate sukha.
133. Não fale de modo rude com ninguém: aqueles que lhe responderem responderão do mesmo modo. A fala rude é dolorosa, acabará por lhe atingir. Mā'voca pharusa kañci vuttā paivadeyyu ta
Dukkhā hi sārambhakathā paṭidaṇḍā phuseyyu ta.

Capítulo XIV: O Buda (O desperto) (Buddha-vaggo)[editar | editar código-fonte]

183. Não cometer qualquer pecado, fazer o bem e purificar a própria mente: esse é o ensinamento do(s) Desperto(s). Sabbapāpassa akaraṇaṃ kusalassa upasampadā
Sacittapariyodapanaṃ etaṃ buddhāna sāsana.

Capítulo XX: O caminho (Magga-vaggo)[editar | editar código-fonte]

276. Você mesmo precisa fazer um esforço. Os Tathagatas (Budas) são apenas pregadores. Os zelosos que entram no caminho são libertos dos grilhões de Mara. Tumhehi kiccaṃ ātappaṃ akkhātāro tathāgatā
Paṭipannā pamokkhanti jhāyino mārabandhanā.
277. 'Tudo o que é criado perece', aquele que conhece e vê isso se torna passivo diante da dor; esse é o caminho para a pureza. Sabbe sakhārā aniccā'ti yadā paññāya passati
Atha nibbindati dukkhe esa maggo visuddhiyā.
278. 'Tudo o que é criado é aflição e dor', aquele que conhece e vê isso se torna passivo diante da dor; esse é o caminho que conduz à pureza. Sabbe sakhārā dukkhā'ti yadā paññāya passati
Atha nibbindati dukkhe esa maggo visuddhiyā.
279. 'Todas as formas são irreais', aquele que conhece e vê isso se torna passivo diante da dor; esse é o caminho que conduz à pureza. Sabbe dhammā anattā'ti yadā paññāya passati
Atha nibbindati dukkhe esa maggo visuddhiyā.

Capítulo XXIV: Sede (Tahā-vaggo)[editar | editar código-fonte]

343. Os homens, levados pela sede, correm em volta como uma lebre capturada; deixe portanto o mendicante expelir a sede, esforçando-se para atingir a ausência de paixões. Tasiāya purakkhatā pajā parisappanti saso'va bādhito
Tasmā tasiṇaṃ vinodaye bhikkhu ākakhī virāgamattano.
350. Se um homem se deleita em aquietar as dúvidas e, sempre refletindo, investiga aquilo que não é prazeroso (impureza do corpo etc.), certamente removerá, ou melhor, irá cortar os grilhões de Mara. Vitakkupasame ca yo rato asubha bhāvayati sadā sato
Esa kho vyantikāhiti esa checchati mārabandhana.

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Brough, John (2001). The Gandhari Dharmapada. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers Private Limited.
  • Buswell, Robert E. (ed.) (2003). Encyclopedia of Buddhism. MacMillan Reference Books. ISBN 978-0028657189.
  • Cone, Margaret (transcriber) (1989). "Patna Dharmapada" in the Journal of the Pali Text Society (Vol. XIII), pp. 101-217. Oxford: PTS. Retrieved 06-15-2008 from "Ancient Buddhist Texts" at http://www.ancient-buddhist-texts.net/Buddhist-Texts/C5-Patna/index.htm. [On-line text interspersed with Pali parallels compiled by Ānandajoti Bhikkhu (2007).]
  • Geiger, Wilhelm (trans. by Batakrishna Ghosh) (1943, 2004). Pāli Literature and Language. New Delhi: Munshiram Manoharlal Publishers. ISBN 81-215-0716-2.
  • Harvey, Peter (1990, 2007). An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-31333-3.
  • Hinüber, Oskar von (2000). A Handbook of Pāli Literature. Berlin: Walter de Gruyter. ISBN 3-11-016738-7.
  • Müller, F. Max (1881). The Dhammapada (Sacred Books Of The East, Vol. X). Oxford University Press. Retrieved 2008-04-02 from "WikiSource" at http://en.wikisource.org/wiki/Dhammapada_(Muller).
  • Ñāamoli, Bhikkhu (trans.) & Bhikkhu Bodhi (ed.) (2001). The Middle Length Discourses of the Buddha: A Translation of the Majjhima Nikāya. Boston: Wisdom Publications. ISBN 0-86171-072-X.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikisource
O Wikisource contém fontes primárias relacionadas com Dhammapada


Referências

  1. Darmapada: a doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 35
  2. Darmapada: a doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 11
  3. Buddhist Studies Review, 6, 2, 1989, page 153, reprinted in Norman, Collected Papers, volume VI, 1996, Pali Text Society, Bristol, page 156
  4. Darmapada: a doutrina budista em versos. Tradução do páli, introdução e notas de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS: L&PM Editores, 2010. p. 35
  5. Ver, por exemplo, Buswell (2003): "figura entre os mais conhecidos textos budistas" (p. 11); e "um dos mais populares textos com monges budistas e leigos" (p. 627). Harvey (2007), p. 322, escreve: "Sua popularidade é demonstrada pelas inúmeras vezes em que foi traduzido para língua ocidentais"; Brough (2001), p. xvii, escreve: "A coleção de versos éticos pális intitulada Dhammapada é um dos mais conhecidos dentre os primeiros textos budistas."
  6. Episódios pertinentes supostamente envolvendo o Buda histórico são encontrados no comentário (Buddharakkhita & Bodhi, 1985, p. 4). Adicionalmente, um certo número de versos do Dhammapada são idênticos ao texto de outras partes do tipitaka páli que são diretamente atribuídos ao Buda em textos posteriores. Por exemplo, os versos do Dhammapada 3, 5, 6, 328-330 podem ser também encontrados em MN 128 (Ñāamoli & Bodhi, 2001, pp. 1009-1010, 1339 n. 1187).
  7. Harvey (2007), p. 322, linha v.b., refere-se ao Dhammapada como "uma coleção popular de 423 versos piedosos de natureza fundamentalmente ética." De modo similar, o prefácio (p. xvii) de Brough (2001) inicia dizendo: "A coleção de versos éticos pális intitulada "Dhammapada" é um dos mais amplamente conhecidos dos primitivos textos budistas."
  8. Geiger (2004), p. 19, para. 11.1 escreve:
    Mais da metade dos versos pode ser encontrada também em outros textos canônicos. O compilador do Dhammapada, entretanto, certamente não se baseou apenas nesses textos canônicos mas também se utilizou da grande massa de máximas piedosas que formam uma vasta literatura flutuante na Índia.
    Em uma perspectiva similar, Hinüber (2000), p. 45, para. 90 assinala: "O conteúdo do Dhammapada é composto principalmente de máximas, muitas das quais dificilmente tem qualquer relação com o budismo."
  9. Darmapada: a doutrina budista em versos. Tradução de Fernando Cacciatore de Garcia. Porto Alegre, RS. L&PM Editores. 2010. p. 34.
  10. Buddhist Studies review, 6, 2, 1989, página 153, reimpressa in Norman, Collected Papers, volume VI, 1996, Pali Text Society, Bristol, página 156
  11. Brough (2001). Acredita-se que o manuscrito original tenha sido escrito no primeiro ou no segundo século da Era Cristã.
  12. Hinüber (2000), p. 45, para. 89, observa:
    Mais da metade dos versos do Darmapada tem paralelos em coleções correspondentes em outras escolas budistas, frequentemente também em textos não budistas. A inter-relação destas diferentes versões foi obscurecida pela constante contaminação no curso da transmissão do texto. Isto é particularmente verdadeiro no caso de um dos paralelos sânscrito-budistas. O Udānavarga original era um texto correspondente ao Udāna páli.... Adicionando-se versos do Darmapada, ele foi transformado num paralelo do Darmapada em curso na época, o que é um evento raro na evolução da literatura budista.
  13. Brouch (2001), pp. 23-30. Depois de considerar a hipótese de que esses textos poderiam necessitar de um "ancestral comum", Brough (2001), p. 27, conjectura:
    Baseado na evidência dos próprios textos, é muito mais plausível que as escolas, de uma maneira ou outra, tenham herdado, do período anterior aos "ismos" que as separaram, uma tradição definida do texto do Darmapada que viria a ser incluída no cânon, mesmo que os conteúdos desse texto tenham sido flutuantes e mesmo que o conceito mesmo de "cânon" fosse impreciso nesse período inicial. Os diferentes desenvolvimentos e rearranjos do material herdado teriam seguido por linhas similares às quais, nas escolas bramânicas, produziram coleções divergentes porém relacionadas de textos em diferentes tradições yajur-veda.
    Ele então continua:
    ... [Quando] apenas o material comum [é] considerado, uma comparação entre o Darmapada páli, o texto gandarês e o Udanavarga não produz evidência de que um destes tenha condição de reclamar a condição de um "Darmapada primitivo" mais fiel que os outros. Como o contrário aparentemente foi afirmado de tempos em tempos, é desejável dizer com ênfase que o texto páli "não" é o Darmapada primitivo. A afirmação de que ele o é faria a sua relação com os outros textos totalmente incompreensível.
  14. Títulos dos capítulos em português baseados em Müller (1881).
  15. Brough (2001) ordena os capítulos do Darmapada gandarês como segue: I. Brāhmaṇa; II. Bhikṣu; III. Tṛṣṇā; IV. Pāpa; V. Arhant; VI. Mārga; VII. Apramāda; VIII. Citta; IX. Bāla; X. Jarā; XI. Sukha; XII. Sthavira; XIII. Yamaka; XIV. Paṇḍita; XV. Bahuśruta; XVI. Prakīrṇaka (?); XVII. Krodha; XVIII. Pruṣpa; XIX. Sahasra; XX. Śīla (?); XXI. Kṛtya (?); XXII. Nāga, or Aśva (?); XXIII. - XVI. [Lost]. [Os pontos de interrogação entre parênteses são parte dos títulos de Brough.] Cone (1989) ordena os capítulos do Darmapada Patna como segue: 1. Jama; 2. Apramāda; 3. Brāhmaṇa; 4. Bhikṣu; 5. Attha; 6. Śoka; 7. Kalyāṇī; 8. Puṣpa; 9. Tahna; 10. Mala; 11. Bāla; 12. Daṇḍa; 13. Śaraṇa; 14. Khānti; 15. Āsava; 16. Vācā; 17. Ātta; 18. Dadantī; 19. Citta; 20. Māgga; 21. Sahasra; [22. Uraga].
  16. O texto páli foi acessado em 28 de março de 2008 do "Bodhgaya News" (anteriormente, La Trobe U.) em http://www.bodhgayanews.net/tipitaka.php?title=&record=7150 e do "MettaNet - Lanka" em http://www.mettanet.org/tipitaka/2Sutta-Pitaka/5Khuddaka-Nikaya/02Dhammapada/index.html.

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